sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Já combinaram com os russos?


A escolha do secretário-geral da ONU foi sempre um processo de alguma complexidade. Encontrar alguém em quem, simultaneamente, se revejam Estados com interesses contraditórios é uma verdadeira quadratura do círculo. No passado, esse compromisso chegou a ser obtido através de cedências em outras áreas do funcionamento da ONU, atribuindo discretamente a alguns dos principais países envolvidos, isto é, aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, cargos importantes, em jeito de compensação.

Este ano, o novo processo de audições públicas prometia trazer alguma transparência e uma maior objetividade. O método evidenciaria, em princípio, os mais qualificados, o que, no entanto, poderia não garantir os objetivos de quantos entendiam que, desta vez, o lugar deveria ser ocupado por uma mulher, oriunda da zona centro-oriental da Europa, que nunca tinha produzido um SG.

À luz da leitura que faço do modo de funcionamento da ONU e dos seus equilíbrios geopolíticos, sempre achei que seria muito difícil António Guterres vir a ser eleito. Porém, Portugal, nunca tivera alguém tão qualificado e prestigiado para ocupar aquele cargo. Valia a pena tentar! Por isso, fui e continuo a ser um convicto apoiante dessa candidatura, embora, tal como o próprio Guterres, moderadamente otimista quanto ao êxito do empreendimento. 

O modo como as audições ocorreram, e as fantásticas «performances» de Guterres, tornaram-me mais confiante, sentimento que se reforçou com as sucessivas votações indicativas, em que o candidato português se destacou dos demais. Mas algo me dizia, intimamente, que as coisas estavam a correr «bem demais»... Por isso, o surgimento de uma nova candidatura, já numa fase adiantada do processo de seleção, não me surpreendeu. 

Quem segue estas coisas sabia que germinava em setores da direita europeia, em especial no «pangermanismo»,  a vontade de encontrar uma forma de contrariar, com um golpe de bastidores, o sentido do novo modelo de avaliação, cuja resultante final não produzira o resultado «esperado». Com o argumento, simplório e oportunista, de que assim se quer ultrapassar o «impasse» criado, Kristalina Georgieva avança do «banco», a poucos minutos do fim do jogo. 

Agora, a palavra decisiva vai competir a Moscovo: um SG da ONU é sempre alguém que o mundo ocidental propõe e a quem o Kremlin não diz que não.

Ora qualquer brasileiro conhece o significado da frase que serve de título a este artigo. É uma expressão famosa de Mané Garrincha quando, tendo-lhe sido explicado o que deveria fazer para ultrapassar a defesa russa, e achando a tática do treinador simples demais, terá perguntado : «E já combinaram com os russos?». Acho que seria prudente Georgieva inquirir o mesmo de Merkel.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")


Falando de ditaduras

(«Não te metas nisso! Cai-te o Carmo e a Trindade em cima!» A conversa foi ontem no largo do Carmo, no fim de um almoço de amigos. Era a reação à minha ideia de escrever um artigo sobre a relação com regimes que estavam muito longe de ser «apresentáveis», em especial em matéria de Direitos humanos e de respeito pelos princípios essenciais do Estado de direito.)

Há dias, num programa de televisão, a propósito do 11 de setembro, decidi interrogar-me sobre um «segredo de Polichinelo» : depois daquilo a que assistimos no Iraque e na Líbia, com setores da comunidade internacional mobilizados no sentido de processos de «regime change», que acabaram por redundar numa disrupção gravíssima da estabilidade regional, com efeitos comprovadamente deletérios sobre a ordem internacional, será legítimo ter como política a reversão automática de ditadores, arriscando cair em situações potencialmente mais graves do que aquelas que pré-existiam?

No caso do Iraque, uma intervenção americana sem a menor legitimidade internacional, com o apoio seguidista de alguns poderes ocidentais (entre os quais o Portugal do dr. Durão Barroso), resultou num novo regime iraquiano que se consagrou desde o início como um «failed state», abrindo caminho para um grave desequilíbro regional, desencadeando uma dinâmica que acabou no Estado Islâmico. Como dizem os empregados de restaurantes: espero que gostem!

No caso da Líbia, a obscena ultrapassagem do mandato  negociado no Conselho de Segurança da ONU, que tinha como limite a proteção da Cirenaica, acabou por ser aproveitado para derrubar Kadafi, sossegando pelo caminho a consciência de alguns inimputáveis europeus e, simultaneamente, abrindo espaço aos traficantes da morte no Mediterrâneo. Estão contentes?

(Um parêntesis para lembrar, a quem se tiver esquecido, que Hillary Clinton esteve ao lado de George W. Bush na invasão ilegal do Iraque e teve o essencial das responsabilidades na patética dissolução do Estado líbio. O facto de Clinton ser hoje a «nossa» candidata não deve obnubilar a nossa memória.)

A sociedade internacional não é uma congregação de «anjos». A maioria dos países que têm assento nas Nações Unidas ou são ditaduras ou têm regimes cuja observância das mais transparentes regras democráticas é muito discutível. Se um Estado tivesse a ousadia de só se relacionar com regimes «decentes», acabaria confinado a um quadro de relações externas muito limitado. No caso português, desde logo um país com uma imensa diáspora, é um imperativo óbvio de qualquer governo manter um relacionamento funcional tão bom quanto possível com todos – repito, todos - os Estados dos quais dependa o bem-estar das nossas comunidades e onde, simultaneamente, se possa criar um ambiente positivo para a absorção das nossas exportações, uma atratividade para o nosso turismo e a mobilização de investimento direto externo.

Dir-se-á que, ao participar neste «teatro», estamos a encenar uma peça de algum cinismo, de «realpolitik» e de alguma frieza. É uma pena ter de constatar isto, mas o mundo é assim mesmo. No nosso dia-a-dia como cidadãos, todos temos a experiência de termos de nos relacionar com pessoas de quem não gostamos, por ser essa a exigência da vida coletiva. A vida internacional não é muito diferente.

Portugal, na sua atuação externa como Estado, deve contribuir para a promoção dos valores democráticos, para a valorização dos Direitos humanos, para o respeito pelos princípios do Estado de direito. Deve fazê-lo através da sua contribuição e empenhamento no seio das instituições internacionais dedicadas à promoção desses valores. Mas seria totalmente despropositado e desadequado à sua dimensão como país que isso fosse executado no plano bilateral. 

Percebo que possa ser mais cómodo não assumir algumas verdades. Mas nem pelo facto de as não assumirmos elas deixam de o ser. 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Negócios")

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Shimon Peres


Morreu Shimon Peres, uma figura histórica de Israel, de que viria a tornar-se um dos rostos mais conhecidos no mundo. Com o radicalismo a tomar conta da política governamental israelita, a moderação e o sentido de equilíbrio de Peres, bem como o seu continuado empenhamento no processo de paz com os palestinos, converteram-no numa das vozes israelitas mais escutadas no exterior. Peres desaparece sem ter visto qualquer paz implantada de forma sustentada entre Israel e a Palestina, num tempo em que a vizinhança do Médio Oriente está a ferro e fogo. Nunca chegou a primeiro ministro do seu país, mas teve sucesso como ministro dos Negócios Estrangeiros e ascendeu no fim da vida à chefia do Estado.

Nunca esqueci uma noite em Nova Iorque, em 2002, num jantar para o qual uma associação judaica de amizade EUA-Israel convidara alguns embaixadores. Recordo bem o pesado e incomodado silêncio - e os olhares reprovadores trocados entre os meus companheiros de mesa - quando Shimon Peres defendeu, com vigor, a necessidade de cedências para obtenção da paz com os palestinos. A embaraçante escassez de palmas no final do seu discurso mostrava que os falcões da diáspora eram "mais papistas do que o papa", talvez por ser cómodo defender a guerra por fronteiras impossíveis quando se vive no conforto de Manhattan.

Peres havia-me recebido no seu gabinete de ministro, em Jerusalém, em novembro de 1995. Eu era o "junior minister" dos Negócios Estrangeiros que acompanhava Mário Soares na sua última visita presidencial ao exterior. A meu pedido, o nosso embaixador, Paulo Barbosa, organizara esse encontro. Foi uma conversa muito interessante, na qual Peres me deu a sua leitura sobre o "estado da arte" dos vários "tracks" do processo negocial. Recordo-me as questões que me colocou para tentar perceber se o novo governo português, que tomara posse uma semana antes, pretendia introduzir mudanças no relacionamento de Portugal com Israel. 

O governo israelita não gostara, e fizera-o saber, que nessa visita eu tivesse decidido visitar a "Orient House", o ponto de contacto com os palestinos, em Jerusalém Oriental. Ainda tentaram dissuadir o nosso embaixador dessa iniciativa, mas eu havia recusado liminarmente cancelar a visita.

