quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A direita da esquerda


Era a véspera do primeiro Conselho Europeu de François Hollande, recém-eleito presidente francês, em meados de 2012. Durante semanas, os embaixadores europeus em Paris tinham tentado perceber, para benefício informativo dos seus governos, o que faria a "nova" França pós-Sarkozy com a questão da ratificação do Tratado Orçamental. 

O tratado era o colete de forças macro-económico que a Alemanha, sob pressão conjuntural dos mercados, impusera à Europa, depois de ter verificado que, para a sustentação reputacional do euro - e após ter cometido o sinistro erro de Dauville, ao abrir caminho para a "hierarquização" das dívidas soberanas -, não lhe chegavam as quatro regras que Theo Weigel impusera, em 1997, para Bona (Berlim só viria mais tarde) vir a prescindir do marco. Em estado de necessidade, com as agências de "rating" já a discriminarem os países, todos correram a ratificar esse trágico acordo que, sob a glória formal do retrato "à la minute" das contas públicas nacionais, passou a condenar alguma Europa à permanente estagnação. Escrevi "alguma", porque há outra Europa que está bem e se recomenda, que empocha em superávites aquilo que para os outros são défices. Os europeus que mandam podem ser cínicos, mas não são parvos.

Voltando a Paris. Das conversas com Pierre Moscovici e outros putativos governantes socialistas, algumas mais privadas, outras em fóruns mais alargados, os arquivos do MNE devem ter por lá aquilo que nem sequer me parecia ser uma previsão difícil de fazer: a França iria subscrever o tratado, claro, depois de lhe acrescentar uns "pozinhos", a dar-se ares de que Paris, sob Hollande, fazia "toda a diferença". No fundo, seria um "remake" de 1997, quando, em noites agitadas em Amesterdão, o novo governo Jospin, com Chirac em apoio (que saudades do gaullismo "social"!), "conseguiu" transformar o Pacto de Estabilidade em Pacto de Estabilidade... e Crescimento. Já ninguém se lembra, mas foi assim mesmo.

Nessa véspera do Conselho Europeu, o Eliseu chamou os embaixadores da União Europeia para um "briefing". E lá fomos nós, quase todos de Moleskine, eu com um caderninho preto do meu "stock" da saudosa Heróica, a papelaria que a movida da rua das Flores, no Porto, levou na enxurrada do sucesso.

Era alguma a curiosidade sobre quem é que a presidência da Repúbluca francesa colocaria a falar connosco. O "briefing" foi bicéfalo. Foi aberto por Philippe Léglise-Costa, assessor europeu, filho do meu amigo Pierre Léglise-Costa, que fala português como qualquer de nós, fruto de um casamento luso-francês. Philippe vinha da Representação Permanente em Bruxelas, onde era uma "estrela" que Hollande não podia perder. Hoje, é o assessor diplomático do presidente.

Phillipe fez o enquadramento das questões políticas e apresentou depois o seu parceiro de mesa, Emmanuel Macron, assessor económico. Nunca tinha ouvido falar dele, o que não era de estranhar, numa equipa que só estava há dias naqueles corredores. O que dizia era, pelo menos ... estranho! Podia ser dito perfeitamente por um assessor de Sarkozy! Não era tanto a forma, era a lógica subjacente ao seu raciocínio que contrastava, de forma muito evidente, com o famoso e não muito distante discurso de Le Bourget, de Hollande. Notei o fácies de Léglise-Costa, ligeiramente crispado, ao ouvir o mantra neoliberal do seu colega. Dito isto, que fique claro: ficou evidente que era uma pessoa muito bem preparada, um "enarca" de primeira água. Só não se percebia muito bem o que estava a fazer por ali, numa equipa presidencial de um governo socialista. À saída, recordo-me de me ter voltado para o meu colega sueco, Gunnar Lund, um velho amigo que comigo fez muita Europa, nos anos em que ambos estávamos no governo, e ter comentado, em tom de gozo: "Este deve ter cá ficado da equipa anterior!" Mas Gunnar não tinha desgostado...

Macron, entretanto, foi subindo. Com Valls como primeiro-ministro, chegou a ministro da Economia e, de um dia para o outro, começou a mostrar uma ambição pessoal incessante. Criou um movimento ("En marche!") daqueles de que a direita sempre gosta (isto é, dos que se dizem "nem de direita nem de esquerda" ou que isso é uma falsa e ultrapassada dicotomia) e, dia após dia, foi fazendo declarações em que se ia afastando da linha oficial, o que obrigou Hollande a o "recadrer", como dizem os franceses. Até que, há dois dias, se demitiu.

Macron não o afirmou ainda, mas parece evidente que vai ser candidato à presidência, nas eleições do ano que vem. Com jeito, ainda pode entrar nas "primárias" da direita... 

Os sinos da Sé


Alberto Miranda (1912/92) foi um poeta vila-realense, que a memória da cidade acolhe hoje numa rua com o seu nome. Lembro-me dele, passeando-se com uns casacos claros, com uma elegância muito própria, pela Avenida Carvalho Araújo.

Ontem, o meu amigo Mário Pinto, que mantém sobre figuras e episódios de Vila Real um espólio muito interessante, deu-me a conhecer um "poema" de Alberto Miranda, talvez menos conforme com a sua produção literáriaAlberto Miranda (1912/92) foi um poeta vila-realense, que a memória da cidade acolhe hoje numa rua. Lembro-me dele, passeando-se com uns casacos claros, com uma elegância muito própria, pela Avenida Carvalho Araújo.

Ontem, o meu amigo Mário Pinto, que mantém sobre figuras e episódios de Vila Real um espólio muito interessante, deu-me a conhecer um "poema" de Alberto Miranda, talvez menos conforme com a sua produção literária clássica, mas, nem por isso, menos curioso.

O poeta ter-se-á um dia indisposto com o facto da Sé Catedral de Vila Real começar a fazer ressoar os seus sinos às seis da manhã, incomodando pessoas de sono leve, como seria o seu caso, hospedado na Pensão Mondego, a escassos metros da torre sineira.

Num improviso, o poeta saiu-se então com uma rima que, nem por ser fácil, deixa de ter a sua graça, nessa cidade dos anos 40 do século passado:

Senhor Abade da Sé
Não destrua a nossa fé
Seja um abade moderno
Defenda o paroquiano
Mande o sino p´ró inferno
E o sineiro p´ró catano


Curiosamente, Alberto Miranda viria a viver grande parte da sua vida num prédio bem próximo da Sé. Terá conseguido mudar o horário dos sinos?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Um chá na Lapa



"Quatro e meia dá ou a essa hora ainda estarás a fazer um folhetim para amanhã?" Na gargalhada do David Damião estava toda a nervoseira que, nesse último dia de um pouco querido mês de agosto, atravessava S. Bento. O Forum TSF não correra bem, com os falsos "reformados & pensionistas" das centrais de comunicação a zurzirem o IMI das residências paroquiais. Fogos, governantes a voar com "vouchers" da Galp, a saga da Caixa, um presidente cada vez mais ubíquo e exigente, as contas europeias a rasarem a trave - tudo isso arruinara o Verão a António Costa.

"Agora cheira a setembro", escreveu o poeta, mas, para Costa, o mês que aí vinha não prometia ir ser flor que se cheirasse. A ameaça do corte dos fundos comunitários e as ambições dos parceiros da "geringonça" para o orçamento de 2017, com Catarina a levantar a grimpa e Jerónimo a ir subir a parada no fim de semana, lá na Atalaia, ameaçavam mesmo irritar-lhe de vez o otimismo.

Restava-lhe, claro, a imprescindível ajuda de Passos Coelho, que quando abria a boca oferecia um sopro oxigenado de ventura ao governo. A tirada de Boticas, a desestimular os investidores em Portugal, só não era grave porque estava absolvida pela inimputabilidade política que já se lhe colara à pele.

Ferreira Fernandes estava perplexo. O convite que acabara de receber para ir nessa tarde a S. Bento, para falar, "com urgência", com Costa, não deixava de ter algo de estranho. Logo ele que, neste agosto, se dedicara apenas ao Folhetim, uma crónica política ficcionada, às vezes não tão inóqua como isso, que parece que divertira os toldos algarvios, a começar pelo do patrão, Proença de Carvalho. O David mostrara-se jovial na conversa, mas quase tão críptico quanto ao assunto como o teria sido a Maria Rui, em tempos idos.

Conhecia Costa, ou julgava conhecê-lo. O primeiro-ministro era-lhe simpático, mas a agenda de um jornalista nem sempre coincide com a de um político e, pior do que isso, tem rapidamente de ser retificada quando há sinais disso poder estar prestes a acontecer. Costa era um sedutor pouco óbvio, nada "pushy", apelando à empatia de forma discreta, como quem não quer a coisa...

