domingo, 16 de outubro de 2016

Aí, Valente!

                      
Algum país ansiava pelo regresso de Vasco Pulido Valente. A sua pausa na escrita jornalística, por alguns meses, aparentemente para concluir um livro, criou uma expetativa de que a retoma da sua coluna no "Público", bem como a anunciada nova colaboração semanal no "Observador", viessem a revelar a falta que, lá no fundo, ele fazia à pátria. Ainda não dei conta da primeira mas já li a segunda e, tenho que confessar, foi aquilo que se pode qualificar como um regresso pífio. Um texto sem inspiração, previsível, destituído de garra, com banalidades a propósito do quotidiano e clichés sobre os seus habituais inimigos de estimação.

Sigo Vasco Pulido Valente com alguma atenção, e muitas vezes com interesse, desde há muitos anos. Desde "O Tempo e o Modo", passando pelos seus livros (creio ter lido todos) e alguns dos seus surgimentos mediáticos, para além da fugaz e muito pouco notável fase política. Nos últimos anos, a inegável qualidade do seu português e algumas "trouvailles" bem esgalhadas trouxeram popularidade à coluna que tinha no "Público", embora uma experiência televisiva tivesse revelado as limitações expressivas da figura, pouco ajudada por uma voz desagradável, um tom arrogante e um discurso tartamudeante.

O modelo de crónica que Valente utiliza é vetusto, vem direto do nosso século XIX, em que o historiador se especializou. Baseia-se numa denúncia cáustica, com esforçada graça, das figuras da moda, política ou mediática, quase sempre numa caricatura do género "o rei vai nu", muito em sintonia com o prazer da má-língua que o português adora.A fórmula: tudo o que luz por cá é medíocre, banal, pretensioso e, quando tem alguma graça, é porque mais não é senão uma cópia deslavada de algo que o "déjà vu" de Pulido Valente (que tudo leu e tudo sabe) nos mostra que, afinal, era já conhecido por quem conhece as coisas. No fundo, Portugal é a "choldra", é a "piolheira", como dom Carlos chamava ao país em que reinou até à esquina do Arsenal.

Como é sabido, este tipo de crónicas de escárnio e mal-dizer é, entre nós, uma receita com sucesso quase sempre garantido. Há um visível concorrente de Valente no "Diário de Notícias" e na "Sábado", embora com uma azia vesicular que já começa a cansar. E há outros cultores do modelo, desde uma caixadóculos direitolas de taxa arreganhada, que se desunha para ter uma graça que nunca consegue ter, até outros que ousam, de quando em vez, dizer bem de alguma coisa, o que logo lhes fragiliza o estatuto de profissionais do arraso.

Pulido Valente não escapou - ganhei uma aposta com isso - ao óbvio da moda: dizer mal de Guterres. O gosto do português de tentar liquidar quem, de entre nós, atinge alguma notoriedade é um vício nacional de regra. Se o mundo escolheu o antigo primeiro-ministro para a ONU, só havia dois caminhos: falar da "irrelevância" da ONU (para desqualificar o feito) e elencar os "defeitos" da personagem. Foi o que Valente fez, sem chiste e sem chama.

Um amigo meu teimava em que Pulido Valente não ia cair nessa esparrela: "ele vai ter a superioridade de ignorar Guterres, vais ver!". Não teve essa "superioridade", pelo que teve, como eu previa, o seu contrário, isto é, essa inferioridade. Ganhei assim a aposta de uma refeição no Gambrinus onde, na mesa do canto, escondido atrás de uma multidão de brasileiros, lá iremos encontrar Vasco Pulido Valente, o "Carlinhos" dos Bilhetes de Colares de A.B. Kotter, como José Cutileiro o crismou e lhe retratou os consumos.

27 comentários:

Anónimo disse...

E o usual provincianismo dos que avistam Badajoz, ou frequentem brevemente Oxford e se deslumbram. VPV não e caso único. Mas escreve muito bem português, tem uma cultura sólida que manipula com inteligência e era muitas vezes divertida. O escárnio e meal dizer tem tradição e deu coisas cínicas e boas. O problema é que se se leva caseiro o autor passa a objecto da farsa.
Fernando Neves

Anónimo disse...

Tomara o gonçalves fascista e defensor da tortura da sábado e do diário de notícias chegar à qualidade de escrita ou à cultura de VPV, historiador que no mais é tudo o que diz.

Há-de, todavia, o embaixador contar-nos com que livros de autores de esquerda com que não concorda tem aprendido nos últimos tempos.

Já sabemos da sua paixão por subprodutos como o raposo do expesso, mas do cultivar e dos anunciar de obras da esquerda de autores com que não concorda, lidos para aprender, nunca o ouvi falar. É verdade que não os há nos jornais, mas ainda há uma ou outra coisita publicada pelas editoras.

Anónimo disse...

