domingo, 31 de janeiro de 2016

Nós e Bruxelas

Cada vez mais tenho a sensação de que parte da rigidez que Bruxelas está a indiciar, quando à trajetória proposta para o défice estrutural português, a projetar do OGE2016, se deve muito à indecisão sobre a situação política que se vive em Espanha. 

As instâncias comunitárias podem estar a temer que uma qualquer flexibilidade indiciada no caso português possa, na hipótese de um governo de esquerda se implantar em Madrid, vir a "adubar" um orçamento espanhol "ambicioso" para 2017. E com Renzi, na Itália, a começar a "levantar a garimpa", vislumbram uma onda do Sul, que sabemos que sempre desvaria a ortodoxia tradicional do Norte. Acresce que Espanha e Itália representariam sempre incumensuravelmente mais do que o caso português.

Vale a pena lembrar que o conceito de "défice estrutural" foi colocado como critério, no discurso condicionante europeu, pelo Tratado Orçamental, um acordo imposto à pressa à Europa num tempo de desregulação dos mercados, e cujas regras vieram a cumular-se às do Pacto de Estabilidade e Crescimento que fora, à partida, o referencial único para a presença dos Estados na zona euro. É verdade que o TO foi aceite por todos e por todos deve ser respeitado até que, eventualmente, venha a ser revisto. Esse respeito não exclui, como já não excluiu para imensos paìses a aplicação do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a possibilidade de derrogações pontuais das regras, atendendo a situações específicas detetadas. Por isso é que há sempre lugar a um diálogo com a Comissão Europeia. Estranha-se, contudo, que se tenham atenuado na Europa as vozes no sentido de lançar o debate sobre a revisão do TO, tanto mais que estão hoje mais claros do que nunca alguns efeitos assimétricos nefastos da sua aplicação.

Não conhecendo, naturalmente, pormenores das negociações entre Lisboa e Bruxelas, devo dizer que me sinto muito confortável com a serenidade que o governo tem vindo a demonstrar no tratamento público da questão.

Só lamento - mas confesso que não fico surpreendido - que a oposição de direita esteja a procurar limitar internamente, sabendo que isso tem impactos externos inevitáveis (nomeadamente no alarme nas agências de notação), a margem negocial de manobra europeia do executivo, esquecendo que qualquer flexibilidade que agora fosse possível obter representaria um aliviar dos sacrifícios que o povo português suporta. Ou será que teme que venha a provar-se que era possível fazer melhor do que o "lindo serviço" que fizeram?

Uma noite na Sedes

Creio que terá sido nos primeiros meses de 1973. Nos arquivos da Sedes - esse clube de reflexão político-económica, de matriz liberal (no bom sentido), que o marcelismo (o outro) deixara criar e que ainda subsiste - deve ser possível descobrir o dia exato (como fui "para a tropa" em fins de março, deve ter sido até essa data). É lá que este episódio se passa.

Naquela noite, as instalações antigas da Sedes, na rua Viriato, estavam "à cunha". Estávamos lá para ouvir Francisco de Sá Carneiro, que, pouco antes, se havia demitido da sua condição de deputado à Assembleia Nacional, por insanáveis divergências com Marcelo Caetano. Eu nunca tinha ido à Sedes, aliás nunca fui dela associado e só por lá passei escassas vezes. Mas a perspetiva de uma palestra heterodoxa do líder da excluída "ala liberal" foi suficiente para se sobrepor à (pateta) sobranceria esquerdista com que então eu olhava as "contradições não antagónicas" que existiam no seio do regime. 

Por coincidência, cruzara-me à entrada com Sá Carneiro, que me lembro de trazer uma gabardine preta e que, pela autoridade e pela "gravitas" que projetava, dava ares de ser mais alto do que a sua pequena figura realmente era. Salvo uma tarde de 1970, em que o vislumbrei da tribuna dos visitantes, no plenário da Assembleia, creio ter sido esta a única vez que vi o fundador do PPD.

Já não recordo o tema da sessão, mas imagino que fosse do tipo "A situação política" ou outra daquelas fórmulas muito genéricas que eram sempre um pretexto para se falar de tudo. E se eu, que nem sócio era, pudera entrar (terei ido com alguém?), imagino que os ouvidos da polícia política estariam por ali também.

Não me lembro rigorosamente nada do que Sá Carneiro terá dito. Mas recordo que houve dois jovens que lhe colocaram perguntas, um pouco longas para o gosto da impaciente assistência, que se percebia que não estava ali para ouvi-los, mas apenas ansiosa pelas respostas do orador.

O primeiro foi-me identificado. Nunca o tinha visto, mas ouvira falar dele, pela primeira vez, já não sei a propósito de quê, anos antes, numa reunião da "Livrelco", a cooperativa livreira universitária, ali para os lados de Entrecampos, de cujos corpos gerentes fiz parte. Referiram-mo como "um tipo fino como um alho", um bocado "facho" (simplificação esquerdalha para tudo quanto não fosse, no mínimo, socialista. E mesmo assim...), uma das cabeças com futuro na direita.

O outro interveniente era-me completamente desconhecido. Foi quem falou mais. Exprimia-se muito bem, de forma articulada, num tom político que, sendo visivelmente distante dos terrenos em que eu me movia, indiciava fortes distâncias face ao regime. Recordo-me de ter inquirido o nome. Um conhecido que tinha por perto, esclareceu-me, em voz baixa: "É um católico do Técnico. Dizem que é muito esperto. Chama-se António Guterres". (Tenho sempre a dúvida sobre se, antes do "dizem" não houve um "mas"). Ah! O outro perguntador chamava-se, e chama-se, Marcelo Rebelo de Sousa.

Não deixa de ter graça que um seja hoje candidato a secretário-geral da ONU e o outro o futuro chefe do Estado.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O sorriso perdido de Centeno


Há cerca de dois anos, uma organização de alunos da Universidade Nova de Lisboa convidou-me para um debate sobre os novos desafios da Europa. Teria como parceiro de mesa Mário Centeno. O nome dizia-me alguma coisa, mas pouco. Fiz uma pequena pesquisa e ela fez-me lembrar que ouvira Mário Centeno na conferência anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde se pronunciara sobre Economia do trabalho. Ficara então muito bem impressionado com a apresentação feita, muito estruturada e com perspetivas que não conhecia.

O nosso debate na Nova correu muito bem. Voltámos, depois disso, a cruzar-nos algumas vezes, em reuniões, e, com naturalidade, vi-o surgir à frente da pasta das Finanças no governo de António Costa, de quem havia sido o "guru" na área económico-financeira. Todos nos recordaremos que havia então em Centeno uma jovialidade que se espelhava num sorriso franco, quase adolescente, que se manteve em muitas aparições públicas, em que foi sendo conhecido pelos portugueses. 

Esse sorriso tem esmorecido nos últimos tempos. Julgo que nenhum de nós, de fora, poderá sequer imaginar o que deve ser o peso de um lugar como aquele que Mário Centeno ocupa, sujeito às pressões de uma conjuntura internacional que não controla, à necessidade de dar resposta positiva aos compromissos internos que tornam viável a existência do executivo de que faz parte e, no topo de tudo isso, tendo que lidar com as "bombas ao retardador" deixadas pelo anterior governo, como foi o caso do Banif e se constata agora ter sido a linguagem dupla (para as instituições europeias e para a opinião pública interna) usada por Passos Coelho e pela sua equipa para qualificar determinados cortes feitos no quadriénio que cessou.

Gostava de voltar a ver Mário Centeno sorrir. Será sinal de que poderemos fazer o mesmo.

Delas..


Parabéns à "chefe" das minhas "Evasões", Catarina Carvalho, pelo seu delas.pt, um site dirigido às mulheres. Vou espiolhar...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Mesas


Na "Evasões" - á revista que às 6ªs é distribuída gratuitamente com o "Diário de Notícias" e o "Jornal de Notícias" - publico hoje mais uma despretensiosa croniqueta sobre um restaurante do país.

Desta vez foi o restaurante "Carvalho", em Chaves.

Pode ter o texto aqui, mas tem muito mais graça lê-lo na revista, que nos traz muitas outras dicas.

Sinais do tempo


Quando via como o Eusébio se arrastava pela relva artificial do Cosmos, para a coleta dos últimos dólares, quando a Amália se esganiçava com a idade e já nem dizia palavras, em espetáculos tristes que aplaudíamos por reverência, quando o Salvador fazia umas pontas deprimentes nas suas últimas passagens pelo Parque Mayer, e nós gargalhávamos por obrigação, sentia-me sempre um pouco mal. O presente não tem o direito de enterrar o passado, em especial quando este foi bonito.

Ontem, ofereceram-me o CD que reproduz um espetáculo de Sérgio Godinho e Jorge Palma. Com Fausto, ambos fazem parte da "troika" musical que me acompanha intimamente nas últimas décadas. Não me falha um CD de nenhum deles, garanto! Qual José Afonso, qual José Mário Branco, qual Adriano, qual quê! A mim, esse trio - e, por cá, só ele - faz parte da memória afetiva que trago permanentemente comigo. Por isso, "saí" muito mal deste CD. Caramba, os anos passaram! Mas não lhes digam! 

Ai Jerónimo!


