sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Opções militares


Não sou um especialista em assuntos militares. Tendo feito, como cidadão, o serviço militar obrigatório, mantive, a partir de então, um olhar cívico sobre a evolução da instituição, refletindo sobre o que ela representa para o país.

Considerei um erro a extinção do serviço militar obrigatório, que li como a sujeição a uma agenda - oportunista, comodista e populista - de "jotas" partidárias. Achei pena que se tivesse quebrado esse vínculo do cidadão com o seu país. Era uma "chatice", obrigava a uma disciplina de "deitar-cedo-e-cedo-erguer", conflitual com os "shots" noturnos e as horas em discotecas? Talvez, mas permitia que os jovens percebessem que não nascem "na nuvem" e que o seu sacrifício poderia vir a ser necessário para a preservação da entidade nacional em que se inseriam, tivessem ou não consciência dela.

Hoje, contudo, já não penso assim. Com a especializacão para que as Forças Armadas foram evoluindo, a reinstituição do serviço militar obrigatório representaria um esforço organizacional desproporcionado face às suas potenciais vantagens. A preservação de uma ligação dos jovens à dimensão cívica nacional deveria hoje passar por outros métodos - embora detete uma quase total falta de debate sobre isso nos meios políticos. 

Nos tempos atuais, as Forças Armadas de um país com a nossa dimensão e recursos, para além deverem sustentar valências de apoio a emergências coletivas da sociedade civil, que ajudarão à sua valorização aos olhos dos cidadãos, necessitam, cada vez mais, de concentrar a sua atividade operacional em corpos especializados, ao nível dos seus contrapartes estrangeiros. Essa é a única forma de estarem à altura dos compromissos mínimos, nos quadros de alianças de que fazemos parte e, igualmente, das solicitações para intervir em operações de manutenção de paz, determinadas por mandatos legitimados pela comunidade internacional. Num passado não muito longínquo, o nosso país ganhou imenso prestígio através do envolvimento dos seus militares nesse tipo de ações. Tudo deveria ser feito para que esse perfil fosse retomado e se reforçasse, em favor da nossa projeção externa.

Aqui se insere o tema, tornado polémico nos últimos dias, sobre as condições de treino dos Comandos, que terão conduzido à morte de soldados. Independentemente de ser absolutamente essencial que se apurem responsabilidades sobre o sucedido – e rapidamente –, convém não « deitar fora a criança com a água do banho ». Os erros corrigem-se, mas devem ser evitadas reações « a quente ».

Mas é evidente que a qualidade das nossas Forças Armadas também se afere pela competência dos seus responsáveis, nomeadamente no tocante à formação de quadros. Se essa competência não resultar evidente aos olhos dos cidadãos, é a legitimidade da própria instituição militar que fica afetada. 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

3 comentários:

Valdemar Iglésias disse...

Esse desencorajamento (ou pelo menos o não encorajamento) de sangue novo no acesso à vida política, ao serviço e voluntariado ao país através das suas instituições não terá o interesse do próprio poder político?

Para lá de uns apelos ao voto quando das eleições, não há nenhum incentivo para a juventude (não filiada em partidos, ou pelo menos, do arco do governo) contribuir para a vida política, ou para a tal "entidade nacional" a que o sr. embaixador refere.

Quero dizer, é mais útil para os partidos, ter os jotas a considerar no acesso a cargos políticos ou de serviço público, do que cidadãos apartidários, qualquer que seja a sua idade...

É mais fácil controlar um jovem jotinha, um sobrinho, patrocinar um filho, que um cidadão emanado da "sociedade civil", embora isso (em princípio, haverá excepções, claro) também represente menos qualidade política, menos experiência na vida real, menos espelho do desejo político da sociedade, menos horizontes e visão dos destinos nacionais, mais "jobs for the boys", menos vozes dissonantes e qualidade no debate político e, no geral, na gestão da vida pública...

Isto quando se observa nos dias de hoje que até a própria democracia é uma grande chatice para os poderes instalados no mundo, na Europa e no país...

Enfim, as "elites" a eternizarem-se no poder, para mal da nação...

O status-quo, a tradição, os bons costumes, o "respeitinho é muito bonito" a superiorizarem-se aos novos pontos de vista de quem até poderia encarar a política como um part-time, e não como uma carreira.

Enfim, devaneios de um idealista.

Reaça disse...

Já há na velha e rota Europa países a pensar novamente no serviço militar obrigatório, no caso dentro da imprensa e na sociedade alemã.

E se do serviço militar obrigatório mínimo surgisse o voluntariado para as diversas especialidades, inclusive bombeiros profissionais?

Embora se possa considerar um caso perdido, a Europa podia e devia repensar a sua vida, depois de tantas burrices durante tantos séculos.

Antonio Cristovao disse...

Hoje ainda mais se justificava haver o serviço civico que deveria ter substituuido a aprendizagem de armas. Afinal o que a sociedade tem para oferecer aos jovens (coçar o cu nas paredes, em bairros da periferia) sempre é bem mais degradante que andar tres meses a limpar matas ou ajudar velhotes na sua mobilidade diaria.