quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O desvio das penosas


Era sempre na noite de hoje, 30 de novembro, a anteceder o dia 1º de dezembro, que se organizavam as nossas ceias, em Vila Real, nos tempos do liceu.

Os estudantes dividiam-se pelos variados repastos em que se evocava a data, numas festividades que tinham escassas referências à Restauração e, aqui entre nós, tinham tudo de lúdico e muito pouco de patriótico, salvo a cantoria do "Portugueses celebremos / o dia da Restauração...", noutro ponto do programa. Como nunca tive capa-e-batina e o meu comodismo sempre me afastou de comemorações matinais, devo ter perdido sempre a agenda nacional exaltante.

As ceias eram precedidas, dias antes, pela organização do Regadinho (um cortejo com cartazes de crítica social local, sob canto do "Água leva o regadinho...") e tinham lugar na véspera do Sarau académico no Cine-Teatro Avenida, espetáculo de "variedades" para o qual escrevi alguns textos divertidos.

As refeições tinham lugar, em geral, pelas inúmeras tascas da cidade e, invariavelmente, nelas era servida galinha ou frango. A origem "certificada" das aves variava, isto é, tanto podiam ser fornecidas pela própria casa que organizava a refeição como, com bastante mais "cachet", chegavam nas vésperas, de forma discreta, entregues por alguns dos convivas.

A verdade é que a "recolha" desse material - das "penosas" - havia sido feita em expedições noturnas, fruto de assaltos a galinheiros em quintais previamente selecionados, quase sempre na vizinhança conhecida das nossas próprias casas. Não era muito recomendável o cheiro com que se saía dessas aventuras com escassa luz, levadas a cabo na chafurdice dos galinheiros...

Mas o resultado dessas operações especiais, que às vezes provocavam depois sobrolhos carregados nos propretários desapossados das "penosas", desconfiados da juventude que lhe era vizinha, dava um outro "sabor" às ceias. Ainda me recordo de um amigo elogiar a qualidade da carne de uma galinha, que havia sido "desviada", na véspera, sem ele o saber, no quintal dos respetivos pais...

Uma nota final: as ceias acabavam, muitas vezes, com excessos etílicos e recordo bem que foi numa delas que "apanhei" o meu primeiro grande "pifo".

A nossa ceia deste ano (a segunda a que consigo ir, desde que deixei o liceu, há mais de 40 anos), agora dos antigos alunos do liceu, vai ter lugar apenas no dia 2 de dezembro, como forma de poder reunir gente vinda de todo o país. Não espero nela vir a ter galinha no menu, agora que todos já nos convertemos ao vulgar "template" gastronómico de um restaurante de periferia, onde a "bacalhauzada" ou a posta (a fingir de mirandesa) devem ser a ordem do dia.

Por lá irei encontrar, sob a grisalha marca de cabelos escassos, alguns companheiros (agora com as mulheres, porque elas, de há muito, passaram a ir também às ceias) dessas antigas aventuras. Vai ter graça relembrar os "desvios" das "penosas" de outros tempos.  sob a grisalha marca de cabelos escassos, alguns companheiros (agora com as mulheres, porque elas, de há muito, passaram a ir também às ceias) dessas antigas aventuras. Vai ter graça relembrar os "desvios" das "penosas" de outros tempos.    

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Bisalhães


A cadeira chamava-se "Etnografia" e era "dada" no ISCSPU, pelo professor António de Almeida, uma figura algo típica, com vasta obra publicada sobre o tema, a propósito da África colonial portuguesa. Quando lhe propus fazer um trabalho sobre a louça de barro negro, de Bisalhães, perto da minha Vila Real natal, não o vi grandemente entusiasmado. Essa falta de entusiasmo traduziu-se no "13" com que encerrei a cadeira, nessa segunda metade dos anos 60 (do século passado, como agora começa a ser de regra assinalar). Há meses, encontrei o meu pequeno estudo - umas dezenas de páginas com algumas fotografias - e acabei por dar-lhe razão: o trabalho tinha escassa qualidade, estava mal apoiado em bibliografia e, aqui entre nós, era mesmo muito banal. O "13" foi merecido...

Para quem é de Vila Real, as peças de barro negro da aldeia de Bisalhães, a escassos quilómetros da cidade, fazem há muito parte da "paisagem". Durante anos, apenas surgiam na Feira de S. Pedro, em duas qualidades distintas. Os mais baratos eram uns "panelos" em forma de vaso, muito finos, com escassa cozedura, a preços muito baixos (lembro-me deles a "dez tostões"). Compravamo-los para os "trocarmos" pelo ar, em desafiantes jogos que, cedo ou tarde, acabavam em cacos que enchiam o chão da Rua Central ou da Rua Direita. Ao lado, com outro preço, os artesãos de Bisalhães vendiam objetos mais artísticos (de que a "bilha de segredo" era talvez o mais sofisticado), mais úteis (como tachos para irem ao lume) e até curiosas miniaturas de serviços de loiça. Com o fim da festa, a louça desaparecia da cidade e só era visível em exemplares nas montras do Turismo, na Avenida Carvalho Araújo. De há uns anos para cá, algumas barracas de venda permanente da louça ganharam lugar a norte da Almodena. Mas sabia-se que o artesanato de barro preto passava por tempos bem difíceis.

Um dia, o novo presidente do município, Rui Santos, deu-me conta da sua intenção de impulsionar um melhor conhecimento e proteção daquela atividade artística, através de uma candidatura à inscrição do processo de confeção da louça preta de Bisalhães na Lista de Património Cultural Imaterial da Unesco que Necessita de Salvaguarda Urgente. Considerava - e bem! - ser essa a forma de evitar que a atividade fosse desaparecendo, risco muito evidente nos últimos anos, o que destruiria uma tradição artística do maior interesse. Numa reunião realizada com a sua equipa, em Vila Real, verifiquei que o trabalho técnico-científico, mobilizado pela Câmara Municipal, estava já muito avançado. Na minha qualidade cumulativa de vila-realense e de antigo embaixador junto da Unesco, acompanhei depois os contactos feitos no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa. A minha "ajuda" acabou aí. 

Passaram alguns meses. As coisas iam, entretanto, fazendo o seu caminho no âmbito da Unesco, impulsionadas pela respetiva Comissão Nacional e encaminhadas pela nossa missão em Paris. Sabia que o assunto iria hoje à reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunido em Adis-Abeba e que as hipóteses de sucesso eram elevadas. Há algumas horas, rejubilei quando vi a notícia de que a louça de barro negro de Bisalhães havia ganho o estatuto que se ambicionava.

Bisalhães e os seus artesãos estão de parabéns. Vila Real também. E essa vitória tem três nomes: o presidente do município, Rui Santos, a vereadora da Cultura, Eugénia Almeida, e o principal responsável pela organização técnico-científica do dossiê que permitiu esta vitória, João Ribeiro da Silva. Entre várias outras figuras que se revelaram decisivas para este sucesso, um outro nome é de destacar, o de Clara Cabral, cuja competência técnica no âmbito da Comissão Nacional da Unesco sei ter sido um fator fundamental.

Um outro importante trabalho começa agora, com acompanhamento da reconstituição da malha daquela pequena indústria local. A vitória em terras do Preste João é apenas o início do muito que agora aí vem. Mas, agora, a esperança em Bisalhães renasce.

Um "case study"


A Universidade de Genebra não renovou o contrato com Durão Barroso. A Universidade disse que essa renovação não estaria prevista, mas um conjunto de reações ao vínculo de Barroso à Goldman Sachs fazem presumir que terá havido uma motivação extra-académica para essa decisão. Uma dessas reações, e das mais violentas, foi de uma personalidade cuja atitude, estou certo, magoou muito Durão Barroso. Trata-se de Dusan Sidjanski, que havia sido seu professor em Genebra e com quem, ao longo dos anos, manteve uma relação forte. Em 1995, Barroso prefaciou um livro interessante (se bem que pouco premonitório) de Sidjanski, intitulado "O futuro federalista da Europa". 

