segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Embaraços socialistas


Duas semanas fora do país, olhando-o apenas através do iPad, têm a desvantagem de reduzir o quotidiano político às caricaturas dos "faits" mais ou menos "divers".

Saí de Portugal com o livro de revelações de Fernando Lima como o "escândalo" editorial, cheguei com ele esquecido e com o volume de José António Saraiva convertido no tema de debate. Este país adora revelações, é a pátria do coscuvilho.

Para o que verdadeiramente importa, isto é, para além da espuma dos dias e do diz-que-disse, este período trouxe duas novidades. Na minha opinião, ambas embaraçantes para o Partido Socialista e incómodas para António Costa. 

A primeira tem a ver com as questões fiscais. O que Mariana Mortágua disse, em termos de substância, não deveria ser notícia, não teve o menor radicalismo, contrariamente àquilo que a desonestidade intelectual de alguma oposição quis fazer crer. O relevante nesta história foi não ser Mário Centeno a dizê-lo. 

Seja verdade ou não, o PS projeta a imagem de estar, em certas temáticas, a reboque do Bloco. Mais do que se saber se isso é ou não verdade, preocupa-me que o PS não perceba que isso afeta fortemente a sua reputação internacional - e, com isso, a sua credibilidade europeia, com reflexos em termos negociais. 

Ainda neste plano, o que está a passar-se com a instabilidade fiscal em que o país continua a viver é também inquietante. Eu sei que os constrangimentos europeus transformam a variável fiscal num instrumento apetecível. Mas o governo tem, de uma vez por todas, de decidir sobre se quer dar de Portugal a imagem de um país "investment friendly" ou de um catavento fiscal. É que o nosso futuro passa por aqui.

A segunda novidade embaraçante chama-se José Sócrates.

É uma evidência que uma parte do PS nunca aceitou bem a linha imposta por António Costa, no sentido de "separação de águas", no tocante ao "caso Sócrates". Há quem seja mais sensível ao lamentável comportamento da justiça que ao país saiu em rifa e, acreditando ou não na inocência de Sócrates, considere que o PS deveria não se excluir da condenação do espetáculo vergonhoso que é o indefinido protelamento de uma decisão sobre o assunto, manchado por cirúrgicas quebras deliberadas do segredo de justiça, em conluio com uma comunicação social sem qualquer ética.

E há quem, como julgo deva ser o caso de António Costa - e qualquer que possa ser a sua íntima convicção sobre a eventual culpabilidade de Sócrates -, entenda que não teria sentido amarrar o destino do PS a este caso, poluindo indevidamente a vida política com um caso de justiça, que projetaria uma imagem de ingerência num múnus institucional específico. Eu estou de acordo com esta perspetiva.

Dito isto, percebe-se a estratégia de José Sócrates. É uma aposta na mobilização de uma parte do país - que, contudo, creio menor do que ele julga que é - que conserva uma imagem positiva da sua governação, e que está profundamente escandalizada pelo comportamento dos agentes da justiça. Ao fazê-la, para reforço da sua posição, Sócrates, optou também por atacar diretamente a direção do partido, por alegada falta de solidariedade. José Sócrates sabe bem que, entrando por aí, está a fazer correr um risco grave aos socialistas. E, porque o faz na prossecução de uma agenda que é eminentemente pessoal (embora ele entenda que é muito mais do que isso), deve estar preparado para que a direção socialista venha a reagir, a seu tempo, à altura do desafio. E mais não digo.

São estes os mais recentes embaraços para o PS e para António Costa.

12 comentários:

Anónimo disse...

"E, porque o faz na prossecução de uma agenda que é eminentemente pessoal ..."

Se me conseguir explicar como é que um PM se envolve em actos de corrupção sem que mais ninguém do governo socialista que liderou esteja também implicado, eu concedo-lhe a adjectivação da agenda de JS. Caso contrário, não me faz qualquer sentido ver o PS à margem do processo.

MRocha

Luís Lavoura disse...

o PS projeta a imagem de estar, em certas temáticas, a reboque do Bloco

Não é o PS quem projeta essa imagem. Essa imagem é projetada pelo Bloco. Ou seja, o PS não é sujeito ativo nesta questão, é sujeito passivo.

Ao Bloco é que interessa fazer um figurão e colocar o PS a seu reboque.

Reaça disse...

Costa atirou com o PS contra a parede, e o PS e o país esmurraram-se mais do que já estavam.

Está tudo nas mãos dos sindicatos e do Bloco, até que enfim batemos no fundo.

Isto, a segunda República, está pior que a 1ª República, que um dia nos levou ao meu ídolo.

E agora que a Europa está na pior? Quem será o salvador?

Jaime Santos disse...

