segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os "Guedais"


Era assim que, carinhosamente, em família, nos quatro anos que vivi em Luanda, nos anos 80 donséculo passado, tratávamos os três primos lisboetas que, creio que de três em três meses, aí se revezavam, para assegurar a gestão local da Guedal, uma empresa de representação de comércio automóvel. Ele eram o Sérgio Guedes de Sousa, o José António Arantes Pedroso e o Vasco Correa Mendes. Os dois primeiros já desapareceram. O seu pouso angolano era um amplo apartamento, com um grande terraço, na rua da Missão, muito próximo dos dois locais onde vivi na capital angolana: o Hotel Trópico e um apartamento que vim a ocupar no "compound" da embaixada.

Só quem conheceu a dureza da vida em Luanda, nesse tempo de conflito militar e desoladora penúria de comércio e serviços, poderá avaliar o que foi a "bênção" de poder dispor da imensa generosidade desses três amigos, que, com frequência, nos chamavam para sua casa, para divertidas jantaradas e, nos fins de semana, organizavam caravanas a Cabo Ledo. 

Cada um desses três primos desenhava, curiosamente, um estilo diferente de vida social, durante as suas estadas. Se havia gente sempre comum (e nós, afortunadamente, pertencíamos a esse "núcleo duro", com várias outras pessoas, de que a mais animada era sempre a Ana Poppe), muitos outros convidados variavam nesses ciclos, o que coloria e diversificava os vários eventos. Comum era também a presença risonha do Manuel Guterres, um minhoto de Seixas, funcionário da Guedal, um operacional indispensável dessas ocasiões. 

Naquela casa havia um pouco de tudo, desde a zona da sala, cheia de sofás, onde passavam filmes, clássicos ou novidades, que cada um ia trazendo, fruto de encomendas ou visitas à Europa, até ao terraço sobre a baía, com mesas recheadas de vitualhas, que surgiam sabe-se lá de onde, que nos alimentavam conversas intermináveis ou relatos de episódios desse estranho mundo angolano de então. Ah! e música, com bailes improvisados que duravam até à meia-noite (a "Cinderela time" do recolher obrigatório) ou, passada esta, nos "forçava" a ficar por ali, a charlar e bebericar, pelo menos até às cinco da manhã.

Nesta minha visita a Luanda, passei em frente àquele prédio e senti uma imensa gratidão pelo gesto daqueles que, por simples amizade e simpatia, muito nos ajudaram a atravessar, com ímpar generosidade, esses tempos que só a passagem dos anos suavizou, decantando para a nossa memória afetiva apenas essas coisas boas que a sorte quis que nos acontecessem.

2 comentários:

Anónimo disse...

Que saudades patrão!!! Merecidissimo e tudo quanto se diga épouco.
Abraço ex vizinho

Retornado disse...

Guedes e Almeida não Retornaram, gente valente...mas que vidas!