domingo, 23 de outubro de 2016

Em Lisboa, vá pela sombra


Se acaso pretendesse reduzir a famigerada (gerada pela fama) luz de Lisboa a uma única fotografia, não hesitaria um segundo. A cidade está toda na imagem que Gérard Castello-Lopes nos deixou, do alto, voltado para a rua do Arco do Carvalhão, um local a que os antigos chamavam os Terramotos. Nessa fotografia, um monumento de arte, a luz segue pela rua adiante, lado-a-lado de uma estranha fila de gente, numa adivinhada monotonia, que é bem o retrato de um Portugal onde, como dizia o ditador, as pessoas "viviam habitualmente".

Mas se se olhar um pouco para além dessa luz quase obscena que parece dominar o cenário, invasora, nada pudica, há na pintura a preto e branco da máquina de Castello-Lopes um recorte bem mais variado, sofisticado, seja no elegante pormenor geométrico que rebate, como num desenho, as casas - e que, diacronicamente, imaginamos evolutivo, como num filme -, seja nas caricaturas individuais das figuras em presumível movimento, que se projetam contra a grade bordejante. A luz está lá, sempre igual, por toda a parte, quase banal. É, porém, nas sombras que a criatividade se forja.

Lisboa é uma cidade de sombras - e essa não é uma expressão de retórica passadista, sentimental ou misteriosa, embora pudesse ser também isso tudo, até com fado à mistura. É uma realidade insofismável, que só não tem emergido porque, é preciso dizê-lo, há uma óbvia conspiração a favor da luz, para a qual o exército das sombras não encontrou até hoje o adequado antídoto.

Querem exemplos, omnipresentes na cidade ? É a sombra que o Aqueduto das Águas Livres atira contra o solo que lhe confere uma grandeza humanizada. Sem a sombra, aquela obra de arte seria apenas uma maqueta, em ponto grande. Passeie-se sob as arcadas do Terreiro do Paço, num dia inundado de sol, e olhe-se a riqueza dos desenhos que as sombras produzem nas paredes pombalinas. É a sombra que acomoda o viajante que por ali anda e que, por alguma razão, a procura, fugindo da luz, da torreira. A sombra protege, a luz abafa. A sombra, no fundo, é o lado bom da luz.

Um dia, dedique o leitor uma boa hora a percorrer os caminhos do lisboeta cemitério dos Prazeres. Escolha um dia de sol (Lisboa tem uma obsessão tal com o sol que até deu a uma sua rua o nome de "rua do Sol ao Rato") e perceberá melhor o que lhe quero dizer. Para além das árvores que lhe filtram a incómoda luz, um dos mais óbvios "prazeres" do cemitério é, para os vivos, claro, poder apreciar a infinda variedade das projeções das sombras dos jazigos, um rendilhado criativo que confere a algumas daquelas fúnebres moradias uma dignidade de bairro, onde nem sequer faltam os gatos, que o silêncio reinante permite melhor apreciar. Sente-se num dos bancos que por ali há, à sombra, à conversa, gastando o tempo, que é, além da esplêndida penumbra da contraluz, a mercadoria mais abundante no local, e logo perceberá melhor o que lhe quero dizer

Nem lhes conto o quanto me perturba ver alguns fabianos, « cara al sol », como se entoava no tempo infame, loiros de escaldão, a calcorrearem a ala central do Parque Eduardo VII, já de si escavado como uma vala para adoradores do dito, como se acaso estivéssemos por aqui à borda de um fiorde, num país em que o verão se esgotasse num fim de semana. Convide-se essa gente ao gosto da fuga, por um momento, para a adjacente Estufa Fria e, estou seguro que eles logo perceberão o "calor" ímpar da sombra, das árvores, da delicadeza da luz filtrada. Eles verão que é a noite e o dia, ou melhor, um quase vice-versa.

