quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Outro mundo


Há não muitas semanas, num seminário na Ucrânia, ouvi da boca de Leon Panetta, figura grada de administrações democráticas, a afirmação de que Donald Trump teria “muito fortes possibilidades” de vir a ser o próximo presidente americano. Devo dizer que, até esse momento, dava a hipótese completamente por absurda, irracional, sem sentido. Talvez porque, como muitos, transformei em certezas os meus desejos, num processo mental que os anglo-saxónicos designam por “wishful thinking".

Os impactos negativos potenciais de uma vitória de Trump eram para mim tão evidentes, a fragilidade das suas propostas tão óbvia, que qualquer racionalidade mínima tornava o cenário implausível. Só que a nossa racionalidade não se impõe à liberdade do voto secreto, por muito que às vezes sejamos tentados a desvalorizar a sua legitimidade.

Talvez mais do que um feito a crédito de Trump, a sua vitória é a constatação, clara e chocante, de que uma parte importante da América se rege por estímulos extremamente simples, assentes em ideias-chave quase caricaturais, por inseguranças e medos, por preconceitos e crenças, muitas vezes incapazes de passarem no teste da verdade dos factos. 

Sabia-se que essa América existia, ironizava-se com esse mundo bizarro que víamos nos filmes, herdeiro moderno das “vinhas da ira”. Não se pensava que a cumulação de todos esses múltiplos fatores de descontentamento e de mal-estar viesse a ter uma expressão tão forte. Trump teve a arte de saber captar em seu favor a chave para transformar esses sentimentos em votos. E, goste-se ou não, a democracia também é isto.

E agora? Trump presidente terá, com toda a certeza, um discurso diferente de Trump candidato. Mas até que ponto? Conseguirá a máquina republicana rodeá-lo com gente responsável, que ajude a transmutar uma caricatura num estadista? Em que medida algumas das suas propostas radicais, nas políticas internas ou na ordem internacional, irão claudicar no contraste com a realidade? Grande parte do mundo, para quem a liderança americana não é de todo indiferente, está agora em estado de choque. Eu também, confesso. Mas é a vida! Agora, temos de aprender a viver com Trump.

(Artigo publicado no "Publico" online)

21 comentários:

Anónimo disse...

Poucas vezes tive tanta pena de ver confirmado um receio, quase certeza, que tinha. Dia muito triste e preocupante e um marco no retrocesso civilizacional que tem sido uma consequência cada vez mais visível da crise de valores éticos e morais que tem afetado o mundo ocidental. Próxima etapa, França. Onde é que vamos parar quando "ser anti-sistema", por vago que seja esse conceito, é alçado à categoria de característica mais desejada, mesmo que tudo ou quase tudo aquilo que se defende, sem falar do carácter de quem o faz, devesse ser indefensável para qualquer pessoa de bem?

Luís Quartin Graça

Joaquim de Freitas disse...

Quando uma classe politica, democrata e republicana, passeia uma Nação de guerra em guerra, desde o fim da última guerra, e continua desde então em guerra no mundo inteiro, um povo pode, a um dado momento, ter desejos de dizer « Basta » e, conceder a sua confiança a outros.

Se, paralelamente, este mesmo povo se apercebe, que tendo consentido esforços gigantescos com o seu dinheiro de contribuintes, para salvar uma classe ultra rica, salvando os seus bancos da falência em cadeia, falência devida à especulação desenfreada onde tudo era possível, sempre para os mesmos, este mesmo povo pode ter desejos de dizer: “Basta”

Se, ainda este mesmo povo, se apercebe que após a crise de 2007, finalmente, a mesma classe ultra-rica, conseguiu , e apesar da crise, retirar as suas castanhas do lume e comê-las sozinha, sem distribuir algumas aos mais necessitados e sobretudo àqueles que produziram as castanhas, então o ,povo pode revoltar-se.

Um grande número de jovens americanos, que não comeram castanhas, disseram, ontem: ”Basta”
Um grande número de americanos da classe média, disseram também “Basta”.

Estas duas classes foram aqueles que não beneficiaram dos ganhos da economia, porque todos os ganhos foram parar no bolso daqueles que pertencem ao grupo dos 1% …que detinha já mais de 50% da riqueza nacional. O mesmo fenómeno se passou em Portugal, na França e algures… Porque nunca os ricos foram tão ricos que durante esta crise que eles provocaram em 2009 …O fosso que separa os pobres e os miseráveis dos ricos que defraudam o fisco e alimentam os paraísos fiscais nunca foi tão profundo ou tão largo.