Peres foi agradável durante essa conversa comigo. Falou bastante da sua longa amizade com Mário Soares, tendo-lhe eu contado que, por coincidência, 17 anos antes, fora o primeiro diplomata português a deslocar-se em trabalho a Israel, num tempo em que Lisboa ainda cultivava grandes distâncias políticas face a Israel. Riu-se quando lhe referi que passara então duas horas no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, a ter de explicar o carimbos de anteriores visitas à Líbia. "E deixaram-no entrar? Devia ter usado outro passaporte".

Dois dias mais tarde, estive com Peres no almoço que o primeiro-ministro Yitzhak Rabin ofereceu a Mário Soares, na sua residência em Jerusalém. Poucas horas depois, Rabin seria assassinado e seria a Peres, no funeral a que Soares e eu nos deslocáramos do Cairo, que eu iria apresentar as condolências enviadas enviadas por António Guterres.

Há dias, em Kiev, num fórum estratégico em que participei, foi feita uma homenagem a Shimon Peres, prenunciando já a sua próxima morte. Notei a genuinidade com que os participantes lhe tributaram o seu respeito. Pode parecer uma banalidade dizê-lo, mas figuras como Shimon Peres fazem falta ao mundo internacional.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

David contra Guterres

Ontem, numa SMS trocada com um jornalista, escrevi: "há qualquer coisa fácil demais neste processo que me inquieta". Referia-me à acumulação de sinais positivos em torno da candidatura de António Guterres. Estava-me a parecer que quem se lhe opõe não iria ficar de braços cruzados perante a fantástica cavalgada vencedora que o candidato português estava a fazer, no quadro das votações indicativas no Conselho de Segurança. Quem me lê por aqui e por outros locais testemunhará que fui sempre muito prudente na consideração das hipóteses de Guterres, muito embora concordasse que a expressividade do seu destaque perante os seus adversários estava a tornar cada vez mais difícil que o jogo "fosse virado". Mas foi, como a emergência, agora anunciada, de Kristalina Georgieva, bem o prova.

O jogo volta à quadra inicial? Não volta. As votações em Guterres são um "património" muito importante e vai ser difícil revertê-lo. Mas a vice-presidente da Comissão Europeia, apoiada por setores importantes do Partido Popular Europeu, não sairia a terreiro se não tivesse as "costas quentes" e se não fossem minimamente fortes as perspetivas em que a sua ambição se apoia. Angela Merkel e Jean-Claude Junker, figuras cimeiras do PPE europeu - clube político onde também está o portuguesíssimo PSD - são os grande promotores da cartada Georgieva, que se diz que se terá voluntariado a este papel sob a promessa de, em caso de derrota, vir ser a candidata da Alemanha uma eventual sucessão de Junker na Comissão Europeia.

No dia 4 de outubro, quando o P5, os membros permanentes do Conselho de Segurança, tiverem de mostrar as cartas, isto é, revelarem quem vetam, tudo ficará mais claro. Veremos se terão a "lata" de afastar o candidato cuja qualidade relativa ficou bem patente neste processo, cuja transparência acabou por prejudicar os "trade-off" que tradicionalmente eram a regra do jogo. 

Nesse dia, verificaremos se David ganhou a Guterres. Refiro-me a Mário David, o antigo secretário de Estado do PSD que se sabe ser um dos "operadores" da candidatura de Georgieva, sob o impulso do governo húngaro desse expoente da democracia que é Viktor Órban. Claro que ninguém é obrigado, por mero patriotismo, a apoiar António Guterres. Mas parece poder haver alguma esquizofrenia no seio do PSD quanto a este assunto, que ganharia em ser de imediato clarificada: a linha oficial do partido afirma defender a candidatura portuguesa e um dos seus homens de mão no seio do PPE trabalha por Georgieva. Onde ficamos?

1968


Eu tinha vinte anos, nesse final de Setembro de 1968, naquela noite em que, em casa de um familiar, de passagem por Vila Real, vi na televisão um emocionado Américo Tomaz anunciar que ia substituir Salazar por Marcelo Caetano. Não esqueço aquele instante, que pressentia ir ser uma esquina da nossa história política.

Aquele iria ser o último dia de várias semanas em que o poder político da ditadura mostrara, finalmente, que era humano, frágil e suscetível de ser abalado pela saúde do ditador. O país viu-se "voyeur" da luta pelo poder que se sabia estar a ser travada, espreitando, com a curiosidade de quem nada tem a ver com o seu próprio futuro, a coreografia dos dignitários da "situação", da antecâmara do Conselho de Estado às visitas ao hospital da Cruz Vermelha, onde Salazar estava internado. Uma novela que a televisão nos trazia todas as noites (a televisão de então "abria" ao final da tarde), no preto-e-branco da imagem do país político de então.

Um amigo de casa dos meus pais, que assinara as listas do MUD e, anos mais tarde, viria a assustar-se com o 25 de abril, mostrava-se francamente desiludido. Durante anos, tinha proclamado que "gostava que Salazar não morresse na cama" e, agora, isso não iria acontecer. 

Tal como no Totobola, que era então o casino dos pobres, o país fazia vaticínios. "Fala-se muito do Adriano Moreira", diziam uns. "Não, os ultras querem o Antunes Varela, porque o Adriano teve um conflito com o Venâncio Deslandes. Os militares não deixam". Outros interrogavam-se: "E o Caetano? Diz-se que tem as suas "tropas" bem colocadas". O ceticismo opunha-se: "Talvez, mas o episódio da crise académica de 62 pode ter-lhe sido fatal".

Acabou por não ser. Marcelo seria mesmo o escolhido. Fez um discurso de "sim, mas", onde se adivinhava o compromisso que tinha feito com Tomaz e que, no essencial, passava por um imobilismo "de facto" na questão colonial. E daí derivava a "necessidade" da continuidade da ditadura, onde a "primavera política" anunciada por Gonçalves Rapazote, na posse da nova revoada de Governadores Civis, foi uma mera flor de retórica.

Poucos meses depois, a lista associativa universitária em que eu fora eleito acabaria por ser "não homologada" pelo ministro da Educação, o divulgador da História em historietas, José Hermano Saraiva, tio do agora "infamous" José António Saraiva. A vontade democrática, no Estado Novo, estava subordinada ao arbítrio e "old habits die hard". Só o 25 de abril os "convenceu". Não tendo sido possível fazer as coisas através das "armas da crítica", não restou outra solução que não fosse a "crítica pelas armas", para usar conceitos consagrados por um economista alemão cujo nome me está a escapar.

"Eu tinha vinte anos. Não consentirei que alguém diga que é a idade mais bela da vida", afirmou um dia Paul Nizan. Tinha razão, ter vinte anos é ter uma idade como qualquer outra. Mas esse ano de 1968, em que eu tinha vinte anos, seria o ano do maio parisiense, do esmagamento da "primavera de Praga" e do massacre estudantil no México. Por essas e muitas outras razões, não seria um ano igual aos outros. Pelo menos para mim.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

País abafado

Liga-se os canais da dita informação ou os noticiários generalistas e é só futebol, mais futebol e futebol! São horas de treinadores, de imagens de estádios, de camionetas a caminho dos ditos. Depois serão balanços, especialistas, o público cachecolado, jogadores a repetir como sua a linguagem da Bola, do Record ou do Jogo. Ah! E, pelo meio, há os jogos, claro, pretexto para tudo. 

Em que raio de país nos transformámos?! Saberão os portugueses que não há nenhum país no mundo onde as coisas se passem desta forma?! NENHUM!

Europa a dois tons


Estive ontem, sucessivamente, em dois exercícios "europeus".

O primeiro, de âmbito "luso-português". Coube-me coordenar um debate, à porta fechada (e sob a "Chatham House rule", isto é, podendo revelar-se o que se tratou, mas não podendo atribuir-se nominalmente as ideias expressas), com quinze especialistas nacionais, oriundos de diversas áreas. Tratava-se de preparar um documento com perspetivas portuguesas sobre o futuro da Europa, para integrarem um exercício intitulado "New Pact for Europe", organizado por várias fundações europeias.

Não obstante a heterogeneidade dos intervenientes, foi muito interessante constatar uma larga convergência de perspetivas, quer no diagonóstico da situação que atravessamos, quer nalgumas das principais perspetivas para o futuro. Não vou aqui elaborar sobre isto, a montante da síntese que outros têm a seu cargo, mas devo dizer que fiquei impressionado pela maturidade e pragmatismo do que foi dito. Sente-se a existência de um pensamento português sobre a Europa, já muito longe da agenda "paroquial" que fez escola por muito tempo.