Lembram-se das imagens brancas, desertas ou quase, muito ensoleiradas (em especial aos domingos, em que a brutalidade da luz parece apostada em rimar com a santidade do dia), dos filmes do neo-realismo italiano? Pois bem, o velho "novo cinema português" tentou reeeditar esse registo, jogando com a alvura das avenidas a que nos habituámos a chamar "novas", usando e abusando de uma luz sem vergonha. E se revisitarmos essas películas, com alguma sofisticação no nosso olhar, é hoje um regalo ver as imagens, inundadas de branco, ganharem de imediato « cor », logo que a câmara se descai, com bom gosto, para a intrusão das sombras, que conferem à naïveté das histórias um sentido digno de recato, de discrição, um toque de intimismo, que a luz não permite e até antagoniza. Não será por acaso que, na expressão «  a-preto-e-branco » o preto surge primeiro...

Como o leitor já presumiu, cansa-me muito escutar o rame-rame do discurso obsessivo, turístico-folclórico, sobre a luz de Lisboa. Tanner - um cineasta suíço que, talvez por isso, não percebe muito de cores da vida do Sul - chamou a Lisboa "A cidade branca". Nunca percebi onde é que ele foi descobrir a "kasbah" que o fez encontrar Argel por aqui. Lisboa não é uma "cidade branca", é uma terra de cores vivas, a que as sombras fazem ganhar novos cambiantes. Por isso também é falso o que cantou Sérgio Godinho, no "Lisboa que amanhece", ao dizer que "as sombras de Lisboa são da cidade branca a escura face". Uma ova !

As sombras são a face mais "luminosa" da cidade e, claro, ganham outra expressão na noite quando, finalmente, a cidade se liberta do sol. É então que a saudável e pecaminosa - no bom sentido, que é o do bom pecado - face de Lisboa se revela. 

Olhem-se com atenção as sombras incomparáveis da ruas que atravessam a Bica em noites de copos e música, procure-se uma ruela esconsa no Cais do Sodré onde se imagina o « deal » final entre a meretriz e o marinheiro da esquadra da NATO, visite-se a tristeza quase suburbana da entrada de uma pensão "com águas correntes" na Almirante Reis, atravesse-se a Praça das Flores na penumbra de um fim de tarde da Lisboa « colorida » pela diversidade sexual, faça-se uma romagem romântica à sombria estátua de Sousa Martins, no Torel, numa noite de luar, ou à ímpar marca de solidão da Triste-Feia, a mais misteriosa rua da Alcântara que foi operária. Ou olhe-se a sombra do Tejo nas Docas, as esquinas onde os adolescentes trocam « shots », com o iPhone na outra mão, nas madrugadas divertidas de Santos ou (ainda) do Bairro Alto. As sombras de Lisboa não têm fim, morrendo no cansaço do alvor do novo dia, feito de olheiras e, claro, de sol.

É essa a minha Lisboa, feita de mil sombras, de mil e uma noites, de uma resistência denodada à ditadura da luz, cuja única verdadeira virtualidade é ter o mérito de ser geradora dessa glória eterna da imagem que é a sombra. 

Que este texto possa ter ajudado os visitantes de Lisboa a melhor entenderem que, aqui chegados, têm uma magnífica Lisboa de sombras pronta para ser consumida. Tenho fundada esperança que o que aqui deixei, este guia irónico em forma de elegia da cidade escurecida, tenha contribuído para que, sobre este tema, haja sido feita, finalmente, alguma luz.

(Artigo publicado no nº 1 da revista "Bica")

16 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


bonito Sr. Embaixador
Lisboa deixa-nos recantos de sombras infindáveis por descobrir ou desencantar
mas é a cor que predomina assombrada ou encantada

Anónimo disse...

Caro Embaixador

Revejo-me totalmente no seu artigo, deixe-me dizer-lhe que para um trasmontano de quatro costados também foi cortejado tal como Ulisses pela nossa cidade, sim , não só os que nascem alfacinhas se podem arrogar de amar esta nossa cidade . Nascidos e criados em Lisboa , tal como este seu leitor , há poucos , mas os que há, são bons . A propósito da rua Sol ao Rato , também temos a do Sol à Graça e do Sol ao Santana , sem esquecer as Portas Do Sol.

Saudações olissiponenses

maria madeira disse...