O PCP, coitado, foi cilindrado nas eleições presidenciais. O candidato, Edgar Silva, foi, aliás, o menos culpado do descalabro, com uma campanha tão viva quanto o permite a mensagem que o partido transmite. Os comunistas não perceberam a tempo que muito do seu eleitorado cedo se transferiu, pela lógica do voto útil, para Sampaio da Nóvoa. Uma desistência em favor deste, a dois ou três dias do sufrágio, teria poupado esta humilhação.

Numa lógica que reproduz o partido brasileiro PMDB, que tem sempre uma parte na "base governista" e um setor na oposição, os comunistas procuram agora compensar o desaire saindo para "a rua" - essa "urna de voto" em que sempre se sentiram mais à vontade. E embora o governo socialista tivesse anunciado que, a seu tempo, retomaria as 35 horas que o anterior governo retirou à Função Pública, a CGTP de serviço saiu já à rua, não vá o diabo tecê-las. Sobre "a esquerda da esquerda", António Costa deve ter aprendido mais em escassas semanas do que em 40 anos da vida política que já leva.

No desvario do nervosismo da noite eleitoral - que me recorde, foi a única vez, desde o 25 de abril, que o PCP (ou os seus heterónimos frentistas) não teve uma "vitória", que é difícil mas é sempre deles! -, a Jerónimo de Sousa, homem sensato e cordato que costuma ser, saiu uma frase muito infeliz, ao dizer que o partido poderia ter optado por "uma candidata assim mais engraçadinha"

Foi o que se pode qualificar como uma graça "machista-leninista"...

Solmar


Soube há pouco que fechou a "Solmar"*.

O espaço fez parte de uma certa Lisboa, em especial noturna, nos anos 60. Porém, nunca fez parte da minha Lisboa. Sempre achei aquilo demasiado frio e incaraterístico, para o meu gosto. E, nos últimos anos, nas escassas vezes que por lá passei, à saída do Coliseu ou do Politeama, ficou-me uma imagem de algum descaso, com um serviço descuidado e distante, típico dos restaurantes com uma "morte anunciada". Há outros por aí...

Paz ao seu marisco!

ps - afinal parece que não!

Segurança europeia

Na passada terça-feira, no Instituto de Defesa Nacional, fui um dos oradores num debate sobre a "Estratégia global da União Europeia para a Política Externa e de Segurança". 

Há pouco, ao consultar alguns apontamentos em que assentei as minhas intervenções, dei-me conta de que terei porventura sido mais frontal do que habitualmente, nos comentários que então fiz. Neles coloquei em causa (e vi que alguns dos presentes poderão ter ficado chocados com isso, mas talvez a simplificação a que a língua inglesa nos conduz tenha tambëm alguma culpa nisso) a utilidade de um exercício que, a meu ver, não incorpora as "lições aprendidas" ao longo da mais de uma década passada desde um texto idêntico, datado de 2003. 

Fico com a sensação - e disse-o abertamente - que o mero compilar de interesses estratégicos, princípios, prioridades e implicações, em que supostamente todos estamos de acordo, pode ser "agradável à vista" mas esquece deliberadamente coisas muito importantes. Também não basta listar ameaças: é preciso hierarquizá-las e, nessa medida, priorizar os meios para lhes fazer face, com as implicações financeiras correspondentes. 

Desde logo, convém ter claro, e assumi-lo, o facto de não estarmos hoje todos no mesmo barco - desde a divisão Norte-Sul que o caso grego sublinhou, à divisão Oeste-Leste evidenciada pela crise dos refugiados e, noutra dimensão, nas perceções face ao caso ucraniano, passando pelos crescentes problemas internos que afetam a compatibilidade do comportamento de alguns Estados membros com a necessidade de observância com alguns princípios democráticos, de separação de poderes, de liberdade dos media, de respeito pelos refugiados, etc. Tudo isto afeta a nossa unidade, do mesmo modo que, em especial no último caso, atinge a autoridade da Europa como "produtor de segurança", reduzindo a sua legitimidade como "soft power" perante terceiros. 

Acho, além disso, muito cínico que não debatamos e iludamos (por inevitáveis? para não incomodar alguns?) questões como o modo bizarro como a UE trabalha nas Nações Unidas, com a França e o Reino Unido a furtarem-se à coordenação prévia com outros Estados membros no Conselho de Segurança. E reparo agora que não me lembrei de referir essa anomalia, hoje já interiorizada como normal, da Alemanha (e, às vezes, da França) se arrogar representar "de facto" a UE em contactos externos, como é o caso com a Rússia/Ucrânia ou a Turquia - com a senhora Mogherini, "dona" deste papel, a "vê-los passar". E não seria tempo de se fazer um balanço ao trabalho e resultados do Servićo Europeu de Ação Externa, bem como do "saldo" da sua articulação com a diplomacia bilateral dos Estados membros da UE?

Outro ponto que então destaquei, teve a ver com o quadro global das relações externas. O nosso "olhar" é tão eurocêntrico que parece que não cuida em destacar as mudanças sensíveis que se processam noutros espaços, desde a potencial influência, na relação transatlântica na própria configuração futura da NATO, da nova política dos EUA para a Ásia, os novos equilíbrios subregionais em África, as mutações ocorridas no mundo dos "emergentes" e as crises de representação institucional à escala global (instituições de Bretton Woods, G8 e G20, etc).

O que mais me chocou no texto apresentado foi o facto de, perante o "terramoto" em matéria migratória e de terrorismo por que a Europa está a passar, pela "casa em chamas" em que vivemos e que pode pôr em causa a sobrevivência do projeto europeu, agravado pelo afastamento britânico e pelas ameaças separatistas em alguns Estados, o texto burocrático preparado por Bruxelas transmita a sensação de que navegamos em feliz "velocidade de cruzeiro", num ambiente "business as usual", como se nada de grave se passasse. Fiz notar que esta aproximação é, em termos de "diplomacia pública", quase escandalosa e ofensiva para sociedades que vivem "stressadas" por crescentes angústias e dúvidas e que, seguramente, se sentirão chocadas por uma linha como a que é seguida pelas instituições de Bruxelas na preparação deste texto.

Os vidros do palácio


Pode parecer, mas estão longe de ser transparentes os vidros daquele “palácio”, na primeira avenida de Nova Iorque, onde se alojam as Nações Unidas. Aliás, “transparência” é uma palavra que não liga muito bem com aquela que é a mais opaca instituição de toda a constelação das organizações multilaterais. 

A complexidade do processo decisório e o rendilhado do seu rebuscado tecido de compromissos marcam a natureza de uma organização onde sobrevivem sólidos tabus, onde regras não escritas emergem de inesperadas solidariedades entre poderes que se combatem. Poderes que, conjunturalmente, se aliam em sentido construtivo mas que, infelizmente, as mais das vezes, condenam a ONU à inércia.

Que modelo de secretário-geral servirá melhor os equilíbrios do mundo em que hoje vivemos? Terá António Guterres o perfil para os tempos que aí vêm?

Olhando para os vários nomes que se sugerem, e sem o menor viés patrioteiro, quero dizer que o anterior Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados é, a grande distância, a personalidade mais bem preparada para o cargo. Alia cultura e visão políticas, experiência executiva no terreno e uma testada capacidade interlocução operativa. “Defeitos”? Não é mulher e esse fator hoje pode contar. Não é da Europa central ou de Leste e, no plano dos princípios, seria interessante que essa região finalmente pudesse indicar alguém para o lugar.

Mas as Nações Unidas, infelizmente, não vão escolher alguém exclusivamente pelo seu perfil curricular. Isso irá contar, com certeza, mas o passado ensina-nos que a seleção do nome passa por outros crivos, perfeitamente naturais numa estrutura de gestão coletiva de decisões.

A minha convicção mais profunda na matéria é simples. O próximo secretário-geral será alguém que a Rússia veja como não lhe podendo vir a causar a menor das surpresas, nomeadamente como possível factotum dos poderes ocidentais, nos próximos cinco anos, durante os quais procurará reganhar, sem cedências estratégicas de maior, a “respeitabilidade” entre as nações. Simultaneamente, terá também de ser alguém em quem Washington possa confiar como respeitador dos princípios essenciais da Carta, eventualmente tolerando algum voluntarismo, mas sempre muito realista e não demasiado ambicioso, alguém dotado de uma evidente capacidade para gerar consensos, ainda que diplomaticamente equívocos, desde que salvaguardem os equilíbrios de poder que os EUA têm por essenciais. Será secretário-geral quem conseguir esta “quadratura do círculo”. Os restantes 191 países, China incluída, acomodar-se-ão a esta equação bipolar, podem crer.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Por detrás do nevoeiro


É conhecida a graça jornalística britânica segundo a qual era o continente, nunca a Grã-Bretanha, que ficava “isolado” quando o nevoeiro se levantava na Mancha. O cultivo deliberado de uma identidade própria, bem como a capacidade para sustentar um frequente isolamento, foi algo que o Reino Unido sempre se habituou a fazer ao longo da sua presença nas instituições europeias. Por muito que as atitudes britânicas às vezes nos choquem, não podemos deixar de reconhecer que, a grande distância, o Reino Unido foi o país que melhor conseguiu que a sua ideossincrasia fosse respeitada e afirmada na Europa, ao longo das últimas décadas.

Por muitos anos, foi o laço transatlântico que deu o tom à especificidade britânica no quadro da integração continental. Sem chegarmos à teoria conspirativa francesa segundo a qual o Reino Unido funcionava como uma espécie de uma “quinta coluna” americana, é uma evidência que os britânicos usavam a special relationship para alimentar essa atitude distanciada. E, há que dizê-lo, fizeram-no muitas vezes com sucesso e viriam a encontrar, nesse tabuleiro de entendimento privilegiado com o “amigo americano”, uma espécie de elemento compensatório para as crises europeias.