Apanhou o táxi no Marquês, mas a tarde começou logo a estragar-se quando percebeu que o motorista era um "lagarto" assanhado, que santificava o árbitro do Sporting-Porto e achava que o Adrian Silva merecia "um par de lambadas" por teimar sair de Alvalade. Ora aí estava um ponto comum do jornalista com o político: ambos eram indefectíveis do "glorioso". Ainda pensou mandar uma boca definitiva ao taxista, quando este, ao ver o destino exato da corrida, lhe deu o troco com um "quem faz cá falta é o que viveu aqui até os comunas chegarem!". Mas conteve-se. A sua alma de antigo discípulo do velho Leon Davidovich renascia sempre que era forçado a entrar por aquela casinhota de esquina da Calçada da Estrela, onde, por décadas, se amolhavam os pides de serviço por ali e que, agora, entre outras funções misteriosas, tinha um "bunker" onde os estagiários escalados para as conferências de imprensa das quintas-feiras ouviam os governantes que, num cenário de horror, competiam na falta de telegenia.

No pátio cruzou um beijo com a Clara Azevedo, eternamente de Nikon ao tiracolo, com quem, nos idos de 96, retratara em livro, a texto e imagem, a bela primeira campanha de Sampaio. "Vens para a festa?", lançou-lhe esta, fugidia, a aumentar o mistério. Subiu a escadaria exterior no topo da qual o David o aguardava, junto à sala dos polícias à paisana. Lembrou-se do grande romance que daria a vida do senhor Ferreira (Ferreira, como ele!), o porteiro que permanecera naquele cubículo desde os tempos de Salazar aos idos de Sócrates. Aquele que tudo olhara e, no final, nada vira que se visse para a História.

A Sãozinha, no primeiro andar, introduziu-o logo no gabinete, onde o esperava um Costa de sorriso aberto. Entretido a cumprimentar o primeiro-ministro, demorou uma fração de segundo até recortar o perfil de alguém que se mantinha, ao fundo, voltado para a janela. Não era possível! Era o Marcelo! Que fazia o presidente por ali? Que diabo se passava? Que "festa" era aquela, para utilizar o termo da Clara?

Costa saboreava com deleite o momento, à medida que o presidente, que se voltara, gargalhante, envolvia o jornalista num dos seus inconfundíveis abraços. Marcelo, noblesse oblige, perdera já há uns anos aquele hábito adolescente de puxar pelo braço de quem cumprimentava. Agora, envolvia o ombro de Ferreira Fernandes, conduzindo-o, como se estivesse em casa (quantas vezes fora ali com o pai Baltazar ver o seu homónimo presidente do Conselho), para os sinistros sofás verdes.

Ferreira Fernandes gostava de Marcelo. Não o escondia. Aquele jeito traquina de estar na vida, a autoconfiança feita destino, sempre lhe agradara. E o agora presidente retribuía-lhe. O jornalista não esquecia as palavras que o então, ainda e só, quase-candidato lhe dedicara, na apresentação do livro em que compilara as crónicas do folhetim do ano passado, naquela sala abençoada pelo imenso painel de Almada, agora passada a patacos pela nova "lei de imprensa" - vender o possível, contratar pouco, pagar o mínimo.

Marcelo, claro, tomara conta do instante, estava mesmo imparável, gozando com a época de "transferências" jornalísticas: "Então o Baldaia entra amanhã lá no Notícias, não é? Boa malha! E o André Macedo, ein? Aquela RTP é um "albergue espanhol", um mistério, tem sempre lugar para mais um... E amanhã também vamos ter o David Dinis no Público! Excelente! Bom, conhecendo-o, lá para o fim do ano, já deve estar noutra!" E, com uma sonora gargalhada: "O senhor primeiro-ministro não tem por acaso intenções de mudar o diretor do Diário da República, não?"

Costa rebolava-se de gozo, no sofá pequeno mais próximo da entrada, pouso permanente de Guterres, quando este ironizava que governar era "telefonar e engordar". Já tinham chegado cafés e Marcelo, que ameaçava tomar conta da conversa, percebeu que tinha de passar a bola ao dono da casa. E adiantou, mais sério: "O senhor primeiro-ministro vai explicar porque é que lhe pediu para vir aqui. E também perceberá por que é que eu também aqui estou".

De facto, Ferreira Fernandes ainda não parara de se interrogar sobre a razão do presidente se ter deslocado a S. Bento, para aquela inusitada reunião, quebrando todo o protocolo. Mas Marcelo, como demostrara na antevéspera nas Desertas, era de "premières", dava-lhe prazer fazer um "vêzinho" naquilo que outros não haviam concluído antes de si. Mas como diabo teria Marcelo ali chegado, sem ninguém notar? Quantos saberiam deste encontro? Afinal, pelo menos, dois dos jornalistas na Residência Oficial estavam a par. Mais cedo ou mais tarde isso constaria. E ele também era, acima de tudo, jornalista...

"Caro Ferreira Fernandes, o senhor presidente e eu queríamos fazer-lhe uma proposta." Mau, pensou o jornalista, isto começa a complicar-se. Mas Costa nem deixou cair a bola. "Quero dizer-lhe que apreciámos muito o seu Folhetim de Verão. Mesmo mais do que pode imaginar..."

Ferreira Fernandes olhou de soslaio Marcelo, mas este afivelara já aquele esgar de Estado que soubera criar nos últimos meses, um misto de levíssimo sorriso, quase episcopal, típico do gestor cívico de afetos em que se queria consagrar na História, e um rictus formal de função, que tinha em Cavaco o anti-modelo.

"O que você fez neste mês, meu caro, foi notável: descrispou o país, provando que a política pode conviver com o bem-estar, que não temos de andar sempre "às turras" uns aos outros, que é possível falarmos todos, para além das nossas diferenças".

Marcelo completou, enfático: "Você foi genial, homem! E criativo até dizer chega! Já no ano passado tinha inventado o encontro do dr. Paulo Portas com o dr. António Costa, através de uma porta entre as traseiras da Capela do Rato e a sede do PS. Sabe que eu telefonei ao pároco da capela para saber se a porta realmente existia?" Ferreira Fernandes sabia, mas era um cioso respeitador do segredo de confissão de todos os priores do Rato.

"Ora bem, o que lhe queríamos propor é muito simples: que passe a trabalhar para nós!", rematou Costa. O jornalista teve um baque interior: o que é que aquele "nós" significava? Seria majestático ou a sério - trabalhar para o primeiro-ministro e para o presidente? E "trabalhar" em quê? Ele era um escriba a soldo exclusivo da sua própria liberdade, não vendia a pena a interesses, era conhecido por não passar "recados". O que é que, afinal, "aqueles dois" queriam?

"Você já percebeu, Ferreira Fernandes, que eu e o senhor primeiro-ministro, apesar das nossas diferenças, temos vindo a tentar que o ambiente político do país se distenda. Nem toda a gente ajuda, como já percebeu, mas, pela nossa parte, faremos o que for possível. Ora os seus textos caíram como sopa no mel naquilo que estamos a procurar fazer. Mais: você tem uma capacidade criativa extraordinária, é capaz de desenhar cenários de entendimento insuspeitados, ver muito adiante, onde nós não vemos."

A tirada de Marcelo fora dita com evidente sinceridade. E óbvia simpatia. Mas o jornalista continuava sem perceber onde é que a conversa podia levar.

Foi então a vez de Costa: "O que nós gostávamos de lhe propor é que o meu amigo tirasse uma sabática do jornal ("eu falo com o Daniel", ouviu-se de Marcelo) e se dispusesse a dar-nos, em 'full-time", ideias para entendimentos possíveis, dicas sobre temáticas em que pudéssemos pôr em diálogo setores até agora antagónicos. Coisas criativas, inesperadas! Um banco de ideias, enfim!" (Ouviu-se a risada de Marcelo: "Mais um banco!")

"Claro que ninguém lhe vai pedir para pôr os colégios privados aos beijos ao Mário Nogueira, ou o dr. Manuel Monteiro aos abraços ao dr. Portas", acrescentou o presidente, jovial, franzindo o sobrolho, por um milésimo de segundo, quando Costa fez o aparte jocoso: "Já se viu pior!".

"Pense nisso, meu caro Ferreira Fernandes, pense nisso! Depois se combinarão os aspetos logísticos, com o David e o Paulo Magalhães", concluiu o primeiro-ministro, levantando-se do sofá, simultaneamente, com o presidente.

Ferreira Fernandes saiu atordoado do encontro. Num velho reflexo de clandestinidade, voltou à esquerda e viu-se a subir a Borges Carneiro, remoendo uma imensa perplexidade e com uma vontade imperiosa de tomar, sei lá!, um chá. No topo da rua, entrou nas "Tias" e ali encontrou um amigo, que vive por perto, a quem contou a odisseia que acabara de atravessar. Só que esse amigo não estava ajuramentado para não revelar segredos, como é o caso dos confidentes dos priores do Rato.

E as uvas, meus senhores?