Confesso que me impressiona  - e procuro entender, como simples exercício de exegese da vida - a forma como Durão Barroso conseguiu, e continua a conseguir, mobilizar contra si um tão amplo espetro de acrimónia e falta de simpatia. Muitos culpam disso a sua personalidade, a sua alegada frieza, uma possível atitude taticista perante a vida, a projeção de uma imagem de quem não acredita em nada, ou só em pouca coisa, deixando-se levar pelo vento dominante, o que lhe faz perder progressivamente o respeito de muitos. Não faço ideia se este "retrato" é real, só sei que ele é hoje, incontestavelmente, um "mal amado" por grande parte do país e que, lá fora, está muito longe de suscitar a menor onda de simpatia. A sua "performance" na Comissão Europeia (dez anos!) foi por muita gente considerada dececionante (incluo-me nessas pessoas) e, já antes, a sua decisão de abandonar o governo para ir assumir essa função não foi compreendida (neste caso, faço parte de quantos consideraram ter sido uma opção correta e potencialmente interessante para o país). Soma-se agora o caso da Goldman Sachs, uma empresa marcada pela "má fama" durante a crise, mas onde, contudo, muitas pessoas com grandes responsabilidades europeias trabalharam, sem que isso tivesse provocado a reação que a entrada de Barroso agora suscitou.

Há qualquer coisa que transforma Durão Barroso num "case study".

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

... com os azeites!


Estar "com os azeites" é sinónimo de estar furioso. Hoje, estou "com os azeites" e estou muito satisfeito.

A Casa do Azeite, que comemora os seus 40 anos como importante instituição representativa do setor, "tendo em conta a relevância da sua (minha) intervenção para o sector do Azeite em Portugal, enquanto Embaixador de Portugal no Brasil, nomeadamente na questão do registo da Marca Nacional naquele mercado, que se revelou de importância crucial para o sector nacional exportador de azeite", vai atribuir-me uma distinção, durante uma cerimónia que hoje terá lugar.

Já saí do Brasil há oito anos, mas fico satisfeito, e grato, por poder notar que alguns ainda se lembram do trabalho que por lá realizei.

Estar "com os azeites", como se vê, pode ser uma coisa bem agradável.

Vila Real


O meu amigo Sérgio Rebelo, que oficia economia lá por Chicago, tem um magnífico blogue sobre a "terrinha" onde acaba de colocar, em inglês, uma referência ao Restaurante Lameirão, em Vila Real, uma das oito maravilhas do mundo (já havia sete...). Não fui eu quem lhe indicou o poiso gastronómico, foi ele quem o descobriu.

Aqui fica o link.

A nova Moagem


Fui hoje "vistoriar" a nova Moagem: a redação do "Diário de Notícias". O pretexto (dela) foi uma conversa com uma amiga, mas o verdadeiro propósito (meu) foi tirar desforço de Ferreira Fernandes. Mas ele ainda não tinha chegado (sorte dele!). É uma angústia diária olhar (nem é preciso abrir, caramba!, porque vem na última página) o DN e ver escrito quase sempre o que eu gostaria de ter escrito e não consigo. Como é o caso de hoje, a propósito de Fidel. Ando, há anos, a ser humilhado pelo Zé Ferreira Fernandes! Com implícita autorização do Paulo Baldaia, pedi à Ana Sousa Dias para me mostrar a janela mais próxima do campo de um conhecido clube de Carnide. Verifiquei, com alívio, que só se vê uma trave de ferro (espero que já liquidada à construtora). Não fiz as contas, mas estou convicto de que a distância do novo DN face a Alvalade XXI é bastante mais curta. É a minha vingança, Zé! Um destes dias, convido-o para um almoço pelo bairro do seu clube, lá por Carnide. Podemos ir ao Miudinho ou à Adega das Gravatas, lugar mais próprio para diplomatas.

Caixa

Detesto a expressão "esta história está mal contada", porque essa é uma atitude que regularmente aduba as teorias da conspiração - eu sou um feroz militante contra o "não é por acaso que..." Desta vez, porém, não consigo deixar de pensar que tem de haver aqui alguma coisa mais do que aquilo que se tem sabido sobre a trapalhada da gestão da Caixa.

Uma coisa me parece mais do que evidente: António Domingues é, a grande distância, o menos culpado. Ou melhor, a sua única culpa foi não ter batido com a porta mais cedo.

A pedido do governo, Domingues negociou com o BCE e com a Comissão Europeia a mais do que necessária recapitalização da empresa, que só foi por estes aceite no pressuposto que a Caixa passaria a ter uma gestão em tudo idêntica ao setor privado, embora com capitais 100% públicos. (Foi uma excelente negociação, até porque não havia outra solução). Sem isso, a recapitalização seria considerada "ajuda de Estado" e não poderia ter lugar, à luz das regras europeias. Quem não perceber isto, não pode começar por entender o que a seguir se passou.

Domingues só aceitou o cargo nesse pressuposto, o que implicava um novo estatuto remuneratório e um conjunto de outras condições, idênticas às que vigoram no setor privado, que lhe permitiriam recrutar, inclusivé no estrangeiro, gestores altamente qualificados. Uma dessas condições era a circunstância das declarações de património serem tratadas como o são no setor financeiro privado (onde existem e são obrigatórias perante os institutos reguladores, mas têm regras de confidencialidade próprias).

Não foi António Domingues - pessoa que aliás não conheço e com quem falei uma única vez, numa ocasião social - que foi à procura de "emprego" na Caixa. Foi o governo que o foi desafiar ao BPI, onde ele tinha um excelente lugar. Domingues não necessitava da linha curricular na Caixa para dourar o seu excelente "record" na banca. Aceitou o lugar, com condições que eram extensíveis aos seus colegas de administração, seguramente porque alguém lhe garantiu que isso era possível, sem ficar sujeito ao estatuto de gestor público (coisa que, estou certo, nunca lhe passou pela cabeça ser-lhe aplicável, porque isso contrariava tudo quanto ele próprio negociara, por instruções do governo, com Frankfurt e Bruxelas). Mas não era possível, afinal. A culpa não é, de todo, dele. Mas, caramba!, terá de ser de alguém e era importante que isso ficasse perfeitamente clarificado diante da opinião pública.

Pode a explicitação de tudo isto redundar muito desagradável para o governo (que eu apoio)? Provavelmente sim, mas quem anda à chuva molha-se. E, se tivessem sido mais competentes, nada disto teria acontecido. Essa é que é essa!

domingo, 27 de novembro de 2016

Paula Rego


Há dias, uma testemunha descreveu-me o que foi o recente divertido encontro em Londres entre o presidente da República e a pintora Paula Rego. A artista tem um estilo pessoal desconcertante, que tive o ensejo de apreciar em diversas ocasiões, quando vivi em Londres e por ali com ela conversei, em algumas circunstâncias. Conhecendo-se a maneira de estar de Marcelo Rebelo de Sousa, pode imaginar-se o que terá sido a "combinação" gloriosa que resultou desse momento conjunto...

Veio-me à memória um episódio ocorrido aquando da visita de Estado de Mário Soares a Londres, em 1993. Um dos pontos do programa foi uma deslocação à Sainsbury Wing, da National Gallery, em cuja cafetaria Paula Rego havia acabado de pintar um mural que era, em especial à época, uma das grandes curiosidades do local (e recomendo a visita a essa obra). Paula Rego, amiga de Mário Soares e de Maria Barroso, quis ser ela a apresentar pessoalmente o trabalho, descrevendo-o nos seus principais pormenores.

Algumas das figuras que a pintora integrou no mural tinham nome. Recordo-me da cara do escritor Alberto de Lacerda, que ela colocou, na sua forma criativa, numa das personagens. A certo passo da descrição, Mário Soares perguntou em quem se tinha inspirado Paula Rego para o desenho de uma figura hierática de mulher, que tem um lugar proeminente do grande painel. Nenhum de nós tinha a menor ideia de quem poderia ser essa face feminina escalvada, hirta e seráfica. Paula Rego correu com o dedo as figuras até coincidir com a que Soares referira, para, finalmente, concluir: "Ah! Aquela? É uma senhora da limpeza que eu vi um dia quando ia a entrar lá em baixo. Pedi-lhe e ela deixou-se pintar. Ficou bem não ficou?"...