O segundo exercício foi bastante diferente. Tratava-se de uma intervenção, num "mano-a-mano" com José Manuel Félix-Ribeiro, sobre geopolítica global, no meu caso competindo-me falar sobre a evolução do quadro dos "global players" nas últimas décadas. A audiência eram estudantes estrangeiros, na grande maioria europeus, pelo que a "questão europeia" acabou por ser o centro do debate, por quase uma hora. Foi curioso perceber as suas diferentes prioridades e preocupações, mas todos com uma agenda muito pertinente. 

A Europa mudou muito, desde os tempos em que me ocupava todos os dias. Faz-me bem "revisitá-la" nestas tarefas pontuais. Porque, qualquer que venha a ser o seu futuro, ele será sempre o nosso.

O debate


Trump perdeu? Não sei. Aos olhos dos seus potenciais votantes aquele estilo é adequado, a vacuidade do seu discurso não é punível. Clinton ganhou? Claro que teve uma melhor "performance", numa perspetiva racional e objetiva. Mas, este ano, nas eleições americanas, a racionalidade não parece ir ser o fator decisivo. Saí preocupado do debate.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Guterres

António Guterres teve um excelente resultado na votação de hoje nas NU.

O facto dos seus imediatos "perseguidores" não se terem aproximado pode ter inviabilizado o surgimento de Kristalina Georgieva, como candidata de desempate - com a "vantagem" de ser mulher e de Leste.

Este modelo de escolha do novo SG acabou por favorecer a emergência da "qualidade", em detrimento de outros critérios. Isto parece tornar muito difícil, com risco de se tornar num escândalo, uma reversão drástica da tendência sustentada que favorece o candidato português.

Mas nunca confiar...

Embaraços socialistas


Duas semanas fora do país, olhando-o apenas através do iPad, têm a desvantagem de reduzir o quotidiano político às caricaturas dos "faits" mais ou menos "divers".

Saí de Portugal com o livro de revelações de Fernando Lima como o "escândalo" editorial, cheguei com ele esquecido e com o volume de José António Saraiva convertido no tema de debate. Este país adora revelações, é a pátria do coscuvilho.

Para o que verdadeiramente importa, isto é, para além da espuma dos dias e do diz-que-disse, este período trouxe duas novidades. Na minha opinião, ambas embaraçantes para o Partido Socialista e incómodas para António Costa. 

A primeira tem a ver com as questões fiscais. O que Mariana Mortágua disse, em termos de substância, não deveria ser notícia, não teve o menor radicalismo, contrariamente àquilo que a desonestidade intelectual de alguma oposição quis fazer crer. O relevante nesta história foi não ser Mário Centeno a dizê-lo. 

Seja verdade ou não, o PS projeta a imagem de estar, em certas temáticas, a reboque do Bloco. Mais do que se saber se isso é ou não verdade, preocupa-me que o PS não perceba que isso afeta fortemente a sua reputação internacional - e, com isso, a sua credibilidade europeia, com reflexos em termos negociais. 

Ainda neste plano, o que está a passar-se com a instabilidade fiscal em que o país continua a viver é também inquietante. Eu sei que os constrangimentos europeus transformam a variável fiscal num instrumento apetecível. Mas o governo tem, de uma vez por todas, de decidir sobre se quer dar de Portugal a imagem de um país "investment friendly" ou de um catavento fiscal. É que o nosso futuro passa por aqui.

A segunda novidade embaraçante chama-se José Sócrates.

É uma evidência que uma parte do PS nunca aceitou bem a linha imposta por António Costa, no sentido de "separação de águas", no tocante ao "caso Sócrates". Há quem seja mais sensível ao lamentável comportamento da justiça que ao país saiu em rifa e, acreditando ou não na inocência de Sócrates, considere que o PS deveria não se excluir da condenação do espetáculo vergonhoso que é o indefinido protelamento de uma decisão sobre o assunto, manchado por cirúrgicas quebras deliberadas do segredo de justiça, em conluio com uma comunicação social sem qualquer ética.

E há quem, como julgo deva ser o caso de António Costa - e qualquer que possa ser a sua íntima convicção sobre a eventual culpabilidade de Sócrates -, entenda que não teria sentido amarrar o destino do PS a este caso, poluindo indevidamente a vida política com um caso de justiça, que projetaria uma imagem de ingerência num múnus institucional específico. Eu estou de acordo com esta perspetiva.

Dito isto, percebe-se a estratégia de José Sócrates. É uma aposta na mobilização de uma parte do país - que, contudo, creio menor do que ele julga que é - que conserva uma imagem positiva da sua governação, e que está profundamente escandalizada pelo comportamento dos agentes da justiça. Ao fazê-la, para reforço da sua posição, Sócrates, optou também por atacar diretamente a direção do partido, por alegada falta de solidariedade. José Sócrates sabe bem que, entrando por aí, está a fazer correr um risco grave aos socialistas. E, porque o faz na prossecução de uma agenda que é eminentemente pessoal (embora ele entenda que é muito mais do que isso), deve estar preparado para que a direção socialista venha a reagir, a seu tempo, à altura do desafio. E mais não digo.

São estes os mais recentes embaraços para o PS e para António Costa.

domingo, 25 de setembro de 2016

Saraiva


José António Saraiva contou em livro algumas conversas com políticos. Hoje, apetece-me contar uma conversa minha com Saraiva.

Um dia de 2002, o "Expresso" trouxe, na primeira página, uma versão falsa sobre uma questão que me dizia pessoalmente respeito. Com ela se pretendia "branquear" uma patifaria política que tinham acabado de me fazer na minha vida profissional.

Telefonei a José António Saraiva e dei-lhe conta, com pormenores, da verdade incontroversa dos factos. Saraiva disse-me ter sido o principal responsável pela notícia e, em especial, pelo seu título enganador. Pareceu-me ter percebido que havia sido enganado por quem o tinha informado: "Foi uma muito alta fonte do governo que me passou a informação dessa forma". Eu presumia. Na semana seguinte, o "Expresso" viria a corrigir o tiro.  

Os governantes, às vezes, também mentiam a José António Saraiva. Contrariamente a ele, eu não guardo apontamentos de conversas, mas tenho boa memória.

João Cravinho


O meu querido amigo João Cravinho fez 80 anos, segundo consta. Um imenso grupo dos muitos amigos e admiradores que tem oferece-lhe hoje um almoço.

Deixo o texto que escrevi para o livro que hoje é editado em sua homenagem:


Um rapaz do meu tempo

Esta ideia de que o João Cravinho é 12 anos mais velho do que eu é apenas uma insuportável sujeição ao calendário, sem a menor aderência a realidade objetiva das coisas. Sempre vi o João como « um rapaz do meu tempo », mesmo que a expressão seja já de outro tempo. Por isso, os seus ditos 80 anos impressionam-me muito pouco.

Lembro-me – ele não se lembra, claro – de me ter cruzado com o João nos idos de 74, naqueles corredores, entre fardas e guedelhas, onde se construía uma confusa esperança, com alegria, ingenuidade e, vá lá !, confessemos, alguma irresponsabilidade. Ele era ou viria a ser « quase ministro », eu andava por ali a exercitar a política que tinha lido, absolvido nos erros pela boa intenção de ajudar a desenhar uma alternativa feliz à ditadura. Um dia, a vida levou-me para fora e, por muito tempo, perdi o João de vista, de quem ia ouvindo falar – sempre bem, com respeito e admiração. Só mais tarde, a « mesa dois » do bar Procópio, sob o humor ímpar do Nuno Brederode, nos voltaria a juntar, em largas e divertidas charlas. Finalmente, numa tarde quente de outubro de 1995, assobiando o Vangelis, entrámos ambos para essa aventura simpática que foi o governo de António Guterres. Já amigos, passámos a conhecer-nos melhor, com ele a tratar-me por um eterno « meu caro Francisco ».

Foi então que « aprendi » o João Cravinho. Podem crer que foi « um espetáculo » poder observar um ministro criativo, ousado, muitas vezes polémico, sempre teimoso, coerente, sólido como uma rocha, olhando dossiês técnicos com a vivacidade de um adolescente brilhante, mostrando-nos a modernidade de um olhar singular sobre a política. Posso confessar um segredo ? Foi ao ter o privilégio de assistir a algumas « performances » do João em Conselho de ministros que eu verdadeiramente entendi o que podia significar, em certas áreas especializadas, uma política « de esquerda » – sem chavões ideológicos, mas com um pragmatismo de onde nunca estava distante a solidariedade e a discriminação positiva para quem dela necessitava.

