domingo, 2 de outubro de 2016

Cleonice Berardinelli


Cleonice Berardinelli fez 100 anos. Um grupo de amigos decidiu editar uma publicação com testemunhos de amigos e admiradores desta professora brasileira de literatura portuguesa, membro da Academia Brasileira de Letras. O "Jornal de Letras" publicou alguns dos depoimentos portugueses para esse trabalho, entre os quais o meu, que intitulei "O nosso amor brasileiro". Ele aqui fica:

Naquele final de tarde de 2009, em Paris, na residência em que Calouste Gukbenkian guardou por muitos anos a sua fabulosa coleção de arte, percebi um pouco melhor o que a nossa cultura podia representar para o mundo exterior à língua portuguesa. Cleonice Berardinelli, a decana dos estudos portugueses no Brasil, num francês límpido e culto, com uma assertividade e um rigor que desmentiam por completo o que o calendário  lhe atribuía como idade, revelou com extremo brilho, para um interessado público francês, a universalidade de Camões. Ela era ali o  que do melhor a lusofilia cultural nos podia oferecer.

Eu tinha nascido para Cleonice ao tempo em que fui embaixador luso por terras do Brasil, a partir de 2005. Quem ma “apresentou”, ainda antes de a conhecer pessoalmente, foi João Pedro Garcia, diretor internacional da Fundação Calouste Gulbenkian, que me havia chamado a atenção para o trabalho notável que a professora Cleonice Berardinelli vinha a fazer, por décadas, no meio académico e editorial brasileiro, pela literatura portuguesa.

Encontrando-a depois, ouvindo-lhe em muitas ocasiões o discurso solto, pontuado por um inesquecível sorriso, belo e ladino, servido por uma memória prodigiosa e um sentido raro de observação, dei-me conta de estar ali o melhor que Portugal, num discreto e às vezes involuntário proselitismo, podia receber de quem se sentia tributário da riqueza gerada através da língua que nos é comum.

Tive um dia o gosto de ver aprovada pelo meu governo uma proposta para que a Cleonice fosse atribuída a mais alta distinção que, nas “artes e letras”, Portugal lhe poderia conceder. E guardo ainda as palavras com que, no ambiente único do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, ela recebeu essas insígnias, reiterando, como se tal fosse necessário, o amor à literatura a que dedicou toda a sua vida.

Portugal honra-se em poder contar Cleonice Berardinelli entre as suas amizades mais fiéis. Cleonice é, verdadeiramente, o nosso amor brasileiro.

2 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


Fui ver a senhora, é uma querida !

https://www.youtube.com/watch?v=mlWdqk3bZ3I

Anónimo disse...

Caro Francisco,

Muito obrigado pela referência.

Cleonice não é só a maior por ter chegado aos cem anos. Já o era há dez ou há vinte, e atè há mais, quando a conheci ao jantar no "Antiquarius", célebre restaurante português do Rio de Janeiro.

Entre as muitas coisas de que me orgulho ter podido fazer em Paris, as idas anuais de Cleonice à avenue d'Iéna ocupam um lugar cimeiro. Ali falou como ninguém de Camões, mas também de Gil Vicente, de Vieira, de Eça ... Ia com a minha querida Amiga Gilda Santos e com o saudoso Emmanoel, membros honorários da sua numerosa familia.

Recordo ainda os multiplos contactos que tivemos através do Serviço Internacional da Fundação Gulbenkian, com o qual aliás Cleonice já se relacionava desde muito antes da minha chegada.

O que sobretudo nunca esquecerei, e espero poder beneficiar dela durante muito tempo, é a generosa e elegante amizade que Cleonice sempre demonstrou para comigo, e para com a Mafalda, nos momentos bons e nos menos bons, particularmente em casa dela e na minha.

Desejo do fundo do coração que todos possamos festejar muitos mais anos de Cleonice. Ela merece cá estar. E nós precisamos dela.

Um abraço do

João Pedro Garcia