terça-feira, 20 de setembro de 2016

A torneira


Aquele pequeno apartamento no edifício da nossa embaixada em Angola, na rua Karl Marx (antes fora Vasco da Gama, agora é avenida de Portugal), nunca tinha sido ocupado por ninguém, desde que, depois da independência, fora adquirido à pressa, para instalar os escritórios e alojar alguns funcionários e as suas famílias. 

Contra a minha vontade, depois de esgotadas outras soluções e de quatro incómodos meses de hotel, fui obrigado a ir viver para ali. Poupo os pormenores sobre o épico que foi montar uma casa nesse atribulado período da vida angolana. Imensas coisas por ali não funcionavam, outras resistiam a fazê-lo. 

A mais misteriosa peça da casa era, contudo, uma luzidia torneira da cozinha, de onde, por muitos esforços que se fizessem, não se conseguia extrair uma única gota de água. Os especialistas rareavam em Luanda, mas lá se conseguiu desencantar um canalizador que, depois de aturada reflexão, decretou que era preciso "arrebentar" com a parede, para tentar perceber o enigma. Eu olhava já com carinho os banais azulejos que revestiam a cozinha, cuja possibilidade de substituição não era evidente, num tempo extremo de penúria de materiais. Mas acabei por dar luz verde à operação.

Foi então que o canalizador, ao tentar retirar a torneira para desobstrução do cano, se deu conta de uma trágica realidade: a torneira estava cimentada - isso mesmo, cimentada! - à parede. E, surpresa das surpresas, por detrás dela ... não havia qualquer cano! Assim se percebia melhor por que razão não havia por ali qualquer vestígio de água. O desonesto "pato bravo" lusitano que concluíra as obras, antes de se pisgar para o "puto", atamancara os trabalhos e quem viesse atrás que fechasse a porta... 

6 comentários:

Anónimo disse...

Moral da historia! Nunca confies num português.

Portugalredecouvertes disse...


Neste caso Sr. Embaixador seria

"quem viesse atrás que abrisse a torneira "!!!

uma pena não terem encontrado a assinatura do artista !

Anónimo disse...

Não seria uma obra de arte? Não seria caso único!

Luís Lavoura disse...

De onde se vê que portugueses e pretos estão bem uns para os outros.

Retornado disse...

Simplesmente genial, mas que gargalhadas deve dar esse humorista/operário para com os seus botões.

Sim, porque não foi concerteza um qualquer canalizador ou um qualquer pedreiro que tinha imaginação para tanto.

Cena digna de um filme mudo de Charlie Chaplin.

Resta saber se foi um humorista português ou angolano, se foi preto ou se foi branco.

Sim, porque o branco era e é o capataz, e quem fez aquelas casas todas foi o angolano, se não perguntem ao MPLA.

Foram abandonadas milhares de casas em Angola com a conta da água e da luz em dia, as prestações pagas, escrituras em dia, frigorífico ligado e alguns com a mesa posta para o almoço.

Penso que há aqui muita gente a pensar ainda, que o "preto não tem esperto no cabeça".

Santa ingenuidade!



Anónimo disse...

Obrigaram a "pisgar-se", como sabe.