Em muitos anos de convívio próximo com a excelente diplomacia do “Foreign Office”, nunca vislumbrei o menor embaraço da sua parte em sustentarem algumas posições “impossíveis”, às vezes com algum cinismo, outras vezes recorrendo a uma realpolitik quase obscena – como aconteceu no caso de Timor-Leste. Certos ou errados, com governos de várias colorações, os britânicos mantiveram-se sempre muito determinados na defesa da sua agenda nacional. Esta passava, sinteticamente, por três pilares: defesa dos direitos adquiridos em várias dimensões da vida institucional europeia, preservação de autonomia estratégica no plano externo, assente na preeminência do vetor transatlântico e da defesa da sua posição na ONU, e, last but not least, conservação dos privilégios da praça londrina, associada à permanente defesa de uma postura liberal no comércio internacional.

Os tempos mudaram para todos, e também para o Reino Unido. A relação transatlântica passa hoje por uma época menos “entusiasmada”, a capacidade britânica de projeção de influência e força já está muito longe de se poder sentir num mundo “onde o sol não se punha”, o seu tecido social interno sofre tensões que não só suscitam legítimas interrogações sobre a bondade do seu potencial integrador como induzem novos reflexos soberanistas que condicionam, a um grau nunca antes atingido, a gestão da sua política para a Europa.

David Cameron, o primeiro-ministro britânico, fez uma “fuga em frente” ao propor um referendo interno sobre a permanência na Europa. Perante uma opinião pública cultivada na diabolização de Bruxelas, uma operação desta natureza acarreta um elevadíssimo risco, que Cameron agravou agora ao colocar sobre a mesa uma agenda reivindicativa onde, a par de coisas de meridiana sensatez e passíveis de algum acordo, colocou alguns temas inegociáveis, que vão desde um “droit de regard” sobre a evolução da zona euro até uma derrogação dos direitos sociais dos migrantes. Os portugueses seriam aqui gravemente afetados e Londres sabe bem que isto, para nós, é inaceitável.

Foi um antecessor de Cameron, o lorde Palmerston, quem um dia afirmou que o Reino Unido “não tem amigos, só tem interesses”. Talvez os tempos tenham entretanto ensinado aos britânicos que podem ter algum interesse em ter amigos, mas que esses amigos – como é o nosso caso – não poderão estar com eles quando é o próprio Reino Unido quem se obstina em afetar os seus interesses.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Irão e os seus hábitos

Agora que a decisão italiana de tapar algumas estátuas desnudas, nos locais por onde passou o presidente iraniano, na sua visita a Roma, está ainda a provocar reações por esse mundo fora, creio ser interessante contar um episódio ocorrido com a visita a Lisboa, a meu convite, de um vice-ministro do governo de Teerão, creio que no final de 2000.

Meses antes, eu tinha chefiado uma missão da União Europeia ao Irão, para diálogo político. Depois de um início algo atribulado, por virtude de acusações iranianas à UE por intromissão nos seus assuntos internos, as conversas acabaram por correr bem e, no rescaldo do exercício, o meu interlocutor disse-me da sua vontade de visitar Lisboa, agora no plano bilateral. Porque isso também era interessante para nós, nomeadamente no plano económico, ali mesmo lhe formalizei o convite. 

Meio ano depois, o vice-ministro para os Negócios Estrangeiros desembarcava em Lisboa. Como a sua chegada era da parte da tarde, decidi oferecer-lhe, bem como à delegação, um jantar de trabalho no palácio das Necessidades, a que se seguiria, no dia seguinte, uma sessão plenária, com a presença de representantes de vários ministérios. A ideia foi aceite pela embaixada iraniana em Lisboa, a qual,  no entanto, informou que desejaria que não houvesse vinho ou qualquer outro tipo de álcool à mesa. Mandei informar a delegação iraniana de que, naturalmente, lhes não seriam oferecidas bebidas alcoólicas. No entanto, para os portugueses presentes, haveria vinho, se acaso quisessem. A resposta da embaixada foi clara: nesse caso, não estariam disponíveis para jantar. Na sua perspetiva, não seram admissíveis bebidas alcoólicas à mesa.

Devo confessar que estava já à espera de uma reação destas, pelo que mandei transformar o jantar num pequeno-almoço de trabalho, num hotel. Os iranianos não devem ter apreciado muito, mas aceitaram. Cheguei à hora combinada, acompanhado por quatro senhoras. Notei, na cara do meu interlocutor, um visível desagrado. Como é sabido, os iranianos não cumprimentam as senhoras, ou melhor, não lhes estendem a mão e colocam a sua sobre o próprio peito. Pelo "body language" getal, deduzi que estavam a considerar a composição da nossa delegação como uma evidente provocação.

Sentámo-nos à mesa e fiz as apresentações: era a minha chefe de gabinete, a diretora do serviço do Médio Oriente e do Magrebe, a diretora do serviço de Política Externa e de Segurança Comum e, se ainda bem me lembro, a diretora do serviço das Relações Externas, na área europeia. A avaliar pela súbita mudança dos fácies, os iranianos sossegaram. Afinal, aquelas senhoras estavam ali, não por uma escolha propositada, para os provocar, mas pelo facto de titularem funções indiscutíveis no quasro da nossa política externa.

Não faço ideia que impressão íntima esta presença maciça de mulheres em cargos dirigentes da nossa diolomacia terá feito na delegação iraniana, mas a única certeza que tenho é que isso os não deixou indiferentes. Cada terra com seu uso...

"Jornal de Negócios"

Passarei, de futuro, a colaborar periodicamente com o "Jornal de Negócios", que acolherá textos meus sobre questões europeias e internacionais. A coluna chamar-se-á "Duas ou três coisas"...

Agradeço à Helena Garrido e à sua equipa a sua "hospitalidade".

Egito


Foi há cinco anos. Eu tinha passado no Cairo escassos meses antes. Sentia-se uma tensão latente, os sinais islâmicos pelas ruas eram muito mais do que aqueles que tinha visto num passado não muito distante. Lembro-me de ter perguntado ao guia, um homem muito culto, a razão de ser daquele surto de véus, na cabeça de imensas raparigas, e de ele me ter respondido: "Isto é como uma farda. Só se espero que não haja "guerra"..." O Egito era então uma ditadura militar, dirigida pelo general Mubarak, um fiel aliado dos Estados Unidos, um dos pilares ocidentais na região. Um dia, as reivindicações democráticas, ecoando a "primavera" que surgira na Tunísia e começava a insinuar-se na Líbia, explodiu e "incendiou" a praça Tahrir. Algum mundo rejubilou com a expressão da vontade de liberdade no Cairo. Por semanas, todos acompanhámos pelas televisões esse acampamento de esperança. Penosamente, aos poucos, a ditadura foi cedendo e Mubarak acabou por ser preso. Realizaram-se eleições, tidas por livres. Ganharam os grupos islâmicos, que, desde há muito, contestavam o regime militar inaugurado por Nasser, em 1956. Chegando ao poder pelo voto, a nova liderança islâmica tentou criar formas de aí se eternizar. Um dia, já cansados desta experiência e da disrupção que ela induzira no país, os militares colocaram-lhe um violento ponto final. Um novo general, com o nome bizarro de princesa austríaca, Sissi, assumiu o poder. O mundo ocidental protestou, franziu o sobrolho e publicou os tradicionais comunicados. O general por lá continua. Para passar à História como sucessor natural de Mubarak só lhe resta vir a ter o apoio (mais) declarado do Ocidente. A realpolitik tem muita força. Por isso, já faltou mais. Nesse dia, o ciclo fechar-se-á, já repararam?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Daqui a pouco...


... reunião de condomínio!

"Gender balance"


É dos meus olhos ou começa a haver, no seio das lideranças do Bloco de Esquerda, um princípio de falta de respeito pelo "gender balance"?

Sarkogaffe



No novo livro de Nicolas Sarkozy, de que aqui havia falado há dois dias, o autor refere a campanha de "uma rara violência" entre George W. Bush e Barack Obama, na primeira eleição deste. mostrando-se surpreendido pelo facto do atual presidente americano, não obstante esses tensos momentos, se ter disponibilizado para uma iniciativa pública com o antigo presidente.

É sabido que as campanhas eleitorais, nos Estados Unidos, são sempre muito aguerridas. Acontece, no entanto, um pequeno, quiçá despiciendo, pormenor. O adversário de Obama não foi Bush, que já tinha terminado o seu segundo mandato, mas sim John McCain...

Acontece aos melhores, não é? Que Sarkozy estivesse distraído, tudo bem, mas não houve uma alma caridosa que tivesse descortinado a "gaffe" antes do livro ser impresso? Que amadorismo, para quem cultiva a ambição de regressar ao Eliseu!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Marcelo ou Rebelo de Sousa?

Por que dizemos "Marcelo"? Por que não dizemos "Rebelo de Sousa"? O que é que criou esta designação, algo intimista, que se colou à imagem do novo presidente?

