sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Vêm aí os russos?


Alguma imprensa internacional vem a alertar para a escalada de tensão Leste-Oeste, potenciada pelos conflitos na Ucrânia e na Síria. Alguns falam mesmo da possibilidade de estarmos nas vésperas de um novo confronto de dimensão global. Terá isto algum sentido?

Com o fim e a implosão da União Soviética, países que viviam sob a tutela de Moscovo e algumas Repúblicas da antiga URSS procuraram estruturar sociedades políticas de matriz similar à dos países democráticos da Europa “de cá”. Diga-se que isso correspondeu a um evidente desejo das respetivas populações, ciosas de uma soberania que lhes fora “raptada” desde o fim da Segunda Guerra mundial. A posterior entrada de muitos desses Estados para a UE e a sua inclusão na NATO, em ambos os casos aproveitando a “janela de oportunidade” dada pela debilidade conjuntural de Moscovo, levou ambas as organizações até junto da fronteira russa. 

Atravessada por fragilidades de vária natureza – económicas, tecnológicas, militares, demográficas, etc – que afetavam o estatuto a que se achava com direito, a Rússia viu-se mergulhada num cenário de impotência, que se somava ao sentimento de humilhação histórica pela derrota na Guerra Fria. Neste contexto, a tentativa de alguns de modificar a posição da Ucrânia, vista pela Rússia como o último bastião da «buffer zone» que a separava do ocidente, seria sempre inaceitável. O sonho russo era conservar em Kiev um poder «amigo» que, em especial, não colocasse minimamente em causa o seu livre acesso naval ao mar Negro e ao Mediterrâneo. A mudança «de lado» da Ucrânia não podia assim ser aceite pela Rússia, que deu força militar às populações russófilas no leste do país e aproveitou para tomar a Crimeia, área chave para o poder naval meridional russo. O poder em Kiev pode ser pró-ocidental, mas a Rússia provou conseguir instabilizar o país.

O mal-estar russo criou o caldo de cultura política interna para a emergência de um «cesarismo» na figura de Vladimir Poutin, num registo nacionalista autoritário, tendo como objetivo a restauração de algum poder global de Moscovo. Como resposta aos avanços europeus da NATO, que não esteve em condições de travar, a Rússia colocou em questão os equilíbrios em matéria de forças convencionais acordados no fim da Guerra Fria e assume agora iniciativas destinadas a forçar um novo equilíbrio de poder, de que a postura na Síria é uma componente essencial. Moscovo parece aguardar pelo novo poder americano para dialogar olhos nos olhos com a única potência de que se considera (de novo) rival. Até lá, mexe algumas peças do xadrez militar, para aumentar as suas possibilidades no tabuleiro estratégico.

Vêm ai os russos? Não me parece, mas a solidão decisória de Putin não garante a prevalência da racionalidade sobre algum possível aventureirismo.

9 comentários:

NG disse...

Acho que os Russos têm estado no mesmo sítio desde a queda do muro de Berlim. Quem se tem mostrado inconformada com o fim da Guerra Fria tem sido alguma falcoaria ocidental. Tem acendido fogueiras onde lhe parece que possam fazer incómodo à Russia e, com elas, já entregou ao caos e à morte muitos milhões de pessoas por todo o Médio Oriente, Norte de África e, agora, na Ucrânia. Parte o coração não ver entre estrategas e diplomatas europeus e americanos uma voz lúcida e consistente a denunciar o que salta à vista de toda a gente. O que é que se passa?

Antonio Cristovao disse...

A China não existe? Ouvi que é a maior potencia ? dos pobrezinhos?

Luís Lavoura disse...

a Rússia [...] assume agora iniciativas destinadas a forçar um novo equilíbrio de poder, de que a postura na Síria é uma componente essencial

Eu peço desculpa, mas quem procurou "forçar um novo equilíbrio de poder" na Síria foram os EUA. Na Sìria havia perfeito equilíbrio, Assad estava no poder e apoiava a Rússia, e foram os EUA quem procurou "forçar um novo equilíbrio de poder" alimentando, com armas, dinheiro e combatentes, uma rebelião.

Luís Lavoura disse...

Vladimir Poutin

Em português escreve-se "Putin". Se quer escrever com "ou", como em francês, então deve escrever "Poutine", que é como os franceses escrevem.

Anónimo disse...

O Lavoura esse gramático asinino.

Anónimo disse...

A nostálgia de já não haver a URSS em algumas cabeças portuguesas é muito interessante. Mas reparem.... já não há URSS como já não os USA nem a EU "do antigamente".
O mundo de uma certa geração "is out". Estamos num pré-tempo de muitas mudanças dolorosas para uns mas esperançosas para outros.
Aguardemos.

Joaquim de Freitas disse...

Quando Reagan deu o golpe fatal na economia russa, com a sua guerra das estrelas, e, aliado ao papa começou a demolir o muro de Berlim, a queda da URSS era previsível.