O que sempre me impressionou no João Cravinho foi a sua abertura ao contraditório, atitude de onde me pareceu, aliás, que retirava imenso gozo, porque isso lhe permitia exercitar a dialética, onde a firmeza dos seus argumentos melhor brilhava. Vi-o em confrontos complexos, em que aquele seu eterno sorriso, às vezes gargalhante, irritava, não raras vezes, o interlocutor. Mas pude apreciar e beneficiar da sua abertura a ideias diferentes, que sempre explorava com benevolência e simpatia. É talvez por isso que nunca o vi com uma « idade » diferente da minha.

Uma tarde, fui confrontado com um João Cravinho inesperado, de cuja cara desaparecera o sorriso para dar espaço quase às lágrimas. Foi numa evocação do embaixador Ruy Teixeira Guerra, nas Necessidades. O João não tinha esquecido, e lembrava isso com emoção, a mão amiga que lhe tinha sido por ele estendida, creio que num momento difícil de vida. Marcou-me muito esse momento e « esse » João Cravinho.

O João faz 80 anos ? Pois isso ! Ele que espere agora pelos meus 80, para comemorarmos a idade comum da esperança, que será sempre a daqueles que acreditam que a vida coletiva pode ser vivida de outro modo, mais solidário e mais justo.

sábado, 24 de setembro de 2016

O rolo



Aquela imagem ficou-me na cabeça. Dois carros parados, na estrada entre a Barra do Quanza e Cabo Ledo, a Sul de Luanda, pedindo, aos poucos que paravam, um cabo emprestado para rebocar um deles. Nenhum de nós tinha um cabo. A noite caía e eu imaginava o que poderia significar deixar por ali um dos carros até ao dia seguinte. E pensei: e se um dia me acontece o mesmo? Como é que vou levar o meu carro para Luanda? Tenho de arranjar um cabo!

Contudo, isso era mais fácil de imaginar do que realizar. Nessa Angola dos anos 80, as lojas estavam desertas, quase tudo tinha de ser importado pessoalmente. O pouco que aparecia à venda surgia de uma forma errática, às vezes só por horas, sob uma lógica de oferta comercial impenetrável: buchas plásticas para parafusos, blocos de papel almaço, porcas metálicas de um único modelo e coisas assim, sem o menor critério. Eram quase sempre coisas baratas, mas que fazer com elas?

Com a ideia do cabo "rebocador" na cabeça há várias semanas, dei-me um dia conta de que uma montra pela qual passava numa rua de Luanda, habitualmente vazia, mostrava algo que me parecia ser corda. Travei o carro e, perante a incredulidade da minha mulher, disse: "Parece-me que há ali corda à venda". Devo ter dito "parece que está a sair corda", porque essa era a expressão consagrada pelos tempos.

Entrei na loja, olhei para os três imensos rolos de corda que estavam por ali e exultei quando o empregado me disse que, de facto, estavam "a vender corda". Disse que queria uns 7 ou 8 metros, que avaliei suficientes para poder improvisar dali um cabo rebocador. "Não podemos, camarada!" ("Camarada" era o tratamento ritual de regra). Mau! Então a corda estava à venda e não podiam vender? O mistério esclareceu-se logo: só podiam vender o rolo inteiro.

Mas para que é que queria um rolo imenso de corda, com dezenas de metros, um peso brutal e grande dimensão? O preço era uma ridicularia. Perguntei se podia ficar só com dez metros, pagando a totalidade e deixando o resto para a loja. Os olhos do empregado sorriram de antecipada felicidade, logo interrompida pela constatação: "Loja não tem faca, camarada!".

Recordo o olhar espantado da minha mulher quando comecei a rebater o banco de trás do Golf e viu aproximarem-se quatro empregados, carregando um rolo imenso de corda. Um espanto só equivalente ao "sucesso" que fez a entrada do mesmo rolo na embaixada, para o que foi necessário mobilizar a boa vontade de alguns funcionários, impressionados pelos "bons contactos" que seguramente tinham facilitado aquela aquisição.

Cortei a corda necessária para o meu cabo e coloquei o resto do imenso rolo num anexo ao meu gabinete. A notícia da insólita compra correu a embaixada e tive de fazer "visitas guiadas" ao objeto. Todos invejavam a minha compra mas, quando perguntados se queriam alguns metros de corda, ninguém avançava, talvez porque não fosse evidente a sua utilidade. Mas se precisassem...

Um dia, quase um ano depois, fui transferido para Lisboa. Na relativa confusão da partida, esqueci-me da existência do rolo de corda, o qual, de qualquer forma, sempre ficaria para trás. Passaram, entretanto, uns meses. Uma tarde, em Bruxelas, regressado de uma reunião desses primeiros tempos das instituições europeias, tinha um recado de Lisboa: era um colega que me informava que telefonara de Luanda o "senhor António", com um assunto urgente. O "senhor António"? Seria um dos contínuos da embaixada? O que quereria?

Chegado a Lisboa, no dia seguinte, falei para Luanda, para a embaixada e pedi para falar com o senhor António. Ouvia-se muito mal. Tinha sido de ele, de facto. Algum problema? Era o rolo de corda!

O rolo de corda?! O que é que havia com o rolo de corda? Havia uma "grande confusão" com o rolo, que eu tinha lá deixado. "O senhor doutor lembra-se que, no dia da sua partida para Lisboa, lhe pedi o rolo e me disse que podia ficar com ele?" Não me lembrava, mas imagino bem que o pudesse ter feito. Mas qual era o problema? "É que o Toni diz que o rolo é de todos e quer tirar uns metros!" O Toni era um motorista. "Anda aqui uma grande maka por causa do rolo!"

Decidi seguir a regra africana da prioridade ao "mais velho" e confirmar (?) ao António, prestes a reformar-se, a minha "doação". E pedir que dissesse ao Toni, da minha parte, que o rolo "tinha dono". O António ficou contentíssimo. Foi a última vez que o ouvi. Para que lhe teria servido o rolo de corda? Provavelmente para nada, mas, naqueles tempos, era preciso aproveitar tudo o que estivesse "a sair".

(O Manuel Serra pediu-me ontem para lembrar esta historieta, que um dia lhe contáramos.  Ela aqui fica.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A outra América


« Um espetro ameaça a Europa » : a possível vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas. Karl Marx usou a expressão para qualificar o medo que o comunismo estava  provocar no mundo burguês. Agora, responsáveis e analistas de setores europeus com diferente lateralização ideológica convergem no seu pânico perante a possibilidade de Trump vir a ocupar a Casa Branca. Haverá razões para tal ? Tentemos simplificar a resposta.

Em matéria de política interna, graças ao sistema de « checks and balances » que a constituição americana impõe, através da força da Câmara de Representantes e do Senado, o ocupante da Casa Branca pode ficar de mãos atadas, com grande facilidade, quando pretender executar a sua agenda política. Clinton e Obama sentiram-no na pele. Um eventual presidente Trump deverá, ainda com maior probabilidade, vir a enfrentar o mesmo problema, atento o radicalismo de algumas das suas propostas.

Porém, quem ocupa a presidência americana tem um imenso poder sobre o mundo. Goste-se ou não, os EUA determinam grande parte dos equilíbrios globais. Essa relevância reforça-se nos momentos de maior tensão, como é aquele que atravessamos. Ora o presidente americano, como « chief-in-commander » das Forças Armadas e indisputado gestor da política externa do país, tem escassas peias internas na liberdade da sua ação internacional. Por essa razão, não é indiferente, para todos os não-americanos, quem vier a ser escolhido para o lugar. E, desde logo, para os europeus.

Por muitos anos, o sistema americano produziu figuras que chegaram a Washington com o beneplácito das elites nacionais, republicanas ou democratas. Hillary Clinton, se vier a ser eleita, é uma expressão clara dessa elite. Trump não o será.

Muito de nós, ao longo dos anos, falávamos da « América profunda », desse mundo voltado para si mesmo, que caricaturávamos como ignorante, preconceituoso e cultor de um nacionalismo saloio. Vimos nascer Sarah Palin e o « Tea Party”, mas vivíamos confortados na ideia de que “essa América” nunca condicionaria, de modo decisivo, a atitude do país. No fundo, todos confiávamos que, fosse quem fosse que a América viesse a escolher, seria sempre alguém que emergeria da elite que sempre dominou Washington.

Enganámo-nos. Um dia, isto é, agora, essa América fora do “mainstream”, no seio da área conservadora, produziu um candidato a que a tal elite foi incapaz de opor uma alternativa. Alguém com um discurso errático, um “gaffeur”, com uma agenda internacional que vai do “muro” mexicano à sedução por Putin, passando pela ameaça da saída da NATO e outras bizarrias. Uma certa América cansou-se dos partidos do “mainstream” e está a impulsionar figuras fora da matriz tradicional. Não foi Sanders do lado democrata, é Trump nos republicanos.