Julgo que o problema do novo imposto não será grande escolho para o PS, até porque apareceu aquele vídeo providencial de Passos Coelho a defender a mesma coisa, mesmo se usou uma linguagem bem menos 'radical', digamos que Mortágua. A ideia de um 'assalto fiscal' aos ricos assusta muita gente que não é rica, eu incluído, porque faz lembrar outros tempos em que a Esquerda Radical era menos respeitadora dos princípios que devem nortear um Estado de Direito. Assim, se o ponto é a defesa de medidas social-democratas e não a transformação do processo de negociação que possibilita a existência deste governo num comício permanente, aconselha-se prudências às partes, mais trabalho de sapa e mais detalhes e menos barulho. Quanto a Sócrates, julgo que é mesmo um bom engulho para Costa. Só que Sócrates esquece que muitos dos que nele votaram, eu incluído, não gostaram mesmo nada de o ver admitir que tinha uma relação muito pouco transparente com um amigo que pelos vistos lhe andava a sustentar a vida faustosa que levava. Se Sócrates fosse um cidadão anónimo, nada de errado haveria nisso por si só, mesmo se não devesse ficar espantado por ter as Finanças à perna. Mas ele é uma Pessoa Politicamente Exposta, como ex-PM, o que significa que, em particular tendo em conta anteriores investigações que lhe foram feitas, deveria ter conduzido os seus negócios com absoluta transparência, com futuras ambições políticas ou sem elas, já que as suas ações comprometeram o seu legado e embaraçaram todos os que com ele trabalharam, PS incluído. Por isso, suspeito que o apoio de que dispõe é residual e, de qualquer forma, se for acusado e for a Julgamento, não lhe valerá de grande coisa frente ao coletivo de juízes que será encarregado de o julgar.

Anónimo disse...

No estado da "anestesia actual de Portugal, a hidra de três cabeças vão sorrateiramente minando a democracia, com a ajuda de "escrevinhadores", muitos deles apadrinhados por empresários-vendedores-de-papel.

O seu texto, escorreito traduz a seguinte frase:

"Me engana que eu gosto"!

O Tony já aprendeu a dançar.

José Manu4el Silva disse...


No caso Sócrates, o que há muito me intriga é o comportamento do Procurador e do Super Juiz e das fugas de informação que promovem. Há muito que anunciaram ter provas sólidas e irrefutáveis, este anúncio continua a ser periodicamente repetido, mas sem consequências. Para quando a acusação e o julgamento para pôr ponto final neste esgoto a céu aberto. Se for provada a sua culpabilidade, que seja condenado, o que aliás já está, pelo Tribunal da opinião pública sem se saber se é culpado ou inocente. Sócrates já está morto e enterrado politicamente. Só ainda continua a fazer prova de vida por isso interessar à direita, na sua luta pelo poder.

Anónimo disse...


" Se Sócrates fosse um cidadão anónimo, nada de errado haveria nisso..."

Caro Jaime Santos,

Bem-haja pela cristalina exposição do significado de hipócrita.


MRocha

Alain Demoustier disse...

bom artigo Francisco os comentário também não deixam de ser interessantes
Mas.......

A Nossa Travessa disse...

Caro Chicamigo

O Povo (com caixa alta) tem ditados verdadeiramente soberanos; a saber dois: Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele e Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és...

Entretanto, alinho com o Alain Demoustier. Tudo.

Abç do Henrique, o Leãozão. E amanhã o que acontecerá?...

Jaime Santos disse...

Hipócrita, Sr. MRocha, é uma pessoa que aplica aos outros uma bitola que não aplica a si mesmo, e não é da minha moral que se fala aqui. O que o escandaliza? Que a bitola que se aplica a pessoas que exercem ou exerceram cargos de elevada responsabilidade é diferente da do comum dos mortais? Coisa que aliás está consignada na Lei ao definir o conceito de 'Pessoa Politicamente Exposta' (veja, se não acredita, em https://en.wikipedia.org/wiki/Politically_exposed_person)? É o preço que alguém paga por exercer tais cargos. Eu compreendo que quem não tem argumentos utilize a velha falácia de matar o mensageiro. Mas isso não redime Sócrates de, no mínimo, se ter comportado com absoluta falta de prudência e inteligência, para não falar de falta de ética e de falta de lealdade com quem com ele serviu o Estado. À mulher de César não basta ser honesta. O que eu não compreendo é que ninguém lhe tenha dito isto, que é óbvio, a ele Sócrates, na cara...

Anónimo disse...

Caro Sr. Jaime Santos,

Como diria o Sr Khun, os nossos paradigmas são incomensuráveis.

O Sr olha para os politicos como quem procura realizar uma utopia. Nada contra. Desde que se perceba que a realização de qualquer utopia será sempre uma tarefa de homens, i.é, coisa imperfeita. Não o fazendo, cai numa armadilha de argumentação: toma o efeito pela causa.Quando se critica o padre por ter uma amante, não deveríamos antes criticarmos-nos por exigir aos padres o absurdo ?

MRocha



Anónimo disse...

Faltou-me uma última nota ao Sr Jaime Santos: uma sociedade decente, dispensa a mulher de César de provar a sua honestidade; aliás, nem se permite questioná-la.

MRocha