domingo, 27 de novembro de 2016

A normalidade francesa

As eleições primárias em França, cuja resultante final deverá conduzir à seleção de François Fillon como candidato da direita democrática às eleições presidenciais de 2017, mostraram um país que parece propenso a retomar uma agenda conservadora.

A experiência socialista, inaugurada por François Hollande, não vai deixar uma marca muito impressiva, quer na história do país, quer na da esquerda europeia. Com grande probabilidade, Hollande não será reeleito e, ao que tudo indica, arrastará consigo, nesta impossibilidade, os candidatos que emergirem na sua área política.

O seu quinquénio, contudo, parecia ter-se iniciado de forma interessante. Um discurso de tons realistas dava ares de poder reconduzir os socialistas franceses a uma agenda « possibilista », afastando-se de um tropismo radical que, depois da experiência de Lionel Jospin, tomara conta do discurso do partido. Os socialistas franceses, quiçá por terem parado no tempo na contemplação nostálgica do período Mitterrand, mantinham uma leitura mítica da realidade, de que as « 35 horas » e a generosidade do « 60 anos » para as reformas eram as bandeiras mais patentes. A esquerda francesa, por escolha ideológica, obstinava-se em não olhar de frente os tempos e isso refletira-se na sua inelegibilidade.

Curiosamente, acabaria por ser uma figura cinzenta, que tinha em bonomia o que lhe faltava em carisma, quem aproveitou o cansaço que Sarkozy induzira no país e, « furando » por entre as visões contrastantes de outros candidatos, se conseguiu impor. Hollande, o « presidente normal » mas improvável, recuperou alguns clichés caros à retórica do socialismo francês, como foi o caso do combate « à finança », credibilizado pelas culpas desta na crise económica que se vivia, bem como a diabolização das « grandes fortunas », a que juntou algumas notas de pragmatismo que pensava poderem combater o declínio económico relativo da França.

O resultado não foi brilhante, porque os sinais transmitidos resultaram contraditórios e, muito em particular, não conseguiram projetar uma imagem de autoridade política que, naquele país, está sempre indissociavelmente ligada a qualquer mandato presidencial com sucesso. As constantes mudanças no governo, que atingiram máximos históricos, criaram uma perceção de desnorte e incoerência. No plano europeu, Hollande não conseguiu o que o estilo Sarkozy havia obtido: uma sensação coreográfica de paridade simbólica com Angela Merkel. A França de Hollande, à semelhança do seu presidente, tornou-se « normal », ou talvez mesmo banal. E isso não fez bem a um país que tem o ego da Torre Eiffel.

Às trapalhadas pessoais descredibilizantes em que Hollande se envolveu somou-se uma realidade económico-social que evoluiu de forma muito desfavorável. A economia francesa não foi sensível aos hesitantes e pouco coerentes estímulos dados pelo governo e as tensões sociais, com a onda de insegurança provocada pelo terrorismo e por um crescente questionamento identitário, colocaram a França em contra-ciclo com os socialistas. Salvo uma imensa surpresa, o próximo ciclo político vai pertencer à direita. Resta saber qual.

Sarkozy, com naturalidade, tentou o « remake ». O país mostrou estar cansado definitivamente da figura e do seu estilo e, muito provavelmente, do oportunismo que consistiu tentar mimetizar, com credenciais democráticas, o discurso de Marine le Pen. A olhar pelos números das eleições primárias, François Fillon e Alain Juppé terão revelado maior autenticidade. O segundo, muito provavelmente, pagou o preço da assunção de um discurso em que procurou fazer uma « ponte » entre visões diferentes, procurando alargar a sua base potencial de apoio a setores fora da direita tradicional, na lógica de que um candidato desse setor que, em 2017, venha a disputar uma segunda volta nas presidenciais com Marine le Pen, terá de contar com os eleitores da esquerda. Este calculismo não passou. François Fillon será, assim o candidato da direita democrática francesa, em 2017. Curiosamente, um candidato quase tão « normal » como Hollande o foi em 2012.

3 comentários:

Anónimo disse...

O embaixador esquece-se de mencionar uma coisa fundamental da França moderna. O facto das classes sociais francesas serem apesar de tudo bastante estanques.