Por isso, temos de ser realistas: os pesadelos, às vezes, também se concretizam.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Tecnologia

Há pequenas coisas que qualificam um país, que nos levam a apreciar a sua tecnologia e, através dela, a interiorizar um respeito profundo pela sua cultura industrial. Casos simples podem fazer muito por uma imagem nacional. Aqui vai um exemplo: as balanças caseiras para pesar pessoas.

Por uma coincidência de viagens muito rara, tenho andado a mudar de hotel com frequência nas últimas semanas. Nas casas de banho dos quartos dessa quase dezena de hotéis encontrei sempre dessas balanças, de marcas diferentes e, naturalmente, vou testando o meu peso. Até hoje, todas praticamente coincidem entre si, apresentando números que são um chocante (e até insultuoso) exagero. É incrível como é possível que marcas de balanças oriundas de vários países revelem estes erros de fabrico, sem que haja sido exposta, por uma aferição de qualidade, esta verdadeira fraude comercial, que, como se vê, tem uma dimensão global!

Por que razão trago o assunto aqui e agora? 

Por uma razão simples: porque acabo de me pesar numa balança sul-africana e, finalmente, tive o ensejo de experimentar um produto de indiscutível qualidade, fiel ao rigor, com a tecnologia certa. As outras balanças, ridiculamente, apresentavam quase dois quilos a mais, imaginem! 

Nunca mais quero balanças que não sejam produzidas na África do Sul!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Praxes

O ministro Manuel Heitor teve a coragem de pôr o dedo na ferida: não há más praxes nem boas praxes. A praxe é uma prática discriminatória, reveladora de uma espécie de desforço por parte de quem se quer vingar daquilo que terá sofrido no passado, instituindo uma ridícula hierarquia entre os alunos, tudo disfarçado numa falsa medida de integração. Os praxistas são, em geral, uns sadicozinhos que se aproveitam circunstancialmente de uma suposta "autoridade" etária ou similar para humilharem os outros. Há alunos que gostam de ser praxados? Claro que sim, como há quem deseje masoquistamente ser açoitado ou humilhado, o que, as mais das vezes, justificaria uma oportuna consulta psiquiátrica.

Um dia, quando era presidente do Conselho Geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, suscitei nesse âmbito a questão das praxes. Apenas um professor levantou a sua voz para apoiar o meu repúdio sobre aquela prática. Vou ser muito claro: as praxes persistem, não porque sejam inevitáveis (hoje, só existem em Portugal e Espanha, estando proibidas no mundo civilizado, de que assim nos auto-excluímos), mas porque há uma muito generalizada cobardia por parte das autoridades universitárias, extensiva a muitos professores, que não querem passar pelo incómodo de "comprar uma guerra" com os estudantes. Bastaria ter o bom senso de incluir nos regulamentos universitários a proibição absoluta da praxe, assumida como gratuita violência, disruptora e punível da disciplina académica, afastando liminarmente das universidades os estudantes comprovadamente envolvidos na sua organização (começando por interditar a sua prática dentro das instalações) e, em poucos anos, podem crer, as praxes desapareceriam. É que os energúmenos que se dedicam a esses vícios de autoritarismo cedo acabariam por verificar que seus títulos de "dux veteranorum", e outras designações ridículas de corruptelas latinas, lhes serviriam de muito pouco quando tentassem arranjar trabalho sem qualquer diploma.

Manuel Heitor, ministro da Ciência e do Ensino Superior, pessoa que praticamente não conheço, é alguém que honra o exercício da política neste país.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A torneira


Aquele pequeno apartamento no edifício da nossa embaixada em Angola, na rua Karl Marx (antes fora Vasco da Gama, agora é avenida de Portugal), nunca tinha sido ocupado por ninguém, desde que, depois da independência, fora adquirido à pressa, para instalar os escritórios e alojar alguns funcionários e as suas famílias. 

Contra a minha vontade, depois de esgotadas outras soluções e de quatro incómodos meses de hotel, fui obrigado a ir viver para ali. Poupo os pormenores sobre o épico que foi montar uma casa nesse atribulado período da vida angolana. Imensas coisas por ali não funcionavam, outras resistiam a fazê-lo. 

A mais misteriosa peça da casa era, contudo, uma luzidia torneira da cozinha, de onde, por muitos esforços que se fizessem, não se conseguia extrair uma única gota de água. Os especialistas rareavam em Luanda, mas lá se conseguiu desencantar um canalizador que, depois de aturada reflexão, decretou que era preciso "arrebentar" com a parede, para tentar perceber o enigma. Eu olhava já com carinho os banais azulejos que revestiam a cozinha, cuja possibilidade de substituição não era evidente, num tempo extremo de penúria de materiais. Mas acabei por dar luz verde à operação.

Foi então que o canalizador, ao tentar retirar a torneira para desobstrução do cano, se deu conta de uma trágica realidade: a torneira estava cimentada - isso mesmo, cimentada! - à parede. E, surpresa das surpresas, por detrás dela ... não havia qualquer cano! Assim se percebia melhor por que razão não havia por ali qualquer vestígio de água. O desonesto "pato bravo" lusitano que concluíra as obras, antes de se pisgar para o "puto", atamancara os trabalhos e quem viesse atrás que fechasse a porta... 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os "Guedais"


Era assim que, carinhosamente, em família, nos quatro anos que vivi em Luanda, nos anos 80 donséculo passado, tratávamos os três primos lisboetas que, creio que de três em três meses, aí se revezavam, para assegurar a gestão local da Guedal, uma empresa de representação de comércio automóvel. Ele eram o Sérgio Guedes de Sousa, o José António Arantes Pedroso e o Vasco Correa Mendes. Os dois primeiros já desapareceram. O seu pouso angolano era um amplo apartamento, com um grande terraço, na rua da Missão, muito próximo dos dois locais onde vivi na capital angolana: o Hotel Trópico e um apartamento que vim a ocupar no "compound" da embaixada.

Só quem conheceu a dureza da vida em Luanda, nesse tempo de conflito militar e desoladora penúria de comércio e serviços, poderá avaliar o que foi a "bênção" de poder dispor da imensa generosidade desses três amigos, que, com frequência, nos chamavam para sua casa, para divertidas jantaradas e, nos fins de semana, organizavam caravanas a Cabo Ledo. 

Cada um desses três primos desenhava, curiosamente, um estilo diferente de vida social, durante as suas estadas. Se havia gente sempre comum (e nós, afortunadamente, pertencíamos a esse "núcleo duro", com várias outras pessoas, de que a mais animada era sempre a Ana Poppe), muitos outros convidados variavam nesses ciclos, o que coloria e diversificava os vários eventos. Comum era também a presença risonha do Manuel Guterres, um minhoto de Seixas, funcionário da Guedal, um operacional indispensável dessas ocasiões. 

Naquela casa havia um pouco de tudo, desde a zona da sala, cheia de sofás, onde passavam filmes, clássicos ou novidades, que cada um ia trazendo, fruto de encomendas ou visitas à Europa, até ao terraço sobre a baía, com mesas recheadas de vitualhas, que surgiam sabe-se lá de onde, que nos alimentavam conversas intermináveis ou relatos de episódios desse estranho mundo angolano de então. Ah! e música, com bailes improvisados que duravam até à meia-noite (a "Cinderela time" do recolher obrigatório) ou, passada esta, nos "forçava" a ficar por ali, a charlar e bebericar, pelo menos até às cinco da manhã.

Nesta minha visita a Luanda, passei em frente àquele prédio e senti uma imensa gratidão pelo gesto daqueles que, por simples amizade e simpatia, muito nos ajudaram a atravessar, com ímpar generosidade, esses tempos que só a passagem dos anos suavizou, decantando para a nossa memória afetiva apenas essas coisas boas que a sorte quis que nos acontecessem.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ajuda


O meu colega e amigo Luís Castro Mendes, ministro da Cultura, que transitou entre dois palácios que são a verdadeira cara do país que temos - das Necessidades para a Ajuda -, lançou mãos à obra do "fechamento" do Palácio desta última. Que todos os anjos e querubins o protejam na consecução da empresa. Se a "geringonça" tiver conseguido tornar irreversível o completamento daquela "santa ingrácia", eu voluntario-me para ir ao primeiro comício da história dos Verdes...

O "Expresso" publicou ontem a "solução" arquitetónica encontrada. Devo dizer, com franqueza, que me é quase indiferente, desde que se acabe, de uma vez por todas, com a vergonha daquilo que lá está. A imagem é, creio, elucidativa.

É claro que, agora, vão aparecer os "espertos", os que queriam um "fechamento" mais clássico, os que iam para o vidro e outros materiais, os que acham que a maquete parece a sede da Caixa Geral de Depósitos, etc. Vai ser um fartote de debate. Até eu, se calhar, vou meter a minha colherada, achando que o que ficava bem era atirar abaixo aqueles proto-arcos e proto-janelas, abrindo por completo o pátio a poente - solução barata e rápida, mas que imagino que deve arrepiar os puristas, os quais, no entanto, viveram toda a sua vida serenos com aquela vergonha!

