segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Caixa

Detesto a expressão "esta história está mal contada", porque essa é uma atitude que regularmente aduba as teorias da conspiração - eu sou um feroz militante contra o "não é por acaso que..." Desta vez, porém, não consigo deixar de pensar que tem de haver aqui alguma coisa mais do que aquilo que se tem sabido sobre a trapalhada da gestão da Caixa.

Uma coisa me parece mais do que evidente: António Domingues é, a grande distância, o menos culpado. Ou melhor, a sua única culpa foi não ter batido com a porta mais cedo.

A pedido do governo, Domingues negociou com o BCE e com a Comissão Europeia a mais do que necessária recapitalização da empresa, que só foi por estes aceite no pressuposto que a Caixa passaria a ter uma gestão em tudo idêntica ao setor privado, embora com capitais 100% públicos. (Foi uma excelente negociação, até porque não havia outra solução). Sem isso, a recapitalização seria considerada "ajuda de Estado" e não poderia ter lugar, à luz das regras europeias. Quem não perceber isto, não pode começar por entender o que a seguir se passou.

Domingues só aceitou o cargo nesse pressuposto, o que implicava um novo estatuto remuneratório e um conjunto de outras condições, idênticas às que vigoram no setor privado, que lhe permitiriam recrutar, inclusivé no estrangeiro, gestores altamente qualificados. Uma dessas condições era a circunstância das declarações de património serem tratadas como o são no setor financeiro privado (onde existem e são obrigatórias perante os institutos reguladores, mas têm regras de confidencialidade próprias).

Não foi António Domingues - pessoa que aliás não conheço e com quem falei uma única vez, numa ocasião social - que foi à procura de "emprego" na Caixa. Foi o governo que o foi desafiar ao BPI, onde ele tinha um excelente lugar. Domingues não necessitava da linha curricular na Caixa para dourar o seu excelente "record" na banca. Aceitou o lugar, com condições que eram extensíveis aos seus colegas de administração, seguramente porque alguém lhe garantiu que isso era possível, sem ficar sujeito ao estatuto de gestor público (coisa que, estou certo, nunca lhe passou pela cabeça ser-lhe aplicável, porque isso contrariava tudo quanto ele próprio negociara, por instruções do governo, com Frankfurt e Bruxelas). Mas não era possível, afinal. A culpa não é, de todo, dele. Mas, caramba!, terá de ser de alguém e era importante que isso ficasse perfeitamente clarificado diante da opinião pública.

Pode a explicitação de tudo isto redundar muito desagradável para o governo (que eu apoio)? Provavelmente sim, mas quem anda à chuva molha-se. E, se tivessem sido mais competentes, nada disto teria acontecido. Essa é que é essa!

8 comentários:

arber disse...

Este desfecho era mais do que previsível, e oxalá eu esteja enganado quanto às consequências.
É que, sem mais conhecimentos do que a minha própria observação diária do que se ia passando, já em 30 de Outubro deixei um comentário no blog"Pralixados", que me permito agora transcrever aqui, pedindo desculpa pelo longo texto.

O post do blog era intitulado "CGD - Um País Inteiro a Brincar Com o Fogo" e o meu comentário foi o seguinte:

"O que mais me tem espantado em toda esta situação é a atitude extremista do Bloco de Esquerda, com declarações absolutamente incompreensíveis e perigosas da parte dos seus dirigentes, quer em relação ao salário do presidente da CGA como à sua recusa de entrega da declaração para o TC.
É que a posição do PSD, com declarações claramente provocatórias e incendiárias, não me surpreende nada, pois quem pretendia privatizar a CGD e se viu disso impedido, assistindo a uma brilhante operação de reforço da Caixa mantida no âmbito público, tentará agora em desespero sabotar o que foi feito, para o que não hesitarão em recorrer a todas as manobras que, ainda que lícitas, não deixam de ser quase criminosas nos seus efeitos. A sabotagem intencional da CGD não é menos do que criminoso. Ou quererão levá-la de oferta a um grande banco espanhol?
Pois perante isto, o que dizer da posição do BE? Estaremos de novo perante uma situação semelhante à de 2011, vendo com tristeza o BE a colaborar com a direita numa grave operação contra o país? Pois como entender aquela declaração da Catarina Martins sobre a declaração para o TC...”pois tem que entregar!...ou entrega ou sai!...”. Ou aquela iniciativa, quase igual à do PSD, de obrigar o presidente da CGD a auferir salário não superior ao de 1.º ministro? Mas isso é querer equiparar situações completamente diferentes, como seja a dos políticos que, por razões de afirmação pessoal, militância ou quaisquer outras, se candidatam a cargos públicos ou a situação de gestores que, sendo pretendidos e convidados para funções de gestão, têm direito a auferir as remunerações habituais no âmbito da actividade. E também têm direito a não ver a sua situação patrimonial estampada e esquadrinhada no CManhã e outros que tais.
Ou seja, não compreendo o que pretende o BE. As suas atitudes soam-me a populismo, muito perigoso porque despreza a realidade da situação e pode contribuir para colocar a cereja em cima do bolo do PSD, tal como este deseja: demissão do presidente da CGD (até me admiro a resistência que tem demonstrado, outros já teriam mandado toda esta gente a um sítio que Pinheiro de Azevedo celebrizou!), DEMISSÃO DO MINISTRO DAS FINANÇAS, anulação do processo de recapitalização da Caixa e seu afundamento, tudo seguido de uma crise no Governo.
Será isto que o BE pretende? Ai como eles andam ansiosos lá no PSD, e imagino as gargalhadas com que em privado gozam com esta esquerda tão cheia de pruridos (e de populismo demagógico - como pode um fulano ganhar 30.000 quando temos pensões de 250?)".

Ficarei muito triste se se concretizar o que nessa altura temi, mas não tenho a certeza de que não aconteça. E continuo a perguntar, agora com mais razão: mas afinal o que pretende o BE?

Rui C. Marques disse...

É imperioso clarificar para não alimentar teorias da conspiração.

Anónimo disse...

Não conheço pessoalmente o Presidente demissionário da CGD, mas a maioria das referências que vi e recebi são excelentes relativamente à sua competência profissional.
É pena que ele se tenha demitido, pois é fundamental ter alguém capaz à frente da CGD neste momento. Não nos devemos esquecer que a Caixa é, infelizmente, o único banco nas mãos de Portugal e é fundamental que volte a ter uma saúde sólida para o bem de todos.

Este processo foi muito mal conduzido pelo Governo, que sacrificou alguém que tinha grandes probabilidades de vir a fazer um excelente trabalho. É lamentável que isto tenha acontecido.

Anónimo disse...

Quem não encaixa ,quer saber; quem não quer saber, quer caixa.

Anónimo disse...

Este é um caso típico em que o adjectivo se impôs ao substantivo, neste caso em prejuízo do interesse nacional. Oposição e comunicação social entre os dois não hesitaram. A promessa feita a Domingues quanto à declração de rendimentos foi provavelmente feita de boa fé, mas aparentemente é legalmente impossível de cumprir, o que é absurdo visto que a declaração, embora confidencial, é feita ao BP, o que cumpre todos os objectivos da comunicação da declaração de rendimentos, excepto o voyeurismo. Quem no Governo fez essa promessa devia tê-lo dito publicamente logo que se suscitou a dúvida da sua viabilidade. Mas creio que Domingues tem culpa nesta lamentável história. Ou aceitava fazer a declaração ou se ia logo embotra. A atitude de suprema arrogância com que se comportou, como se fosse o messias sem o qual íamos todos para o inferno mostrou falta de senso e uma total incapacidade de compreender o serviço do Estado. Foi uma má escolha do Governo.
Fernando Neves

Anónimo disse...

"Essa é que é essa" :

Palavra dada é palavra é palavra honrada !

Anónimo disse...

Para refrescar a memória.....

... Este é o título que João Miguel Tavares escolheu para o seu "apontamento" em 16 de Junho de 2016, no Público.

