segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Jornalismos


Tenho vários amigos e conhecidos na classe dos jornalistas e orgulho-me muito dessas relações. Contudo, e não raramente, no passado, insurgi-me junto de alguns deles pelo facto de demonstrarem uma grande complacência para com pecadilhos evidentes dos seus colegas de profissão. Até há pouco tempo, era muito raro ver-se um jornalista a criticar outro, no próprio espaço mediático, dando ideia de que prevalecia entre eles uma espécie de corporativismo inibidor. Ou alguém se lembra de ouvir vozes escandalizadas da classe quando o "Independente" adotou práticas miseráveis?

Mais recentemente, algum aventureirismo travestido de jornalismo, assente em comportamentos à margem de um mínimo de deontologia, terá levado certos profissionais a achar que "o que é demais é erro" e que seria importante, para a própria salvaguarda do prestígio da classe, separarem as águas e darem pública nota de que não se sentiam bem acompanhados por alguns daqueles alegados colegas. E as coisas não se ficaram por ali, ajudadas também pelo mal-estar criado por alguma partidarização de setores da profissão, tendo os blogues como plataforma mais evidente dessa deriva e os gabinetes e outros empregos como recorrente porto de abrigo.

A grande prova de que as "comadres" se tinham zangado, em definitivo, surgiu na questão que opôs o "Público" ao "Diário de Notícias", por ocasião das desconfianças entre Belém e S. Bento, que o livro de Fernando Lima agora desenvolve. Em especial a partir de então, a conflitualidade entre os grupos de "media" parece ter potenciado essa clivagem e, em várias outras ocasiões, que os "leaks" judiciais seletivos no caso Sócrates agravaram, "o caldo entornou-se" entre os nossos jornalistas. O último episódio desta saga terá sido o livro de José António Saraiva e as repercussões escandalosas que ele teve.

Como consumidor mediático, confesso que me sinto muito mais confortado agora, ao ver os jornalistas sérios erguerem a sua voz para isolarem aqueles que mancham a dignidade da sua profissão. Pode ser que, com isso, se tenha quebrado a "paz dos cemitérios" em que se vivia, mas a frontalidade que hoje se adopta no seio da classe parece prenunciar que caminharmos tempos bem mais dignos. E transparentes, que é o que a mim mais me importa.

2 comentários:

Anónimo disse...

Embaixador, post sobre a casa da gaivota azul na não sei quantas da coelha, nada?

Anónimo disse...

Parece que Portugal é "diferente" dos outros países.???

"quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele"