quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Mind your business?

Foi num almoço, algures no primeiro semestre de 1992, oferecido pelo embaixador português em Londres, António Vaz Pereira, ao ministro dos Assuntos Europeus britânico, Tristan Garel-Jones. Portugal detinha presidência das instituições comunitárias e era de regra juntar os embaixadores europeus com o responsável governamental britânico do setor.

Garel-Jones, que hoje ascendeu à Câmara dos Lordes, era um homem muito simpático, dialogante e inteligente, com forte pendor eurocético. Ficara na pequena história britânica por ter organizado na sua casa, em St. Catherine's Place, dois anos antes, uma célebre reunião conspiratória que seria o início da revolta conservadora que viria a derrubar Margareth Thatcher. Uns anos mais tarde, em 1997, a convite de João Carlos Espada, eu viria a debater com ele a Europa, num ciclo organizado em Serralves, no Porto.

Um dos temas desse almoço, a que eu assistia como então ministro-conselheiro da embaixada, era Schengen e a recusa britânica de integrar aquele espaço de livre circulação europeia. Garel-Jones explicava-nos que era precisamente o desejo de preservar em plenitude a liberdade individual de que se usufruia no Reino Unido que levava à recusa de um acesso incontrolado da travessia das respetivas fronteiras. No seu país (aliás, tal como nos Estados Unidos), não existiam bilhetes de identidade e um qualquer cidadão britânico só era obrigado a identificar-se perante uma autoridade policial (por exemplo, através da carta de condução - que nos EUA não tinham fotografia...) em caso de flagrante delito. Mesmo um estrangeiro que trabalhasse no país não era forçado a revelar a sua nacionalidade, a menos que estivesse sob fundada e juridicamente apoiada suspeita. Ficou-me para sempre a resposta que disse que devia ser dada a um polícia britânico que inquirisse alguém sem razão: "Mind your business!" (Meta-se na sua vida).

Com o tempo e o agravamento das questões migratórias e de segurança, imagino que não seja hoje muito prudente responder "Mind you business!" a um "bobby" londrino...

Lembrei-me desse mítico Reino, agora um pouco menos Unido, essa pátria de liberdades e de proteção de direitos individuais, ao ver hoje o título da capa do "Times", que dá conta da intenção oficial de obrigar as empresas a listar os trabalhadores estrangeiros nas suas fileiras, com vista a avaliar se não haverá postos de trabalho que britânicos poderiam ocupar em seu lugar.

Não era esse exatamente o tema que Garel-Jones referia naquele almoço, mas tem algo a ver com a mudança drástica de mentalidades que hoje atravessa o Reino Unido em matéria de direitos. Uma medida como esta seguramente que agradaria muito a uma figura sinistra como Oswald Mosley, o líder fascista britânico, mas posso imaginar que bastante menos a Winston Churchill. E se Marine Le Pen nela se inspirar?

O mundo está perigoso.

8 comentários:

Anónimo disse...

First we take Manhattan, then we take Berlin.

Anónimo disse...

Há países que praticam
"o desejo de preservar em plenitude a liberdade individual de que usufruem os seus cidadão"
mas depois fora das suas fronteiras estão-se nas tintas para essas teorias
e na minha opinião se têm esses ideais, deveriam gostar que eles fossem seguidos para o resto da humanidade

Jaime Santos disse...

Marine Le Pen tem primeiro que sair da UE para tal, e se isso será difícil para o RU, imagine-se para a França, que faz parte da Moeda Única. Sou muito crítico da sua estrutura, mas por uma vez, acredito que a pertença ao Euro fará a Sra Le Pen pensar duas vezes. A possibilidade de que uma boa parte das empresas francesas com créditos não sujeitos à Lei Francesa possa ter que ser nacionalizada não será muito do agrado da Sra Le Pen, parece-me. Claro que o Sr Melanchon provavelmente adoraria tal cenário, mas não haverá muito mais gente a votar nele do que em Hollande, se este tiver a coragem de se candidatar, isto é...

Luís Lavoura disse...

o desejo de preservar em plenitude a liberdade individual de que se usufruia no Reino Unido

Os ingleses hoje em dia querem liberdade só para si. Os outros, que se lixem.

Querem continuar a ser livres de migrar para o Algarve, mas que ninguém seja livre de migrar para Inglaterra.

Sérgio Serrano disse...

Não sei qual é o problema por se dar preferência a cidadãos nacionais na ocupação de postos de trabalho! Qual o drama,Senhor Embaixador?

Luís Lavoura disse...

Sérgio Serrano,

Não sei qual é o problema por se dar preferência a cidadãos nacionais na ocupação de postos de trabalho

Se você fôr um empregador e tiver dois candidatos igualmente habilitados e der preferência ao candidato nacional, não há drama nenhum.

Mas as coisas raramente se colocam desta forma. Mais vulgarmente, num mercado de trabalho apertado (como é o do Reino Unido neste momento, sobretudo em profissões de alto perfil técnico), pode não lhe aparecer (imediatamente) nenhum candidato nacional, mas aparecer um candidato estrangeiro. Você contrata o estrangeiro e mais tarde é castigado nas redes sociais por ter estrangeiros ao seu serviço. O que é que você faz? Despede o estrangeiro para contratar um britânico sem experiência?

Todos os anos se formam enfermeiros e informáticos no Reino Unido. Mas, mesmo assim, todos os anos empregadores britânicos contratam enfermeiros e informáticos estrangeiros. Porque os candidatos britânicos não são suficientes e/ou não são igualmente bem habilitados.

Ana Vasconcelos disse...

Puro populismo de uma chefe de governo não eleita e com uma minoria pequena, como notou Suzanne Moore no Guardian. Houve algum recuo neste discurso face a reacções de empresários, mas acabámos de saber que peritos na London School of Economics receberam comunicação por e-mail do Governo britânico de que este deixará de usar os seus serviços em questões de aconselhamento sobre o Brexit, por serem ...estrangeiros - e, portanto, não isentos (!). O mesmo governo anuncia que haverá um 'crackdown' a alunos estrangeiros (aparentemente na total ignorância de que o seu sector universitário vive de alunos estrangeiros, e das elevadíssimas propinas que pagam, e de que a força das suas instituições depende do seu grau de internacionalização.
Irónicamente, foi a vilipendiada Chanceler alemã que revelou uma liderança minimamente decente na questão da crise de migração - e pagou o preço por isso.
Assustador, sim. E triste.

Anónimo disse...

Pois é.

"Com o mal dos outros "passo" eu "bem"

Enquanto o BCE continuar a fornecer oxigénio-boca-a-boca ou de garrafa a Portugal, está tudo um mar de risonhas caras rosadas:

Haja bifanas & couratos....