"José Sócrates foi eleito primeiro-ministro em Março de 2005. Três meses e meio depois (Agosto de 2005) correu com o anterior presidente da Caixa Geral Depósitos, que não chegou a aquecer o lugar (Vítor Martins, 10 meses no cargo), e nomeou Armando Vara administrador, com a responsabilidade de gerir as participações financeiras da CGD em várias empresas estratégicas.
Sete meses depois, a comunicação social anunciava que os seus poderes haviam sido “reforçados”.

Cito o PÚBLICO de 9 de Março de 2006: “Armando Vara assumiu agora as direcções de particulares e de negócios das regiões de Lisboa e do Sul, assim como a direcção de empresas da zona Sul. Entre as suas competências estão ainda a coordenação das participações financeiras do banco público, EDP (4,78%), PT (4,58%), PT Multimédia (1,27%), BCP (2,11%) e Cimpor (1,55%).”

Vara permaneceu três anos como administrador da Caixa Geral de Depósitos, até sair em 2008 para a vice-presidência do Millenium BCP, com o dobro do salário, o sucesso que se conhece e um pedido de licença sem vencimento para poder continuar nos quadros da Caixa.

Ainda em representação da CGD, Vara foi administrador não-executivo da PT,desempenhando um papel decisivo na oposição à OPA da Sonae em 2006, devido aos poderes mágicos da golden share. Justiça lhe seja feita: não se pode dizer que a CGD tenha sido um tacho para Armando Vara. Foi muito pior do que isso: a Caixa transformou-se num imenso caldeirão onde os mais variados interesses se foram servir, cabendo a Vara decidir quem enchia a gamela.

(Ouvido no âmbito da Operação Marquês a propósito do empreendimento de Vale do Lobo, Armando Vara recusou tal ideia, tendo declarado que estas decisões nunca eram aprovadas por uma só pessoa, mas por um colectivo da CGD.)

E que gamelas encheu a Caixa nos últimos anos? O Correio da Manhã teve acesso a uma auditoria recente e revelou a lista dos maiores credores do banco. A lista está ordenada por exposição ao risco de crédito, mas eu prefiro ordená-la pelas imparidades já registadas – e aí o cenário é simultaneamente desolador e esclarecedor.

No topo da lista está o grupo Artlant, que tencionava construir em Sines um daqueles megaprojectos PINpelos quais o engenheiro Sócrates se pelava: uma “unidade industrial de escala mundial” para a produção de 700.000 toneladas/ano de um componente do poliéster, que levaria à “consolidação do cluster petroquímico da região de Sines”, segundo um comunicado do Conselho de Ministros de Junho de 2007. José Sócrates chegou a lançar a primeira pedra em Março de 2008 e agora cabe-nos a nós apanhar os calhaus: 476 milhões de dívida, 214 milhões em imparidades.
Em segundo lugar (imparidades: 181 milhões; exposição: 271 milhões) estão as Auto-estradas Douro Litoral. São 79 quilómetros adjudicados em Dezembro de 2007 e cada milímetro de alcatrão deve hoje três euros e meio à CGD – ou seja, a mim e a si, caro leitor.

Em terceiro vem o famoso empreendimento de Vale do Lobo, o tal com o qual o Ministério Público está a tentar agarrar José Sócrates, e que tem uma astronómica dívida de 283 milhões (imparidades: 138 milhões). Segue-se um grupo imobiliário espanhol que não conheço (Reyal Urbis), mas que fiquei com muita vontade de conhecer, e dois nossos velhos conhecidos: o grupo Espírito Santo e o grupo Lena, todos com dívidas acima dos 200 milhões.

Digam-me: com uma lista destas, alguém se espanta por a Caixa estar a precisar de quatro mil milhões? Eu não.

Anónimo disse...

Ao nível do chão porque não me apetece ensaiar outro...
Acabo de ouvir, numa das televisões, que António Domingues deixa a Caixa mas deixa-lhe um "programa" para ser gerida. E resumiram: vai ser recapitalizada com milhares de milhões, vai despedir funcionários e vai fechar balcões.
Deve ser para "programas" dessa complexidade que são necessários banqueiros muito competentes !!!!
Podemos ter confiança…
M.B.