terça-feira, 4 de outubro de 2016

A minha amiga búlgara



Eu também tenho uma amiga búlgara. Chama-se Irina Bokova e é concorrente ao lugar que António Guterres pretende obter nas Nações Unidas.

Tornei-me amigo de Irina há quase vinte anos, quando ambos éramos secretários de Estado dos Assuntos europeus, nos nossos respetivos governos. Estive em Sófia a seu convite, tive o gosto de a receber em Lisboa por esse tempo.

Um dia, o partido de Irina perdeu as eleições na Bulgária e ela abandonou o governo. Quando mais tarde voltei a Sófia, tendo já outra contraparte búlgara, pedi ao nosso embaixador para, num jantar na sua residência, convidar Irina Bokova. Recordo a nota comovida que então deixou, por eu ter querido permanecer fiel à amizade criada. E ficámos em contacto, a partir de então.

Tempos mais tarde, um amigo comum, Georgios Papandreou, que viria a ser primeiro ministro grego, convidou-nos a ambos para integrar o círculo de reflexão política que anualmente organizava na Grécia, durante uma semana, o Symi Symposium. E assim, durante cinco anos, com as nossas famílias, encontrámo-nos nesses interessantes debates. E vimo-nos, entretanto, com as nossas famílias, em Nova Iorque, num divertido jantar.

Quando ainda estava no Brasil, já de partida para Paris, recebi um recado de Irina. Ela tinha desempenhado as funções de ministra dos Negócios Estrangeiros do seu país e concorria ao lugar de diretora-geral da Unesco. Gostava de ter o apoio português para essa sua pretensão e, com naturalidade, recorria ao seu amigo português. Fiz as minhas sondagens em Lisboa, tendo verificado não ser ela o candidato que Portugal iria apoiar. Disse-lho já em Paris, num jantar que lhe ofereci. Nada mudou entre nós.

Mesmo sem o voto inicial português, Irina Bokova foi eleita diretora-geral da Unesco. Vimo-nos bastante em Paris por esse tempo, mesmo antes de, por uma suprema ironia, eu próprio ter sido entretanto nomeado, em acumulação com o cargo que já desempenhava em França, como delegado português junto da Unesco. A última vez que encontrei pessoalmente Irina Bokova foi na visita de despedida que lhe fiz, em inícios de 2013, em que lhe ofereci uma peça fotográfica de Jorge Molder, enviada por Portugal para a coleção artística da organização, numa decisão sob minha insistência que teve a assinatura do então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Irina Bokova surgiu entretanto como candidata a secretário-geral da ONU. Portugal tinha o seu próprio candidato, António Guterres. Que, naturalmente, foi o meu candidato. Mas, nem por isso, vou perder essa querida amiga búlgara, de há muitos anos.

8 comentários:

Anónimo disse...

"Portugal tinha o seu próprio candidato, António Guterres. Que, naturalmente, foi o meu candidato. "


Anónimo disse...

realmente é bonito quando a amizade está acima de tudo e de todos. :)
anonima

Anónimo disse...

Boa indirecta ao Dr.Mário David, com nível.

Certo é que, havendo um português "na corrida",a posição de qualquer português que se preze de o ser, é apoiá-lo, seja ele de que partido fôr. Não sou socialista e ainda não parei de rejubilar com os êxitos do nosso candidato a SGNU. E de acompanhar todas as etapas do processo. Amanhã estarei colado à TV e acredito que AG se consolidará nas votações.
Certo é também que esta argumentação vale de igual forma para o caso "da corrida" a Pres COM. Na altura o Dr.DB foi crucificado, quando o que se esperava era que todos os portugueses o tivessem igualmente apoiado e rejubilado com a sua nomeação.

Afinal, ser Pres COM tem muito mais potencial de interesse para Portugal do que termos um SGNU português, cargo mais abrangente, aparentemente mais poderoso, mas só na aparência.

"Atrás de mim virá quem bom de mim fará", digo eu. E julgo que o Dr. DB também.

Anónimo disse...

Cuidado com as búlgaras!... Não esquecer que, descendente de búlgaros, é também a Dilma do Brasil. eh eh eh eh.
.

Anónimo disse...

Ora aqui está a resposta a David. Sempre com diplomacia, o Embaixador diplomaticamente deu a chapada no David. Gostei.É de Mestre.

Anónimo disse...

E bonita que ela é!... kkkkkk

Anónimo disse...

O Sr. Embaixador afirma aqui a "pés juntos" que se o Barroso fosse o candidato português também seria a seu condidato?
Tente morder no meu dedo para ver se eu deixo!

Anónimo disse...

Hoje ouvi-o na Antena, no noticiário das 19:00horas. Gostei do que disse. Muito bem. Sobre o papel da Comissão e o Sr. Juncker.
A ver vamos no que vai dar. Se a candidata de última hora ganhar, perde credibilidade a ONU e perceber-se-à que a Rússia fez um trade-off com a ALE (e a COM): fim ao embargo, embora de forma gradual, para não dar nas vistas, e aí temos um boneco (ou boneca, no caso) articulado, como SG das NU a fingir que tem autoridade. As NU a regressarem ao qo que foram em tempos pouco gloriosos a Sociedade das Nações.
Abraço!