Como imagino sabera, a classe dirigente, politica ou empresarial, é muitas vezes oriunda ainda da burguesia da III républica. O que não teria nenhum efeito negativo, não fosse o facto de o sistema de ensino francês, que escolhe os quadros da dita classe, ser profundamente elitista. Quem faz as prepas e as grands écoles raramente viu, conheceu, etc, as "classes populares" (para dizer em francês). Não conhecem nem os arabes do ghetto, nem o francês da periferia. Conclusao a frança é dirigida por homens que não conhecem o seu povo. (Compare-se isto a Marcelo que sendo da elite, é todo o contrario).

Alem da classe dirigente, ha uma esquerda velha, desligada também da realidade, que com condicoes sociais unicas no mundo, continuam a achar que tudo vai mal. Têm muitas vezes ainda aquela visao que o patrao é um malandro e que o operario é um maltratado. Muitos não conseguiram ainda descortinar que ha um problema com a integracao dos muçulmanos e que esse problema nao tem que ver com as condicoes sociais. Nao se conseguem inteirar que muitos arabes (com arabes quero dizer gente de origem magrebina) tem outra cultura e que não querem fazer parte da França, que simboliza para eles tipos fracos, bebados, o pais que invadiu o deles, o pais onde os judeus nao podem ser criticados, um pais racista etc
A ideia de que ha um mundo arabe, uma visao do mundo diferente a que por ventura nao tem acesso por que nao é veiculada em frances mas apenas em arabe, escapa a muita dessa gente que crê quase de maneira inconsciente que as pessoas se converterao ao valores de esquerda pela sua superioridade...

E claro ha todos os desiludidos do estado em que tudo esta e que buscam uma solucao dura para o pais. Estao entre os LR ou o FN. Antigos pc ou catolicos, agricultores ou empresarios, etcetc muito se poderia escrever sobre quem são ou o que querem


mas mais importante parece-me ser falar da juventude francesa, que é fundamental para compreender tanto o radicalismo como uma sua eventual solucao


https://www.youtube.com/watch?v=zJrmuAvHpFw
https://www.youtube.com/watch?v=jMLriV9cin0
https://www.youtube.com/watch?v=1KatUW5KM_A
https://www.youtube.com/watch?v=H5rq9Be5VX0
https://www.youtube.com/watch?v=hf6NG3NdGOE&t=2643s
https://www.youtube.com/watch?v=AeoZcA4SGA8

Falar dos problemas de França sem saber qual é a diferença entre um babtou, um renoir ou um rebeu, é falar de cor. A meu entender que o problema é muito mais um problema de comunicacao e de identidade que um problema de economia. Resta saber como os milhoes de jovens franceses vêm a França e que com intençao a querem construir. Em cima estao uns exemplos.

Jaime Santos disse...

Uma excelente análise, como é seu costume, Sr. Embaixador. Dou as próximas eleições presidenciais e parlamentares como perdidas para a Esquerda, mas com o risco mais que provável de que Marine Le Pen possa passar à segunda volta das presidenciais e eventualmente vencê-las. A hipótese (algo cómica) de um Sarkozy PM (que ninguém o dê como acabado, apesar da derrota há uma semana) com uma Le Pen Presidente, num governo de coligação Direita-FN, faria gelar o sangue de qualquer democrata... Assim, se a Esquerda Francesa não fosse a mais estúpida do mundo, estabeleceria um acordo para apoiar um candidato/a único na primeira volta (mas conhecendo o ego de um Melechon, por exemplo, duvido) de maneira a que fosse essa pessoa a enfrentar Fillon na segunda volta, de modo a consignar Le Pen à franja onde merece estar e de modo a preparar uma oposição efetiva a um futuro governo conservador de Fillon... O que a Esquerda francesa precisaria é de uma geringonça, mas o pragmatismo não é o valor mais apreciado por aquelas bandas...

Anónimo disse...

Varios imams ligados a irmandade muçulmana aconselharam o voto em Juppé


fonte: https://twitter.com/RomainCaillet/status/802902863890391040?lang=fr


não é ninguém proximo da marine nem do fillon, antes pelo contrario.