quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Praxes

O ministro Manuel Heitor teve a coragem de pôr o dedo na ferida: não há más praxes nem boas praxes. A praxe é uma prática discriminatória, reveladora de uma espécie de desforço por parte de quem se quer vingar daquilo que terá sofrido no passado, instituindo uma ridícula hierarquia entre os alunos, tudo disfarçado numa falsa medida de integração. Os praxistas são, em geral, uns sadicozinhos que se aproveitam circunstancialmente de uma suposta "autoridade" etária ou similar para humilharem os outros. Há alunos que gostam de ser praxados? Claro que sim, como há quem deseje masoquistamente ser açoitado ou humilhado, o que, as mais das vezes, justificaria uma oportuna consulta psiquiátrica.

Um dia, quando era presidente do Conselho Geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, suscitei nesse âmbito a questão das praxes. Apenas um professor levantou a sua voz para apoiar o meu repúdio sobre aquela prática. Vou ser muito claro: as praxes persistem, não porque sejam inevitáveis (hoje, só existem em Portugal e Espanha, estando proibidas no mundo civilizado, de que assim nos auto-excluímos), mas porque há uma muito generalizada cobardia por parte das autoridades universitárias, extensiva a muitos professores, que não querem passar pelo incómodo de "comprar uma guerra" com os estudantes. Bastaria ter o bom senso de incluir nos regulamentos universitários a proibição absoluta da praxe, assumida como gratuita violência, disruptora e punível da disciplina académica, afastando liminarmente das universidades os estudantes comprovadamente envolvidos na sua organização (começando por interditar a sua prática dentro das instalações) e, em poucos anos, podem crer, as praxes desapareceriam. É que os energúmenos que se dedicam a esses vícios de autoritarismo cedo acabariam por verificar que seus títulos de "dux veteranorum", e outras designações ridículas de corruptelas latinas, lhes serviriam de muito pouco quando tentassem arranjar trabalho sem qualquer diploma.

Manuel Heitor, ministro da Ciência e do Ensino Superior, pessoa que praticamente não conheço, é alguém que honra o exercício da política neste país.

13 comentários:

Anónimo disse...

Completamente de acordo consigo

e a favor de enfarinhar daquelas alminhas negras e pseudo despotivas para ver se se aclaram

o arranjar emprego é que ja nao sei, porque bem lembro, por exemplo no caso da lusofona havia umas criaturas dessas ligadas a umas togas ou aventais da moda...

bem haja





Anónimo disse...

Não concordo com a sua análise.

A praxe, normal, realizada dentro de tradições e com respeito pelos estudantes, como se pratica nomeadamente em Coimbra, fé perfeitamente aceitável e contribui para a integração dos estudantes.

O que se passa é que em certas universidades, sem qualquer tradição, se tenta aplicar algo que chamam praxe, que essa sim não tem qualquer respeito pela dignidade das pessoas e é inaceitável, não devendo sequer ser considerada com praxe.

Relembro que os estudantes devem ser livres de aceitar ou recusar a praxe e não estarmos perante uma qualquer imposição governamental.

Anónimo disse...

"A praxe, normal, realizada dentro de tradições e com respeito pelos estudantes,"

o problema é que a normalidade esta muito longe de ser esta... talvez escapem coimbra e o porto (precisamente as cidades de tradição)

a maior parte da praxe que se vê por lisboa (imagino que noutras capitais de provìncia não seja diferente) é um susto, do ponto de vista humano, intelectual, etcetc... pode não se querer chamar a isto praxe, mas é o que muitos chamam, e estão convencidos de que o é...

como lidar com estes caro anonimo das 09:05?

cumprimentos

Anónimo disse...

Olha, os quadrupedes também lêem, 22 de setembro de 2016 às 09:05.

Ainda há pouco, tanta integração, tanta hierarquia e tive de forçar a entrada à frente de um desses pinguins amorcegados de capa e batina. A ver se recorro ao empurrão para impôr a minha diferença de classe às deles.

Luís Lavoura disse...

Parece-me que a proposta do Francisco enferma de diversos problemas práticos, como seja definir exatamente o que seja uma praxe, ou encontrar individualmente os praxantes.
Por exemplo, se um grupo de dez "veteranos" leva cinco "caloiros" a um restaurante (situado longe da universidade) e obriga cada um dos caloiros a ingerir um litro de vinho sem parar, isso é uma praxe ou não é? E qual dos dez "veteranos" deve ser culpado por essa praxe e excluído da universidade?
E a praxe será um crime público ou não será? No caso referido acima, se nenhum dos caloiros fôr à polícia denunciar que foi obrigado a beber o vinho, ainda assim há crime? É que, como o Francisco sabe, muitos dos caloiros aceitam ser praxados...
E se o caloiro começa a beber o vinho de bom grado mas, no fim, se arrepende do que fez e decide ir denunciar à polícia? Foi praxe? Ou foi algo feito voluntariamente?
Tantas questões...

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 09.05:

Tem fihos?

CHARACTER IS HOW YOU TREAT THOSE WHO CAN DO NOTHING FOR YOU!!!!!!

Anónimo disse...