Não ligues, Luís! Faz o que quiseres, mas acaba de vez com aquilo que lá está!


Darocha

Um dia, quando era embaixador em França, fui a Arras para uma exposição que envolvia artistas portugueses. Um deles, pintor, um pouco mais velho do que eu, perguntou-me: "O nome de Alberto Couto diz-lhe alguma coisa?" Claro que dizia! Era um grande amigo do meu pai, como ele oriundo de Viana do Castelo, cuja morte prematura muito o entristecera. "Pois eu sou filho do Alberto Couto!", disse-me o pintor. 

Chamava-se José Luís Páris Couto da Rocha, mas, ao longo da sua carreira como pintor, utilizou vários nomes, do qual o mais conhecido será Luiz Darocha, que muito o identificava em França, onde já vivia há mais de meio século.

Semanas mais tarde, convidei-o, com a mulher, para almoçar na embaixada. Foi a última vez que nos vimos. Curiosamente, trocámos emails, há precisamente um ano, com fotografias dos nossos pais. Num deles, ele escrevia isto, já com a língua francesa a marcar o seu português: "Não tenho ideia de quando volto a Portugal. Nesse caso talvez houvesse um momento para trocarmos boas palavras. Se vier a Paris também poderíamos nos ver." Nem ele voltou, nem eu tive ocasião de o voltar a ver, das vezes que, entretanto, estive em Paris. Morreu há uma semana.

Aqui deixo a sua fotografia e a reprodução de um quadro seu que está em Serralves.



Guias turísticos

Se há coisa em que não me importo de gastar algum dinheiro é na compra de um guia sobre uma cidade que visite pela primeira vez. Tenho sempre o sentimento de que por ali está um repositório dos locais de interesse a ver, uma ajuda para que não percamos tempo e locais importantes. Temo sempre que a "poupança" em não adquirir o guia me faça correr o risco de perder algo essencial. E, muitas vezes, a probabilidade de voltar a certos países é muito reduzida, como é o caso da Ucrânia, onde me encontro agora.

Não há nada de mais "ideológico" de que um guia turístico. A impressão que ele nos transmite sobre os países que visitamos é essencial para formatar a nossa opinião sobre ele. Para o bem e para o mal.

Quando vivi em Londres, decidi adquirir todos os vários guias publicados sobre Portugal e verifiquei que, por erro, omissão ou preconceito deliberado, algumas narrativas sobre o nosso país eram incorretas, marcadas por uma visão paternalista e, frequentemente, com dados factuais errados. Foi a correção destes últimos que utilizei como pretexto para escrever a cada uma das editoras, propondo-lhes uma colaboração da embaixada para revisão das suas próximas edições. Creio que todas aceitaram e, naturalmente, aproveitei para lhes propor, além dos dados de facto, textos alternativos sobre diversos capítulos. Algumas foram sensíveis à "revisão" dessa parte mais substantiva, outras perceberam a nossa intenção e reservaram a sua liberdade de opinião. Em particular, era a História e a vida social, tal como a arte e literatura, que mais nos interessava "corrigir". Alguma coisa se avançou.

Os guias sobre um país são, muitas vezes, escritos por quem dele tem uma visão distante, uma informação acumulada de várias fontes. Nas sucessivas edições não há, em geral, o cuidado de proceder a atualizaçōes e, na maioria dos casos, fica a sensação de que o responsável pelo texto se baseia em "informadores" locais, que impõem as suas escolhas. (Há um bom teste para a qualidade de um guia: ler nele algo que conheçamos bem). E quanto menos conhecido é o país, mais as versões deturpadas sobre a sua realidade podem perdurar. É mesmo famoso o caso de um guia escrito sobre um pequeno país latino-americano que terá sido elaborado por alguém que nunca o visitou. Com a internet, tudo hoje é possível.

Porém, o guia que comprei aqui em Kiev não era desses. É uma belíssima edição nacional, bastante barata, muito bem escrita, num excelente inglês. 

Ao comprá-lo, logo após a chegada, lembrei-me de um guia sobre Ialta que adquiri quando fui à Crimeia em 1980. Chamava-se "Greater Ialta", era razoavelmente ilustrado para a época e tinha a curiosidade de nos chamar a atenção para zonas da periferia da cidade... onde era proibido deslocarmo-nos! Os textos eram num estilo gongórico-soviético, que descreviam o mundo local de então como "o sol da terra", para usar uma expressão consagrada.

Voltando ao guia de Kiev que agora adquiri, é muito interessante analisar nele o modo como é feita referência ao período comunista, as ironias sobre as motivaçōes ideológicas de certos estilos arquitetónicos, sobre valores culturais que entretanto foram abandonados e rejeitados e, muito em especial nos textos históricos, o esforçado sublinhar, em detrimento até de algum rigor, das pulsões independentistas ucranianas. 

Os guias turísticos, repito, podem ser muito ideológicos, mesmo que, à partida, aparentem não o serem.

sábado, 17 de setembro de 2016

Coscuvilhices


Alguém a quem determinadas informações foram prestadas, numa conversa discreta, terá o direito, mesmo que muitos anos depois, de vir a público revelá-las, sabendo claramente que, com isso, quebrou a confiança que foi posta em si? E, em especial, se a revelação dessas conversas vier a afetar a imagem de pessoas, vivas ou já desaparecidas, será eticamente aceitável publicar - nas redes sociais, na imprensa ou em livro - tais dados? A resposta parece evidente para toda a gente, mas, aparentemente, para alguns, não o é.

Todos nós, uns mais do que outros, somos depositários de alguns segredos que nos confiaram, ou de episódios delicados que testemunhámos, em contexto profissional, com a segurança ética de que nunca os tornaríamos públicos, em moldes que possam prejudicar alguém. Na vida política e diplomática, como é natural, muitas coisas se sabem, desde questões correntes a algumas histórias de alcova. A regra a seguir é muito simples: para além do "bom gosto" nos temas a abordar, daquilo a que assistimos ou nos foi dito em confidência, só pode ser divulgado o que não afete o interesse do Estado ou, ainda que minimamente, a imagem das pessoas envolvidas ou mencionadas. Nem mais, nem menos.

Não conheço ainda um livro que se anuncia trazer umas dessas historietas de "diz-que-diz-se". A confirmar-se que insere algumas revelações que já foram indiciadas, esse "tablóide encadernado" deverá ser exposto ao opróbrio público. Se não foi possível evitá-lo, ao menos que sirva de mau exemplo. Mas, quando não há vergonha, não há remédio.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Dominique Strauss-Kahn

Tenho à minha frente, num painel de debate sobre o futuro do euro, Dominique Strauss-Kahn. É muito interessante observar o seu esforçado regresso à normalidade pública, agora como consultor económico internacional. Depois do imenso escândalo que o envolveu, que arruinou as suas ambições presidenciais em França e mudou dramaticamente a sua vida, deve ter clara consciência de que é olhado de um modo especial. E isso sente-se.

Há duas notas que gostaria de deixar sobre Strauss-Kahn.

A primeira sobre o seu trabalho à frente do FMI. Relembro o que li num editorial do "The Economist", no auge do escândalo: "Whatever the man did, do not forsake his ideas: they are more important". Quero com isto relevar o espírito novo que Dominique Strauss-Kahn soube transmitir ao FMI, o modo como conseguiu modular a rigidez e a cegueira dos números, a insensibilidade social que marcou muitos dos "ajustamentos estruturais" liderados e impostos, no passado, por esta instituição de Bretton Woods. Os "developing countries" devem ter criado muitas reticências sobre a personalidade de Strauss-Kahn, mas é uma evidência que também não esqueceram o modo como ele soube adaptar positivamente a filosofia de atuação da organização. Além disso, vale a pena também ter presente a forma como Strauss-Kahn soube impor o FMI no quadro do G20, como conseguiu reforçar substancialmente os meios financeiros ao seu dispor, contribuindo também para um mais justo posicionamento relativo dos países emergentes no processo decisório dentro do Fundo. O mandato de Strauss-Kahn dentro do FMI foi um imenso sucesso, exceto o seu fim.

Apenas uma vez, e por breves minutos, me recordo de ter falado com Strauss-Kahn, nos momentos que antecederam um almoço oferecido por Lionel Jospin a António Guterres, em Matignon, creio que em 1999. Nem faço ideia do que falámos. Durante esse almoço, teve lugar uma cena algo caricata. 