As uvas são a maior riqueza do Douro. Por muitas e boas razões, da economia à organização do território, da cultura à gastronomia, nunca provavelmente se falou tanto de uvas, de castas, de novas e belas adegas pelas várias áreas da região do Douro. O vinho está na moda, o enoturismo cresce a olhos vistos, o discurso sobre o Douro nunca foi tão desenvolvido e trabalhado, agora com as vindimas aí à porta. Vivam as uvas!

E, contudo, experimentem pedir uvas, como sobremesa, nos restaurantes da zona do Douro, os mesmos onde nos mostram cardápios com dezenas de vinhos. "Uvas?! Não temos!", respondem, em esmagadora regra, como se estivéssemos a pedir uma fruta exótica. Mas, claro, kiwis, papaias e mangas não faltam. (Já tenho perguntado a alguns empregados se essas mangas são de Alpaca, que lhes explico ser uma zona espanhola onde são produzidas as melhores do mundo...). Uvas é que nem vê-las! Pergunta-se porquê e ninguém sabe responder.

Há uns anos, tive uma experiência similar na Madeira (não posso garantir que as coisas não tenham entretanto mudado): pedia bananas como sobremesa e em nenhum restaurante do Funchal conseguia comê-las. Mais sorte tenho tido nos Açores, onde o abacaxi surge geralmente em muitos restaurantes. Nunca experimentei pedir cerejas no Fundão...

Para concluir: são precisas uvas à venda nos restaurantes do Norte, meus senhores!

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A "estória"

O meu amigo e distinto gastrónomo Virgílio Nogueiro Gomes, no seu imperdível site, acaba de anotar que nasceu na Cruz Quebrada um restaurante chamado "Estória", onde, pelos provados, se comerá bem (lá irei, a seu tempo). Já havia, nos arredoresdo Procópio, o "Estórias da Casa da Comida" (onde não se come nada mal, mas que é bem carote). 

Mas isto, hoje, nada tem a ver com comida. É apenas a propósito da "estória", um termo que me encanita supinamente. 

Há uns anos, no blogue "Delito de Opinião", o Pedro Correia fez uma listagem das palavras de que não gostava. Não sei se o "estória" dela constava. Achei então piada ao exercício e cheguei a pensar fazer o mesmo. Mas, depois, meteu-se-me a aposentação pelo meio e, olhem!, deixei de ter tempo para essas coisas...

Na minha lista pessoal de palavras detestáveis o termo "estória" permanece, de há muito, irremovível no topo das mais sinistras invenções neologistas da paróquia. 

É um termo que sempre ligo ao CPLPimbalhismo, uma corruptela saloia, a armar ao popularucho, à sem-cerimónia com a língua, usado para qualificar uma historieta que hesita (as mais das vezes com vergonhosa razão) em se promover como se fosse uma coisa séria. Os "estoriadores" estão na minha lista negra! 

Se alguém um dia me vir utilizar num texto a palavra "estória", agradeço que avisem as autoridades: será sinal de que já me "passei"...

Onze notas internacionais

1. E lá vai Dilma à vida, com poucos a chorarem-na e levando consigo o PT. Não houve golpe constitucional (as instituições funcionaram regularmente), mas houve uma evidente subversão do espírito do sistema, por uma enviezada parlamentarizacão do regime presidencialista, a colocar a política do lado do qual passou, de um momento para o outro, a soprar o vento popular. Temer, renegando sem vergonha o programa sob que foi eleito, foi o instrumento oportunista. Ficará na História, mas com adjetivos de que a família se não orgulhará.

2. Trump parece que cai nas sondagens mas Hillary Clinton continua a ter uma rejeição muito elevada. Levar uma figura como Farage para a campanha americana é a prova de que o exercício já passou os limites da racionalidade, depois de há muito ter atravessado os da decência. Por este andar, Marine le Pen ainda vai, um destes dias, "fazer uma perninha" a Washington.

3. O puzzle angolano toma um novo formato. Mais um. Um novo vice-presidente surge como o putativo sucessor de José Eduardo dos Santos. Já vimos este filme no passado e, em todas as ocasiões, acabou sempre de forma diferente da que se previa. Angola é um "happening" mas, goste-se ou não, a capacidade do presidente e do MPLA para segurarem o poder é notável.

4. Será desta que Rajoy forma um governo esável? É mais trágico do que parece, mesmo para nós, o penoso arrastar do processo político espanhol. Este impasse tem um preço imenso na credibilidade de um país que é importante para a Europa. O PSOE brinca com o fogo e com o seu futuro como partido do sistema. Já para o rei, esta prova de fogo veio cedo demais e, infeluzmente, revelou que não conseguiu criar uma magistratura de influência como a que o pai chegou a criar. É um péssimo sinal para a monarquia espanhola, podem crer.

5. Sarkozy não desiste de tentar regressar ao Eliseu. Em 2012, a França estava muito cansada dele e, francamente, duvido que tenha recuperado desse sentimento. Agora, "lepeniza" a cada dia discurso, tentando arrastar a respeitável direita democrática para um sinistro populismo, o que vai obrigar gente decente como Juppé a ir por outro caminho. Com Hollande a bater no fundo, fica a certeza de que a esquerda nunca votará em Sarkozy numa 2ª volta (como fez em Chirac em 2003). A presidente Marine é, assim, possível.

6. Erdogan está nas suas sete quintas. Arranjou um imbatível alibi para fazer uma limpeza interna e, como já previsto, arranjou um pretexto para "molhar a sopa" na Síria, para por ali desfazer as milícias curdas. Os EUA, que estão "desertos" para subcontratar esta guerra, aplaudem, devem estar a fornecer "intelligence" e reduzem a pressão para repatriar Gullen. Um belo favor de Obama a Hillary Clinton, que se preparava para fazer isto mesmo. Só há uma América: a dos interesses.

7. A última pedra no túmulo da Parceria Transatlântica foi posta há dias pelo ministro alemão da Economia. Como muitos previam, já não vai haver nenhum TTIP, o que marca um forte recuo protecionista no espaço euro-atlântico. "Much ado about nothing"? Resta saber o que os europeus farão se o preço do petróleo disparar de novo e precisarem do gás de xisto americano, que era a contrapartida pela liberalização do comércio.

8. Os europeus continuam a reunir em grupinhos, com Hollande a fingir de charneira e a tentar estar em todas. Umas vezes é o proto-diretório com a Itália, noutras mete-se a Polónia e recupera-se Weimar, finalmente o sul - que passa o tempo a dizer que "não somos a Grécia!" ou coisas parecidas a propósito de qualquer outro vizinho do lado de quem os mercados não gostem - vai também conversar à parte. Olhando para esta Europa, percebe-se agora melhor o sentido da palavra balcanização.

9. Os británicos revelam que não sabem o que fazer com o Brexit. Dá ideia que uma (já) maioria do país está arrependida da aventura em que Cameron (desaparecido em combate, para bem do país) irresponsavelmente o meteu. Theresa May parece tentar ganhar tempo e, curiosamente, depois da vergonhosa reação anti-democrática do lado do continente, até os "27" estão mais calmos, já percebendo que só os mercados comandam o "timing" da invocação do artigo 50 do famigerado Tratado de Lisboa. Resta saber se uma "mini-saída" é possível. Leia-se o "Economist" ou o FT para medir a perplexidade que por ali vai.

10. Hoje é o dia C (o terceiro) para medir as hipóteses reais de António Guterres vir a ser designado o próximo SG da ONU. O dia D virá em outubro, sob presidência russa do CSNU. Posso confessar um segredo?: nunca acreditei que as hipóteses do candidato português chegassem a ser tão elevadas. E que bom que era para Portugal,me para a diplomacia portuguesa (poderemos falar depois sobre isto), se Guterres fosse escolhido!

11. Exemplar, até agora, tem sido o comportamento de Augusto Santos Silva e do MNE no caso dos fedelhos agressores iraquianos. Palavras certas, tempo exato, decisões acertadas. É uma grande e experiente máquina a das Necessidades, com séculos de bom-senso e de excelente serviço público. Sei que sou suspeito, mas sinto orgulho em ter feito parte dessa grande escola de sentido de Estado.

O mês Timberland


Com imensa pena minha, está prestes a chegar ao fim o meu mês Timberland. Há vários anos (mesmo muitos) que isto se repete.

Aí por finais de julho, aviados os últimos compromissos profissionais (este ano excecionalmente com o mais do que agradável interlúdio da "presidência de honra" das Festas de Viana), há quatro semanas em que só calço Timberland (e não estou a fazer a menor publicidade à marca, note-se), do vetusto modelo "classic boat". Sempre sem sombra de meias, claro!