Tiro na mosca no que toca ao tipo do Diário de Notícias (chama-se "Alberto Gonçalves" e - realmente -, a sua total ausência de variação de estilo azedo e sarcástico já começa a cansar).

Mas olhe que essa sua insistência na "caixa de óculos" do Observador é de bastante mau tom. Se tem problemas com a rapariga, assuma-os. Agora, concentrar-se no pormenor dos óculos é quase infantil.

Anónimo disse...

Este país só se desenvolve quando grande parte das pessoas que hoje votam PS, BE e PCP renegarem o partido e votarem em políticas liberais e livrar-se da maçonaria dos jornalistas pagos pelo polvo rosa.

Quando o dinheiro físico faltar para pagar a cambada para pagar subsídios, pensões e salários da função pública.

Anónimo disse...

É a nossa admiração provinciana e atávica pelo senhor doutor que escreve muito bem português. Há trinta ou quarenta anos que escreve o mesmo, da mesma maneira. Daria um castiço personagem do Eça, até na admiração geral do seu génio...

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 14.33: eu também uso óculos

Anónimo disse...

VPV vende há quarenta anos a mesma mercadoria: o país está em declínio, a UE é um fracasso, a França não se segura desde 1815, a esquerda está perdida.

De resto - ao que leio é especialista na primeira república, coisa boa pois são só dezasseis anos - sabe muito do século XIX; ainda assim não passa da sombra da sombra de Oliveira Martins.

Quanto ao Gambrinus, conto-lhe a minha experiência de há dezasseis anos: uns espargos servidos em guardanapo, como deve ser, mas tive que insistir no molho esquecido, que veio tarde e insípido, um pargo que impressionava na travessa de cobre mas estava morno, acompanhado de batatas assadas, excelentes, seguido de trouxas de ovos que podiam ter saído da pastelaria Suíça, vinho branco a seis contos (um conto e quinhentos no super) café e treze contos por cabeça. Foi uma comemoração e jurei nunca mais voltar. Se é tamanho o oratório gastronómico de VPV, é caso para dizer que muita é a devoção e raros os milagres.

E sim, o estilo literário é coisa que lembra a Campanha Alegre; ainda que bem mais pobre e previsível. Assim queijo tipo Stilton.

Já lá vai o tempo em que comprava o jornal por causa da crónica.

Anónimo disse...

O VPV conhece bem o Eng. António Guterres.
"Topei-o logo", disse a uma vizinha, enquanto catava uns grelos de nabo ("são os melhores", Dona Filomena, "estes não enganam, sabemos de onde vêm").

"É português, veja bem, e da província, e da classe média, cruz credo, com a mania que quer ser doutor e melhor que os outros, que já por cá andavam e tinham vida boa, não fora estes queimadores de pestanas, e era vê-lo andar entre igrejas e comícios. Mal não podia ficar, com um tacho no Céu e outro na Administração Pública"

"Mas o pior, comadre, foi ter atirado tanto pobre virtuoso para a Sodoma da classe média, ter-lhes dito que podiam ter carro e casa própria, e que seus filhos podiam estudar e tornarem-se cientistas. Com tanta necessidade de canalizadores e fomos logo formar cientistas. Uma cambada de inúteis e de ateus, digo-lhe eu".

O Senhor Zé Manuel, dono do Lugar, gostou tanto da conversa do VPV ,que lhe ofertou os grelos de nabo. "Que bela maneira de fazer uma vida", e se assim o pensou, melhor o fez.

Anónimo disse...

"livrar-se da maçonaria dos jornalistas pagos pelo polvo rosa"

este deve ter aterrado agora vindo na nave que chegou de Marte. Ou então tem um elevado défice cognitivo, ou então é um aldrabão de altíssimo coturno, ou então acha que os outros têm elevados défices de percepção da realidade e acreditam no primeiro vendedor de banha da cobra que lhes aparece à frente?

Anónimo disse...

Um texto tão grande para defender Guterres é entediante. E depois com base na eterna novela de tricas entre as "tias" da linha cuja preocupação maior são os gastos do Estado com as primas e os primos dos "outros"... Se lermos os sobrenomes dos governantes e afins, incluindo empresas "bem cotadas", as famílias já vêm desde a Instituição Monárquica.
Que interessa termos um português no mais alto cargo internacional se por cá as leis são feitas "à medida" com total desprezo sobre o primado do direito comunitário por exemplo. Ou quanto um grupo de profissionais se vê obrigado a recorrer ao Presidente da República e mesmo assim não ligam nenhum!
Guterres que "dê à perna" e depois cá estamos para o aplaudir e com orgulho se de alguma forma tiver contribuido mesmo indiretamente para o "estado de sítio" em que se encontra a administração do País.

Anónimo disse...