"Não lhes perdoo"!


Hesitei republicar este texto, que tem precisamente um ano, o tempo que decorreu desde a saída do poder da fórmula governativa que dirigiu o país desde 2011. Alguns amigos, próximos da antiga maioria, acharam que nele fui longe demais, na minha muito explícita rejeição desse tempo. Relendo-o, em perspetiva, verifico que fui apenas tão longe quanto a minha indignação pessoal então reclamava. E não lhe retiro uma linha. Ele aqui fica, para que esse passado recente se não esqueça nunca: 

Acaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela que este país sofreu desde 2011.

Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio. Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem. Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei.

Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política.

Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de "peste grisalha". Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso "jeuniste" que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional.

Um dia, ouvi da boca de um dos "golden boys" desta governação, a enormidade de assumir que considerava "legítimo que os reformados e pensionistas fossem os mais sacrificados nos cortes, pela fatia que isso representava nas despesas do Estado mas, igualmente, pela circunstância da sua capacidade reivindicativa de reação ser muito menor dos que os trabalhadores no ativo", o que suscitava menos problemas políticos na execução das medidas. Essa personagem foi ao ponto de sugerir a necessidade de medidas que estimulassem, presumo que de forma não constrangente, o regresso dos velhos reformados e pensionistas, residentes nas grandes cidades, "à provincia de onde tinham saído", onde uma vida mais barata poderia ser mais compatível com a redução dos seus meios de subsistência.

Fui testemunha de atos de desprezo por interesses económicos geoestratégicos do país, pela assunção, por mera opção ideológica, por sectarismo político nunca antes visto, de um desmantelar do papel do Estado na economia, que chegou a limites quase criminosos. Assisti a um governante, que hoje sai do poder feito ministro, dizer um dia, com ar orgulhosamente convicto, perante investidores estrangeiros, que "depois deste processo de privatizações, o Estado não ficará na sua posse com nada que dê lucro".

Ouvi da boca de outro alto responsável, a propósito do processo de privatizações, que "o encaixe de capital está longe de ser a nossa principal preocupação. O que queremos mostrar com a aceleração desse processo, bem como com o fim das "golden shares" e pela anulação de todos os mecanismos de intervenção e controlo do Estado na economia, é que Portugal passa a ser a sociedade mais liberal da Europa, onde o investimento encontra um terreno sem o menor obstáculo, com a menor regulação possível, ao nível dos países mais "business-friendly" do mundo".

Assisti a isto e a muito mais. Fui testemunha do desprezo profundo com que a nossa Administração Pública foi tratada, pela fabricação artificial da clivagem público-privado, fruto da acaparação da máquina do Estado por um grupo organizado que verdadeiramente o odiava, que o tentou destruir, que arruinou serviços públicos, procurando que o cidadão-utente, ao corporizar o seu mal-estar na entidade Estado, acabasse por se sentir solidário com as próprias políticas que aviltavam a máquina pública.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, fui testemunha de uma operação de desmantelamento criterioso das estruturas que serviam os cidadãos expatriados e garantiam a capacidade mínima para dar a Portugal meios para sustentar a sua projeção e a possibilidade da máquina diplomática e consular defender os interesses nacionais na ordem externa. Assisti ao encerramento cego de estruturas consulares e diplomáticas (e à alegre reversão de algumas destas medidas, quando conveio), à retirada de meios financeiros e humanos um pouco por todo o lado, à delapidação de património adquirido com esforço pelo país durante décadas, cuja alienação se fez com uma irresponsável leveza de decisão.

Nunca lhes perdoarei o que fizeram a este país ao longo dos últimos anos. E, muito em especial, não esquecerei que a atuação dessas pessoas, à frente de um Estado que tinham por jurado inimigo e no seio do qual foram uma assumida "quinta coluna", conseguiu criar em mim, pela primeira vez em mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público - em que cultivei um orgulho de ser servidor do Estado, que aprendi com os exemplos do meu avô e do meu pai -, um sentimento de desgostosa dessolidarização com o Estado que lhes coube titular durante este triste quadriénio.

Por essa razão, neste dia em que, com imensa alegria, os vejo partir, não podia calar este meu sentimento profundo. Há dúvidas quanto ao futuro que aí vem? Pode haver, mas todas as dúvidas serão sempre mais promissoras que este passado recente que nos fizeram atravessar. Fosse eu católico e dir-lhes-ia: vão com deus. Como não sou, deixo-lhes apenas o meu silêncio."

A normalidade francesa

As eleições primárias em França, cuja resultante final deverá conduzir à seleção de François Fillon como candidato da direita democrática às eleições presidenciais de 2017, mostraram um país que parece propenso a retomar uma agenda conservadora.

A experiência socialista, inaugurada por François Hollande, não vai deixar uma marca muito impressiva, quer na história do país, quer na da esquerda europeia. Com grande probabilidade, Hollande não será reeleito e, ao que tudo indica, arrastará consigo, nesta impossibilidade, os candidatos que emergirem na sua área política.

O seu quinquénio, contudo, parecia ter-se iniciado de forma interessante. Um discurso de tons realistas dava ares de poder reconduzir os socialistas franceses a uma agenda « possibilista », afastando-se de um tropismo radical que, depois da experiência de Lionel Jospin, tomara conta do discurso do partido. Os socialistas franceses, quiçá por terem parado no tempo na contemplação nostálgica do período Mitterrand, mantinham uma leitura mítica da realidade, de que as « 35 horas » e a generosidade do « 60 anos » para as reformas eram as bandeiras mais patentes. A esquerda francesa, por escolha ideológica, obstinava-se em não olhar de frente os tempos e isso refletira-se na sua inelegibilidade.

Curiosamente, acabaria por ser uma figura cinzenta, que tinha em bonomia o que lhe faltava em carisma, quem aproveitou o cansaço que Sarkozy induzira no país e, « furando » por entre as visões contrastantes de outros candidatos, se conseguiu impor. Hollande, o « presidente normal » mas improvável, recuperou alguns clichés caros à retórica do socialismo francês, como foi o caso do combate « à finança », credibilizado pelas culpas desta na crise económica que se vivia, bem como a diabolização das « grandes fortunas », a que juntou algumas notas de pragmatismo que pensava poderem combater o declínio económico relativo da França.

O resultado não foi brilhante, porque os sinais transmitidos resultaram contraditórios e, muito em particular, não conseguiram projetar uma imagem de autoridade política que, naquele país, está sempre indissociavelmente ligada a qualquer mandato presidencial com sucesso. As constantes mudanças no governo, que atingiram máximos históricos, criaram uma perceção de desnorte e incoerência. No plano europeu, Hollande não conseguiu o que o estilo Sarkozy havia obtido: uma sensação coreográfica de paridade simbólica com Angela Merkel. A França de Hollande, à semelhança do seu presidente, tornou-se « normal », ou talvez mesmo banal. E isso não fez bem a um país que tem o ego da Torre Eiffel.

Às trapalhadas pessoais descredibilizantes em que Hollande se envolveu somou-se uma realidade económico-social que evoluiu de forma muito desfavorável. A economia francesa não foi sensível aos hesitantes e pouco coerentes estímulos dados pelo governo e as tensões sociais, com a onda de insegurança provocada pelo terrorismo e por um crescente questionamento identitário, colocaram a França em contra-ciclo com os socialistas. Salvo uma imensa surpresa, o próximo ciclo político vai pertencer à direita. Resta saber qual.