Tenho hoje três pares, o mais antigo dos quais já com mais de uma dezena de anos, prestes a ser convocado para o museu da marca. Esse par mais antigo, o "três" (como íntima e carinhosamente lhe chamo), é o que ainda vai à praia, apanha água salgada ou das piscinas, faz de sandálias que não uso, tendo lá por dentro, sob as palmilhas quebradiças, alguma areia que eu creio que já fossilizou. Em tempos, o "três" deu voltas da Amazónia ao Cambodja, fez as praias da Normandia, andou pela Praça Vermelha e por Sharm el-Sheikh, pisou coisas tão longínquas como o Usebequistão ou Bornes de Aguiar (Não foram ontem à festa anual de Bornes? Nem sabem o que perderam!). Esse par está num estado lastimoso, mas isso não me impede de vigiar algumas sinistras tentativas de mo fazerem desaparecer, nas cruéis limpezas anuais às sapateiras. Mas ele, o velho "três", ainda continua, orgulhosamente, a ser aquele par de Timberland que os meus pés reconhecem como o seu mais amigo aconchego, desde há muitos anos.

No dia-a-dia destes dois últimos Verões, o "dois", um par que também ele já teve melhores tempos, mas que ainda aí está para muitas curvas, é o todo-o-terreno que me espreita logo à saída do banho, faz o percurso titubiante até ao "expresso" matinal que me acorda e, depois, acompanha-me quase todo o dia. Só este ano, andou do Pereira de Tróia aos ágapes numa certa quinta de Portalegre, fez milhares de quilómetros em viagens de automóvel, tem calcorreado cidades e aldeias, pisa os cafés, da Caravela de Viana ao Aurora de Chaves, corre as mesas da Gomes ou sustenta-me no balcão da Tosta Fina, em Vila Real, onde também sempre me acompanha aos rissóis e às pataniscas do Lameirão (um Vallado Reserva 2007, guardado para mim pelo Eleutério, fez-me no sábado ganhar o mês). Ainda há horas o "dois" foi "almoçar" ao Vidago (quem é daqui diz "ao Vidago", o pessoal da mourama diz "a Vidago") e passeou em Tourencinho e em Zimão. E está aqui ao meu lado, como mui fiel sapato, onde o meu pé entra sempre como a mão numa luva, sem sequer lhe tocar nos cordões, prestes a levar-me daqui a minutos para um pica-pau noturno no Tralha.

É, contudo, na perspetiva de deslocações a alguns restaurantes mais na moda ou a jantaradas a casas alheias que o "dois" começa, nos dias (mais nas noites) de hoje a ser objeto de alguma pouco subliminar discriminação. Não que isso assim aconteça por minha vontade, mas por uma suave imposição doméstica. E é então que entra em cena o último parceiro da trupe, o "um". O "um" é um par Timberland mais "finaço", que já comecei a perceber que me é sugerido ("não vais com esses sapatos velhos, por favor!") quando a camisa ou o polo são de certa marca. Com um Gant ou um Paul & Shark, ou mesmo com alguns Lacoste (pré Filipe Oliveira Batista), ainda me aceitam que leve o "dois". Porém, se acaso opto por um qualquer cavaleiro da Ralph Lauren, por um Boss, um Armani ou mesmo por um Tommy Hilfiger, é certo e sabido que logo surge a "pressãozinha" para que o "um" seja o par escolhido. E eu, que sou bem mandado, lá vou na onda, porque há batalhas que não valem um sobrolho feminino cerrado.

Enfim, é a vida! Com o "um", com o "dois" ou com o "três", a verdade é que só me sinto bem em férias com os meus Timberland. Se isto der para publicidade deles, não me importo nada! Bem merecem!

domingo, 28 de agosto de 2016

O general e o bispo


Será verdadeira, a historieta? É demasiado "boa" para isso, mas não resisto a contá-la, tal como ma relatou um amigo, há dias.

O episódio ter-se-á passado na estação ferroviária de Vila Real, no final dos anos 50 da última centúria. O general Aníbal Vaz, estimável vila-realense que muito ajudou os seus conterrâneos com dificuldades "lá em baixo"  - leia-se, em Lisboa -, figura que Salazar cuidou em afastar do comando da GNR em 1961, por suspeitas de implicação no "golpe Botelho Moniz", estaria fardado e com condecorações a pingar-lhe do peito, à espera de um qualquer outro dignitário, prestes a chegar de Chaves, no velho comboio da linha do Corgo.

Na plataforma, preparado para viajar em direção à Régua, primeira etapa para Lisboa, estava também o sempiterno bispo de Vila Real, dom António Valente da Fonseca, figura avantajada, que lembro ter a forma de um daqueles sinos que antigamente se usavam nas mesas familiares para chamar as "creadas", vestido da clássica púrpura reluzente dos estilistas vaticanenses.

O comboio tardava a chegar. Dom António, que conhecia bem o general, decidiu uma graçola, fingindo confundi-lo com um "factor de primeira" (uma das classes que sempre achei mais "prestigiantes" na hierarquia ferroviária nacional):

- Ó senhor factor! Então o comboio chega ou não chega? Isto nunca anda a horas?

O bom do general Vaz não se ficou e, com a confiança que se dizia ter com a excelência reverendíssima local, terá retorquido:

- Já vem na Cigarrosa, está quase a chegar! 

E o olhando o saiote empinado pela barriga proeminente do bispo, acrescentou:

- Eu, se fosse a si, "minha senhora", nesse seu "estado interessante", com os solavancos do comboio, talvez não ousasse fazer a viagem...

O Raposo e o lobo

Há poucos meses, um cronista chamado Henrique Raposo, figura de uma direita biliosa, muito ao estilo de certa "produção" da Universidade Católica, a que o "Expresso" dá jubiloso e regular acolhimento, escreveu um pequeno livro sobre o Alentejo, que provocou uma celeuma dos diabos.

Porque não faço parte da escola do "não li e não gostei", li o livro, achei-o bem escrito, naquele género do frontal-chocante de quem quer fazer nome pelo escândalo e - surpreendam-se os meus amigos - recomendei-o a muitas pessoas. 

Nesse texto, Raposo vinga-se da sua ascendência alentejana, num exorcismo autoflagelatório das origens familiares comunistas, de que se sente tentado a renascer num indiferenciado subúrbio lisboeta, a modos que a criar credibilitação para a ascensão a um mundo a que não chegou pelas duas outras vias possíveis: o renegar do extremismo esquerdalho ou o suporte confortável dos apelidos.

A mim, o livro sobre o Alentejo agradou-me, confesso, porque nele são ditas algumas verdades e, em especial, porque é profundamente heterodoxo face a uma estafada mitologia alentejofílica - muito UCP, muito Catarina Eufémia, muito Zeca e muito Grândola -, peditório para o qual já dei há muito.

Ontem, no "Expresso", Raposo decidiu aventurar-se longamente sobre o fenómeno muçulmano, sobre o multiculturalismo e a questão da integração. Até aí tudo bem: não há bicho careta, mais intelectual ou antropólogo impressionista e amador, que hoje não mande por aí bitaites sobre burkas, jilabas e babuchas. 

Só é pena, não sendo contudo supreendente, que, sobre Sartre, Edward Saïd e a esquerda, no tocante à questão argelina, Raposo não se tenha eximido de ser intelectualmente desonesto, faccioso e falso. Com o "Expresso" a dar-lhe alegre cobertura ao topete.

Isto tem de ser dito. E eu digo-o.

sábado, 27 de agosto de 2016

Sorriso



Há sorrisos (de mulher, claro) que fazem o meu dia ("make my day", como dizem os anglosaxónicos, fica melhor). Às vezes (não muitas), entro num café, numa loja ou num serviço público e, de repente, por detrás do balcão, há uma miúda ou uma mulher que sorri de uma forma que nos ilumina o instante. Frequentemente, nem sequer é muito bonita, nem tem uma "graça" por aí além, mas há  naquela forma de colocar a expressão do rosto, algo de lindíssimo, de luminoso, mais sereno ou mais expressivo, mas sempre brutalmente natural, que logo alegra o ambiente e nos faz gostar ainda mais da vida. Porque sou tímido (é verdade!) e temo poder ser mal interpretado ("olha o velho, a fazer-se ao piso!"), suscitando algum comentário desagradável de alguém à volta, muito raramente ouso revelar à pessoa o prazer que esse seu sorriso acarreta para o bem-estar do resto do meu dia.

Ao olhar esta manhã a entrevista que o DN traz com Catarina Portas, lembrei-me daquele que é hoje um dos mais belos sorrisos de Portugal (e não me venham com as parecenças com Marion Cotillard, por favor!). Um dia, vou arranjar coragem para lho dizer.

RT Quê?


André Macedo foi um bom diretor do "Diário de Notícias". Como leitor atento, embora quase nos antípodas da sua leitura político-económica dos factos, tive sempre gosto em ler o jornal sob sua direção - aliás, com uma excelente equipa coadjuvadora.

Um dia, foi divulgado que ia sair do jornal para integrar a direção de informação da RTP. Fiquei um pouco surpreendido, porque pensava que essa direção da empresa já estava completa. Pelos vistos, estava enganado.