Esta distribuição injusta da riqueza produzida levou ao voto de ontem no país, farol da democracia, como se diz, e chefe do capitalismo selvagem internacional

.Assim, democraticamente, como Hitler quando acedeu ao poder, um racista, xenófobo, multimilionário, é o 45° presidente dos Estados Unidos.

Xenófobo sim, que prometeu pôr no olho da rua, quer dizer, expulsar dos EUA, os emigrantes clandestinos. Ele, chefe de varias empresas imobiliárias e da construção civil que emprega milhares de trabalhadores emigrantes sem documentos…e graças à exploração sistemática dos quais ganhou fortunas colossais.

Vamos a ver quanto tempo o sistema oligárquico e militar o deixará divagar. Se é possível que o metam na “ordem” capitalista imperial, também é possível que o poder total das duas assembleias, representantes e Senado, lhe dê asas… E neste caso o Mundo estará em perigo.

Mau presságio, em França, Marine Le Pen exultou e sonha já dum resultado idêntico, provocado pelas mesmas razões: a injustiça social alarmante que não cessa apesar da presença dum governo de esquerda no poder desde há quatro anos.




Anónimo disse...

Sanders seria Presidente se não tivesse sofrido uma das manobras habituais do gang Clinton.

JPGarcia

Anónimo disse...

Pois é......Será isto o que os marxistas chamam um corte epistemológico??? Era para eles o necessário para mudar um paradigma social. Lembrem-se de 1917.
"Wait and see."

Anónimo disse...

"Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis."


Maquiavel

Os terceiros são os da esquerda actual.

Francisco Guerra Tavares disse...

Caro Embaixador, desde já a minha declaração de interesses: não votaria Trumo, mas muito provavelmente não votaria H.Clinton.
Muito admirado fico com a sua análise tipo espuma dos dias que correm. Não esperava, sinceramente. Dizer que "....uma parte importante da América se rege por estímulos extremamente simples, assentes em ideias-chave quase caricaturais, por inseguranças e medos, por preconceitos e crenças...." , ainda que podendo ter algum fundo de verdade, é fundamentalmente passar por cima da realidade do que se passa nos Estados Unidos. E essa realidade, a meu ver, tem que ver com o empobrecimento de enormes camadas da população e a concentração indecorosa, para dizer o mínimo, da riqueza nos EUA, ao ponto que não se fala dos top 10%, mas do top 1%. Existem análises, assentes nas estatísticas dos próprios EUA, que constatam isso mesmo (cf. J. Stiglitz, Onubre Einz).
É também ignorar a sistemática manipulação feita pelos meios de comunicação, sondagens teleguiadas, que efetivamente obnubilam a nossa visão da realidade.
E vista a prática de H.Clinton, a sua eleição seria como pôr a raposa a tomar conta do galinheiro.
Já agora, algumas das propostas e posições de Trump passadas normalmente em silêncio:
1. Ataque frontal ao poder dos media
2. Denúncia da globalização como responsável da destruição das classes médias nos EUA
3. Defesa do protecionismo (na tradição aliás da política americana até à 2a guerra mundial), renegociação da OMC por exemplo.
4. Recusa de redução orçamental em matéria de segurança social, apoio à redução dos preços dos medicamentos, ajudar a regular os problemas dos sem domicílio fixo “SDF”, reformar a fiscalidade dos pequenos contribuintes.
5. Aumentar significativamente os impostos dos traders especializados nos hedge funds (fundos especulativos) que ganham fortunas. Promete o restabelecimento da lei Glass-Steagall (votada em 1933 durante a Depressão e revogada em 1999 por William Clinton), que separava a banca tradicional dos bancos de negócios para evitar que estes possam pôr em perigo a poupança popular com os investimentos de alto risco.
6.Empenhado em encontrar terrenos de acordo ao mesmo tempo com a Rússia e com a China.
7. Com a sua enorme dívida soberana, a América já não tem mais os meios para praticar uma política estrangeira intervencionista total. Já não tem vocação para garantir a paz a qualquer preço.

Estas sete questões não fazem esquecer as declarações odiosas e inaceitáveis do candidato republicano difundidas em fanfarra pelos grandes meios de comunicação social dominantes, mas explicam sem dúvida um pouco melhor as razões do seu sucesso junto de largos sectores do eleitorado americano.