Sarkozy, com naturalidade, tentou o « remake ». O país mostrou estar cansado definitivamente da figura e do seu estilo e, muito provavelmente, do oportunismo que consistiu tentar mimetizar, com credenciais democráticas, o discurso de Marine le Pen. A olhar pelos números das eleições primárias, François Fillon e Alain Juppé terão revelado maior autenticidade. O segundo, muito provavelmente, pagou o preço da assunção de um discurso em que procurou fazer uma « ponte » entre visões diferentes, procurando alargar a sua base potencial de apoio a setores fora da direita tradicional, na lógica de que um candidato desse setor que, em 2017, venha a disputar uma segunda volta nas presidenciais com Marine le Pen, terá de contar com os eleitores da esquerda. Este calculismo não passou. François Fillon será, assim o candidato da direita democrática francesa, em 2017. Curiosamente, um candidato quase tão « normal » como Hollande o foi em 2012.

Um ano depois


Passou um ano. Todos nos lembramos da cara patibular do presidente de então, da raiva incontida dos que se sentiram desapossados, das dúvidas nacionais e internacionais suscitadas pelo regresso à esfera parlamentar do poder, quatro décadas e um “muro” a menos depois, dos derrotados no 25 de novembro. O país nunca vira nada igual, o conceito de “frente popular” passeou-se pelas colunas dos jornais, os socialistas foram olhados como a “quinta coluna” de um golpe institucional de esquerda. António Costa, o construtor da Gerinçonça, foi acusado de tudo, desde irresponsabilidade a oportunismo.

A direita, sem um candidato presidencial que desse garantias cumulativas de poder ganhar e proceder, logo que possível, à dissolução de um parlamento que gerara tão estranha solução, entrou em estado de negação. Nem no debate orçamental de 2015 quis participar. A sua aposta, confessada ou não, tinha duas componentes. Uma interna, que tinha a ver com a difícil compatibilidade entre as ambições dos parceiros do PS e o grau de abertura deste à acomodação dessa agenda. Outra externa, que se prendia com o previsto incumprimento pelo novo governo das metas macroeconómicas exigidas por uma Europa de sobrolho carregado perante uma fórmula política que contrastava, de forma quase provocatória, com os equilíbrios no Eurogrupo. A nossa direita pode dizer tudo o que quiser, mas não conseguirá nunca convencer o país de que não estava à espera de que aquela “quadratura do círculo” era impossível.

Mas não foi. As forças que estiveram no governo entre 2011 e 2015 mediram muito mal o receio que o PCP e o Bloco de Esquerda – que os tinham praticamente colocado no poder, ao ajudarem a derrubar José Sócrates – tinham de vir a confrontar-se com o respetivo regresso. António Costa pressentiu isso e soube desenhar um caminho muito estreito, onde investiu todas suas indiscutíveis credenciais democráticas e europeias, para além da transparência negocial que demonstrou junto dos seus parceiros internos. Ao seu lado, num jeito quiçá pouco político mas com uma maestria técnica que pede meças, teve Mário Centeno, um homem que conseguiu alguns “milagres” nos desenhos orçamentais, uma vez mais ajudado por alguma complacência da “esquerda da esquerda”, que, pragmaticamente, terá concluído que o ótimo é o pior inimigo do bom.

Ah! E houve o “efeito Marcelo” e a política do BCE e um belo ano turístico e um empresariado que os anos da Troika impulsionou a procurar novos destinos. A sorte protege os audazes e António Costa teve o rasgo de correr alguns riscos que a realidade veio a provar não terem sido excessivos.

É sustentável, a Geringonça? Não sei, ninguém sabe. Se as taxas de juro dispararem, como pode vir facilmente a acontecer por virtude de efeitos externos, a questão coloca-se. Mas, nesse caso, talvez valha a pena lembrar que isso afetaria qualquer outro governo que estivesse em funções.  

sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel


"Condenem-me, não me importo. A História me absolverá". Passaram 63 anos sobre esta frase célebre de Fidel de Castro, no tribunal em que regime de Fulgencio Baptista julgava a sua revolta.

Fidel morreu hoje. Não é possível deixar de ligar a imagem deste homem a um sonho bonito, a uma revolta romântica que adubou as esperanças de quantos, um pouco por todo o mundo, pensavam que estavam aí, quase ao virar da esquina, "os amanhãs que cantam".

Ele foi a bandeira de uma América Latina que pretendia deixar de ser o "quintal" dos Estados Unidos. Uma revolução de cores e emoções quentes, que o tempo foi desgastando. O "internacionalismo" do seu projeto  - "um, dois, muitos Vietnams", dizia Guevara - não obteve um único sucesso, nos países onde procurou projetar-se.

Ao seu povo, Fidel trouxe, sucessivamente, entusiasmo, orgulho, esperança, alegria, saúde & educação, estagnação económica e social, desilusão, pobreza, revolta ou apatia e ausência de liberdade e de democracia - afinal, o objetivo da revolta da dignidade contra o sinistro ditador Fulgêncio Baptista, que Fidel protagonizou. 

Agora, a muitos, a hora da morte de Fidel convocará com certeza saudade, sentimento com que, quase sempre, se absolvem os mortos que um dia foram amados. A História absolvê-lo-á também?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

À procura da infelicidade

Num site onde se acolhe, como numa trincheira, uma certa direita, uma papisa dessa mesma direita detalha-nos, com tocante minúcia, a profunda infelicidade que a atravessa. Estivéssemos mais próximos do Natal e dar-me-ia uma de generosidade, que me faria verter uma lágrima, feita de aletria e bolinhas coloridas para o pinheiro, de solidariedade com a apagada e vil tristeza desse setor da estimável ala conservadora lusa, que nos dias de hoje geme a sua imensa distância do poder. Para esta depressão sazonal são elencados, naquele texto sentido que me calou bem fundo, quantos "se passaram" para o outro lado. Com nomes, que isto é como as listas do MUD, é tudo para memória futura: Marcelo, claro, à cabeça, nas ironias desencantadas dessa direita que não cai em vénias, mas também Carlos Moedas e Frasquilho. Todos os que, entretanto e aos seus olhos, se bandearam, por culposa complacência, com a Geringonça, tolerando-a ou, de qualquer outra forma, legitimando-a. Mas eles que se ponham a pau: ficam "à marca", como se diz nas contas no bilhar. Até ao juízo final, onde serão julgados pela falta de juízo que tiveram. Neste Natal, "ajudada" pelas sondagens da Católica (até tu!) de hoje, essa direita vai ter uma ceia diferente. Do bacalhau vai notar as espinhas, no bolo-rei sair-lhe-á a fava e, nas sobremesas, só terão sonhos. É assim como uma espécie de Natal dos hospitais. Dias tristes, enfim. Coitados.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Uma coisa em forma de livro

A Objectiva acaba de publicar uma biografia de Marcelo Caetano da autoria do cidadão brasileiro Francisco Carlos Palomanes Martinho.

Comprei o livro na tarde de ontem e comecei a ler o período posterior à tomada de posse de Caetano como Presidente do Conselho.

Vejam-se estas "pérolas", apenas entre as páginas 366 e 391:

(1) Ao citar uma frase de Pedro Feytor Pinto, que referia ter ouvido algo na "Rádio Argel", o autor acha que se trata de uma "emissora estrangeira", deconhecendo que é a "Rádio Voz da Liberdade", uma rádio da oposição portuguesa no exterior, dirigida pela Frente Patriótica de Libertação Nacional.

(2) Ao anotar a famosa reportagem do "L'Aurore" com Salazar, diz tratar-se de um "jornal suíço"... E dá à entrevista uma importância que ela esteve longe de ter, não explicando devidamente o estado mental do antigo ditador.

(3) Diz que o Bispo do Porto esteve "exilado em França". Ora, na sua quase década de exílio, António Ferreira Gomes apenas por um brevíssimo período esteve em Lourdes, passando a esmagadora maioria do exílio em Espanha (Santiago de Compostela, Valência, Ciudad Rodrigo e Salamanca).

(4) Refere que Mário Soares estava "exilado" em S. Tomé. Uma coisa é o exílio, outra bem diferente é a residência fixa. Páginas adiante, o autor já fala em "degredo", o que é mais próximo da realidade e prova uma lamentável ausência de rigor nos conceitos utilizados.