Se olharmos para a política portuguesa, apenas muito raros líderes masculinos com uma relação afetiva com os seus apoiantes conseguiram ser chamados, com naturalidade, pelos seus nomes próprios: Vasco (Gonçalves) e Otelo (Saraiva de Carvalho), goste-se ou não deles, foram disso exemplo. Dos restantes, de Sá Carneiro a Soares, de Eanes a a Cunhal, de Sampaio a Barroso, de Cavaco a Sócrates, nunca o nome próprio de um político relevante se impôs no imaginário público. Até Maria de Lurdes Pintasilgo ficou conhecida pelo seu apelido.

Posso estar enganado, mas creio que o verdadeiro "criador" desta designação, que "pegou" na linguagem comum do país, deve ter sido o primeiro locutor (da TSF? da TVI?) que o designou como "professor Marcelo" e não como "professor Rebelo de Sousa" - como se diz "professor Sampaio da Nóvoa" ou se disse, por muito tempo, "professor Cavaco Silva". É claro que, nos meios públicos, todos já dizíamos, há muito, "Marcelo" e isso não terá sido sem efeitos.

Com esta expressão nominativa simplificada, em que o "professor" nos remete para a escola, para o educador que avalia e "dá notas", Marcelo Rebelo de Sousa acabou por tornar mais próxima dos portugueses a sua figura. Só se chama pelo nome próprio quem nos está (ainda que virtualmente, como foi a televisão) próximo, mas também quem tem uma imagem de bonomia que seja compatível com essa designação. Ninguém está a ver Cavaco Silva ser apelidado de Aníbal... Ora Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu isso por via mediática e, dessa forma, ganhou o "Marcelo" que lhe pode facilitar a ligação aos portugueses. Está nas mãos dele conseguir isso. Ou não.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Presidente Marcelo Rebelo de Sousa

O voto inequívoco dos portugueses colocou Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém. Não era este o meu candidato, mas este será, a partir de agora, o presidente da minha República. 

Por aqui coloquei, em diversas ocasiões, as dúvidas que conduziram a que não lhe desse meu voto. Espero, com toda a sinceridade, ter estado errado na avaliação que fiz. Espero que Marcelo Rebelo de Sousa me surpreenda. 

Carmona Rodrigues

Carmona Rodrigues foi, há dias, absolvido. Alguém sabe de quê? Eu não sabia, mas desconfiava. Era de "prevaricação". Ninguém o acusou de ter metido indevidamente um tostão ao bolso, de ser corrupto, de ter beneficiado de bens públicos. Ninguém o acusou de ser desonesto e isto é o mais importante.

E, contudo, se se perguntar a muitos portugueses o que acham de Carmona Rodrigues, bastantes dirão algo como isto: "Foi acusado lá na Câmara da Lisboa. Questões de dinheiro, pela certa! Não há fumo sem fogo! E eles acabam todos absolvidos, já se sabe!"

Praticamente, não conheço Carmona Rodrigues. Creio que falei com ele uma única vez, num jantar, há muitos anos. Não faz parte da minha "família" política, não temos amigos comuns, não há nenhuma razão especial para eu estar aqui a escrever esta nota.

Ou melhor, há: é a raiva que sinto com o facto da justiça portuguesa, no vai-e-vem das suas sentenças contraditórias, da politização frequente dos seus procedimentos, na inimputabilidade dos atrasos dos seus magistrados e serviços, nos ter retirado (para sempre?) toda a confiança no sentido das suas decisões.

Num país decente, Carmona Rodrigues devia ser ressarcido, após a absolvição, do labéu que sobre si foi um dia lançado. Quem o acusou, indevidamente, deveria ser "condenado", pela comunicação social, por ter manchado o bom nome de um cidadão que, um dia, se dispôs a servir a causa pública.

Por cá, as coisas não são assim. "Não há fumo sem fogo", é a frase canalha, da mesa do café ou da esquina da intriga, que corroi as instituições e revela a mentalidade "Correio da Manhã" do país em que hoje nos transformámos.

Um abraço solidário a Carmona Rodrigues, pessoa que não conheço.

Se houver segunda volta...


Não há a menor dúvida de que, logo à noite, Marcelo Rebelo de Sousa será o candidato mais votado. Também é claro que a segunda escolha irá para Sampaio da Nóvoa.

A grande questão está em saber se o candidato mais votado não ultrapassa os 50%, caso em que teria de ir a uma segunda volta. Se isso vier a acontecer, as próximas duas semanas de campanha serão muito interessantes.

Para o governo, uma segunda volta seria positiva, porque reforçaria a unidade das formações de esquerda à volta de Sampaio da Nóvoa o que funcionaria como uma sinergia de reforço da aliança política que apoia o executivo.

Devo dizer que não sei se, mesmo nessas condições, Nóvoa teria hipóteses de colmatar o "gap", em termos de votos, que irá ter face a Marcelo. Como também não sei se o eleitorado que apoia Maria de Belém, que irá ter um mau resultado, se transferiria necessariamente para Nóvoa.

É curioso que, se acaso tudo se tivesse passado ao contrário, isto é, se acaso Maria de Belem estivesse em melhor posição do que Nóvoa, as coisas seriam muito diferentes: toda a esquerda votaria nela, numa hipotética segunda volta, sem a menor hesitação. Mas é hoje evidente que o eleitorado de esquerda se revê muito mais num candidato como Sampaio da Nóvoa do que em Maria de Belém e que parte dos votos que esta obtiver nunca iriam para o candidato da esquerda. Muitos poderiam mesmo ir para Rebelo de Sousa. E isso muda toda a equação.

Voltando ainda ao interesse de António Costa e do governo numa segunda volta, há um aspeto a ter em conta. Se acaso a bipolarização e a confrontação viesse a ultrapassar um certo limite de tensão, e se Sampaio da Nóvoa acabasse afinal por não ser eleito, o governo teria perante si um novo presidente que os partidos seus apoiantes tinham acabado de combater fortemente. Por essa razão, não acredito que António Costa, mesmo na hipótese de uma segunda volta, se envolva demasiado na campanha. É que seria imprudente quebrar as "pontes" com um possível presidente Rebelo de Sousa. Percebo que isto possa parecer cínico para alguns, mas é a realidade.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, uma segunda volta, a acontecer, não deixaria de ter consequências políticas importantes. Contrariamente ao que ocorreu até agora, Marcelo necessitará da máquina da direita - ou, pelo menos, da máquina do PSD - para o ajudar a defrontar a mobilização que o conjunto dos partidos de esquerda farão em torno de Nóvoa. Ora isso funciona precisamente contra a "imagem" que, até agora, procurou criar: a de um candidato "transversal", que entra por algum eleitorado de esquerda através do fator "simpatia". A "despolitização" de Marcelo tem sido a chave do seu sucesso nas sondagens. Duas semanas de campanha com a máquina PSD ao lado transformarão necessariamente o candidato "mainstream" naquilo que ele, na realidade, é e tenta esconder: um político de direita. E isso tornará tudo muito mais verdadeiro.

Mas, para que tudo isso aconteça, é preciso que haja uma segunda volta. Logo veremos.

França: a direita em papel


Coincidindo com a decisão da direita francesa de organizar, no final deste ano, umas eleições "primárias" para a escolha do seu candidado presidencial em 2017, surgiram a público vários livros assinados pelos potenciais contendores. O mais recente é o Nicolas Sarkozy, publicado nesta sexta-feira e que, a avaliar pelos comentários da imprensa, apresenta uma versão escrita da postura "j'ai changé!", com que o antigo presidente se apresentou não há muito tempo numa célebre entrevista à TF1.

Ninguém em França acredita que Sarkozy tenha mudado. Mas cai sempre bem dar um ar de humildade, de arrependimento, porque talvez seja esse o caminho para tentar atenuar a elevadíssima taxa de rejeição que as sondagens mostram a seu respeito. Sarkozy mudou entretanto o nome do partido UMP para "Les Republicans" (em França isto é vulgar acontecer à direita e ao centro, embora menos à esquerda), num "rellabeling" que também quer fazer presumir mudanças de rumo. Veremos em que medida terá sucesso nesta operação, perante um país que, em 2012, se revelou exausto da sua "hiperpresidência", da sua agressividade e com crescentes dúvidas sobre a sua distância face a certos "affaires". Agora, o "novo Sarkozy" quer sugerir-se como "protetor" dos franceses, procurando evitar que a sedução do "Front National" de Marine Le Pen se acentue. Resta saber se não acabará por reproduzir a agenda da extrema-direita, como muitas das suas atitudes recentes parecem indicar.

Sarkozy não está isolado nesta sua nova aventura editorial (em França, um político que não publica um "bouquin" todos os dois anos praticamente não existe). Desde logo, das cinzas da última eleição interna dentro da ex-UMP, "renasceu" Jean-François Copé, o "maire" de Meaux, uma figura muito controversa, que tenta um "comeback" com um livro "de ideias". Nas mesas das livrarias, vi também edições dos dois outros pretendentes ao Eliseu, os ex-PM François Fillon e Alain Juppé e o ex-ministro Bruno Le Maire. E anunciam-se publicações de mulheres que já foram "escudeiras" de Sarkozy e que agora se distanciaram, como Nathalie Kosciusko-Morizet, Nadine Morano e Valérie Pécresse. E outros aparecerão, pela certa.

