segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Insegurança


O caso do presumível assassino que andará por Trás-os-Montes parece estar a desencadear um duplo efeito.

Desde logo, as vozes complacentes dos amigos do eventual criminoso, dando-o como "bom rapaz" e lançando a ideia da implausibilidade de ele ter cometido tão hediondos crimes, começam a suscitar uma espécie de benevolente perplexidade que, numa primeira reação, assume aquilo que é a atitude bem portuguesa tradicional, filha das medíocres teorias conspirativas de quem não sabe nada mas não está disposto a que alguém lhe passe a perna: "esta história está mal contada!". No achismo de café, adubado pela especulação palavrosa incessante dos estagiários a tremer de frio com os "cornetos" das televisões, tudo é possível. Daqui até à "síndroma de Estocolmo", que leva à simpatia com os criminosos, pela relativização ou indução de dúvidas sistemáticas sobre factos especulados, o passo é curto.

Mas o caso do "piloto", ao prolongar-se sob angústia mediática obsessiva, redunda também numa fragilização objetiva do prestígio das autoridades policiais, as quais, numa leitura simplista de uma situação operacional visivelmente complexa, já aparecem como que a serem "gozadas" pela argúcia do fugitivo - o que sempre diverte alguns patetas. Esta imagem das polícias impotentes é reforçada pela simultaneidade de crimes violentos ocorridos noutros locais do país, magnificados pela "imprensa do sangue", com televisão próprias em apoio. Se a isso somarmos as dúvidas cumuladas pela repetição de incidentes com argelinos no aeroporto de Lisboa, dir-se-á estar a criar-se um caldo de cultura para um ciclo de insegurança psicológica, com os sindicatos policiais (que no quadro mais global estão travados pelos compromissos da "geringonça") a cavalgarem oportunisticamente a onda.

Nada pior que um país com dúvidas sob a eficácia de quem o pode proteger no dia-a-dia, isto é, a sua polícia - depois de há muito ter visto já instalada uma forte desconfiança sobre o aparelho da sua justiça.

11 comentários:

Isabel Seixas disse...

Uma excelente reflexão, de facto as fronteiras entre liberdade e abuso de liberdade tornam-se ténues quando a transparência dos conceitos de bem e de mal anda de uma ambiguidade oportunista pelos salteadores da razão...

Bastava que os verdadeiros réus vestissem a génese da empatia e cobrissem também a pele dos que vivem para proteger os outros(nos quais também estão incluídos) e que não matam por dá cá aquela palha, para só eles sobreviverem a qualquer preço.

Eu continuo a confiar nas nossas forças de segurança, quando ultrapassarem a barreira do a minha secção é melhor que a tua e endividarem esforços na causa comum abolindo as peneiras, a coisa vai.

Joaquim de Freitas disse...

« Nada pior que um país com dúvidas sob a eficácia de quem o pode proteger no dia-a-dia, isto é, a sua polícia - depois de há muito ter visto já instalada uma forte desconfiança sobre o aparelho da sua justiça.”

Extremamente justa, esta frase, e oportuna. E não só em Portugal. Assistimos, em França, ao mesmo problema, que tem a agravante de ser explorado por forças políticas populistas, com o vento na popa para as próximas eleições, para as quais tudo serve para fazer explodir o governo actual.

E muitos elementos da polícia, “minados” ou não por esta tendência politica, seguem-nos e começam a amedrontar os cidadãos.
Já é mais que tempo de parar com isso. A não ser que já seja tarde, como eles dizem.
Na noite de segunda-feira para terça, ignorando a lei que têm por missão de obrigar a respeitar, mesmo com pontapés, murros, granadas de flash-ball, invadiram os Campos Elísios com armas e viaturas de serviço.
Em Paris, a pé, desta vez, à civil e por vezes mascarados, marchando dos Campos Elísios à Praça da Republica, dois lugares simbólicos.
O governo rosna.
Na noite de quarta para quinta-feira, novas manifestações em várias cidades de França.
O governo diz que é inaceitável e vai abrir um inquérito, (mas não para sancionar, diz.)
Quando um governo deixa bandos armados e mascarados desfilar na Capital, demonstra uma fraqueza que põe em perigo a democracia e abre a via aos golpes de Estado. Estes fora da lei, pagos por nós, demonstraram o seu desprezo da sua hierarquia, do seu ministro, de todo o governo, e da Republica. E fazem-no porque estão armados.
Estou de acordo que faltam alguns milhares de polícias, mas seria preciso começar por mandar alguns para casa, porque traíram o seu juramento, traduzi-los perante um tribunal como vulgares assalariados de Air France ou Good Year, fazer alguns exemplos, e fazer voltar a polícia para a Republica, e mostrar-lhe quem comanda neste país e depressa.
A não ser que o governo já tenha medo da sua polícia. Se é o caso, podemos dizer que está como os Franceses.
Espero que em Portugal, as coisas não cheguem a esse ponto.

L M D disse...

É o sítio que temos, somos um povo em que tudo o que temos não presta,e as nossas forças de segurança são das piores.
Enquanto esta mentalidade errada e injusta prevalecer não vamos muito longe

Antonio Cristovao disse...

O estacionamento no aeroporto em que se entra sem controle, mesmo quando do pico da crise, que eu saiba, continua a ser d sra fatima que nos tem livrado dum carro com bomba danificar o edidifico desde a base.

Anónimo disse...

Ó Embaixador, fala ai dos patetas que se vangloriam em achar piada a estes suspeitos de crimes. Mas e o que dizer dos outros patetas que defendem os suspeitos politicos de crimes que ainda lesam mais o País? para mim esses são bem piores. Olhe deixe correr, quem tem que se preocupar é quem tem coisas para perder, nós os que já nada temos a perder, queremos mais é que isto exploda.

Mal por Mal disse...

Há muitos anos que o povo português não vive tão tranquilo e satisfeito.
Podemos ir para o comboio, metro ou autocarro que não há greve

As crianças têm professores satisfeitos, a polícia tem gasolina para os carros, e os pensionistas e funcionários públicos pensam que vão ser aumentados.

Contam~se pelos dedos as greves nos hospitais.

Só ainda escapou um argelino e os espanhois e angolanos gostam de cá estar...na banca e os francese no Algarve.

O governo e a china são unha e carne, a marinha russa passou, mas nós, de periscópio a topá-los.

Para o ano temos o Papa em Fátima de braço dado com Marcelo Presidente.

Que mais queremos?

Anónimo disse...

Atenção á válvula de "segurança" da panela geringonça !

Anónimo disse...

"Quando um governo deixa bandos armados e mascarados desfilar na Capital, demonstra uma fraqueza que põe em perigo a democracia e abre a via aos golpes de Estado. Estes fora da lei, pagos por nós, demonstraram o seu desprezo da sua hierarquia, do seu ministro, de todo o governo, e da Republica. E fazem-no porque estão armados."

caro Freitas

Policiar no ghetto em frança é facil imagino, nao? Nao viu a historia dos policias a quem por nada uns jovenzinhos (que realmente o eram) pegaram fogo a viatura e iam queimando vivos?

Nao ve os jovens magrebinos nao condenados por 20 e 30 crimes que fazem? (nao é exclusivo desses) mas o sentimento de injustiça foi uma das coisas que criou o eleitorado le Pen.

Bem sei que nao é tudo a oreto e branco; ha muitas nuances. Ha um racismo frances, muito basico e historico que sempre discriminou os que de la nao eram. Ha as milhentas injustiças etc etc. Mas dai a incrivel (incrivel repito) quantidade de jovens franceses originarios da imigracao (sobretudo magrebina e africana) que tem um desprezo enorme e inimaginavel pelo pais que lhes deu as oportunidades, que muitos de nos nem sequer temos em Portugal.

Nao é de admirar que a policia se manifeste.



Joaquim de Freitas disse...

Caro anonimo das 05 :35 :

Estou de acordo que policiar na sociedade actual é extremamente difícil. A violência está por todo o lado, em casa, por vezes, nas escolas, e nestes dois casos por causa da demissão dos pais ou da fraqueza dos mestres. E o ambiente social e o espectáculo actual da sociedade são o terreno ideal para esta deriva. Mas não houve, em França, tantos casos de homicídio sobre os policias como na pátria da democracia, os EUA, onde o numero de polícias assassinados e cidadãos assassinados pela polícia “é incomparavelmente mais elevado que em França.

Mas é certo que hoje, em França, existe um número elevado de indivíduos que procura matar polícias. Que existem actos de terrorismo aos quais se podem assimilar certos ataques de polícias verificados recentemente. A França está em guerra. Não quero dar a minha opinião sobre a justeza ou não destas guerras. Mas tenho a certeza que muitos ataques têm a sua origem nesta situação militar.

E é claro que mesmo quando se policia bem, a justiça tarda ou não aplica mesmo a justiça com o rigor que se espera. E fez bem de notar que não são só os crimes dos jovens que restam impunes, porque vemos políticos, mesmo de alto nível, escapar permanentemente à justiça.

Podemos ver hoje candidatos à presidência da república francesa que ainda não responderam por inúmeros crimes, devido à lentidão da justiça mas também à conivência desta com as gentes do poder.

E é claro que Le Pen, e não só, utilizam esta situação para atingirem os seus fins. Mas disso nós sabemos todos.

Seria longo e fastidioso de analisar o “racismo” francês, que o Senhor diz ser “histórico”. Mas ainda é a França que desde há séculos foi e é o país onde tantas e tantas pessoas de raças e culturas diferentes foram acolhidas e os seus imigrantes se tornaram na larga maioria dos casos cidadãos integrados “ à part entière”.

E tem razão que é absolutamente inadmissível a atitude de milhares de magrebinos contra o país que os acolheu, e do qual são, em grande maioria, cidadãos. Mas aqui tocamos numa parte da História da França, país colonialista, que conquistou a Argélia pelas armas e combateu durante anos, como Portugal, o desejo de independência deste povo. As feridas levam gerações para sarar. E o Islamismo violento gerado pelos conflitos do Médio Oriente, vieram inflamar ainda mais estas gerações de magrebinos à procura duma identidade própria.

Face a estas realidades politicas e sociais, é minha opinião que as instituições que são os fundamentos da República Francesa, não podem ceder a pressões sindicais e sair para a rua como os grevistas da SNCF ou Air France. A polícia é uma das garantias da perenidade da Republica. E se problemas existem, e eles existem, só podem ser discutidos no quadro da lei, com o seu Ministro de Tutela. E verá que será neste quadro que encontrarão, nos próximos dias, as soluções. Não existe outro.
Nenhum Estado pode existir sem uma polícia bem organizada, sobretudo na atmosfera de terrorismo que ela deve combater.

A polícia na rua não é de bom auguro para os cidadãos, numa democracia.

Bonito,Bonito disse...

No norte de Portugal há mais assassinos, no sul há mais suicídios.
É uma desigualdade, onde anda a democracia?

Anónimo disse...

caro Freitas

"http://www.express.co.uk/news/world/725158/Migrant-crisis-Queen-Margarethe-II-Denmark-Muslim-refugees-integrate-European-values"

nao tendo que ver, tem que ver ( e estou de acordo com a senhora )

boa sorte ai com os poulets (ou mais a ghetto, com os keufs...)