(5) Afirma que Marcelo Caetano "passou a utilizar a rádio e a televisão semanalmente", o que é rotundamente falso. As "conversas em família" nunca tiveram essa periodicidade: nos cerca de cinco anos e meio do seu governo, Caetano apenas fez 16 programas desses.

(6) Diz que Pinto Balsemão integrou, pela "ala liberal", a lista de deputados do Porto, quando o foi pela Guarda! E chama-lhe "jornalista do Porto"!

(7) Assinala que Sá Carneiro fez parte, em 1969, das "listas da UN/ANP". Ora a Ação Nacional Popular só foi criada em 1970. E o erro é repetido várias vezes, pelo que não se trata de um lapso, mas de desconhecimento.

(8) Diz que o lisboeta Américo Tomás era "trasmontano"... 

(9) E tem, finalmente, esta "tirada' de antologia: "através de decreto-lei o governo deixou de exercer uma influência direta nos Serviços de Censura, que passaram para a recém-criada Secretaria de Estado da Informação e Turismo" (!!!). 

Se, em 25 páginas estão tantas enormidades, imaginemos o que não estará nas restantes 564...

A Objectiva estará aberta a reembolsar-me dos mais de 20 euros que paguei por "isto"?

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O infiel da balança

Tenho o vício de me pesar de manhã e à noite. É um vício angustiante, porque me induz uma espécie de culpabilidade pelos efeitos daquilo que acabei por comer durante o dia. E como está fora de causa que vá acabar por limitar o meu regime alimentar, à luz de uma leitura quantitativa dos meus pecados da gula, só tenho uma solução: não me pesar. A minha relação com a medição do peso tornou-se assim cada vez mais frágil, numa assumida cobardia. Acho que me posso considerar, na verdade (por que haveria de escondê-lo?), um infiel da balança.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reflexão impopular


Ao tempo, deixei por aqui o apelo a que, com presteza e rigor, fosse feita a inculpação, sem tibieza nem falsos "respeitinhos", dos responsáveis pelas mortes em treino dos soldados dos Comandos.

Mas, em Portugal, é ou oito ou o oitenta.

No passado, casos como estes foram sempre abafados, com a culpa a morrer solteira. As famílias bem protestaram, mas toda a gente olhou para o lado. Agora, em face da projeção mediática, e num gesto de demagogia serôdia, foi decidida uma espetacular detenção, para interrogatório, de um grupo de militares de várias patentes, com os nomes escarrapachados na imprensa. E lá foram as "Sónias Cristinas" das televisões acompanhar as carrinhas até ao presídio.

Mas será que havia mesmo perigo de fuga, que justificasse a detenção dos militares, em lugar de serem simplesmente chamados a depor? Pelos vistos, não havia, caso contrário o juiz teriam determinado que ficassem em prisão preventiva.

Mais um triste teatro, num caso que haveria toda a vantagem em ser tratado com grande seriedade. Só espero que, com este inadequada e exagerada encenação, que suscitou legítimas reações de alguns setores militares, não se acabem por criar novas "vítimas", ajudando a esquecer que as verdadeiras foram as que morreram.

Maria Eugénia Varela Gomes


Morreu Maria Eugénia Varela Gomes. Fui-lhe apresentado há muito tempo, no início dos anos 70, num almoço em Colares, num restaurante onde aos fins de semana se reunia gente da oposição, a maioria com ligações ao "Partido" (designação que, para os comunistas e "compagnons de route", significava o clandestino e perseguido PCP). Estava acompanhada pelo marido, João Varela Gomes, revolucionário do assalto ao quartel de Beja, saído da prisão meses antes.

É uma mulher-coragem aquela que vai amanhã a sepultar, depois de muitos anos de doença, com a morte do filho Paulo pelo meio, que se somou a uma vida de luta, de perseguições e de prisão, sempre marcada por uma imensa dignidade e verticalidade. Li, ouvi e sei o suficiente sobre Maria Eugénia Varela Gomes para ter por ela uma imensa admiração.

Deixo um abraço sentido ao seu marido, o coronel João Varela Gomes.

(Fica a sua fotografia no arquivo da Pide, retratos que é, em si mesmos, são medalhas para quem os possui)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sarkozy


A derrota de Nicolas Sarkozy, nas eleições primárias da direita francesa, ontem realizadas, terão significado o fim da sua carreira política? A forma como se despediu dos seus adeptos não deixa isso totalmente claro.

No fundo, isso não tem a mais pequena importância: em 6 de maio de 2012, depois de ter sido rejeitado nas presidenciais francesas, em favor de François Hollande, tenho bem presente a frase que proferiu na Mutualité, perante os seus apoiantes: "Je ne ferai plus jamais de la politique!". Depois, foi o que se viu: aproveitou a conflitualidade entre Fillon e Copé, tomou conta do partido, mudou-lhe o nome e aí surgiu ele, de novo, a tentar o "remake". Voltará? Sabe-se lá!

Pertencemos a um país onde um dirigente desportivo dizia que "o que é hoje verdade, pode não sê-lo amanhã", onde um político regressou às lides horas depois de considerar "irrevogável" a sua demissão. E isso era num tempo em que ainda era desconhecido o "trumpiano" conceito de "pós-verdade", que veio consagrar teoricamente as cambalhotas com as palavras e essa coisa despicienda que são os factos.

Estive várias vezes com Sarkozy, em reuniões privadas e públicas. Do que se passou nas primeiras serei para sempre obrigado, por dever profissional, a guardar algum recato. Mas, nesta nota, gostava de falar sobre o momento público em que, no Palácio do Eliseu, fiz, com outros embaixadores, a apresentação das minhas cartas credenciais, como novo representante diplomático português em França.

A apresentação de credenciais por um embaixador, junto de um chefe de Estado estrangeiro, é um ato protocolar que difere bastante de país para país, dependendo dos usos e costumes locais. Em frequentes casos, o próprios chefes de Estado introduzem alterações às práticas nacionais, de acordo com os seus humores e com a sua personalidade.

Foi o que sucedeu com Nicolas Sarkozy, quando assumiu funções como presidente francês. Sendo Paris uma das capitais do mundo com maior número de embaixadas, e tendo alguns países a propensão para não deixarem os seus embaixadores "aquecer o lugar", o ritmo de apresentação de credenciais ao chefe de Estado acaba por ser muito intenso.

Ao que me dizem, o presidente Jacques Chirac, que antecedeu Sarkozy, não obstante o peso desse formalismo, fazia questão de falar uns minutos com cada novo embaixador, deixando perguntas ou comentários que tocavam as relações bilaterais. François Hollande, ao que julgo, terá retomado o mesmo método. É um pouco assim, aliás, que as coisas se passam entre nós.

Nicolas Sarkozy, optou, desde o início, por um fórmula mais "leve", menos simpática para os novos embaixadores, mas bastante expedita. Foi a que me coube em sorte, em 2009.

Cerca de uma vintena de novos embaixadores foi colocada, lado-a-lado, numa grande sala do Palácio do Eliseu, numa certa manhã. O presidente entrou, acompanhado do secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do seu conselheiro diplomático, deu os bons-dias a todos em voz alta e, sem mais perda de tempo, dirigiu-se ao primeiro dos embaixadores, alinhados pela ordem da respetiva data de chegada a França.

Fiel às práticas que a profissão ensina, esse primeiro diplomata, tentou dizer a frase clássica: "M. le Président, j'ai l'honneur de vous présenter les lettres de créance qui me (...)". E preparava-se para transmitir-lhe os cumprimentos do seu chefe de Estado e, talvez, a honra que ele próprio sentia pelo privilégio de poder servir o seu país junto da França e coisas assim!

Era não conhecer Sarkozy! Não deixou sequer o homem acabar a primeira frase e quase que lhe arrancou da mão as cartas credenciais, que logo passou para trás, ao secretário-geral, avançando para o embaixador seguinte.