Joaquim de Freitas disse...


“Se devesse dirigir, dirigiria como um Republicano. Eles são o mais estúpido grupo de votantes no país. Eles crêem em tudo o que se diz na Fox News. Eu poderia mentir, e eles engoliriam da mesma maneira. Aposto que o meu resultado seria fantástico.”

Donald Trump. (In People Magazine. 1998)

E ganhou. Os Americanos prestam-se para isto. Basta ver como Hillary Clinton se dirigiu esta noite aos seus apoiantes que , chorando, esperavam: “ Vão para casa” mandou ela dizer pelo seu servente! Demonstrou o que ela é, na realidade. Desprezo dos soldados que morreram por ela!

Anónimo disse...

Esta malta de má fé ascende ao poder de forma democrática. Nada que se pareça com os países dos quais o Freitas gosta: aí, os canalhas vão para o poder mas nem precisam de eleições! Mas, por qualquer razão, ele gosta é de estar do lado de cá. Vive-se bem...

Anónimo disse...

Um gigantesco passo atrás para a humanidade
Fernando Neves

Luís Lavoura disse...

Conseguirá a máquina republicana rodeá-lo com gente responsável, que ajude a transmutar uma caricatura num estadista?

Podemos recordar Ronald Reagan, que durante boa parte da sua presidência não dizia coisa com coisa, afetado como já estava pela Alzheimer, a pontos de ter deixado os japoneses boquiabertos aquando de uma visita de Estado ao Japão, mas que apesar disso levou a sua presidência até ao fim e saiu dela muito aplaudido. Foi um presidente que não presidiu.

JS disse...

Vida de Embaixador não é fácil. Aprender a "viver com" a PR H. Clinton seria mais de acordo com o seu professionalismo ?.

Luís Lavoura disse...

Não foi o Francisco que há pouco tempo pôs aqui um post sobre um livro intitulado "Administração Hillary"?

Eu gostava de saber para que servirá esse livro agora. Para forrar caixotes do lixo não deverá ser.

António Marques Mendes disse...

Um road map para Trump: http://marques-mendes.blogspot.pt/

Anónimo disse...

Este tipo de comentários são um desrespeito aos eleitores americanos e,vendo bem,à própria essencia da democracia.
São tipicos de uma esquerda ressabiada que tem os Estados Unidos como responsável de não permitir um multilateralismo
confuso em que as esquerdas triunfariam.Trump virou-lhes e vai virar-lhes as voltas.Tal como o brexit há meses e em Abril
Marine LePen.Vai uma aposta?

Anónimo disse...

Já cá faltava o esquerdófilo primário do Sr.Freitas.Vai ter muito que carpir nos próximos 4 ou 8 anos.
Mas sempre terá a companhia do autor deste blogue.Irão carpir os dois!!!

Anónimo disse...

Vitória da democracia: até um palhaço pode ser eleito presidente dos USA.


Anónimo disse...

Mal ia se um ex-diretor de um organismo de intel e ex SE não tivesse info's como deve ser.

Sr. Embaixador, fez bem em prestar atenção as palavras do Sr.a análise serve mesmo para limpar o ruído

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Pelo menos no que diz respeito a 1ª Dama até que houve um upgrade

Joaquim de Freitas disse...

Hà relentos de racismo no snobismo do « up-grade », trazido directamente das fossas da realeza.

Anónimo disse...

caro JTMB

gostos não se discutem mas o seu não é o meu


bem haja

Nuno Sotto Mayor Ferrão disse...

Da única super-potência sobrante assusta pensar que foi eleito um Presidente que promete ser tão parecido com G. W. Bush na sua impetuosidade arrogante. Depois dos anos da esperança do "Yes we can", vem a promessa de um EUA interessado no seu umbigo, o que deixa grandes incertezas no ambiente internacional depois da afirmação de protagonistas como o Papa Francisco e de António Guterres que nos abriram, digo ao mundo, uma janela de esperança. Virão de novo tempos difíceis, porque a estratégia de fechamento ao exterior, como foi o caso recente do Reino Unido com o "Brexit", não trás nenhum bom augúrio. Esperamos que as forças moderadas dos EUA e dos seus Aliados externos o possam limar nas arestas mais cortantes...

Cordialmente,
Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt