domingo, 2 de outubro de 2016

Éticas


Há uns anos, perguntei a uma conhecida personalidade política, que havia sido pessoalmente responsável por determinado tipo de ações que tinham vindo a revelar-se deletérias para o interesse público, se não se arrependia das decisões que tomara. Fiquei, confesso!, siderado com a sua resposta: "Não sinto a menor culpabilidade. Eu agi exclusivamente na base das informações que à época tinha, dadas e colhidas por quem me rodeava e em quem eu confiava, na profunda convição de que o que fazia era o melhor para o interesse coletivo. A circunstância dos factos terem vindo a demonstrar que a ação que empreendi não correspondia àquilo que eventualmente teria sido mais adequado fazer é algo que me ultrapassa e pelo qual não sinto hoje, à distância, a menor responsabilidade. Por isso, não me arrependo de nada do que fiz. Aliás, alguém arrepender-se é errar duas vezes."

Na altura, não fiquei muito convencido com a lógica subjacente a este raciocínio. E dei comigo a pensar que havia algo que "respondia" a essa lógica, mas de que eu me não lembrava. Só hoje, ao ler no "The Economist" um texto sobre a "ética de convicção" e a "ética de responsabilidade", suscitadas por Max Weber há quase um século, é que realizei verdadeiramente a razão das minhas dúvidas. Leia-se o texto aqui.

2 comentários:

Jaime Santos disse...

O seu interlocutor tem razão se de facto as informações disponíveis apontavam para que ele agisse do modo como agiu. Não vejo que neste caso se possa aplicar verdadeiramente a distinção entre ética da convicção e da responsabilidade. Ele diz que estava convencido de agir da melhor forma, mas só teria violado as normas da ética da responsabilidade, caso não tivesse levado em conta as consequências previsíveis (e apenas estas, que eram determináveis pelas informações disponíveis à época) da sua ação. Tomar uma decisão implica fazer uma escolha, e isso implica sempre incerteza, de outro modo não é uma escolha. Onde ele borra a pintura é ao dizer que não se arrepende de nada do que fez. Pode estar isento de responsabilidade moral, mas seria de esperar um pouco mais de humildade, já que, 'with the benefit of hindsight', podemos sempre aprender algo com aquilo que fizemos e correu menos bem. Se não aprendemos, o mais certo é errarmos outra vez. E aí não teremos mesmo desculpa.

Joaquim de Freitas disse...

Os tempos mudaram desde o longinquo ano de 1919 e Max Weber não reconheceria a Alemanha de hoje.
As éticas, todas as éticas, voaram em estilhaços sob a pressão do ultra liberalismo económico.

Frau Merckel obedece mais ao problema dramático da demografia alemã, permitindo a chegada maciça de milhares de migrantes; que a uma hipotética preocupação ética.

Aculturá-los, se possível, para melhor os integrar e governar, e porque não explorar, mas a única convicção da Chanceler é que sem os migrantes a economia alemã e, a partir daí, a posição dominante na Europa, não será possível.

Não existem éticas a este nível de políticos. Bush, Blair, Aznar, Barroso, Clinton, Obama, Merckel , Kissinger, defenderam única e exclusivamente os interesses dos seus países ou os seus, pessoais