Tratava-se do meu colega de Marrocos, país com o qual a França tem relações fortíssimas e complexas. Com naturalidade, ele tentou passar uma mensagem de "Sa Majesté le Roi". Pois isso! Sarkozy cortou a conversa, nem dez segundos era decorridos (o homem, um velho amigo meu, ficou lívido e furioso).

E chegou a minha vez. Simplifiquei ao máximo a mensagem: "Mes respects, M. le President. Je suis le nouvel ambassadeur du Portugal" e passei-lhe as "cartas", assinadas por Aníbal Cavaco Silva. Sarkozy olhou-me por um segundo e disse: "Soyez le bienvenu, M. l'Ambassadeur!", e passou à frente.

A próximo chefe de missão era uma senhora africana. Sarkozy, que acelerava o processo, saudou-a num segundo e avançou. Notei alguma agitação física na embaixadora, que me segredou: "Esqueci-me de entregar as cartas credenciais!" - e mostrou-me, angustiada, o envelope com a carta do seu chefe de Estado para Sarkozy, que lhe conferia o título de embaixadora em França. A cena fora tão rápida que o presidente nem notara que, além do cumprimento, não recebera o documento que oficializava a qualidade da embaixadora. Sosseguei-a: "Não se preocupe, dá isso depois a alguém...". E tudo se resolveu, acabada a cerimónia, com a discreta entrega do envelope ao chefe do protocolo, que sorriu, divertido, perante o relato do sucedido.

Entretanto, Sarkozy "aviara" já todo o grupo e com ares de alguma impaciência, convidou a colocarmo-nos frente a ele, em semi-círculo. Vi-o gesticular para que uns empregados, de casaco branco e botões dourados, expectantes ao longe, com tabuleiros com flutes de champagne, se aproximassem dos embaixadores. Quando verificou que todos estavam servidos, ergueu o seu copo, felicitou-nos pela nossa "entronização", nem sequer fingindo que bebia (Sarkozy não bebe álcool).

O presidente singularizou então no grupo o embaixador de um país que, na antevéspera, tinha sido atingido por um grave sismo ou inundação, e lembrou-lhe: "Espero que na sua capital tenham notado que a França foi o primeiro país a prestar-vos ajuda!". O homem, ultrapassando com garbo a deselegância, que se estendia aos outros Estados cujos embaixadores tinham acabado de apresentar credenciais e que não tinham sido tão lestos no gesto humanitário, balbuciou alguns agradecimentos.

Tinham passado menos de dez minutos desde o início da cerimónia. Visivelmente "morto" por lhe pôr termo, o presidente disse estar certo de que todos compreendiam que as suas responsabilidades o obrigavam a sair. Em jeito de compensação, explicou que ali deixava o secretário-geral do MNE e o seu conselheiro diplomático, com os quais poderíamos falar "do que vos interesse".

Disse "Rebonjour à tous!" e encaminhou-se para a saída da sala. Ao passar por mim, deu-me uma palmada no ombro e disse, de forma audível por todos: "Mes amitiés à Sócrates!". Os meus colegas ficaram visivelmente admirados ao ouvir aquilo. Quase tanto como eu. Nem tive tempo de assegurar a Sarkozy que não deixaria de transmitir a sua saudação ao então primeiro-ministro português - uma figura que, até ao último dia do respetivo mandato, manteve com o presidente francês uma forte empatia e uma relação de extrema cordialidade pessoal.

domingo, 20 de novembro de 2016

"Self-plagiarism"?

Foi há cerca de um ano. O telefonema do responsável pelo "copy desk" do jornal deixou-me confuso. Ao ler o texto que eu lhe mandara nessa tarde, para ser publicado no dia seguinte, ele ficara com a sensação de que era um artigo igual a outro já publicado por mim, meses antes.

Caí das nuvens: eu escrevera o artigo há escassas horas, "de raiz"! Que confusão era aquela? Ter-me-ia enganado no anexo que enviara com o email para o jornal? Interrompi o que fazia e regressei a casa. Ainda tinha algum tempo, antes do "fecho" do jornal, para resolver o assunto.

Fui ver os meus email: tinha mandado o artigo certo. Fui à procura de textos antigos, enviados para o mesmo jornal. A certo ponto deparei com um exatamente sobre o mesmo tema daquele que eu agora remetera ao jornal. Li-o e compreendi: não era o mesmo texto, mas a lógica do artigo era exatamente a mesma do anterior, com exemplos e argumentos repetidos. O assunto em causa voltara à atualidade, eu "revisitara-o" com o mesmo prisma de análise e, por isso, produzira dois textos basicamente similares.

A memória "clínica" do responsável pelo "copy desk", numa fantástica demonstração de perspicácia profissional, salvara-me de um embaraço. E lá fiz eu um outro artigo...

Este episódio veio-me à memória ao ler há minutos um artigo sobre a questão do "self-plagiarism", num site estrangeiro, em torno do debate académico sobre se um autor pode, ou não, republicar textos seus, isoladamente ou inseridos num outro contexto, sem deixar explícito de que não se trata de um original.

O tradicional plágio - utilização não identificada de textos ou ideias escritas de outros - é uma praga que a internet tem vindo a facilitar. E o chamado "auto-plágio", a repetição de textos ou ideias próprio? O tema é interessante, porque tem uma inescapável dimensão económica. Com efeito, se eu tiver sido pago pela escrita de um artigo e, mais tarde, voltar a publicá-lo, ou com outro título ou inserido noutro texto, sem esclarecer que se trata de um texto antigo, voltando a ganhar dinheiro com ele, isso é legítimo? Creio bem que não.

Mas isso suscita outra questão. Como é sabido, o plágio vai para além da simples cópia exata de um texto, situando-se tamvém no domínio das ideias. Eu serei acusado de estar a plagiar se repetir, sem deixar isso previamente claro, um corpo de ideias inserido num texto de um artigo ou de um livro, mesmo que para isso utilize outras palavras, que mude os vocábulos. Isso não deixa de ser um evidente plágio. Mas, pelo mesmo princípio, estaria também estaria impedido de repetir, não os meus textos, mas as minhas próprias ideias. É que eu não posso ser obrigado a mudar de ideias, só para não me repetir... Como diria o Narciso à dona Rosa, à entrada do Pátio das Cantigas: cruel dilema!

sábado, 19 de novembro de 2016

Charla amigável

"Fulano é teu amigo?", perguntaram-me ontem ao almoço. Respondi que não, que o conhecia de nome mas que nunca o tinha visto pessoalmente. "É que escreve na tua página de Facebook", esclareceu quem me interpelava. "Ah! Isso sim!", respondi. "Era isso que eu queria dizer" fechou a conversa o meu interlocutor.

Tenho o maior respeito pelo conceito de "amigo" que o Facebook nos trouxe. É uma realidade simpática, que alarga os nossos contactos, ainda que virtuais. A verdade, porém, é que ele não deixa de induzir alguma confusão face ao estatuto tradicional de relação. 

É que ainda sou do tempo em que, para além dos nossos reais amigos, só os comunistas tratavam por "amigos" aqueles que, não sendo "camaradas", lhes eram simpáticos. Ainda farão isso? Ando distraído.

Portugal, a Europa e o mundo


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Os inglusos


São uma raça tão à parte que não sei bem o que lhes irá acontecer com o Brexit. Às tantas, ficam apátridas. Nasceram em Portugal (ninguém é perfeito), mas têm o coração numa grã-ilha a que pertencem por direito natural. Idealmente, a maternidade do St Antony's College seria o seu berço óbvio, mas têm de contentar-se com o facto de S. Sebastião da Pedreira figurar no seu Cartão de Cidadão. Falam e vestem como eles acham que os ingleses ("bem") devem falar e vestir. Quando atingidos pelos "blues" da vivência nesta "piolheira", à falta dos coiros de Pall Mall, vão tomar chá à York House, numa tarde pardacenta, como a de hoje. Adoram Churchill e os Church's. Ao todo, são aí uma vintena. Conheço-os de ginjeira. Escrevem (às vezes, bem), bebem (alguns já tiveram melhores fígados) e todos resmungam (de preferência, por escrito) contra este país onde não há um "Spectator" decente, um lugar que verdadeiramente os não merece - no que têm toda a razão: Portugal nada fez de mal ao mundo para ter de os aturar. São os inglusos. Nem são nem ingleses nem lusos. São uma espécie de náufragos do autocarro, mas do tempo em que a Carris era britânica. Ah! E os ingleses nem sabem que eles existem. E ainda bem, senão riam-se de nós! É que eles detestam imitações baratas. Já lhes bastam os "leftovers" do seu império!