Pouco depois (corrijam-me p.f. se estou errado), li um comunicado do Conselho de Redação da RTP que, por unanimidade, afirmava ser contra essa nomeação, adiantando diversas e razoáveis razões. Esse comunicado, muito justamente, salvaguardava a consideração profissional que o jornalista lhe merecia.

Leio agora que André Macedo vai assumir tais funções.

Já sei! O parecer do Conselho de Redação não é vinculativo.

Quer isto dizer que uma posição, por unanimidade, do Conselho de Redação (eleito por todos os jornalistas) não tem mesmo a menor consequência?

Que isto se passe numa empresa privada, sujeita às lógicas do capital mandante, ainda vá que não vá! Agora numa empresa pública, do Estado, é pacífico que a opinião formal dos representantes dos jornalistas seja 100% irrelevante?

Assim, pergunto: será excessivo se eu concluir que a administração da RTP se está, em absoluto, "nas tintas" para a posição unânime do Conselho de Redação da empresa?

Será assim ou serei eu quem está enganado?

E, nestas condições, ninguém tuge nem muge lá pela RTP? Caramba! Isto parece a paz dos cemitérios!

Na prática, ajudem-me, por favor, a compreender: qual é a diferença entre o papel dos jornalistas da RTP hoje, no tocante à organização e gestão da sua estrutura redatorial, e aquele que tinham no tempo de Ramiro Valadão?

Não estou a brincar!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Portugal das pequeninas

Não vale a pena esconder que, em alguns setores portugueses, a palavra “negócios”, que figura no título deste jornal, tem ainda hoje uma carga, se não negativa, pelo menos desencadeadora de alguma suspeição. Numa certa cultura nacional, não tão minoritária quanto isso, ganhar dinheiro, obter lucros e acumular riqueza arrasta atrás de si a imagem de um comportamento ferido de alguma ilegitimidade. Interessará menos escavar nas razões profundas dessa atitude – históricas, políticas e culturais – e muito mais tentar perceber em que medida isso tem implicações no futuro do país.

Convirá começar por notar que, em particular, a expressão “grandes empresas” surge fortemente diabolizada por esse preconceito. Em certos setores, uma profunda aversão ao “negócio” é absolvida, contudo, pelo endeusamento das “pequenas e médias empresas”, vistas estas como a parte “aceitável” do mundo empresarial.

As PME funcionam, no imaginário coletivo, como o “comércio de bairro” na sua popular luta de classes contra as “grandes superfícies”. Este raciocínio tem uma debilidade: esquece deliberadamente que uma PME só o é porque não conseguiu atingir o legítimo objetivo de ser “grande”. Ninguém cultiva masoquistamente uma espécie de nanismo empresarial.

Dito isto, e como é óbvio, as PME são, nos dias de hoje, responsáveis por uma fatia muito substancial do emprego, do volume da exportação e, por essa via, uma alavanca essencial do tecido económico do país. E o Estado tudo deve fazer para as apoiar, para lhes dar condições para crescerem, para se afirmarem no plano externo – onde estão as oportunidades que o escasso mercado interno nunca será capaz de lhes proporcionar. Diria mesmo mais: a prioridade das prioridades, em matéria de promoção do tecido empresarial deve ser, sem a menor das dúvidas, o mundo das PME.

O conceito, aliás, esconde coisas muito diversas: a esmagadora maioria das PME são micro-empresas, as mais das vezes de raiz familiar, fortemente sensíveis às ondas de crise. Grande parte delas atravessa hoje dias muito difíceis, por falta de capitais próprios, contando-se entre as principais vítimas da debilidade da banca sedeada em Portugal. Também por aqui deve passar a atuação do Estado e, perante o cenário desolador da maioria da banca privada – grande parte da qual hoje muito refratária ao crédito às PME -, seria desejável que a orientação futura da política de crédito da Caixa Geral de Depósitos pudesse vir a colmatar esse défice.

Este “Portugal das pequeninas” empresas em que vivemos, sendo uma realidade nos dias de hoje, não augura, contudo, nada de bom para o futuro. Goste-se ou não, e com todos os efeitos perversos que teve, a globalização veio para ficar. A alternativa, aliás, seria uma reversão protecionista, trágica para uma economia aberta como a nossa. E, nesse quadro global, se queremos um país competitivo, o nosso tecido empresarial tem de evoluir, de ganhar escala, de conseguir afirmar-se externamente – lá onde estão os grandes investidores, onde há acesso ao crédito e onde há espaços e mercados para crescer. É o que têm feito algumas grandes empresas nacionais.

Se pretendemos ser no futuro um país próspero, temos que ter mais e melhores grandes empresas a atuar “lá fora”. Recordo-me do governo de António Guterres, de que tive o gosto de fazer parte, ter impulsionado esses ganhos empresariais de escala. Nos dias de hoje, algumas grandes empresas nacionais, a maioria das quais com muito escasso apoio do Estado, continua a batalhar nos mercados externos. Que o país ainda as não sinta orgulhosamente como “bandeiras”, como acontece em todo o mundo desenvolvido, é algo em absoluto incompreensível.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Negócios")

Volta a Portugal

Sou um viciado em Portugal. Talvez pelo facto de ter vivido muitos anos no estrangeiro, habituei-me, em férias, por décadas, a percorrer o país em todas as direções, a visitar aldeias recônditas, a testar “casas de pasto” recomendadas por amigos e conhecidos, a descobrir novas estradas e paisagens. (Querem uma dica, de uma experiência de anteontem?: o belíssimo e surpreendente percurso no IP 2, pela Serra de Bornes, entre Macedo de Cavaleiros e Vila Flor).

Perco-me com gosto por ruelas de vilórias que, podendo ter pouca graça, apresentam por vezes pormenores arquitetónicos surpreendentes, igrejas ou muralhas interessantes. Sinto-me muito bem nesse mundo dos “cafés centrais”, dos largos com reformados à sombra, de pequenas bombas de gasolina onde somos tratados como numa mercearia. Adoro entrar nas tabacarias esconsas das terras pequenas, só com meia dúzia de livros à venda, alguns com ar amarelecido pelo sol, onde encontro quase sempre uma coisa que me “fazia imensa falta”. Raramente resisto a dar uma espreitadela naquilo a que chamo as lojas “de tudo”, que oferecem coisas improváveis e nos recordam o que há muito nos era “essencial” sem disso nos apercebermos. (Outra dica: visitem a “Casa Calado”, no Cabo da Bila, em Vila Real, para um deslumbre garantido).

Esse Portugal que me fascina continua por aí e eu vou continuar a frequentá-lo, com o mesmo interesse de sempre. Mas não posso deixar de notar, com algum desgosto, que ele convive com as rotundas que o mau gosto autárquico atulhou de uma estatuária inenarrável, com pavilhões multiusos desertos, com muita obra pública que o bom senso deveria obrigar a levar à barra do tribunal do bom gosto alguns irresponsáveis por atentados à paisagem. 

Fico sempre triste quando comparo o cenário televisivo da Volta à França com o da sua congénere portuguesa. Deprimem-me os nossos muros caídos, as ruinas das casas velhas e das obras por acabar, as cancelas e portões decadentes, os letreiros pendentes, desbotados ou anunciando eventos com anos, a vegetação selvagem nas bermas, hoje viúvas dos saudosos “cantoneiros”, as lixeiras a céu aberto, as pedreiras chocantes, o mau gosto e o caos arquitetónico (é quase tão caro construir bonito como feio), a obscena poluição visual dos milhões de anúncios, a ridícula multiplicação da sinalética rodoviária nas localidades, a tragédia de alguma iluminação urbana, numa diversidade regida por misteriosos critérios estéticos, etc.

Portugal necessita urgentemente de uma profunda sindicância estética, de uma varredela cívica, sob um normativo que consiga acabar o que está por acabar, limpar e fazer limpar esse imenso mundo de descaso, de incúria, de lixo paisagístico, que afeta a imagem de um país magnífico, agradável e simpático. E não é preciso muito: basta algum bom gosto, boa vontade e orgulho em cuidar do que é nosso. 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Dicionário crítico (1)

Numa divertida mesa de café, lembrámo-nos, afetivamente dos qualificativos que alguém, já desaparecido há quase uma década, utilizava para qualificar certas pessoas.

Era uma espécie de recorte caracteriológico, por vezes com um toque algo cruel, mas quase sempre bastante justo, de físicos, personalidades e comportamentos. 

Alguns dos conceitos são vulgares, outros mais originais ou criativos. Comecemos pelos "dedicados" aos homens:

Animal do presépio - "Esse?! É um verdadeiro animal do presépio. Claro, tirando a vaca e os carneireirinhos...".

Cabaça - alguém que não tem nada dentro da cabeça. "Conheces o tipo? Repete-se-lhe as coisas uma imensidão de vezes e ele nunca percebe! Aquela cabeça não tem nada dentro, é como as cabaças..."