Luís Lavoura, e se eu como fiz no técnico no quinto ano interromper uma sessão de praxe da uns fedelhos do segundo que me queriam bater por causa disso? As universidades só parám quando uns andarem ao borracho com outros, que é que interessa andarmos com relativizacoes e a contemporizar com cenas fora de portas se as universidades não fazem o que lhes compete?

Anónimo disse...

O importante a reter de uma análise como esta é como a utilização da palavra Praxe está a ser terrivelmentte aplicada.

Faz lembrar também a má utilização da palavra Feminismo, onde se pensa que é o antónimo de Machismo mas não tem nem um pouco a ver com tal.

Anónimo disse...

O anónimo das 23 de setembro de 2016 às 11:28, desconversa.

Feminismo não é o avesso do machismo, mas isto de que todos temos aqui falado é praxe tal como é referida, afirmada e vivida por milhares de estudantes. Bastaria ver o repertório de violências, agressões e humilhações previstas no código de praxe da Universidade de Coimbra, bem longe de um mero elencar de costumes e usos.

Os fascistas do costume escusam de vir tentar relativizar a coisa em nome de uma versão benigna da boçalidade mais alarve. Isto só acaba quando correr pancadaria da grossa. Aí talvez acordem os bestuntas dos conselhos científicos e outros. O sangue e as mortes já ocorridas não os comove.

Anónimo disse...

O anónimo de 22 de setembro de 2016 às 14:54 podia recordar-nos da tradição que existirá no Porto, que tanto quanto se sabe tem universidade desde 1911. E porque não Évora, da universidade jesuíta, ou Lisboa, onde primeiro se criou a Universidade em Portugal?

Claro que se Coimbra inventa uma alegada tradição, para atacar alunos de primeiro ano, bem pode o Porto inventar a sua.

Ou temperamos a coisa fazendo com que apenas um gajo que vá para Coimbra e Porto tenha de levar com bestialidades?

Isabel Seixas disse...

Concordo na integra com o que escreveu, lecionei no ensino superior de enfermagem durante 18 anos e assisti a práticas de pseudopraxes sempre com a mesma impotência, desconforto e revolta que os abusos e os atropelos aos direitos humanos me fazem sentir em qualquer circunstância, muitas vezes com sentimento de culpa.
Insurgi-me sempre, mesmo tendo de me reduzir à ausência de poder deliberativo da minoria neste contexto e da constatação que alguns elementos do corpo docente por displicência ou impotência face ao poder, que atingiu o fenómeno, até chegar ao ponto de os alunos acharem que era uma área onde os docentes não tinham o direito sequer de emitir opinião mostrando a sua apetência um protagonismo sórdido através da humilhação do mais fraco.

As praxes pedagógicas existem sem dúvida, com criatividade ,integradoras como em todos os fenómenos generalizar engole as exceções...

E obviamente que os caloiros são sempre coagidos até pelo próprio sentimento de mau estar por não conseguir passar no teste de poderes dos pares, ainda que este a maioria das vezes seja mal concebido, sem Saber, fazendo jus à ignorância, consequentemente antipedagógico...

Anónimo disse...

Permita me discordar de si num ponto não tão relevante: Em Espanha não existe esta so called Praxe, nos mesmos moldes que existe em Portugal. E mesmo em Portugal é preciso ver que não há homogenia.
Foi nos anos 80 (1984 salvo erro) que foi regido o 1o código de "conduta" praxistica, Código da Praxe, onde se lhe derem uma atentada leitura verão que não há nada que insulte e atropele os direitos humanos. Nada tem a ver com uma necessidade de poder ou submissão.
Como tudo na vida, com a experiencia e o passar do tempo as coisas alteram-se, moldam-se, vão seguindo novas directizes. E em Lisboa faz se uma coisa, no Porto outra, em Coimbra outra, e assim por todo o País.
Generalizar o "problema" só vai fazer o que não se quer: dar importância. O que se faz quando uma criança está a fazer coisas erradas para ter a atenção? Ignora-se.

Não tomando partido nesta tematica, saliento apenas que apenas a experiencia (seja ela boa ou má) é que deve ser usada como argumento. E não "ah por que ouvi, ou por que me disseram, ou por que apareceram fotos".

Anónimo disse...

"Foi nos anos 80 (1984 salvo erro) que foi regido o 1o código de "conduta" praxistica, Código da Praxe, onde se lhe derem uma atentada leitura verão que não há nada que insulte e atropele os direitos humanos. Nada tem a ver com uma necessidade de poder ou submissão."

FALSO. Não tenho aqui À mão, mas é falso de uma ponta à outra. Gostava de saber o que se chama a tosquias, idas Às unhas, etc.

"Generalizar o "problema" só vai fazer o que não se quer: dar importância. O que se faz quando uma criança está a fazer coisas erradas para ter a atenção? Ignora-se."

ERRADO. Ignora-se o sangue, ignoram-se as mortes, ignoram-se os tornados deficientes? Para o ano há mais, mas isso não foi por causa da praxe e sim por causa dos abusos, dizem os habituais facistas.


"Não tomando partido nesta tematica"

ALDRABÃO. E desonesto. De uma ponta à outra toma partido. Não falo por ouvir dizer, por haver fotos. Falo de ver a indignidade diariamente nas ruas da minha cidade. Bêbados, humilhads, cagados, sujos, entabulatados, guiados como gado. Se fossem pretos a fazer os mesmos desacatos a polícia intervinha.