A certo momento do repasto (aliás, recordo, com excelentes vinhos), achei que deveria transmitir ao primeiro-ministro português uma informação, que me parecia poder ser-lhe útil na sequência da conversa. Eu estava à esquerda de Jospin, que tinha em frente António Guterres, o qual, por sua vez,  dava a direita a Dominique Strauss-Kahn. Gatafunhei umas notas nas costas de um menu, em que devo ter escrito qualquer coisa do estilo: "Seria importante lembrar a Jospin que..." ou "A França não pode esquecer que..." ou outros comentários do género. Era uma nota para ser lida apenas por António Guterres, porque, lembro-me, tinha elementos algo sensíveis na forma como estavam apresentados. Dobrei o menu e, a um empregado de mesa que passava, pedi que o entregasse ao primeiro-ministro português, do outro lado da mesa. O homem terá entendido menos bem o que eu disse, deu a volta à mesa e passou a minha nota a... Dominique Strauss-Kahn, que estava precisamente à minha frente. 

A conversa entre Jospin e Guterres ia animada e eu não tinha a menor possibilidade de a interromper, para dizer ao ministro da Economia e Finanças francês que a nota não lhe era dirigida, mas sim ao seu parceiro do lado. Embaraçado, gesticulei discretamente para chamar a atenção de Strauss-Kahn, o qual, no entanto, se dedicava a ler, com toda a atenção, aquilo que eu tinha escrito, em letras maiúsculas, desejavelmente "for the eyes only" do meu primeiro-ministro. O governante francês deve ter percebido o essencial do texto. Quando acabou a leitura, Strauss-Kahn olhou para mim, esboçou um sorriso e passou o papel a António Guterres. Enfim, imprudências que se cometem... Não me sinto tentado a lembrar-lhe isso hoje.

Opções militares


Não sou um especialista em assuntos militares. Tendo feito, como cidadão, o serviço militar obrigatório, mantive, a partir de então, um olhar cívico sobre a evolução da instituição, refletindo sobre o que ela representa para o país.

Considerei um erro a extinção do serviço militar obrigatório, que li como a sujeição a uma agenda - oportunista, comodista e populista - de "jotas" partidárias. Achei pena que se tivesse quebrado esse vínculo do cidadão com o seu país. Era uma "chatice", obrigava a uma disciplina de "deitar-cedo-e-cedo-erguer", conflitual com os "shots" noturnos e as horas em discotecas? Talvez, mas permitia que os jovens percebessem que não nascem "na nuvem" e que o seu sacrifício poderia vir a ser necessário para a preservação da entidade nacional em que se inseriam, tivessem ou não consciência dela.

Hoje, contudo, já não penso assim. Com a especializacão para que as Forças Armadas foram evoluindo, a reinstituição do serviço militar obrigatório representaria um esforço organizacional desproporcionado face às suas potenciais vantagens. A preservação de uma ligação dos jovens à dimensão cívica nacional deveria hoje passar por outros métodos - embora detete uma quase total falta de debate sobre isso nos meios políticos. 

Nos tempos atuais, as Forças Armadas de um país com a nossa dimensão e recursos, para além deverem sustentar valências de apoio a emergências coletivas da sociedade civil, que ajudarão à sua valorização aos olhos dos cidadãos, necessitam, cada vez mais, de concentrar a sua atividade operacional em corpos especializados, ao nível dos seus contrapartes estrangeiros. Essa é a única forma de estarem à altura dos compromissos mínimos, nos quadros de alianças de que fazemos parte e, igualmente, das solicitações para intervir em operações de manutenção de paz, determinadas por mandatos legitimados pela comunidade internacional. Num passado não muito longínquo, o nosso país ganhou imenso prestígio através do envolvimento dos seus militares nesse tipo de ações. Tudo deveria ser feito para que esse perfil fosse retomado e se reforçasse, em favor da nossa projeção externa.

Aqui se insere o tema, tornado polémico nos últimos dias, sobre as condições de treino dos Comandos, que terão conduzido à morte de soldados. Independentemente de ser absolutamente essencial que se apurem responsabilidades sobre o sucedido – e rapidamente –, convém não « deitar fora a criança com a água do banho ». Os erros corrigem-se, mas devem ser evitadas reações « a quente ».

Mas é evidente que a qualidade das nossas Forças Armadas também se afere pela competência dos seus responsáveis, nomeadamente no tocante à formação de quadros. Se essa competência não resultar evidente aos olhos dos cidadãos, é a legitimidade da própria instituição militar que fica afetada. 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

De Kiev


Vim à Ucrânia, pela primeira vez, há muitos anos, ao tempo em que era parte da União Soviética. Viajando numa baratucha excursão norueguesa, passei uma semana na Crimeia, nas praias do mar Negro, com a curiosidade acrescida de poder sentir, com os meus próprios olhos, o ambiente do palácio de Livadia, onde, em 1945, muito do destino que o mundo de hoje ainda anda a viver foi desenhado pelas conversas entre Stalin, Churchill e Roosevelt. Sem autorização para sair da cidade mais do que alguns poucos quilómetros, quase sem ter acesso a lojas e com escassos pontos turísticos acessíveis, pouco havia para fazer nessa estranha vilegiatura, numa cidade que já fora deslumbrante e que então sofria de uma decadência sem graça.

Uma tarde, passeando em Ialta, à beira-mar, com ar de uma oriental Riviera datada, demo-nos conta, de repente, de que imensas mulheres que connosco se cruzavam usavam sapatos vermelhos, todos do mesmo tipo. Eram dezenas, sem exagero, umas a seguir às outras. Quase por acaso, fomos dar a um grande armazém, o qual, como era de regra na URSS, muito pouco tinha à venda (ainda me arrisco a ser contraditado neste blogue por algum nostágico, que por lá tenha andado de férias pagas pelo "Komsomol"). Entrámos, escapando a uma fila de mulheres que, de forma paciente, se formava escada acima, não se percebia muito bem para quê. O mistério desfez-se, minutos depois: eram os sapatos vermelhos que "estavam a sair", expressão que, poucos anos mais tarde, muito ouviria em Luanda, nos momentos mais folgados do "socialismo esquemático" (expressão local que significava um tipo de socialismo cujo quotidiano só se podia suportar graças a "esquemas"). Nesse dia, em Ialta, como novidade, só havia à venda esses sapatos vermelhos... As belas ucranianas de hoje já não usam sapatos desses, quanto mais não seja porque muitas foram aculturadas a detestar o vermelho.

A Crimeia, e com ela Ialta, está hoje separada da Ucrânia e, "de facto", integrada na Rússia, sob protesto da comunidade internacional. A Ucrânia continua, como sempre esteve, numa trágica glória histórica, no centro das imensas e complexas regiões que são, um pouco quase por todo o lado, as fronteiras da Rússia.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O chato

Na minha terra, dir-se-ia que aquele embaixador "não se enxergava". 

Verdade seja que, desde o primeiro momento, havia feito um esforço para garantir contactos ao mais elevado nível do ministério dos Negócios estrangeiros do país onde estava acreditado. Em si mesmo, era meritório que procurasse estabelecer um bom "networking". Só que não havia percebido que o país que representava tinha escassa importância para o Estado que o acolhia. Por isso, mandava o bom senso que utilizasse esses contactos com grande parcimónia, guardando tais vias pessoais para momentos importantes para os interesses do seu país, não banalizando o recurso aos seus muito ocupados interlocutores.

Estes, depois de uma primeira e simpática abertura, logo perceberam que o "chato" do embaixador não lhes "desamparava a loja" e, claro, começaram a mostrar-se renitentes às frequentes visitas, a declarar-se em permanência em reunião, para crescente desespero do homem. Ao fim de alguns meses, aquilo que havia sido uma lista interessante de contactos passou a não ter a menor utilidade.

Um dia, o nosso homem tinha, de facto, uma "emergência", um pedido do seu governo para efetuar uma diligência a um nível elevado. Tentou um desses seus contactos, um poderoso diretor-geral, mas este, "escaldado", disse-se sem agenda para o receber. A questão era mesmo importante e o embaixador sentia-se impotente. Porém, o máximo que o ministério lhe ofereceu foi um encontro com o jovem funcionário que se ocupava do "desk" geográfico da região em que o país se inseria. São, em geral, de diplomatas muito jovens, a quem cabe tomar notas do que lhes é dito, num mero "listening mood", sem autorização para emitirem grandes opiniões. Ora estes comentários, aquando de uma "démarche", são relevantes, configuram as primeiras reações oficiais do país contraparte, que se torna interessante comunicar de imediato às suas autoridades. Era quase uma humilhação, mas o embaixador estava apenas a beber o fel que ele próprio tinha preparado.