Canastrão - figura masculina já de certa idade mas que, não obstante, faz passar uma imagem de sedutor, o que o torna algo ridículo. "Olha para ele, a "fazer a folha" àquela miúda! Não tem a noção do ridículo! Que grande canastrão que me saiu..."

Chuchador - pessoa que tende a rir-se de tudo e de todos, que não leva nada a sério. "O homem tem graça, mas não para de dizer piadas. Aproveita tudo para chalaças. É um grande chuchador!"

Comedor - pessoa que tem como objetivo aproveitar-se, tanto quanto possa, das coisas e das pessoas. "Aquele tipo?! É um comedor. Aproveita-se de tudo e de todos..." 

Comerciante - pessoa que tem o lucro como único objetivo de vida. "Nunca vi ninguém mais amigo do lucro! Onde pode "meter a unha", é certo e sabido que leva quem lhe aparecer à frente!"

Explorador - pessoa que vive no desejo de ganhar o mais possível, mesmo que à custa dos interesses dos outros. "Cuidado com ele! Tem sempre os preços mais altos! Eu nunca lhe compro nada! É um explorador!"

Farfateiro - pessoa bem falante mas cujo discurso é, quase sempre, sem conteúdo. "Quem? Fulano. Ah! a esse "ninguém o leva preso". Tem cá uma lábia para fazer a cabeça aos tolos..." 

Figurão - figura que procura destacar-se e promover-se em termos sociais, geralmente motivado por interesses. "Esse é um figurão (o "ão" é prolongado na pronúncia da palavra). Sabe-a toda! Leva na conversa este mundo e o outro..."

Filósofo - pessoa bem falante, com um discurso elaborado, eventualmente com pouca substância. "É um filósofo, cheio de conversa fiada, come as papas na cabeça a meio mundo, sempre cheio de nove horas..."

Gandulo / Gandulote - pessoa com um comportamento social sem maturidade, que não é levado muito a sério. "Cuidado com ele! Não é para levar a sério! Não é de fiar! E comporta-se mal. É um gandulo/ gandulote" 

Lambão - pessoa simpática, inofensiva, sempre de bem com os outros, bonacheirão. "Coitado, é um lambão, um bom-serás, não parte um prato, não faz mal a uma mosca..."

Letras gordas - pessoa sem cultura e educação , que nada lê. "Quem? Sicrano? É um analfabeto de pai e mãe! Nunca leu uma linha, é um letras gordas..."

Mão do finado - pessoa distraída que, com facilidade, deixa cair coisas das mãos, a quem se não posem confiar peças frágeis. "Cuidado com ele! Não lhe passes nada frágil para a mão, deixa cair tudo! É um mãos de cebola, é a verdadeira mão do finado..."

Músico - pessoa bem falante, insinuante, às vezes interesseira, com alguma elaboração. "Beltrano é um músico (o "u" lêº-se de forma longa, em tom desconfiado). Tem conversa para tudo, é um finório..."

Orelhas de camurça: "Não vale a pena tentar explicar-lhe nada. É duro de intelecto! É um orelhas de camurça..."

Padeiro / Padeirote - pessoa pouco qualificada na sua atividade profissional. "Não o chames para um serviço! Uma vez, fiz isso e fiquei escaldado! Não percebe nada do ofício. É um padeiro/padeirote)

Pantomineiro - pessoa não confiável, "troca-tintas", eventualmente pouco escrupulosa. "Esse tipo não é nada de confiar. Diz uma coisa e faz outra. Leva-nos no andor, se lhe dermos corda. Cuidado com ele!"

Paralelipípedo batizado - pessoa estúpida, de limitada compreensão. "É um cretino ao cubo! Burro como um calhau..."

Pedaço de asno - pessoa pretensiosa, arrogante. "Esse tipo é um pedaço de asno, a armar ao esperto, a dar-se ares..."

Peneirento - pessoa enfatuada, cheia de si própria. "Nunca vi ninguém tão peneirento! Acha-se o máximo! Tem o rei na barriga..."

Pobre diabo - pessoa que mete dó e suscita comiseração dos outros. "Coitado, é um pobre diabo, não tem onde cair morto, nem um tusto para mandar cantar um cego, mas é boa rez..."

Samelo - pessoa pouco inteligente. "É um samelo, um camelo com cedilha, um pateta alegre..."

Sedas - pessoa "escorregadia", que não desperta confiança. "Esse fabiano é do piorio, insinua-se mas não é de fiar, está de bem com deus e com o diabo, é um sedas do demónio".

Unhas de fome - pessoa forreta, que detesta dispender dinheiro. "Quem? Ir almoçar com esse fulano? É um unhas de fome, só gosta de sítios rascas, não gasta dez reis de mel coado", 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Cabeçudo


Pediram-me que crismasse um "cabeçudo" da Senhora da Agonia, na minha qualidade, em 2016, de presidente honorário das Festas.

Não tive a menor hesitação: para o futuro, este "cabeçudo" que figura na imagem passará a chamar-se Ignatz. 

Porquê? Sei lá!

Ignatz pareceu-me um bom nome, não acham?

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Histórias de Viana (7)


O Sales era bastante mais velho do que todos nós, embora mais de uns do que de outros. 

Em todas as cidades de província, por esse tempo, era vulgar haver umas figuras com uns anos mais, que acamaradavam com gente mais nova e com as quais se estabelecia uma relação marcada por algum respeito. A diferença connosco era muito clara: enquanto nós éramos estudantes, dependentes da ajuda dos nossos pais, essas pessoas tinham uma profissão estabelecida, muitas vezes eram casadas, usufruindo de alguma liberalidade das cônjuges para acompanhar rapaziada mais nova pelas noites, geralmente em fins de semana.

O Sales tinha uma casa de artigos funerários, creio que na rua da Capela das Malheiras, o que dava um toque ainda mais misterioso a esse nosso convívio. Um mito rezava que, numa noite, deixara dormir num caixão alguém com uma dificuldade pontual de acomodação. 

Num Verão ou dois das minhas férias em Viana, aí com 16 ou 17 anos, foi-me dado o privilégio de integrar um grupo a que, a partir de certa hora da noite, se juntava o Sales. Se a memória não me trai, era um homem na casa dos 40, magro, bem vestido, julgo que de bigodinho fino, bem falante e excelente companhia. Numa idade em que o desbragamento no léxico era a palavra de ordem de uma certa tendência para afirmação, o Sales induzia alguma seriedade ao nosso grupo, sendo que isso em nada era incompatível com a sua jovialidade e uma atitude divertida.

Uma noite, creio que no Bar Oceano ou no Viana Mar, veio à ideia de alguém, eventualmente suscitado por qualquer filme da época, enviar uma "mensagem ao mundo", uma tirada filosófica qualquer, que sobrevivesse no tempo e pudesse ser percebida por outros povos. Quando não há nada para fazer, a imaginação dita-nos iniciativas cujo caráter disparatado só se percebe muito mais tarde. No embalo da noite, com umas cervejas à mistura, o brilho da iniciativa surge-nos como incontestável.

Não sei se foi o Sales que teve a ideia, só me recordo que dela participou com entusiasmo. Dessa reflexão, cujo teor específico não recordo, resultou um texto, que hoje imagino "exemplar", com a tal "mensagem ao mundo", creio que de paz e concórdia, ou coisa parecida. No plano prático, o "papiro", redigido já não sei por quem, seria encapsulado e bem arrolhado numa garrafa. Esta seria lançada às águas do Lima, para que este a conduzisse ao Atlântico e, daí, para o mundos que a fortuna ditasse. A circunstância do texto ir em português nem por um segundo perturbou a iniciativa, seguramente ciente a universalidade do idioma de Camões.

Deitar a garrafa ao rio ali perto do Hotel Aliança ou de algumas ladeiras lodosas para deslizar barcos, na borda riberinha do jardim, não era um cenário que oferecesse uma dignidade mínima ao empreendimento. Creio que rapidamente se consensualizou a ideia de que a operação deveria ter lugar a meio da ponte de ferro, a ponte Eiffel, esse ímpar ícone vienense. 

E lá fomos nós, em bando noturno, de garrafa em punho, comandados pelo Sales, lançar a nossa "mensagem ao mundo", de cujo texto, por imperdoável incúria historiográfica, não cuidámos guardar cópia. Chegados a meio da ponte, depois de uma breve homilia laica e positivista, o Sales encarregou-se da nobre tarefa de projetar o recipiente, com gesto largo, sobre as águas do Lima. Não sem uma certa emoção, vimos a garrafa fazer o seu caminho, chapinhar um pouco na aterragem e, não obstante o breu misterioso das águas, flutuar, graças ao ar que envolvia a "mensagem ao mundo". Um luar vindo dos lados de Darque permitiu-nos um último olhar sobre o objeto deslizante no marulhar discreto do rio.