Pensou-se então que, desaparecido o inimigo de sempre, os EUA iriam criar uma nova ordem mundial mais serena e sobretudo mais justa. Tinham os meios para o fazer, mas não a vontade política. Porque o que é importante para os EUA é de fortalecer sempre a sua posição dominante. Mas o problema é que as oligarquias financeiras nunca se satisfazem e querem ir sempre mais longe. E foi o que se viu: Nunca o Mundo esteve numa situação tão delicada ou mesmo perigosa como hoje. As guerras deflagraram por todo o lado. E se procurarmos bem, os EUA estão na origem desta instabilidade generalizada.


Nos EUA existe a democracia política mas a democracia económica é rara. Existem as estruturas políticas da democracia mas elas vacilam sobre os fundamentos feitos de cláusulas de excepção. Estas excepções limitam os progressos da democracia “de baixo”. Existe a democracia para alguns e a exclusão para todos os outros.

Existe o socialismo para o capital e o capitalismo para o resto. Aliás todo direito ou liberdade política é provisório. São concedidos com cláusulas de excepção redigidas em pequenos caracteres ou com lacunas acumuladas ao fio dos anos que atribuem ao Estado o privilégio de os anular.

Os EUA são uma democracia que se contradiz desde a sua criação. Ela professa que “todos os homens” nascem iguais, excepto os sub-homens que não eram nada mais que gado legalizado e que pertenciam àqueles que os tinham comprado.
Esta democracia nascente limitava o direito de voto aos proprietários, encorajando a apropriação pelo roubo das terras pertencendo aos sub-homens dos povos autóctones.
Este modelo de des-possessão é evidente hoje na violência sistemática que se exerce contra os jovens Negros. Os Negros constituem 6,6% da população mas 40% dos 2,3 milhões da população das prisões, contra 375.000 em 1970. Seis milhões de cidadãos que purgaram a sua pena não têm o direito de votar.

A URSS desapareceu, um Negro foi eleito presidente, os EUA não tinham mais concorrente à supremacia mundial mas nada mudou realmente desde então. O que se passou?

A natureza da democracia americana, é a propriedade e não a democracia, que foi integrada como o Nec plus ultra dos interesses vitais no ADN do organismo constitucional. E é o ostracismo que reina no cume da colina branca post-colonial dos EUA. Para ser um membro completo deste enclave utópico e exaltado de oportunistas zelados, é preciso roubar, possuir e aproveitar as oportunidades.

A ética da cupidez e da concorrência não assegura a harmonia social. Esta é garantida pela compra da opinião pública. O que significa a construção duma superstrutura de controlo ideológico. Significa condicionar o publico a adoptar os valores e os interesses da elite dirigente.
Quando existe a democracia sem justiça económica, tem-se a forma sem o conteúdo. No fundo é uma vigarice.

Anónimo disse...

Ó Freitas, bom bom é Cuba, não é? Cuba, a Coreia do Norte e todos aqueles países que você defende (mas onde você não vai, nem de férias!!!).

Ai os EUA, tão maus e cheios de vícios. E o mundo com exemplos tão bons (que rebentaram todos).

Joaquim de Freitas disse...

De novo por aqui, anónimo das 00:29! Não dorme bem? Não me admira! Deve passar a noite a procurar o seu nome. Não o encontrará, porque você é um falso indivíduo. Não existe. Em inglês diz-se “fake”.

Você é um fenómeno da Internet. O fenómeno mais verdadeiro da Internet é o fake. Impossível não encontrar um fake a cada dia no twitter, no facebook, no e-mail ou num blog. Os fakes multiplicam-se, desaparecem estrategicamente, retornam e impõe a sua presença como uma verdade falsa indiscutível e indestrutível. O fake é pior do que um vírus.

O fake é um falso que se torna mais verdadeiro por ter esse nome em inglês. Um verdadeiro fake não poderia ser chamado simplesmente de falso. Isso soaria fake. Quero dizer, falso. Ou seja, fake

O interessante é pensar sobre a sua psicologia,caro anonimo,a psicologia do fake. O que leva um indivíduo verdadeiro – de carne e osso – a inventar um nome falso para enviar as suas mensagens a um mesmo alvo? Ódio? Falta do que fazer? Doença? Fixação? Bullying? Ter sido abusado sexualmente quando criança? Um cérebro de ervilha? Incapacidade de sair do armário? Obsessão ideológica? Mentalidade de psicopata? A tranquilidade do anonimato? A estupidez natural auxiliada pelo artificial? A psicologia do fake é um enigma. Todo fake é perigoso e inofensivo ao mesmo tempo.

Há tratamento para fakes. Usa-se, nalguns países, uma mistura de medicamentos anti..fakes. Todo fake é um coitado que, depois de ter adoptado um nome fake e de ter disparado a sua caca virtual, ri sozinho como se estivesse a soluçar ou a gozar sozinho no banheiro. Especialistas modernos explicam que os fakes não devem ser tratados como criminosos, mas como doentes.