domingo, 27 de novembro de 2016

Um ano depois


Passou um ano. Todos nos lembramos da cara patibular do presidente de então, da raiva incontida dos que se sentiram desapossados, das dúvidas nacionais e internacionais suscitadas pelo regresso à esfera parlamentar do poder, quatro décadas e um “muro” a menos depois, dos derrotados no 25 de novembro. O país nunca vira nada igual, o conceito de “frente popular” passeou-se pelas colunas dos jornais, os socialistas foram olhados como a “quinta coluna” de um golpe institucional de esquerda. António Costa, o construtor da Gerinçonça, foi acusado de tudo, desde irresponsabilidade a oportunismo.

A direita, sem um candidato presidencial que desse garantias cumulativas de poder ganhar e proceder, logo que possível, à dissolução de um parlamento que gerara tão estranha solução, entrou em estado de negação. Nem no debate orçamental de 2015 quis participar. A sua aposta, confessada ou não, tinha duas componentes. Uma interna, que tinha a ver com a difícil compatibilidade entre as ambições dos parceiros do PS e o grau de abertura deste à acomodação dessa agenda. Outra externa, que se prendia com o previsto incumprimento pelo novo governo das metas macroeconómicas exigidas por uma Europa de sobrolho carregado perante uma fórmula política que contrastava, de forma quase provocatória, com os equilíbrios no Eurogrupo. A nossa direita pode dizer tudo o que quiser, mas não conseguirá nunca convencer o país de que não estava à espera de que aquela “quadratura do círculo” era impossível.

Mas não foi. As forças que estiveram no governo entre 2011 e 2015 mediram muito mal o receio que o PCP e o Bloco de Esquerda – que os tinham praticamente colocado no poder, ao ajudarem a derrubar José Sócrates – tinham de vir a confrontar-se com o respetivo regresso. António Costa pressentiu isso e soube desenhar um caminho muito estreito, onde investiu todas suas indiscutíveis credenciais democráticas e europeias, para além da transparência negocial que demonstrou junto dos seus parceiros internos. Ao seu lado, num jeito quiçá pouco político mas com uma maestria técnica que pede meças, teve Mário Centeno, um homem que conseguiu alguns “milagres” nos desenhos orçamentais, uma vez mais ajudado por alguma complacência da “esquerda da esquerda”, que, pragmaticamente, terá concluído que o ótimo é o pior inimigo do bom.

Ah! E houve o “efeito Marcelo” e a política do BCE e um belo ano turístico e um empresariado que os anos da Troika impulsionou a procurar novos destinos. A sorte protege os audazes e António Costa teve o rasgo de correr alguns riscos que a realidade veio a provar não terem sido excessivos.

É sustentável, a Geringonça? Não sei, ninguém sabe. Se as taxas de juro dispararem, como pode vir facilmente a acontecer por virtude de efeitos externos, a questão coloca-se. Mas, nesse caso, talvez valha a pena lembrar que isso afetaria qualquer outro governo que estivesse em funções.  

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