E foi então que, num segundo, a desilusão se instalou nas hostes. Afinal, ninguém tinha cuidado de pensar no ritmo das marés e, nessa noite, o mar Atlântico subia pelo rio acima. E a nossa garrafa, com a "mensagem" definitiva que o mundo por certo tanto apreciaria, que já imaginávamos nas costas americanas ou num percurso oceânico que não era de excluir que pudesse ir tão longe como as Caraíbas ou, com sorte, o Índico ou o Pacífico, afinal acabaria encalhada no lodo sem nobreza das Azenhas do Dom Prior, logo ali à Argaçosa ou, com sorte, pelo Pinheiro ou lá para o Barco do Porto.

Nem quero imaginar as imprecações suscitadas pelo infortúnio! Apenas recordo que, face ao inevitável, optámos por completar o trajeto da ponte, descer ao Cais Novo e ali, à vista difusa da Senhora das Areias, pouco antes dos "temíveis" acampamentos de ciganos, que as árvores escondiam no impensável trajeto a essa hora para o Cabedelo, aportámos à padaria para adquirir alguns pães, para o que a fábrica prudentemente proporcionava já venda de manteiga. E assim, desiludidos e enfarinhados regressámos à outra margem. Se o mundo tinha ficado mais pobre e ignaro sem a nossa mensagem, ao menos que o nosso estómago pudesse ser reconfortado com uns cacetes mornos, geradores de sede que, na noite vianense, e por essa hora, talvez já só pudesse ser saciado no Bar Astúrias.

Eram tão simples e prosaicos esses tempos...   

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os portugueses e as Nações Unidas


A história da relação portuguesa com a Organização das Nações Unidas (ONU) é complexa e interessante.

Os equilíbrios internacionais posteriores à 2ª Guerra mundial não permitiram que Portugal, sob ditadura, integrasse a organização desde o seu início. Curiosamente, isso não se iria aplicar à entrada portuguesa para a NATO, onde o “mundo livre”, pelos vistos, não teve reticências em incluir Portugal como país fundador.

O Estado Novo desconfiava do multilateralismo e tinha boas razões para isso. O tempo subsequente à admissão de Portugal na ONU, que ocorreu apenas em 1955, acabou por se revelar penoso para a nossa diplomacia. Neste caso, já menos pelas credenciais democráticas do regime e, muito mais, pela sua recusa em aceitar o direito de autodeterminação do “ultramar”, como Portugal passara a chamar às suas colónias. Num tempo em que a onda descolonizadora, pós Conferência de Bandung, estava na ordem do dia, a subsistência de um Estado que, com falsa ingenuidade, falava “do Minho a Timor”, surgia como um imenso anacronismo.

E aqui, perdoe-se-me o corporativismo, a diplomacia portuguesa esteve à altura daquilo que lhe foi pedido. Com escassos meios e lutando contra um mundo adverso, os diplomatas portugueses fizeram o seu melhor, com enorme competência. Pode parecer estranho que eu destaque aqui a figura de Franco Nogueira, mas a verdade é que, titulando ele uma política errada, o modo capaz como a soube desenhar e implementar, mobilizando a nossa pequena máquina oficial, configura um modelo profissional notável – embora eu saiba que muitos leitores não perceberão que eu escreva isto.
Isolada e acossada nas agências especializadas da ONU, a ditadura portuguesa ia tentando sobreviver num mundo onusino que, crescentemente, lhe era hostil. À diplomacia, repito, competia atrasar o inevitável. E fê-lo tão bem quanto soube e pôde.

O inevitável aconteceu num certo dia de abril de 1974. De um momento para o outro, de “pária”, Portugal passou a “enfant chéri” das Nações Unidas. A boa vontade face ao nosso país apenas ficou condicionada pela indefinição que se vivia em Portugal.

Spínola enviou Veiga Simão para Nova Iorque, para tentar fazer a “ponte” entre a face aceitável do “marcelismo” e a onda democrática e proto-descolonizadora que se vivia em Lisboa. O sucesso da iniciativa foi escasso. José Manuel Galvão Teles, segundo representante democrático português na ONU, titulou depois um Portugal ainda em convulsão.   

Só a normalização política no final dos anos 70 permitiu a Portugal aproveitar em pleno a “montra” que a ONU proporcionava. 

Progressivamente, e a partir daí, o nosso país foi-se destacando em várias áreas do universo nas Nações Unidas, através de qualificados técnicos e diplomatas. Assumindo o risco da injustiça por defeito, mas apenas a título de exemplo em áreas especializadas, deixo aqui a referência a nomes como Marta Santos Paes, Paula Escarameia e Catarina Albuquerque, como personalidades que, mais recentemente, ajudaram a firmar o compromisso de Portugal com setores importantes da ONU. 

Em 1979/80, o nosso país seria finalmente eleito para um lugar de membro não-permanente do Conselho de Segurança, sob a liderança do embaixador Futscher Pereira. Poucos saberão que, em 1960, ainda antes das guerras colonias, Portugal ensaiara uma tentativa frustrada no mesmo sentido. 

Todas as prestações no CSNU foram sempre altamente prestigiantes para a imagem de Portugal, nomeadamente em 1997/98, com o embaixador António Monteiro e, em 2011/12, com o embaixador Moraes Cabral.

Pelo meio, ficou ainda o feito diplomático de ter conseguido eleger Freitas do Amaral para a presidência da Assembleia Geral, uma posição que, não obstante o seu caráter não executivo, tem forte significado. E, “last but not least”, é de justiça destacar as notáveis prestações das nossas Forças Armadas e policiais em operações de paz da ONU.

Portugal tem hoje a imagem justa de um “honest broker” no mundo da ONU. É essa imagem que seria agora importante reforçar com a eleição de António Guterres para secretário-geral da organização.


(Artigo hoje publicado no "Diário de Notícias")

domingo, 21 de agosto de 2016

Histórias de Viana (4)

Viana do Castelo é uma terra à qual o nome de Pedro Homem de Melo ficará para sempre ligado, quanto mais não seja pelo poema que Amália cantou.

O poeta tinha uma casa em Cabanas, perto de Afife, a poucos quilómetros da cidade.

Hoje, ao passar na praça da República, lembrei-me de uma história que o meu pai, testemunha presencial, sempre contava.

Pedro Homem de Melo passeava-se com amigos. Do outro lado da praça surgiu José "Rancheiro", uma figura conhecida da cidade, senhor de palavra fácil e de uma voz forte. E que, alto e bom som, fez ecoar pela praça o seguinte poema (cito de cor), que está num azulejo em Cabanas, junto à casa de Homem de Melo:

"O rio passa em Cabanas 
por entre fragas 
tão lindo
que mesmo que vá descendo
parece que vai subindo".

Acabada a curta declamação, José "Rancheiro" acrescentou, também bem alto: "Belo poema!". Ao que Pedro Homem de Melo, visivelmente lisonjeado, reagiu, com aquela voz rouca que tinha: "... dito por Vossa Excelência!".

Não deixava de ser bonito um certo cavalheirismo de um certo Portugal.

sábado, 20 de agosto de 2016

Histórias de Viana (2)


Estão a ver a pequena janela ao lado da Igreja de Nossa Senhora das Candeias, no Largo Vasco da Gama, em Viana do Castelo? Pertencia a uma casa minúscula, com entrada lateral para o largo que hoje se chama Amadeu Costa - que foi meu professor de natação e muito escreveu sobre Viana. 

Àquela janela assomava, na minha juventude, uma rapariga avantajada, de cabelos longos e ar desafiador. Tinha uma voz estridente, que se ouvia bem em todo o largo, quando falava para os conhecidos que passavam. A voz da jovem irritava-me supinamente e, na crueldade dos meus 10 ou 11 anos, gritava-lhe da varanda da casa da minha avó (fora da foto, à direita): "Cala-te, gorda!" 

A miúda - porque era uma miúda, pouco mais velha do que eu - respondia-me, furiosa, com impublicáveis impropérios com que me mimoseava, assentes num léxico muito "rico", bem próprio da Ribeira, que ali perto começa. A cena repetiu-se pelo menos por dois Verões. Depois, deixei de ver a minha interlocutora.

Lembrei-me dela hoje, ao passar pela janela fechada. Ainda será viva? A sê-lo, terá hoje cerca de 70 anos. Gostaria de pedir-lhe desculpa pela minha irreverência de há bem mais de meio século. Só tenho uma curiosidade: ainda usará os palavrões que, com sotaque bem vianense, ecoavam pelo largo, de um "nível" que fazia corar a estátua do Mercúrio que por lá há?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Histórias de Viana (1)


Hoje, ao ver cair a chuva que atrasou o cortejo da Mordomia, na abertura das Festas da Senhora da Agonia, lembrei-me do "Santirso".