E, assim, no dia aprazado, lá se viu obrigado a encontrar-se com um jovem terceiro-secretário que, simpático e de bloco-notas, tomou boa nota do que lhe era dito. O jovem tinha vindo buscá-lo à portaria e, acabada a conversa, preparava-se para reconduzi-lo à saída. O embaixador, contudo, disse não ser necessário: conhecia bem o caminho e iria tomar o elevador. Ele que não se preocupasse em acompanhá-lo. O rapaz anuiu, despediu-se e viu o embaixador caminhar para a saída.

Isso era o que ele pensava! O nosso homem, dobrada a esquina do corredor, com o auxílio da memória de anteriores visitas ao ministério, havia decidido procurar o gabinete do tal diretor-geral, que se declarava persistentemente "ocupado". Fingindo estar ali "de passagem", fez uma visita ao "amigo", abrindo a porta do respetivo gabinete, interrompendo uma reunião que aquele estava a ter.

A partir daqui, as versões divergem, desde o relato de um encontro cordial, em tom benévolo, dado pelo embaixador, embora reconhecidamente sem qualquer utilidade profissional, até uma leitura dos factos um pouco menos agradável, que fou a que se espalhou nos meios diplomáticos locais, segundo a qual o diretor-geral terá tido palavras menos simpáticas, e até alteradas, face ao que entendeu ser o abuso cometido, encarregando de imediato um seu colaborador de reconduzir o diplomata estrangeiro à portaria do ministério. Esta segunda versão parece um pouco mais consentânea com as instruções rigorosas que foram dadas, e logo conhecidas "urbi et orbi", para que aquele embaixador nunca mais pudesse dar um passo desacompanhado quando lá voltasse.

O voluntarismo insensato de um embaixador pode fazer muito mal ao trabalho de uma embaixada. E é irrecuperável, pelo menos até chegar o seu substituto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Magnanimidade

Por estes dias, tenho seguido o consagrado princípio que, há décadas, a Cruz Vermelha defende, em situações de conflito: não se deve disparar sobre ambulâncias! 

Há um "motto" de que também gosto muito: cada um faz a cama onde se deita.

Secretários & Subsecretários


Há semanas, numa conversa, uma senhora disse-me que o seu pai tinha sido Secretário de Estado num determinado governo de Salazar. Delicadamente, corrigi-a, explicando que, no tempo em que o seu progenitor exercera essas funções, era minha impressão que esse cargo se chamava "Subsecretário de Estado", tendo embora um estatuto político idêntico ao dos (então inexistentes) Subsecretários de Estado. A senhora "bateu o pé" e eu calei-me, no silêncio de quem estava seguro do que estava a dizer. Fui fazer uma investigação: a senhora tinha razão e eu não. Tenho de lhe dizer um destes dias.

Até ao final da I República, os governos tinham apenas ministros. É a Ditadura Militar que cria, pela primeira vez, cargos de Subsecretário de Estado, dependentes de Ministros. As Finanças ("et pour cause") foi o único ministério que manteve sempre Subsecretários de Estado até à Constituição de 1933. Com o início do Estado Novo, essa categoria passou a estender-se a vários outros ministérios e a ser usada com frequência. 

Entre 1926 e 1958, a tarefa de "ajudantes" (citando Aníbal António Cavaco Silva) dos ministros era desempenhada exclusivamente por Subsecretários de Estado. 

A categoria de Secretário de Estado, hierarquicamente acima da de Subsecretário de Estado, apenas é criada em 1958, em lugares então atribuídos a Correia de Oliveira (Comércio) e a Ferreira Dias (Indústria), ambos tendo exercido antes lugares de Subsecretário de Estado. 

O cargo de Secretário de Estado passou a ser frequente a partir daí e, claramente, a ocupar o "espaço" entre os ministros e os Subsecretários de Estado, que assim perdem o estatuto político de que até então beneficiavam. Com a criação dos Secretários de Estado, há um óbvio "downgrading" dos Subsecretários. 

Com o 25 de abril, e nos governos provisórios (1974/76), a utilização da categoria de Subsecretários de Estado foi baixa (entre quatro a oito, nos cinco primeiros governos), salvo no VI e último Governo provisório, onde atingiu o número fantástico de 21! 

Nos Governos constitucionais, a tendência foi para a contenção. O primeiro governo de Cavaco Silva (1985) não teve nenhum Subsecretário de Estado  o mesmo já não acontecendo com os seus dois executivos subsequentes. António Guterres (1995), Durão Barroso (2002) e Santana Lopes (2004) não tiveram nenhum Subsecretário de Estado. É no seu primeiro governo que José Sócrates que volta a utilizar esse cargo que, contudo, faz desaparecer no seu segundo governo. Passos Coelho, no seu primeiro governo, criou uma única Subsecretária de Estado, para "ajudar" Paulo Portas, mas não reeditou o modelo no seu "governo de uma semana e picos". António Costa não utilizou esta categoria no governo da "geringonça". Até ver.

Renascerá o cargo, um dia?

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Entre vistas


Nunca esqueço um conselho que, há muitos anos, recebi de António Guterres: "Cuidado com as entrevistas: a sua pior frase será sempre o título".

Lembrei-me isto ao ver a "esparrela" em que o ministro das Finanças, Mário Centeno, caiu, ao ser perguntado sobre um possível novo "resgate".

A técnica utilizada neste caso "tem barbas" e, em Portugal, há dois ou três jornalistas "especializados" no truque. Lembro-me, em particular de um, que fazia entrevistas num semanário e que era useiro e vezeiro no "golpe". É muito simples. Imaginemos que se trata de uma qualquer figura do Porto, à volta de quem surgem rumores de que tem ambições a nível nacional. A meio da entrevista, por exemplo depois de ele falar do conforto da vida no Porto, surge, como quem não quer a coisa, a pergunta: "Vê-se a viver em Lisboa?". A resposta normal é: "Sim, porque não?". O título do jornal, pela certa, é "Vejo-me a viver em Lisboa". Isto dá logo origem a especulações por parte do leitor, do género "Ah! Afinal o tipo sempre tem intenções de vir para Lisboa! Eu bem dizia!". Esta é uma vigarice jornalística típica.

Que Mário Centeno tenha caído nela, é normal, acontece aos melhores. O que já é menos normal - ou, se calhar, conhecendo-os, é - é o facto de figuras com responsabilidades políticas, sabendo que uma polémica em torno deste tema pode ter consequências graves nos mercados, serem vistas a especular o assunto em registo de baixa chicana. Honra seja feita a Maria Luís Albuquerque que, numa entrevista ao "Jornal de Negócios" disse, sobre o assunto, o que precisava de ser dito, sem deixar de marcar as suas discordâncias.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

António Guterres


Acho impressionante que a comunicação social portuguesa, que tão entusiástica e "patriótica" tem sido - e com razão - no tocante à evolução da candidatura portuguesa de António Guterres ao lugar de secretário-geral da ONU, tenha sido tão parcimoniosa sobre as manobras, que são escancaradamente públicas, reveladas nos últimos dias contra essa candidatura.

Surpreende-me não ver uma linha sobre o papel que setores do Partido Popular Europeu estão a desenvolver, tentando criar condições para que a vice-presidente da Comissão Europeia, Kristalina Georgieva, surja rapidamente na liça - agora que a expressiva última votação em Guterres claramente assustou quem deseja a sua derrota.

Sabia-se do papel de setores do PPE para levar Georgieva a Bielderberg. Foi muito claro que Jean-Claude Juncker tentou promover a búlgara junto dos russos, ao tê-la levado consigo a Moscovo, num contexto sem qualquer sentido. Mais recentemente, o chefe de gabinete do presidente da Comissão Europeia declarou, na sua conta oficial das redes sociais, a forte vontade de ver Georgieva na ONU. Last but not least, sabe-se agora da campanha desenvolvida por Angela Merkel, durante o recente G20 na China, no sentido de tentar criar uma onda de fundo em favor da ainda comissária europeia, por forma a conseguir travar Guterres.

Essa manobra passa por tentar convencer o governo de Sófia a, nas próximas horas, deixar cair o nome de Irina Bukova, a diretora-geral da UNESCO que era a sua candidata, e avançar com Georgieva.

Era muito importante que, em Portugal, o PSD, para além de dar conta da sua indignação sobre as limitações à ação empresarial de Durão Barroso nos corredores da Comissão, também expressasse publicamente o seu repúdio ativo a estas manobras desenvolvidas contra o candidato português, e que formalmente apoiou, feitas no âmbito do PPE, a formação política europeia a que está ligado. 

De caminho, talvez os social-democratas portugueses pudessem também dar garantias ao país de que nenhum antigo membro do governo do seu partido está ativamenfe envolvido nesta operação que tem por objetivo minar a candidatura portuguesa. Se assim acontecesse e viesse a provar-se, o PSD poderia vir a ficar muito mal na fotografia.