Um amigo socialista francês comentava-me, há dias, que os próximos tempos da direita vão ser muito interessantes de seguir. E, maldoso, comentava: "Não sei se Valls ou Macron não se aventurarão a concorrer às 'primárias' da direita". Ora Manuel Valls e Emmanuel Macron são respetivamente primeiro-ministro e ministro das Finanças ... do atual governo socialista! Mas ambos têm uma posição política tão à direita que a anedota não deixa de ter algum sentido.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A sobrinha


Caíram logo sobre mim, no final daquele jantar, há dias, em Paris, comemorativo da exposição (excelente, diga-se) de Julião Sarmento. Um após outro, com uma curiosidade gulosa, aqueles amigos declinaram, cada um a seu modo, a questão essencial: "então que tal foi a conversa com a sobrinha da Jane Fonda?"

Eu havia jantado ao lado de uma sobrinha da Jane Fonda?! Não sabia! 

O jantar tinha sido em mesas redondas, creio que com umas dez pessoas cada. Na minha mesa, à direita, ficou uma senhora nos seus "mid-forties". Havíamos falado de muita coisa, de termos coincidido em Angola durante três anos, nos idos de 80, quando ela era uma criança filha de um diplomata italiano (tinha na memória, como eu, o som das armas que, por noites seguidas, regularmente pontuavam o recolher obrigatório noturno). Contou-me do pai e das ideias, pouco comuns mas muito interessantes, que hoje cultiva, trocámos notas sobre livros (vários), ouvi-lhe um delicioso episódio passado com Isabel dos Santos, escutei-a sobre esse assunto fascinante (e, para mim, misterioso) que é a relação dos artistas com os curadores das suas exposições, relatou-me divertidas histórias sobre os galeristas e o seu mundo, deu-me notícias sobre uma certa Londres que me intriga e que ela conhece muito bem. Foi um jantar muito divertido, solto, bem disposto, ao lado de uma mulher elegante, risonha, inteligente e muito interessante ("não desfazendo" na companhia feminina do outro lado, que não vem para a história).

E se eu tivesse sabido que ela era sobrinha de Jane Fonda? Por certo, estando em Paris, a conversa iria ter a Roger Vadim (e à imbatível série das mulheres que teve, de que a tia dela fora um mero episódio), provavelmente perguntar-lhe-ia coisas sobre o avô (ou teria uma relação por afinidade?), Henry Fonda (escondendo-lhe eu, por recato, o sentimento de o achar um ator muito sobrevalorizado, sempre com ar "enjoado"), pelo tio, Peter Fonda (passando a conversa pelo inevitável "Easy Ryder" e talvez por umas suas polémicas declarações, há semanas, em que chamou "f...-traitor" a Obama), e, como é óbvio, falaríamos da senhora sua tia, que admiro pela coragem na denúncia da guerra no Vietnam, famosa pelos músculos do "workout" e, claro, pela sua filmografia (que nunca me convenceu muito) - eu que bem a conheço desde o (hoje ridículo) "Barbarella". E, claro, viria à baila o ex-tio Ted Turner, o ricaço da CNN, um liberal (no bom sentido, isto é, no sentido americano) com ar de cowboy, que conheci pessoalmente em Nova Iorque, que havia dado um bilião de dólares à ONU, para um fundo em cuja gestão tive o gosto de participar, durante um ano. Já imagino mesmo o muito vulgar "name-dropping" em que cairíamos (ou melhor, em que eu teria a tentação de cair, confesso). Até porque, finalmente, seria preciso falar sobre quem era a mãe dela (irmã de Jane? de um marido?). 

Feitas bem as contas, ainda bem que eu não sabia de quem a minha companheira de mesa era sobrinha. A conversa acabou assim por ser bem mais interessante. E, para aqueles amigos, ficou-me no "currículo": "Com que então numa grande conversa com a sobrinha da Jane Fonda, ehin?!"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Muito lá de casa...

Há umas semanas, publiquei este artigo. Revisito-o agora porque, creio, dele fica evidente o nome de um candidato presidencial em quem não votarei...

Um dos candidatos que estas eleições presidenciais oferecem à escolha dos portugueses é uma figura que, durante anos, entrou na nossa casa com grande frequência. Não tocou à porta, mas esteve connosco na sala, conversando sobre tudo e sobre todos, de futebol a política, de “faits divers” às finanças, da justiça aos espetáculos, da lombada de livros às questões de saúde, etc, etc.

Sobre tudo tinha ideias, de tudo parecia que sabia um pouco, num modelo a que os italianos chamam de “tudólogo”. Diz coisas certas? Claro que sim, a par de outras que são tão discutíveis como as que qualquer um de nós costuma ter. Educado, inteligente, informado, às vezes um tanto “pela rama”, outras um pouco mais profundo, o tal candidato provou que quase nada do mundo lhe era alheio. Ou parecia ser. A sua melhor definição foi-me dada um dia por um amigo: “estou quase sempre de acordo com ele, exceto quando conheço bem os assuntos!”

No cenário de fundo da vida da esmagadora maioria dos portugueses adultos, o tal candidato é uma figura que nunca esteve distante. Os mais velhos lembram-no como jornalista, outros como político ou como jornalista político, muitos outros simplesmente como professor – e nós sabemos como ser “professor” sempre por cá funciona subliminarmente como um fator de prestígio para credibilizar o que se diz. A maioria dos contemporâneos recordá-lo-á como opinador, primeiro na rádio, depois nas televisões, nestas tendo vogado entre canais. No desporto, não é do Benfica nem do Sporting, antes pelo contrário, não sendo também do Porto. Todos o identificam com um partido mas também já o ouviram criticar, sem exceção, os líderes desse mesmo partido. Todos? Todos! Mesmo que ele próprio tenha também cumprido um dia essa função…

Para muitos dos portugueses, esse candidato sugere a intimidade que temos com um primo distante, daqueles que irrompe nos casamentos ou nos batizados. Não o conhecemos bem, mas é insinuante, simpático e dialogante. Conta anedotas, é espirituoso, desenha uma presença agradável, sai-se com tiradas inteligentes, às vezes iconoclastas, as mais das vezes jogando no “mainstream” do senso comum. Algumas mulheres acham-lhe piada, alguns homens apreciam-no como divertido e eternamente bem humorado. Todos o tratamos pelo primeiro nome, claro. É muito lá de casa…

Há uma década, quando Cavaco Silva foi candidato a presidente, recordo-me do modo complacente como alguns, mesmo nele não votando, encararam com resignada aceitação a sua eleição, não obstante ser “do outro lado”. Dizia-se que era um homem “rigoroso”, “austero”, uma figura "em quem se podia confiar”. Depois, foi eleito e saiu-nos na rifa o que temos visto!

Imaginem agora que outro alguém, também “do outro lado”, mas a quem ninguém se atreverá a colar os qualificativos sossegantes que ingenuamente concedíamos ao presidente cessante, volta a ocupar Belém! Ah! “Mas este tem muito mais graça, é divertido! Vai ser um tempo interessante!” Pois, pois! Esperem pelas crises, pelos dias em que as coisas não estejam a correr bem! Depois não me venham dizer que não avisei!    

O risco


Na República em que vivemos, mesmo contando os momentos de reeleição dos quatro anteriores presidentes (Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco), nenhuma outra campanha terá contribuído mais fortemente para criar um sentimento de irrelevância da função presidencial. 

O desinteresse que se instalou na opinião pública em torno da escolha do chefe do Estado tem vários responsáveis e o principal chama-se Cavaco Silva. Foi-o pela forma como se comportou no exercício do cargo (as sucessivas sondagens são inequívocas), em particular neste segundo mandato e, muito em especial, pela sua catastrófica gestão da agenda política em 2015. 

Parte da responsabilidade cabe contudo às principais forças políticas. Habituámo-nos ao discurso de que esta eleição é unipessoal, que os partidos políticos surgem apenas como coadjuvantes da vontade dos candidatos. Mas todos sabemos que as coisas, sendo formalmente assim, na prática são diferentes. O envolvimento das forças políticas organizadas é essencial para garantir a mobilização popular que transforma a escolha de uma pessoa e na sua legitimação política pelo sufrágio. E os partidos notaram-se pela sua ausência.

A sucessão temporal entre as eleições legislativas e a campanha presidencial, cumulada com a circunstância da solução governativa ter assumido contornos atípicos, criou uma conjuntura bizarra, a que os partidos não souberam dar a volta. Isso acabou por instalar na opinião pública um alheamento que se somou também à ideia de que estávamos a escolher apenas, perdoe-se-me a simplicidade, “o sucessor de Cavaco”. E isso, percebe-se, não era a coisa mais estimulante do mundo.

Os figurantes não ajudaram? Convenhamos que a direita não tinha muito melhor para apresentar. Na esquerda socialista, as figuras com melhores condições cedo se colocaram fora da contenda e as que apareceram a jogo desempenharam o papel que as circunstâncias permitiram. Nas restante forças políticas com expressão, as escolhas foram “honorables”. E os “espontâneos” e os “cromos” são, hoje como sempre, apenas isso mesmo.

A função presidencial não sai elevada desta campanha. Ironicamente, a responsabilidade de quem vier a ser eleito será grande, porque lhe vai competir – se souber e puder – retomar a importância da instituição Presidência da República no quadro interinstitucional. Se o não conseguir fazer, o risco é claro: é a possibilidade de, no seio das principais forças políticas, vir a gerar-se um consenso no sentido de rever a Constituição, por forma a reforçar o pendor cada vez mais parlamentar do regime, passando o Presidente a ser eleito na Assembleia da República, como acontece, por exemplo, na Alemanha ou na Itália. Ou na Grécia.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Política

É impressão minha ou, de repente, isto dá ares de estar a começar a ficar esquisito? 

