sábado, 29 de outubro de 2016

Marta Neves

Ontem, quando tratava de um assunto num balcão de um hospital de Lisboa, olhei para o nome que a funcionária trazia ao peito: Marta Neves. Um nome comum, o daquela jovem mulher, bonita e elegante. Mas que me dizia alguma coisa.

Por um instante, fui tentado a perguntar-lhe se era ela quem tantas cartas me havia mandado, durante anos, com alguma regularidade. Ia queixar-me, finalmente, do tom impessoal daquelas missivas manuscritas a tinta azul, da sua falta de um mínimo de intimidade, como se a mesma carta pudesse ser dirigida a mim como a qualquer outra pessoa. E dizer-lhe que tinha uma bela letra, fácil de ler, reveladora de serenidade.

Mas não, a Marta Neves que estava diante de mim não tinha idade para me ter escrito cartas que, com toda a certeza, eu tinha recebido ainda antes dela nascer.

Eram sempre cartas simpáticas, otimistas. As cartas da Marta Neves traziam sempre boas notícias e vinham em envelopes cheios de papelada, às vezes até traziam uma prometedoras "chaves", mas em plástico...

Marta Neves era o nome ficcionado que assinava a correspondência que, por muitos anos, as Seleções do Reader's Digest nos mandava, a anunciar os livros e discos que editavam. Vim a saber um dia que a "Marta Neves" era, na realidade, a escritora Rita Ferro.

Olhei para a sorridente e eficaz empregada do hospital, ponderei as pessoas na fila que estavam "desertas" para que eu lhes desse lugar no balcão e decidi não lhe falar nessa outra Marta Neves. Ia ser complicado "to make a long story short" e, no final, talvez ela não achasse nenhuma graça. E quem estava à espera, seguramente, ainda acharia bem menos. Como ela não deve ler blogues, que é mais vício de rebujentos, fica por aqui a minha história epistolográfica com a Marta.

6 comentários:

Anónimo disse...

Uma Marta Neves dos tempos da Publicidade copiada dos USA...

Lúcio Ferro disse...

Muito bom. É deliciosa a forma como coloca um episódio do quotidiano em jogo com a sua memória pessoal. Eu, que sou um anarquista nato, devo dizer-lhe que é um prazer lê-lo: O Francisco é um senhor, um verdadeiro 'gentleman'.

Anónimo disse...


Por falar nesses tempos da Marta Neves....

Que saudades daquelas pessoas que, tendo subido na vida e infelizes das origens familiares pouco aristocráticas, compravam retratos antigos nos leilões e nos antiquários, penduravam-nos nas paredes de casa e os apresentavam aos amigos e convidados como sendo seus antepassados.....

Hoje qualquer um ou mais (Outubro de 2016) por terem ido uma dúzia de vezes a universidades se apresentam como licenciados, e outro que já vai em "autor" proclamado de dois livros, tudo bem "regado" pelos media.

Portugal está doente.

Anónimo disse...

esta tudo perdido

volta oh portugal antigo
volta que eu choro por ti nas horas vagas
bebendo infinitas bebidas amargas!
que tristeza
oh tudo é sem salvacao
ai que ja me doi o co...racao



Anónimo disse...

Ao anónimo das 22:44
Ah sim!!!... eh eh eh eh

A. Pedroso disse...

Meu caro Embaixador. julgo que é "rabugento".
Com estima e admiração
A. Pedroso