Gastronomia


Na próxima semana, a Academia Portuguesa de Gastronomia comemorará os seus 25 anos de existência. Criada sob a direção de Jorge Gonçalves Pereira, a APG é hoje dirigida por essa personalidade referencial da gastronomia portuguesa que é José Bento dos Santos – uma figura que o país conhece dos livros e das televisões, um homem que tem dedicado grande parte da sua vida a promover os valores da nossa cultura gastronómica, com os vinhos como parte integrante da mesma. 


A Academia, de um modo discreto, sem o menor apoio público, tem levado a cabo um persistente trabalho de identificação de “boas práticas”, destacando a valia dos profissionais do setor da restauração, premiando as melhores obras publicadas e, em particular, procurando apoiar quantos se distinguem na preservação e promoção dos valores da tradição culinária portuguesa.


Em Portugal, só nos últimos anos é que a gastronomia começou a ganhar um estatuto cultural mais firmado. Por muito tempo, foi vista como um passatempo de comilões, de epicuristas ociosos, de folgazões com apetite. Ora a gastronomia vai muito para além disso, releva das culturas regionais, insere-se nas produções agrícolas locais, é hoje um instrumento essencial na promoção turística, com um impacto económico fortíssimo. Basta ver aquilo que países como a França ou a Espanha fazem neste domínio, com reflexos à escala global, para se perceber o extraordinário potencial daquilo que entre nós já existe.


Portugal vive um momento raro na exposição internacional da sua gastronomia. Chefes portugueses começam a ser conhecidos internacionalmente, organizam-se programas turísticos centrados na oferta da nossa restauração, os excelentes vinhos portugueses servem de eixo promocional e, cada vez mais, os nossos restaurantes de qualidade surgem destacados nas principais publicações que atraem os visitantes. Portugal, como é sabido, está internacionalmente “na moda” e o seu tecido de oferta gastronómica tem muito a ver com isso.


Mas a gastronomia é também a arte de alimentar de forma saudável, pelo que uma melhor educação nesse domínio é hoje tida por essencial, como forma de combater hábitos pouco convenientes e desenvolver nesse domínio uma consciência atenta, que deve começar nas escolas.


Portugal, onde hoje se pratica uma “dieta mediterrânica” muito variada, com um toque atlântico, é o primeiro consumidor de peixe “per capita” da Europa (e o terceiro do mundo), pelo que parte de uma base muito interessante para poder garantir, a prazo, uma posição destacada na promoção e desenvolvimento de programas para uma alimentação racional e saudável.


Apoiar e promover a gastronomia portuguesa é uma tarefa da maior importância para o futuro do país.

O adeus à Liberdade


Hoje é um dia triste para o "Diário de Notícias". Com a saída da mítica casa da Avenida da Liberdade, levada na voragem da lógica "remax", saem também dali muitos anos de história de um jornal que faz parte do património do país. Nesta data, que sei triste para eles, deixo um abraço aos bons amigos que lá tenho.

E repito a imagem magnífica do meu conterrâneo Stuart, onde fica mais evidente o projeto arquitetónico que quis evocar no edifício a rotativa de um jornal.

Presidentes e reis


Leem-se por aí comentários críticos da cena em que o presidente Rebelo de Sousa conversa com a rainha britânica sobre temas leves e, muito em particular, da vénia e do beija-mão que a antecederam. Não nego a cada um tem o direito de dizer o que lhe apetecer e, no caso vertente, de aproveitar esta oportunidade "soberana" para exercitar o seu jacobinismo. 

Por mim, que também tenho esse direito, e que talvez saiba alguma coisa "da poda", gostava de deixar claro que me pareceu perfeitamente adequado o comportamento do chefe de Estado português. E, mais do que isso, não considerei que o meu feroz republicanismo tivesse ficado minimamente afetado pela cena, onde não vi a menor sujeição de um regime sufragado a uma magistratura hereditária e não eleita. Mas, enfim, eu não sou do "Podemos"...

Marcelo Rebelo de Sousa, num gesto de educação e de respeito pelas regras do protocolo, fez uma vénia ao saudar a senhora e beijou-lhe a mão. Recordo-me do "escândalo" também provocado em algumas almas, já há alguns anos, quando Obama teve uma atitude precisamente similar. O nosso presidente esteve bem no gesto. Ponto.

Quanto ao facto da conversa ter assente no pormenor das visitas da raínha a Portugal, e a circunstância de Rebelo de Sousa ter mencionado ter sido testemunha presencial das mesmas, só quem não conhece o ambiente destes encontros se pode espantar com o facto desta interlocução tratar de minudências irrelevantes. A soberana britânica não se ocupa das questões políticas, sendo, no plano dos poderes formais, aquilo que se costuma designar como "uma raínha de Inglaterra" - sendo, aliás, a própria... A evocação feita pelo presidente foi, assim, em tudo adequada, configurando uma nota de simpatia pela vetusta homóloga de um país com o qual Portugal tem uma relação histórica muito antiga. E os chefes de Estado, sejam presidentes ou reis, são isso mesmo: símbolos da continuidade do passado histórico dos respetivos países.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Peixes

Foi preciso vir a uma conferência sobre Sustentabilidade para aprender que Portugal é o terceiro país do mundo que mais peixe consome e, a uma imensa distância de qualquer outro, o maior consumidor de peixe na Europa.

Acho até que, se quisessemos promover o  nosso peixe, ligando-o a outras amenidades, podíamos criar o moto "Em Portugal, o peixe é bom mas a carne é fraca*..."

*Já sei que há quem vá ler isto "à letra", mas é a vida!

Tropas


Já lá vão 43 anos. Mas não esqueço. Estávamos em Mafra, no primeiro ciclo do curso de oficiais milicianos. O 25 de abril seria um ano depois, mas então ninguém podia prevê-lo. A possibilidade de irmos parar "com os costados" à guerra colonial era muito elevada. 

O meu pelotão - trinta marmanjos - era uma mescla engraçada. Ia desde gente madura, casada, com filhos, curso superior e profissão interrompida, até uns miúdos quase imberbes. O ambiente induzia a algum infantilismo, brincadeiras, com muitos de nós a tentarmos, por via do humor, da ironia e de uma controlada indisciplina, não nos deixarmos tomar pelo formalismo daquele mundo pintado a fardas verdes e ordens irracionais. Um dia contarei um pouco da minha leitura dessa experiência, comum a muitas centenas de milhar de portugueses.

Para o que aqui hoje me interessa, anoto que, quase no final do curso, tinha lugar a chamada "semana de campo". Eram uns dias passados algures nos arredores de Mafra, para onde marchávamos longas horas, montando tendas para noites incomodíssimas. No dito acampamento, havia lugar a exercícios, um dos quais consistia num "ataque" noturno de surpresa ao nosso "bivaque", feito por soldados, com tiros de bala simulada, operação à qual nós deviámos reagir, montando um "dispositivo", em posições "defensivas", previamente definidas.

Eu e um pequeno grupo de colegas, politicamente mais motivados, pouco disponíveis para alinharmos num "script" de uma peça em que éramos relutantes atores, gizámos um plano para fazer abortar o "teatro" em que nos queriam como comparsas. Entre nós, combinámos levar todo o pelotão a não reagir, quando fosse "atacado", respondendo com gargalhadas, palmas e apartes, com pedidos de "bis", por ocasião da operação. Não foi fácil convencer alguns "chicalhões" (mais dados a levar a "tropa" a sério), bem como os temerosos (com o argumento de que a noite os protegeria) e outros tíbios, preocupados com as eventuais consequências disciplinares do ato. Mas a nossa "contra-operação" fez-se, com pleno êxito. E escândalo.