É o comportamento da bolsa, são os sinais e recados de Bruxelas, são as dúvidas das agências de notação, é a conversa já seca da meninas do Bloco, é o avanço firme do Marcelo Nuno, são as rugas crescentes no discurso de Jerónimo de Sousa, são as parcelas das contas com zeros que parecem a mais, é o atenuar do discurso de observância dos "targets" europeus, é o reafirmar prioritário do "compromisso histórico" conjuntural. 

Mas pode ser só impressão minha.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A cunha

Aquele amigo olhou para o secretário-geral do MNE com uma cara que denunciava uma qualquer núvem de divergência entre ambos.

- Devo dizer-te que fiquei bastante desiludido por afinal não teres colocado o rapaz de quem te tinha falado naquele posto. Eu havia-te dito que tinha um grande empenho em que fosse ele o nomeado...

- Eu tinha percebido, meu caro! Só que verifiquei que todos os outros candidatos eram melhores que o "teu"...

- Ora bolas! Mas a minha "cunha" era precisamente pelo facto de se saber que os outros eram melhores... 

Pergunta e resposta

- Olha lá! O teu blogue deixou de ter fotografias? Fica mais triste...

- Já voltarão, já voltarão! O que acontece é que estou fora de Portugal há quase uma semana e, como sou um "nabo" informático, não consigo colocar fotografias nos posts, com o iPad.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Emprego?

Numa notícia de jornal de hoje, o meu nome surge simpaticamente citado como hipótese para o lugar de próximo Secretário Executivo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). 

Tenho a certeza de que se trata de uma mera especulação mediática, tanto mais que, de há muito, é sobejamente conhecida, nomeadamente por parte de quem é relevante nestas coisas, a minha definitiva e irrevogável (e, no meu caso, "irrevogável" significa isso mesmo) indisponibilidade para quaisquer funções remuneradas de natureza oficial. Isto é válido para este caso como já o foi no passado para outros e o será no futuro para tudo.

Pode parecer pretensioso estar a afirmar isto desta forma, mas apetece-me cortar cerce qualquer especulação.

Almeida Santos

Para a minha geração política, António Almeida Santos era um nome mítico da oposição moçambicana ao salazarismo, ligado aos "Democratas de Moçambique" que, ciclicamente, causavam engulhos à ditadura, por ocasião das farsas eleitorais a que esta não se podia furtar. Foi assim com naturalidade que, em 1974, o vi surgir como ministro da Coordenação Interterritorial, esse nome rebuscado com que a Revolução crismou um Ministério do Ultramar em transição. Depois, como não podia deixar de ser, na raiva da diabolização, vi-o colocado no pelourinho por quantos foram vítimas inocentes de uma descolonização apressada e de desfecho inevitável, uma bomba-relógio criminosamente deixada avançar pela cegueira colonial.

António Almeida Santos foi um dos mais prolíficos legisladores do regime democrático. Senhor de uma escrita límpida e rigorosa, era um jurista eminente e a República deve-lhe muito. Ministro em diversos governos e em várias pastas, não conseguiu chegar à chefia do executivo quando Mário Soares a abandonou, muito por mérito da onda cavaquista que os fundos comunitários já começavam a adubar, nesses anos 80. Também nunca foi presidente da República, um lugar que lhe cairia como uma luva, mas em que os "timings" eleitorais o não favoreceram. Mas o seu período como presidente da Assembleia da República, quando melhor o conheci, ficou gravado como um marco naquela casa da democracia.

Tinha-o como um amigo certo, um homem sereno, ponderado e sempre disponível para quem o conhecia. Era senhor de uma palavra serena, de um juízo sólido, de conselho avisado. Sabia quando e como manifestar a solidariedade devida, como eu próprio tive o privilégio de apreciar. Guardo dele muitos daqueles cartões escritos numa letra límpida (como também era a do seu grande amigo Mário Soares), alinhada, desenhando palavras amáveis, às vezes com uma sugestão, outras com uma nota de simpatia. As mesmas palavras que trocámos, pela última vez, num almoço nas Amoreiras, um pouso gastronómico que curiosamente apreciava. Disse-lhe então que, há anos, o achava "sempre na mesma", com o um aspeto físico imutável. Respondeu-me: "o meu querido amigo nem imagina como esta "máquina" se vai estragando..."

A vida trouxe-lhe algumas fortes tristezas, talvez só compensadas pelo respeito e pela muita consideração que sabia gerar e cultivar nos outros, com naturalidade e imensa simpatia. Os socialistas devem-lhe a lealdade, o equilíbrio e o testemunho de quem soube unir diferentes gerações e protagonistas.

Tenho muita pena que uma inadiável missão de trabalho no estrangeiro me impeça de lhe poder deixar o último testemunho de uma amizade que não esquecerei.

"Much ado about nothing"

Nos últimos anos, dei aulas sobre prática diplomática a estudantes universitários. Alguns deles eram estrangeiros, o que fez com que, em diversas ocasiões, tivesse de abordar o modo muito diferenciado como cada país leva à prática aquilo que Paulouro das Neves tão bem trata no livro a que, com felicidade, deu o nome de "Rituais de Entendimento".

Um dos temas que sempre verifico que suscita curiosidade nas aulas prende-se com as condecorações que são atribuídas por um país a cidadãos estrangeiros. Se há práticas diplomáticas que é tradicional serem comuns, neste domínio elas divergem de Estado para Estado e cada país é chamado a definir as suas regras próprias, feitas de um historial que lhe é específico. E que, naturalmente, compete aos profissionais de cada diplomacia nacional acatar e respeitar.

Nas últimas horas, vi na internet e na comunicação social uma estranha polémica, aparentemente pelo facto da nossa embaixada em Paris não ter acolhido a entrega de uma condecoração atribuída pelo governo francês a uma determinada personalidade portuguesa.

Atentas as últimas funções diplomáticas que exerci, compreender-se-á que aborde este assunto com extremo cuidado, tanto mais que desconheço, em absoluto, o contexto dos factos. Mas há uma coisa que não posso deixar de afirmar, com a maior clareza: eu teria ficado surpreendido se uma condecoração francesa tivesse sido entregue a um cidadão português, quem quer que ele fosse, nas instalações da nossa embaixada em Paris. Apenas porque não é essa a regra.

Nunca vi - mas admito, modestamente, que possa não ter visto tudo - uma representação diplomática portuguesa acolher a entrega de condecorações oficiais estrangeiras. Posso entender que o agraciado pudesse ter gosto nisso, admito mesmo que o país agraciante pudesse não ver inconveniente em que um território diplomático estrangeiro pudesse ser usado para esse fim. Admito tudo isso, mas um Estado não deve adaptar as suas regras protocolares às vontades pessoais, por mais respeitáveis que sejam, ou a quaisquer práticas estrangeiras. Às representações diplomáticas e consulares portuguesas compete zelar pela observância das regras que são próprias a Portugal. E elas são, nesta matéria, muito claras. Nada disto me parece, sequer, discutível.

Com toda a franqueza, tudo isto me parece "much ado about nothing", como dizia Shakespeare para significar o nosso simples "tanto barulho por nada".

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Italiano

Só tenho um livro em italiano. Comprei-o há muitos anos, era sobre um tema que me interessava bastante e, na minha ingenuidade, pensei que conseguiria lê-lo. Qual quê! O italiano é, para mim, uma língua muito difícil, quase impossível. Por muito que reconheça algumas palavras, não consigo ler longos textos, da mesma maneira que, muitas vezes, vejo-me em palpos de aranha para entender a própria língua falada, ainda que com a ajuda dos gestos que fazem parte da sua coreografia tradicional. 

Hoje, em Roma, entrei numa Feltrinelli, livraria da fantástica editora do mesmo nome. Há muitos anos que me impressiona a variedade e a qualidade da edição italiana! (Para além do próprio país, onde se venderão os livros em italiano? No Ticino suíço ou em alguns bairros de Nova Iorque?). Olhei para tudo aquilo com o ar de um verdadeiro analfabeto. A verdade é que por muito que sempre me agrade espiolhar o cenário das livrarias, em qualquer parte do mundo onde vá, saio sempre um pouco frustrado dos locais onde não consiga comprar qualquer livro. Como me acontece agora, já à saída do voo para Lisboa. 

Trivia

Adoro o conhecimento "inútil". Desde que me conheço que tenho um fascínio, talvez até um pouco adolescente, por um tipo de informação que não tem a menor utilidade, que não seja a satisfação da curiosidade própria. Tenho vários livros sobre "trivia", que tratam de tudo e de mais alguma coisa. Os mais céticos chamam a isto depreciativamente "cultura de almanaque", mas a mim é-me completamente indiferente a sua opinião. Continuo, por exemplo, nesta busca incessante de resposta para essa questão "grave" e polémica que é a origem da expressão "OK", embora já tenha descoberto a razão pela qual os barcos de turistas no Sena se chamam "bateau mouche". Eu sei que o "tio Google" hoje responde (embora às vezes com respostas contraditórias entre si) à maioria das perguntas, mas eu sou de outro (glorioso) tempo, das discussões intermináveis da mesa da Gomes em Vila Real ou da "sala verde" do velho ISCSPU da Junqueira, acabando nas noitadas do Montecarlo ou do Procópio. Nada se equipara a uma boa discussão, por tudo ou por nada, principalmente por nada.