Que texto bom de se ler. Eu adorei. Eu que amo a minha Lisboa (que me perdoe a arrogância de a querer só minha, dentro do possível naquilo de o ser), que por vezes digo conhecer Lisboa como as palmas das minhas mãos (como se possível tal coisa), porque me dou ao trabalho de a conhecer, de a conhecer a pé, a pé porque acho que só assim se conhece uma cidade e se consegue ver as tais sombras de que fala, de forma ímpar, neste seu texto. Lisboa é luz, porque Lisboa também é sombra.

Anónimo disse...

sombras... até Argel está cheia de sombras, até porque os seus habitantes bem precisam delas. Qualquer "medina" está cheia de ruas estreitas cheias de sombra. Eu tenho muita pena para com os que se incomodam com a comparação com Argel, mas de facto Lisboa é uma cidade branca cheia de luz. Basta ter-se vivido meia dúzia de anos em Paris ou Londres para se saber isso. Como é óbvio, um suiço como o Tanner nunca poderia dizer outra coisa. Chegado aqui, foi uma explosão de luz branca, como é óbvio.

Anónimo disse...

"a uma sua rua"...?

rua sol ao rato
rua do sol a graça
rua do sol a santa catarina
rua do sol a santana
rua do sol a chelas

cumprimentos

Beirã disse...

Como em outras terras,tudo ruas (ou portas de muralha)viradas a nascente. Um tema muito apetitoso de se conversar e um escrito muito bonito,falando de sombra ...e
afinal cheio de cor e de luz...

Anónimo disse...

esqueci-me de uma...

penso ter havido em tempos uma rua do sol a alvalade, mas tenho a impressao que deixou de existir....

cumprimentos

Anónimo disse...

Lisboa é bonita, mas Gache... disse!

(Será por as sombras de Lisboa continuarem na atualidade negras ou... muito cinzentas, como muito bem expõe no seu texto que Gache seja preferido por alguns, até ultimamente?...)

Anónimo disse...

Ó Freitas cuidado ai pela selva de Calais. Vou enviar para ti umas madeiras e pregos para fazeres mais umas casotas para os teus amigos árabes. Mas olha que por aqui neste teu velho País não há nem empregos para os teus compatriotas, mesmo os que tem diploma, mas que não tem padrinho.

Anónimo disse...

Caro Francisco,

Estou sentado em frente da fotografia do Gérard e com a melhor vista de Lisboa ao lado. Com a chuva a caír, só peço luz, mais luz.

Um abraço

Astrance

Anónimo disse...

Por falar em Lisboa, entre hoje e amanhã faz anos que foi conquistada aos mouros. E NINGUÉM FALA DISSO!!!

Anónimo disse...

"Ó Freitas cuidado ai pela selva de Calais. Vou enviar para ti umas madeiras e pregos para fazeres mais umas casotas para os teus amigos árabes. Mas olha que por aqui neste teu velho País não há nem empregos para os teus compatriotas, mesmo os que tem diploma, mas que não tem padrinho.

24 de outubro de 2016 às 11:35"

..

Isabel Seixas disse...

Olhe Sr. Embaixador, por este caminhar e na próxima semana todos os caminhos vão dar a Chaves feira dos Santos onde se elevam pecadores.

Rua do sol é a minha eterna rua onde está plantada ainda a casa dos meus Pais e de muitos outros pais e onde há sol faz tanta falta a sombra para nos proteger dos seus desvarios e excessos de luz que ofusca as visões e queimam a pele.

Anónimo disse...

Não entendi. Mostra uma fotografia artística do Gérard Castello-Lopes, com grandes sombras, escura e que parece ter sido tirada no Inverno, e diz que retrata lisboa? Tanto podia ser tirada em Lisboa, como em Glasgow, a cidade irmã ;)...

Anónimo disse...

Na sombra como é costume dos camaradas, neste caso a geringonça:

"De acordo com o artigo 40º da Lei de enquadramento orçamental, o governo é obrigado a entregar um conjunto de demonstrações orçamentais e financeiras"

Anónimo disse...

Muito bom, este texto.
Com a sensibilidade revelada,é um texto feito depois(sem maldade) de um bom jantar.