O "Santirso" era o nome de um barco espanhol de transporte que, na minha infância, aportava com alguma regularidade à doca de Viana do Castelo, em frente à casa da minha avó. Isso nada teria de especial, num porto que, à época, era bastante movimentado, se não se desse o caso da presença desse barco estar associada, no imaginário das pessoas da pesca vianense, à chegada de mau tempo. Por isso, e porque a coincidência se repetia com demasiada frequência, era voz corrente que as mulheres da ribeira apupavam os marinheiros do "Santirso", que olhavam como responsáveis pelas condições climatéricas que não permitiam a saída da barra dos pescadores.

O "Santirso" já não anda por cá e, neste ano em que sou o "presidente de honra" das Festas de Viana, espero que, definitivamente, a querela climática entre São Pedro e a Senhora da Agonia tenha ficado resolvida até domingo. Depois, pode chover à vontade... 

Imunidade diplomática

Surgiu hoje nas notícias um caso que evoca a questão da imunidade diplomática. É um tema fascinante do Direito internacional público, que ressurge de quando em quando, em especial se, nesse domínio, se registam novos abusos.

Desta vez, ao que parece - e será preciso confirmar que assim foi exatamente - dois filhos do embaixador iraquiano em Portugal terão agredido barbaramente um cidadão em território português. A polícia, atentas as regras da imunidade diplomática, foi obrigada a soltá-los.

Pelas redes sociais vai já uma onda de indignação com a possível impunidade dos agressores, reclamando a sua punição pelas leis portuguesas.Convém parar um pouco para pensar.

É verdade que, a confirmar-se a agressão, os seus responsáveis poderão ficar impunes? É verdade. Isso só não aconteceria em duas circunstâncias:

         - se as autoridades iraquianas levantassem a imunidade dos jovens e permitissem que eles fossem julgados em Portugal pelo crime,

ou

             - se essas mesmas autoridades repatriassem os jovens e os julgassem no seu país.

Qualquer destas duas circunstâncias não depende da vontade do Estado português e não cabe a Portugal suscitá-las.

Esta situação tem laivos de injustiça objetiva e é natural que seja sentida como tal pela opinião pública. Mas ela é o "preço" a pagar pela salvaguarda da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, um acordo internacional datado de 1961 e que regula a vida diplomática à escala do planeta, sendo considerado quase unanimemente como uma excelente Convenção.

Por que razão a Convenção protege estas "barbaridades"? Para evitar, por exemplo, que em países com alguns regimes sinistros, onde a proteção jurídica é muito frágil, onde a lei e a ordem estão raptadas por agendas de discricionariedade e arbítrio, contra qualquer diplomata estrangeiro possa ser montada uma "operação", na base de falsas alegações, acabando por ser julgado sem garantias, eventualmente fazendo-o passar anos na prisão ou mesmo sujeitando-o à pena de morte, se ela acaso ali vigorar.

É para a salvaguarda da liberdade de atuação e trabalho de uma esmagadora maioria dos diplomatas, cujo comportamento se processa dentro das regras, que a comunidade internacional paga o preço de ter de aceitar não punir os abusos que surjam, no âmbito das legislações nacionais.

O essencial da lógica da Convenção, em termos gerais (e sem entrar em preciosismos e particularismos aqui descabidos) é este: todos os titulares estrangeiros de cargos com acreditação diplomática, bem como os seus familiares (exceto se, por serem nacionais desse país, estiverem sujeitos à jurisdição local), estão isentos de responsabilidade penal por atos praticados nos países onde estão acreditados. (Não refiro aqui a questão complexa da responsabilidade civil).

Mas, então, Portugal não pode fazer nada neste caso?  Pode.

Se considerar que se confirmam os indícios de que aqueles cidadãos praticaram atos que configuram abusos da imunidade diplomática que lhes havia sido concedida, o governo português tem a possibilidade de considerar esses titulares de imunidade "personae non grata" e obrigar à sua saída do país, num dado prazo.

Uma coisa é clara e importante referir: Por exclusiva vontade própria, Portugal não pode julgá-los de acordo com as suas leis. Isso significaria colocar-se à margem das regras gerais que se comprometeu a observar. Nenhum país o faria, aliás.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cristas redentora

Assunção Cristas, líder dos democrata-cristãos, deixou-se fotografar numa pose insinuante, tendo como fundo uma Lisboa estival, com um vestido branco, curto, com motivos de kiwis.

(Poderia colocar aqui a fotografia, que está a atravessar o país das redes sociais, mas prefiro não o fazer. Por duas razões. A primeira é porque a não apresentação da fotografia, mesmo para os leitores que já a conhecem, permite-me alimentar imageticamente esta narrativa (e isto não é despiciendo para a lógica expressiva deste espaço, desculpem lá!). A segunda razão é porque isso me permite concretizar um sonho: entrar num exercício idêntico à daquele programa da SIC, aos domingos, sobre futebol, construído com "paleio", sem imagens.)

A fotografia é tirada do miradouro de S. Pedro de Alcântara, em Lisboa. Do piso superior, não do jardim de baixo, onde Fernanda de Castro, mulher de António Ferro, criou, com a complacência do ditador, um ramo da sua obra de assistência infantil. Desse nível, a perspetiva seria menos boa e a imagem decadente das estátuas, decapitadas ou mutiladas pela javardice das ressacas do Bairro Alto, não ajudaria. E, já nem no CDS deve haver muita gente que conheça a escritora, podendo ser assim sensível ao toque subliminar de uma referência conservadora.

Cristas (ou Líbano Monteiro ou Luís Paixão Martins ou António Cunha Vaz, dependendo da agência de comunicação avençada) quis ter Lisboa do alto. Mas não escolheu o vidro modernaço do terraço do Hotel Bairro Alto ou do Park bar ou da varanda do Insólito, por detrás da fotógrafa. Quis ter como base um peitoril sobre uma grade clássica, que esperou por uma excelente luminosidade para refletir uma cromia serena, nem excessivamente anoitada (inconveniente, na proximidade dos fados e do Bairro Alto), nem ensolarada de luz quente (que induziria nota de alguma lubricidade).

A pose é "casual", mas muito estudada. Por um lado, isso é bom. Um perfil totalmente natural induziria relaxamento, quiçá volúpia, abrindo portas (salvo seja!) a leituras liberais, nos usos e nos costumes. Ora Cristas é tudo o contrário disso, é uma senhora casada, mãe de família, com um rancho de crianças, num recorte muito tradicional. Fazer pose é, assim, de rigor.

Não se esperaria, porém, naquele cenário (com o Caldas ao fundo, para além do Condes) um "tailleur" cobrindo o joelho, como o fariam Ferreira Leite ou Teodora Cardoso, se lhes passasse pela cabeça deixarem-se retratar assim em frente à antiga FAUL, onde nasceu o PS lisboeta. Por isso, e porque é o elemento provocatório do conjunto, o vestido é toda "uma história". Tipo "saco", com meia manga larga, tem uma altura que não é chocante naquilo que revela, sem deixar de ter um toque ousado na sua contemporaneidade. Os motivos frutais têm tons de verde seco que acompanham os ramos do arvoredo por detrás da retratada, num conjunto que induz um tom algo intimista, de jardim, no mundo do recorte urbano. Os pés displicentemente cruzados, com sandália de tacão muito alto, assentam numa calçada dita portuguesa, embora verdadeiramente apenas lisboeta, reconduzindo a líder ao solo reconhecível. O relógio, negro, pouco clássico, rompe com a brancura da veste.

O olhar de Cristas é para a direita ("what else?"), para os lados do Paparrucha (outro belo possível cenário, para a próxima) ou do saudoso Pedro Quinto. O esgar é impecável, neutro, um toque de sobranceria que não fica mal, de destino assumido, auto-confiança, talvez com um excesso ligeiro de artificialismo na luz induzida. Há por ali firmeza, alguma distância, visão, uma determinação acentuada pelos tendões do pescoço, que revelam maturidade cruzada com a juventude adulta que se procura exaltar. Sobre os kiwis não me pronuncio, embora preferisse peras ou melões. Tudo menos laranjas!

Restam os joelhos. A decisão de mantê-los sem retoques de "photoshop" revela uma forte personalidade. "Chapeau"!

Que pensarå o PP sobre esta voluntária exposição da sua líder? E o velho CDS? E Portas, cujas poses eram em geral os seus piores retratos, porque ficava com ar de alguém que ironizava com a situação e tinha algo a esconder?

Esta é uma fotografia reveladora de uma certa imagem que Cristas procura fazer passar: ousada, firme, insinuante, conservadora moderna.

À atenção do PSD!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Vigarice (2)

Com a ajuda de amigos que fizeram uma denúncia ao Facebook, ficou resolvida, num par de horas, a questão do perfil falso criado com o meu nome.

Fico muito grato a quem me avisou atempadamente e a quem tomou a iniciativa de denunciar o abuso.

Correr o risco de ver coisas assinadas por "nós", sem delas ser autor, é algo preocupante.

Felizmente que as redes sociais têm estas salvaguardas e que elas são eficazes.

Tudo está bem quando acaba bem!