Alguém me explica, por favor, as razões para a admiração que todos lhe devotam, mesmo aqueles que o criticam? Não pode ser o "bom português", o argumento clássico, porque o seu léxico é demasiado limitado. Muito melhor português até escreviam os doutores Castilho e Júlio Dantas, glórias imorredoiras da pátria, aqueles com quem ele compete neste campeonato. Então, o embasbacamento e a fama deve-se a quê? Adorava que o Umberto Eco ainda fosse vivo para analisar o fenómeno.

Anónimo disse...

Pois, de banha da cobra deve saber o anónimo das 16:55 , um longo percurso de dobra-espinhas.....

Anónimo disse...

@Anónimo Anónimo 16 de outubro de 2016 às 14:52

" políticas liberais " para quem ? para o bes, bpn, banif ??

"Quando o dinheiro físico faltar"

Sabe que so 10% do dinheiro e fisico? Os outros 90% sao virtuais ?

Ou referie-se a moeda FIAT como o Euro?
Eu perfiro chama-la de FIA-TE ( de fiar ) porque e mesmo necessario fiarmo-nos nela pois pois so tem lastro em ar nao em ouro.

Notei que nao referiu o pds nem o cds ... pois ... entao no que ficamos? sao conservadores ou liberais?
Para mim sao esquerdalhos como todos os que referiu embora os outros nao vistam a roupagem que mais lhe conveem ao contrario de si e das suas opcoes opcoes politicas.

Anónimo disse...

Usa óculos? Ótimo. Então, certamente não se ofenderá que, quando eu aqui escrever, me refira a si como o "Embaixador Quatro Olhos". Enquadra-se no seu estilo, portanto.

Anónimo disse...

"como dom Carlos chamava ao país em que reinou até à esquina do Arsenal"

esta é para agradar aos monarquicos...

David Lencastre disse...

Belo Post! Acutilante. Que desmistifica a velha múmia, intratável, que é VPV. Não há pachorra para o tratante!

jj.amarante disse...

Parabéns ao embaixador por ter conseguido descobrir, numa crónica sem préstimo ainda não publicada, uma oportunidade duma refeição no Gambrinus!

Anónimo disse...

A nossa imprensa, sempre distraída, não refere que o eurodeputado Campbell pediu já explicaçôes à Comissão Europeia quanto às despesas irregulares de Georgieva na sua falhada campanha em Nova Iorque.

JS disse...

Divertido "post" e comentários associados.
Mas "post" com escrita assaz diferente. Há por aí um copywriter ou incontida emoção a aflorar na pena ?.

Mas o facto é que O Sr. Guteres foi um político que como PM apenas compriu meio percurso de avaliação possível. VPV terá as suas razões.

Como será o novo # 1 da UN ?. Veremos, a seu tempo, se entretanto Mr. G. não for solicitado para outros altos cargos. Papa ?. Raínha de Inglaterra ?.

Anónimo disse...

Este VPV pertence aos "doutos" que tudo sabem (só dizer mal) e nada fazem ou fizeram. Portugueses destes só tem um destino:CAIXOTE DO LIXO!

Carlos de Jesus disse...

É a história de um homem a pescar caranguejos. À medida que os apanha mete-os num balde. Um mirone olha para ele e diz – É melhor tapar o balde senão eles fogem. E o pescador responde-lhe – Não fogem, não. Estes são caranguejos portugueses. Quando algum quer trepar para cima os outros puxam-no para baixo.

Anónimo disse...

Desde o PREC só por duas vezes vimos a caqueirada político-partidária & jornalística afinar por duas causas:

Timor

Tacho para Guterres





foi naquela vez pela causa de Timor e, agora, por causa dum tacho para Guterres.

Anónimo disse...

O anónimo das 11:57, antes de mandar Portugueses para o lixo devia começar por dizer o que fez ou faz!
É que aqui há dias um "autodito Douto", por ser eleito (por "esmagadora" minoria do universo dos eleitores), ficou abespinhado por ser criticado por não ter a mínima capacidade para ocupar o respetivo lugar e respondeu da mesma maneira. E lá continua "certíssimo" do que está a "fazer".
Acontece que a maioria, sabe de consciência perfeita, que não é da sua "lavra" determinadas tarefas. E uma delas é participar nas listas em eleições (ou na arte circense como dizia o Albert).
O que não significa que por um lado, não cumpram o seu trabalho com o melhor dos desempenhos e por outro também sejam impedidos de emitir e criticar quem os prejudica por insistir na "aplicação" da sua "competência"!

Anónimo disse...

Ao anónimo das 16:52:
Não se importa de repetir?...

Anónimo disse...

Não se importa de repetiir?... Ah! É exatamente a reação dos ditos doutos eleitos quando lembrados da sua incompetência! E acrescentam candidate-se, afinal nunca fez nada!...

Anónimo disse...

A piolheira nunca foi o país meu caro senhor. A piolheira foi, é, e infelizmente parece que será um certo meio político português, muito de avental, jacobino e republicano.

Infelizmente da piolheira não nos livramos tão cedo!

Cícero Catilinária disse...

Fê-la boa, caro Embaixador!