quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Os vencedores


Há dois vencedores no dia de hoje: António Guterres e as Nações Unidas. 

Guterres venceu esta eleição por mérito próprio, pela sua qualidade como figura política à escala internacional. Assisti de perto ao “crescimento" de António Guterres no plano europeu, ao modo extraordinário como conseguiu projetar Portugal e defender os interesses portugueses numa União Europeia sob a tensão do alargamento e o desafio do euro. E, de forma determinante, à sua magistral gestão da delicada questão de Timor. E o mundo olhou a sua prestação como Alto Comissário das NU para os Refugiados, dando corpo ao slogan que o levara ao poder em Portugal: razão e coração. Mais recentemente, o modo como conseguiu evidenciar as suas qualidades, nas audições nas NU, não me surpreendeu minimamente. Se disso dependesse apenas a sua escolha, tinha a certeza de que dificilmente alguém o derrotaria.

E é aqui que entra também a vitória das NU. O modo como o processo de seleção do novo secretário-geral foi lançado, num modelo que favorecia a visibilidade dos candidatos e permitia fazer uma sua avaliação comparativa, era quase conflitual com o formato opaco, feito de compromissos e "toma-lá-dá-cá", que no passado vigorara. Uma decisão que, na prática, se "cozinhava" no seio dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Ao abrir este ano a um escrutínio alargado o processo de escolha, as NU prestigiaram-se. E, nestas coisas, já não se volta atrás. As NU são também vencedoras neste dia.

(Depoimento que me foi solicitado pelo "Jornal de Notícias")

10 comentários:

Anónimo disse...

Ontem à noite, ao ouvir na Fundação Gulbenkian uma extraordinária interpretação da Missa em si menor de Bach, possivelmente a obra-prima da Arte ocidental, dei comigo a pensar em vária coisas. Estava numa missa de acção de graças por Antonio Guterres, pela ONU, pela diplomacia portuguesa e por Portugal, mas também num Requiem pela União Europeia e por Mário David. Esta jogada de última hora vai sair muito cara à Europa, pelo amadorismo dos chamados mais fortes contra um candidato ( muito bom ) de um parceiro tido por mais fraco. Haja contudo alguma esperança: a coisa não funcionou e o Mundo não entrou em jogos partidários do Velho Continente. Desejo muitas felicidades a Antonio Guterres, com pena que a Fundação Gulbenkian perca, a partir de 31 de Dezembro, um dos seus administradores.

JPGarcia

Majo Dutra disse...

MUITO BEM, FSC!
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josé ricardo disse...

Escrevi aqui que o bom senso prevaleceria. Não me enganei. Quando, pela primeira vez, houve um processo criterioso na escolha do secretário-geral, nunca me pareceu crível que se mantivesse a velha fórmula.
Permita-me agora o meu desabafo a respeito do debate de ontem numa televisão, o qual teve a sua participação, onde se falou da famosa gaffe de Guterres sobre o número do PIB (?). A explicação dada por Ricardo Costa, com aquele seu ar de eu-estava-lá-e-sei-que-foi-assim-porque-estou-sempre-em-cima-dos-acontecimentos-e-trato-por-tu-muita-gente não me convenceu de todo.

Anónimo disse...

Espera-se que a forma desastrada como a Comissão Europeia tenha algumas consequências e que, pelo menos, o chefe de gabinete de Juncker, Selmayer, embarque com destino a Berlim no primeiro voo da manhã, sem regresso. Quanto ao coro insuportável de elogios a Guterres esquecem-se de algo elementar: seguramente de longe o melhor Secretário Geral das NU, mas mediano PM, num dia em que de repente subitamente diz ter privado de perto, trabalhado com e até conhecido Guterres...

Anónimo disse...

A srª Kristalina, que já está de volta ao Berlaymont, parece que se prestou a este episódio humilhante porque aspira à PRES COM, no dia em que o sr. Juncker se for embora e que lhe terá sido prometida por ele, pela srª Merkel e pelo PPE.
As coisas começam a fazer sentido.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Há por aí demasiados elogios a António Guterres e muitos deles são de borla.
O homem não vale tanto como se apregoa.
De facto foi no consulado dele que se realizou o processo da independência de Timor-leste, mas não foi a ele que se lhe deve essa autodeterminação, mas a seus homólogos da União Europeia que o obrigaram a cumprimentar o presidente Suarto da Indonésia na Cimeira ASEM 1 em Bangkok no ano 1996, dado que havia enormes interesses comerciais entre esses países e a Indonésia.
Vi e ouvi António Guterres (em off record) a contar aos jornalistas na sua suit do hotel Sheraton (Bangkok) como o facto do aperto de mão tinha acontecido...
Haveria muito mais a citar, mas fico por aqui.
Sobre a sua actividade como Alto Comissário para os Refugiados da ONU alguma imprensa internacional dá a sua gerência como danosa em relação à administração dos dinheiros.
Hoje como sempre colocam-se santos falsos, de pau de amieiro, em altares.
Saudações de Bangkok
José Martins

Reaça disse...

Os melhores emigram sempre...não há solução!

Já desde Santo António de Pádua, Afonso de Albuquerque, António Vieira, Dom Pedro IV, Humberto Delgado, até Durão Barroso e Cristiano Ronaldo e agora
isto com o Beirão Guterres.

Os melhores não ficamos, mas ao menos tentemos continuar a mandar as remessas, e passar as férias.

Anónimo disse...

Allepo.

Anónimo disse...

A Comissão Europeia e a Alemanha (ou o PP europeu, a direita europeia) foram completamente trucidados por um comboio em andamento (com a permissão dos EUA e da Rússia e o trabalho da diplomacia portuguesa), que ganhou o balanço que decorreu das qualidades do candidato Guterres e da forma como decorreu o processo de escolha.
Quem tinha que decidir sobre qual o candidato a escolher ficou, face à forma como decorreu o processo, com pouca margem de manobra; qualquer decisão que fosse desfavorável à escolha de Guterres podia acontecer, mas com grande dano na imagem de uma organização que está em dificuldade.

David Caldeira

Anónimo disse...

Concordo inteiramente com a análise de David Caldeira.

É isto mesmo, uma conjugação favorável de circunstâncias: a superioridade de AG face aos outros candidatos, o jogo limpo que jogou, como se o mérito fosse por si mais do que suficiente para mostrar que mais adequado ao cargo do que ele não havia, a forma como o CS ficou " atado" a este resultado visível aos olhos da opinião pública mundial e propalado a todos os azimutes com ajuda dos "media", ( o tal comboio em andamento, difícil de travar, a não ser com custos altíssimos para a ONU ), a simpatia que Portugal goza junto dos EUA e da RU que optaram por não insistir nos seus candidatos preferidos, os tiros no pé da UE e da Alemanha e o sr Putin, sempre a lembrar-nos que na Europa e na UE a srª Merkel mandará, mas nas NU quem decide são os P5.E a Alemanha não faz parte deles.

Mas, tudo isto só foi possível, porque a nossa máquina diplomática muito antiga e muito sólida, fez tudo o que tinha de fazer. E se é verdade que por detrás de cada grande homem está sempre uma mulher, também se pode dizer aqui que, por detrás do sucesso de uma candidatura aos mais altos cargos internacionais está e estará sempre uma diploamcia de excelência.