Ontem, no final do almoço (segui o conselho do papa Francisco, o qual, do alto da janela na praça de S. Pedro, nos havia recomendado, minutos antes, "buon pranzo a tutti"), tive uma conversa com o dono de uma "trattoria" romana e, já não sei bem a que propósito, veio à baila a palavra "tedesco", estranho termo com que os italianos se referem aos alemães. Não falo uma linha de italiano (entendo alguma coisa, mas não passo do "arriverderci" ou da "buona notte"), mas andava há anos com a curiosidade de conhecer a origem da expressão. O homem, pessoa culta que falava um francês magnífico, fruto da emigração que lhe permitiu amealhar para comprar a casa, mostrou-se tão intrigado como eu. E lá andámos nós, entre um "lemoncello" que acabou por ter de duplicar-se, à procura da etimologia da palavra. E que descobrimos? Que a palavra tem origem na designação de uma língua medieval alemã, o "theodisce", utilizada popularmente, e que significava precisamente "do povo". É aliás a partir do final dessa palavra que nasce o conhecido "deusch". 

As coisas que se aprendem quando se quer saber! Estava eu a pensar nisto, para fazer a nota para este blogue, quando deparei com uma reportagem com os golos da jornada futebolística italiana na televisão. Fiquei preso ao écran por uns minutos, até que, nesta língua cheia de "is" que é o italiano, ouvi a conhecida expressão "calcio" para designar futebol. E lá vou eu à procura da razão que leva a Itália a usar uma palavra tão diferente da generalidade das línguas conhecidas, para se referir ao mais belo jogo do mundo...

domingo, 17 de janeiro de 2016

Comunicação social

Não aprecio muito as análises sobre a comunicação social que assentam na presunção mecanicista de que a orientação dos "media" depende quase exclusivamente das pessoas escolhidas para os dirigirem. Uma avaliação deste tipo pressupõe que o corpo redatorial desses jornais, rádios ou televisões não passa de meros "paus mandados", sem coluna vertebral deontológica, que se vergarão às determinantes que lhes vierem a ser impostas, sem um mínimo de resistência se acaso lhes vier a determinada uma inflexão enviesada na linha informativa. Também resisto a pensar que certos profissionais nomeados para lugares de chefia nesse órgãos, conhecidos pelas suas posições mais à esquerda ou à direita, tendem a que essa sua orientação ideológica se sobreponha em absoluto ao seu compromisso profissional com a verdade. 

Penso tudo o que escrevi. Mas a vida e a experiência também me ensinaram a já não ser excessivamente ingénuo neste tipo de questões, "if you know what I mean".

sábado, 16 de janeiro de 2016

Remunerar o trabalho

Desde que, há cerca de três anos, regressei definitivamente a Portugal, tenho vindo a ser convidado a estar presente em colóquios ou palestras, sobre temas em que, aparentemente, se considera que posso dar alguma contribuição com interesse, normalmente sobre temas de natureza internacional, mas não só. 

Na medida da minha disponibilidade, faço-o sempre com gosto, embora algumas dessas prestações deem, por vezes, bastante trabalho a preparar. Não raramente, esses eventos têm lugar fora de Lisboa, implicando deslocações, por vezes longas e cansativas. Nesses casos, quem convida prevê, muitas vezes, alojamento e, em algumas ocasiões, as refeições e o transporte. Porém, só em situações muito pontuais a presença nessas tarefas inclui o direito a uma qualquer remuneração, ainda que pequena, ou o pagamento de um qualquer per diem

A experiência mostra que, em muitos países, as coisas se passam de forma diferente: quem é convidado a falar recebe, por regra, uma remuneração por esse trabalho, por vezes mesmo uma quantia significativa, outras vezes um valor pouco mais que simbólico. Mas há quase sempre um determinado montante, às vezes umas escassas centenas de euros, como forma de retribuir o trabalho executado. Por vezes, como já me aconteceu nos Estados Unidos, na Polónia, na Coreia do Sul, na Alemanha e em outros lugares, torna-se mesmo obrigatório aceitar esse montante, não podendo os oradores dispensá-lo. 

Por que será que, entre nós, as coisas se passam quase sempre como se fosse natural que o trabalho pro bono devesse ser a regra? Será que se considera que somos nós que nos devemos sentir honrados com o convite? Nesse caso, "à la limite", talvez devêssemos ser nós a pagar alguma coisa! Ou será porque se entende que quem é convidado a falar tem recursos suficientes para dispensar ser recompensado pelo seu esforço? Conheço pessoas que, entre nós, já só se disponibilizam para falar em público mediante remuneração. E, infelizmente, também já assisti a casos em que oradores não remunerados estavam sentados lado a lado com outros pagos para a mesmíssima tarefa.

Posso perceber que, tratando-se de instituições sem fins lucrativos ou de natureza beneficente, a gratuitidade possa ser solicitada. Mas já compreendo menos bem que, quando há uma "sponsorização" dos eventos, por parte de entidades públicas ou de empresas, neles não esteja prevista uma qualquer remuneração para os oradores, repito, mesmo que não seja muito elevada. E em especial não consigo entender muito bem que, quando os organizadores desses eventos são profissionalmente remunerados para os prepararem e gerirem, possam legitimamente pedir a alguém que convidam para falar que se disponibilize a nada receber.

Lembrei-me disto ontem, aqui em Roma, onde vim falar a convite de uma determinada entidade. Transportes (mesmo em Lisboa, até ao aeroporto e no regresso a casa), alojamento e todas as horas de trabalho que executei foram devidamente compensadas monetariamente. Não foram números muito expressivos, mas representam o respeito devido pelo labor na preparação de uma conferência e em algumas horas de debate especializado.

É assim que as coisas devem ser e espero que, cada vez mais, entre nós também comecem a ser assim.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Bola ao centro

Recomeça o jogo no CDS. Um novo líder agarra o testemunho de uma formação que o destino condenou a nunca poder ser o maior partido.

Num dia de dezembro de 1974, uma delegação do CDS expôs ao Movimento das Forças Armadas o problema existencial que afetava o partido. O CDS fora estimulado a organizar-se pelo presidente Spínola, Freitas do Amaral integrara o Conselho de Estado, mas o CDS não ingressara nos governos provisórios (não viria a fazer parte de qualquer deles, até 1976). A sua legalidade era indiscutível e o seu programa era compatível com os princípios da Revolução (teria graça relê-lo hoje). No entanto, o CDS defrontava crescentes dificuldades de organização (comícios boicotados, sedes assaltadas, militantes ameaçados), sob a aparente indiferença das forças da ordem.

Recordo bem a intervenção de Vitor Sá Machado: o CDS pretendia acolher quem não se reconhecia à esquerda (na altura, afirmar-se "de direita" era quase tabu), dar a esse setor um espaço democrático de expressão e, por essa via, "servir o 25 de abril”. Porém, para tal, necessitava de saber se as Forças Armadas estavam dispostas a dar garantias para a sua existência, se o partido poderia, ou não, ter condições de se estruturar em liberdade. Deixou subentendido que, se acaso o CDS desaparecesse, haveria o risco de determinados meios mais conservadores poderem optar por se colocarem violentamente fora do sistema

A delegação do MFA era chefiada pelo (então) tenente-coronel Franco Charais (eu estava lá como militar). Assegurou que o CDS tinha todas as condições para continuar a existir, parte das dificuldades do partido deviam-se ao facto de muitos dos seus aderentes serem antigos apoiantes da ditadura. Fixei uma frase: "Um outro partido de direita, como o PPD, também tem esse problema"...

O CDS fez entretanto o seu percurso. Enquadrou o desespero dos "retornados", escapou à "poluição" das derivas bombistas do MDLP e do ELP, conjugou verdadeiros democratas com reacionários assumidos. Integrou governos, esteve em riscos de apagamento parlamentar (fase do "taxi"), vagueou por lideranças contraditórias. Foi do federalismo europeu ao discurso eurocético radical, da democracia cristã ao neo-liberalismo. Defendeu pensionistas e justificou os cortes que os atingiram, diabolizou os impostos e subscreveu a mais violenta carga fiscal. Às vezes, as caras que titularam essas fases políticas foram diferentes, outras vezes, o mesmo figurante fez os dois papéis.

Uma coisa o CDS nunca fez: assumir causas de extrema-direita, xenófobas, racistas, ultra-securitárias ou discriminatórias, nomeadamente no plano religioso. Só podemos esperar que a nova liderança seja digna deste património.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Boa memória (2)


Há pouco, ao apanhar um táxi para o aeroporto, ainda tive a esperança do carro ser conduzido por este conhecido motorista, que chegou "à praça" lisboeta em 1989. Não era. É que, nos dias que correm, já tudo é possível...

Outros presidentes

Foto de Margarida Lima

Nesta cidade de Lisboa, há umas tertúlias simpáticas, que juntam gente muito diversa, que convida para almoçar ou para jantar uma figura pública que se dispõe a falar sobre a sua atividade ou sobre um tema específico, havendo depois um diálogo alargado com os circunstantes. 

Faço parte de algumas dessas tertúlias. O compromisso dos convidantes é que o que por ali se disser é "sagrado", não vem a público. Até hoje, nunca vi essa regra desrespeitada.

Há semanas, jantei num desses "cenáculos" com o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina. Ontem, tive o gosto de almoçar com o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira.