A reação da oficialagem do quadro foi a esperada: raiva, berros e um imenso furor. Porque nestas coisas há sempre uns "bufos", o meu nome e de um outro dos mais ativos promotores do "levantamento" chegou ao ouvido do comando da companhia. E, já tarde na noite, vieram buscar-nos a ambos às tendas. Durante mais de meia hora fomos interrogados, num ambiente pretendidamente intimidante, com focos de luz na cara e (não esqueço!) pistolas nas mãos de um tenente e de um alferes - cujas caras e nomes anotei para sempre. Queriam saber das motivações do ato, pretextaram "subversão", ameaçaram com desgraduação, processo disciplinar e coisas assim. Só faltou chamarem a Pide. Nenhum de nós fraquejou e, sob a raiva evidente dessas figuras, regressámos às tendas de madrugada. Nada aconteceu, mas até ao final do ciclo essas duas figuras olhavam-nos pela parada de Mafra com ar grave, ameaçador.

Um ano depois, veio o 25 de abril. Os dois interrogadores, sem surpresa, vieram a revelar-se zelosos seguidores da nova ordem. Um deles, o tenente, destacou-se a prender legionários, acabando na indústria automóvel. O outro, passeou-se com gravidade pela 5ª divisão nos idos do PREC e viu-se por aí. Por uma qualquer, mas bem concreta, razão, lembrei-me há pouco deste último. E mais não digo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Non sense


Já não me recordo se escrevi por aqui uma frase ouvida, há uns meses, numa "tertúlia especializada" que frequento: "Não ouvi o que tu disseste, mas acho que não estás a dizer coisas certas".

Acho esteticamente graça (mas só isso, atenção!) a este tipo de expressões, feitas de preconceito e de apriorismo, que se pretendem chocantemente afirmativas, no limiar da presunção. Como o que passou a ser "chic" dizer-se, a propósito de livros: "Não li e não gostei". Olho este tipo de exercícios apenas pela curiosidade do seu estilo, pelo seu "non sense", mas não os respeito minimamente, convivendo com eles com uma medida dualidade no apreço.

Porque é que me lembrei hoje do assunto? Porque acabo de ver o título do próximo espetáculo de Vitorino, que vai na mesma onda: "Não sei de que é que se trata, mas não concordo". É uma frase citada do alentejano Zé Embirra, elevada a mote estimável, na lógica de que "o que é popular é bom".

A frase tem (a tal) graça, mas não deixa de ser uma patetice, sintetizando, no fundo, a atitude triste de muita gente perante o quotidiano.

Uma dúvida incómoda


Na trapalhada em que se converteu, a propósito das questões que envolvem a sua administração (desde a humilhante recusa pelo regulador do formato inicialmente proposto, passando pelos montantes salariais até chegar à saga das declarações de rendimentos), a questão da Caixa Geral de Depósitos parece ter esquecido dois aspetos importantes e, estranhamente, nunca ter suscitado a resposta a uma outra dúvida essencial.

O primeiro ponto, que a espuma dos dias parece ter feito diluir, foi o imenso sucesso em que o processo de recapitalização se converteu. De "tabu" para as instituições europeias, como argumentava falsamente a antiga maioria, que assim foi deixando irresponsavelmente afundar a instituição, talvez com vista a força a sua privatização, a Caixa viu aprovado o processo de reforço do seu capital, sem que essa operação venha a contar para o défice (embora nele se reflita de forma limitada, pelo impacto inevitável no serviço da dívida). Mário Centeno e António Costa nunca foram devidamente saudados pelo país por essa importante vitória.

O segundo é um tema em que só alguns "teimosos" insistem ainda em suscitar. Parece haver fortes sinais de que o estado a que a Caixa tinha chegado, para além das naturais decorrências operacionais de qualquer instituição financeira, se ficou a dever a erros e vícios de gestão de algumas das administrações "políticas" que nela preponderaram nas últimas décadas. Como essas administrações o foram no âmbito de um "bloco central" PSD/PS (alargado pontualmente aos centristas), parece ter-se agora gerado um "omertà" no sentido de passar uma esponja sobre esse passado, numa lógica de "o que lá vai lá vai". 

Ora isto é muito injusto para gente competente e eticamente impoluta que passou pela administração da Caixa, embora ligada a partidos, cuja gestão proba não pode ser confundida com a de alguns "apparatchik" que, por incompetência ou dolo, tomaram decisões danosas para o interesse público, que importa conhecer em detalhe, chamando de uma vez por todas os bois pelos nomes. É fundamental separar as águas e, com toda a franqueza, não consigo vislumbrar a menor validade no argumento de que uma sindicância ao passado pode vir a afetar a estabilidade da instituição, agora que a recapitalização está adquirida. O silêncio conluiado sobre as zonas sombrias desse mesmo passado é que afeta a dignidade da Caixa e dos agentes políticos que nada tenham a temer - até porque essas seriam lições para um futuro que se deseja não prossiga na mesma linha de irresponsabilidade e fuga às mais elementares regras prudenciais e até de "compliance".

Dito isto, resta-me uma imensa dúvida.

A Caixa foi capitalizada com capitais públicos, como devia ser, fugindo às tentações de quantos pareciam apostar na sua fragilidade para fazer entrar dinheiro privado no seu capital social. Mas se o Estado "meteu" dinheiro público na Caixa, pelo qual todos vamos pagar juros, foi, seguramente, com o objetivo de que o funcionamento futuro da instituição se oriente pelo interesse público, isto é, que a Caixa venha a ser um instrumento operativo das políticas públicas, naturalmente dentro das regras de gestão básicas que qualquer instituição bancária deve seguir.

Ora o que tenho lido daquilo que se espera da nova equipa não é bem isto: a narrativa em torno da Caixa baseia-se na ideia de que uma gestão "independente" deve transformar a instituição num banco "como qualquer outro", razão pela qual a "despolitização" da gestão foi a preocupação central do novo modelo de governança. 

E é aqui que a minha dúvida assenta: se a Caixa passa a ser um banco "como qualquer outro", isto é, orientado apenas para ter lucros nessa atividade, sendo essa a razão pela qual que se foi escolher uma gestão profissional "pura", por que diabo o Estado foi lá colocar mais dinheiro? Que me interessa a mim, ou ao leitor, ser transformado num "investidor" numa banca igual à privada, pagando juros pelo capital investido e entregando a gestores técnicos o modo de gerar futuros lucros? 

António Domingues é um profissional reconhecido pela sua excecional competência, mas é também conhecido por ter feito parte da administração do BPI, de onde aliás trouxe alguns colegas, uma instituição com uma excelente gestão, mas que sempre seguiu, talvez por virtude da composição do seu capital acionista, uma filosofia muito própria em matéria de crédito, bastante longe daquela que se espera de uma entidade como a Caixa, nomeadamente no que respeita ao crédito às empresas, em especial das pequenas e médias. Circunstância que se torna mais premente, agora que já se perceberam os limites dessa estranha criatura que (não) é “Banco de Fomento”.

O país não precisa de ter uma Caixa Geral de Depósitos que seja, muito simplesmente, uma "máquina" para fazer dinheiro, como é normal ser o desiderato da banca privada. Precisa de ter um banco público que, sem ceder às manipulações político-partidárias e de compadrio que, no passado, iam provocando a sua desgraça, prossiga uma orientação em matéria de política de crédito determinada pelos poderes públicos legitimamente eleitos. Uma gestão prudencial não é contraditória com a circunstância de estarmos perante um banco ao serviço do Estado e dos interesses que este tem obrigação de implementar nas instituições que tutela. Quero com isto dizer, de forma clara, que a nova administração da Caixa não pode ter as "mãos livres" como alguns parece pretenderem que tenha, talvez como passo para um dia reclamarem de novo a sua privatização.

(Artigo que hoje publico no jornal "Público")