Ao ouvi-los falar sobre as cidades que gerem, os respetivos problemas, as questões com que se confrontam e os planos que têm para elas, apetece-me utilizar a frase "histórica" do capitão Fernandes, em 1975, no auge do PREC, quando perguntado sobre o destino das armas que tinha desviado de Beirolas: "Estão em boas mãos!"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Istambul


Há não muito tempo, depois de fazer uma palestra em Antália e de reuniões em Ancara, tomei a decisão, antes do regresso a Lisboa, de passar um dia em Istambul.

Parti de Ancara num voo bem matutino, instalei-me num hotel perto da Aya Sofia e, durante 11 horas (é verdade!), flanei sozinho pela antiga Constantinopla (ser filho único ajudou-me sempre muito a gostar de andar comigo mesmo). Almocei no restaurante da estação tornada famosa pelo Expresso do Oriente (de onde Gulbenkian partiu, em fuga, quando jovem), comprei castanhas pela rua, visitei mesquitas (nunca tinha ido à Suleimaniye), perdi-me no mercado das especiarias, fiz o clássico passeio de barco pelo Bósforo (onde tive uma curiosa conversa com um médico iraniano, que por aqui contei), vi o sol a pôr-se à passagem pelo palácio Dolmabahce, galguei até às alturas de Galata, com pausa para um copo no bar do Pera Palace, calcorreei toda a Istiklal até à praça Taksim (lembrando os confrontos, não muitos meses antes) e não resisti ao cliché de tomar o famoso elétrico de volta. Jantei muito bem, por ali, para o tarde, num restaurante moderno, com uma livraria acoplada (tudo publicado em turco, infelizmente...), com imensa gente, música ao vivo, acompanhado de um tinto búlgaro que me soube pela vida. A noite estava quente, desci no funicular, parei uns minutos na ponte, na travessia para a cidade velha, para observar a sorte dos seus eternos pescadores. Apenas por cansaço, tomei um taxi no percurso que me restava até ao hotel, não sem antes ter bebido um sumo de limão gelado num boteco tradicional. Um dia turístico barato, numa imensa tranquilidade, numa das mais vibrantes e belas cidades do mundo.

Senti-me então em Istambul em completa segurança, como sempre me recordo por lá. A cada vez, desde a primeira visita nos anos 80, a expressão islâmica no vestuário das mulheres acentua-se a olhos vistos - como aliás acontece no Cairo, em Tunis, mas muito pouco em Argel.

Se há cidade que, sempre que posso, recomendo a todos os meus amigos para visitarem é Istambul. Ontem, um terrível atentado vitimou turistas na cidade, na zona de Sultanahmet, junto ao hotel onde fiquei. Sinto raiva ao pensar que o terror começa a retirar ao mundo o usufruto das suas maravilhas.

Educação


Em matéria de modelos educativos ou de sistemas de aferição de conhecimentos, tudo o que sei resume-se à minha experiência, letiva ou consultiva, no ensino superior. Não tenho opinião nenhuma sobre os restantes graus de ensino, até porque, familiarmente, não sofro "na pele" os efeitos das decisões que são tomadas neste âmbito.

Uma coisa sei, porém, de ciência segura: não pode estar bem um setor que anda permanentemente para a frente e para trás, onde há décadas se não estabilizam os métodos, onde o que era bom ontem passa a ser mau amanhã e vice-versa. Com os diabos: será que não é mesmo possível, pelo respeito devidos à formação das novas gerações, haver uma espécie de um "pacto" entre a(lguma)s forças políticas que estabilize o tratamento deste tipo de questões, dando à opinião pública a certeza de que as coisas permanecem "quietas" por algum tempo?

Pedro Coelho (1941-2016)


Este blogue não tem vocação para se tornar num registo obituário, mas há nomes cuja desaparição é tão marcante que se torna impossível deixar de registar.

Pedro Coelho é uma figura cuja postura me habituei a admirar, desde há décadas. Militante clandestino da Acção Socialista Portuguesa e, mais tarde, do Partido Socialista, de que foi fundador, era um democrata e um homem que faz parte da história dos socialistas portugueses. Constituinte em 1975, passou por experiência governativa e parlamentar, mas optou por manter-se ativo na vida económica privada, a que nunca deixou de ser dedicar. Era uma figura de extrema simpatia, educado, sociável e, curiosamente, aparentava ser bastante mais novo do que na realidade era. Mantínhamos uma relação pessoal de extrema cordialidade, reforçada por amigos comuns que ambos prezávamos.

Deixo aqui uma fotografia de Carlos Gil, que, seguramente, lhe dizia muito: no dia 25 de abril de 1974, falando por um megafone em frente ao quartel do Carmo, tendo a seu lado João Soares e Francisco de Sousa Tavares.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Ana Lourenço


Ana Lourenço anunciou que vai sair da SIC Notícias.

Qualquer que venha a ser o seu futuro, apenas desejo que possa continuar a praticar o jornalismo rigoroso, sem concessões, a que há muito nos habituou. É uma jornalista por quem fui entrevistado diversas vezes e por quem tenho um grande respeito e admiração. Prepara muito bem os temas, lida com elegância e sobriedade com os seus interlocutores, não é gratuitamente agressiva ou "excitada", controla bem os debates e não permite o "enviesamento" das discussões, sem, no entanto, deixar de colocar sempre as questões essenciais. 

Tenho pena pela SIC Notícias, uma grande estação de televisão, que recentemente também perdeu António José Teixeira como diretor de informação, igualmente um profissional "de mão cheia". O que se passará em Carnaxide?

O crava do Chiado


Há quase dois anos que deixei de o ver. Lembrei-me dele há minutos, junto ao seu ponto geográfico favorito "de ataque", um pouco acima da Bertrand do Chiado. Andava na casa dos cinquenta, tinha óculos, era alto, magro, sorridente, muito bem falante, claramente culto e tinha uma técnica magnífica: não nos interrompia o passo, colava-se a nós e começava a debitar, numa voz bem audível à volta, uma nossa breve síntese curricular, bem construída e sempre exata, que durava cerca de quinze segundos (sei isto bem porque caí na esparrela, aliás consentida, aí umas cinco vezes): "Boa tarde, Francisco Seixas da Costa, antigo secretário de Estado dos Assuntos europeus, que está embaixador de Portugal em (dizia o posto certo) e escreveu há dias um artigo sobre (...)" e adiantava mais duas ou três informações, seguramente tiradas de um qualquer jornal (nem me atrevo a imaginar que tivesse acesso ao Anuário do MNE!). A maior surpresa, mais do que saber o meu nome, era ele ter dados informativos atualizados sobre mim, tanto mais que, no meu caso, que vivia então no estrangeiro, passavam-se meses em que não subia a rua Garrett. E dizia tudo aquilo em voz bem alta, o que me embaraçava um pouco perante quem nos cruzava, pelo que sempre me apressava a deitar a mão à carteira, para corresponder à frase final com que complementava o sonoro CV: "Pode deixar uma notinha para ajudar aqui este seu amigo?".

Já encontrei várias pessoas que foram objeto desta tática de abordagem pela mesma personagem. Um dia creio que alguém chegou a dizer-me quem ele era. Que será feito do homem? Não que me apeteça minimamente ser cravado de novo, mas - é da idade, com certeza! - começo a cultivar com algum carinho a memória destas figuras bizarras da fantástica cidade onde tenho o privilégio de viver. E o Chiado estava hoje com uma luz imbatível... 

António Monteiro Cardoso (1950-2016)

Um dia, numa entrevista, dei-me conta de que o António tinha, como "lugares de sonho" cidades que me eram, em absoluto, comuns: Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e Sabará. Seria por sermos ambos transmontanos? Talvez, mas nunca falámos sobre isso. Aliás, longamente, falámos muito poucas vezes, embora comungássemos muitas outras coisas, como era o caso do futebol.

Já não sei como nos conhecemos. Terá sido nos anos 80, creio. Seguramente, através da Ana e, depois, também da Joana. Recordo que lhe escrevi um dia, a felicitá-lo pelo excelente (e surpreendente) "Boas fadas que te fadem". Guardo uma troca de notas sobre isto.

Ontem, regressado a Lisboa, a meio de um jantar, fui surpreendido pela notícia da morte de António Monteiro Cardoso. Sabia-o doente. Não nos víamos há bastante tempo, porque as nossas vidas são o que são e, às vezes, só as mortes nos juntam.

Recordo o António como um homem caloroso, de sorriso aberto, por onde perpassava sempre alguma ironia. Saído dessa escola agitada que foi Direito de Lisboa em 1975, ex-MRPP, depois de se deter no Direito da Informação, ao tempo em que trabalhou com o Alberto Arons de Carvalho, o António passou posteriormente a dedicar-se à Historia, onde fez uma obra diversa mas muito interessante, chegando mesmo a colaborar com o António Pinto da França, no tratamento da reedição das suas "Cartas Baianas".

Era um homem de uma grande cultura, de palavra fácil e sólida, escrevia muito bem e tinha uma visão algo "renascentista", que a sua e minha geração (o António, contudo, era mais novo do que eu) foi a última, entre nós, a cultivar.

O António desaparece agora. É hoje enterrado em Freixo de Espada-à-Cinta. Tenho pena de nunca ter discutido com ele o seu conterrâneo Guerra Junqueiro. Tenho a certeza de que iria aprender bastante e, tenho para mim, ele estaria seguramente de acordo com o meu pai, que sempre se recusou a considerá-lo um "poeta menor".

Neste dia triste, deixo um beijo sentido para ti, Joana.