sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A outra América


« Um espetro ameaça a Europa » : a possível vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas. Karl Marx usou a expressão para qualificar o medo que o comunismo estava  provocar no mundo burguês. Agora, responsáveis e analistas de setores europeus com diferente lateralização ideológica convergem no seu pânico perante a possibilidade de Trump vir a ocupar a Casa Branca. Haverá razões para tal ? Tentemos simplificar a resposta.

Em matéria de política interna, graças ao sistema de « checks and balances » que a constituição americana impõe, através da força da Câmara de Representantes e do Senado, o ocupante da Casa Branca pode ficar de mãos atadas, com grande facilidade, quando pretender executar a sua agenda política. Clinton e Obama sentiram-no na pele. Um eventual presidente Trump deverá, ainda com maior probabilidade, vir a enfrentar o mesmo problema, atento o radicalismo de algumas das suas propostas.

Porém, quem ocupa a presidência americana tem um imenso poder sobre o mundo. Goste-se ou não, os EUA determinam grande parte dos equilíbrios globais. Essa relevância reforça-se nos momentos de maior tensão, como é aquele que atravessamos. Ora o presidente americano, como « chief-in-commander » das Forças Armadas e indisputado gestor da política externa do país, tem escassas peias internas na liberdade da sua ação internacional. Por essa razão, não é indiferente, para todos os não-americanos, quem vier a ser escolhido para o lugar. E, desde logo, para os europeus.

Por muitos anos, o sistema americano produziu figuras que chegaram a Washington com o beneplácito das elites nacionais, republicanas ou democratas. Hillary Clinton, se vier a ser eleita, é uma expressão clara dessa elite. Trump não o será.

Muito de nós, ao longo dos anos, falávamos da « América profunda », desse mundo voltado para si mesmo, que caricaturávamos como ignorante, preconceituoso e cultor de um nacionalismo saloio. Vimos nascer Sarah Palin e o « Tea Party”, mas vivíamos confortados na ideia de que “essa América” nunca condicionaria, de modo decisivo, a atitude do país. No fundo, todos confiávamos que, fosse quem fosse que a América viesse a escolher, seria sempre alguém que emergeria da elite que sempre dominou Washington.

Enganámo-nos. Um dia, isto é, agora, essa América fora do “mainstream”, no seio da área conservadora, produziu um candidato a que a tal elite foi incapaz de opor uma alternativa. Alguém com um discurso errático, um “gaffeur”, com uma agenda internacional que vai do “muro” mexicano à sedução por Putin, passando pela ameaça da saída da NATO e outras bizarrias. Uma certa América cansou-se dos partidos do “mainstream” e está a impulsionar figuras fora da matriz tradicional. Não foi Sanders do lado democrata, é Trump nos republicanos.

Por isso, temos de ser realistas: os pesadelos, às vezes, também se concretizam.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

8 comentários:

Anónimo disse...

Mais um ao nível de Maduro.

Anónimo disse...

Mas... se calhar não é pesadelo mas sim o "progresso".
Às vezes neste blog parece-me estar a ler o meu Pai nos idos de 1974, em que costumava dizer que tudo tinha acabado com o "progresso" dos "comunistas".
Isto.... de já se ter uma certa idade é no que dá... já vi muito e...."o mundo pula e avança" nem sempre de uma forma perceptivel.
Será desta que teremos de repensar TUDO sem olhar para os modelos que criámos há dois séculos.
Wait and see.

Isabel Seixas disse...

É, a frivolidade impera por aí em fenómeno de massas, homens fúteis que se escondiam antes com algum decoro na noite até do dia, nos seus vícios desmiolados ,alguns depravados, denotando algum decoro, agora usam o escárnio e maldizer numa incontinência que leva por arrasto os inocentes que trabalham arduamente nos bastidores dos seus sete pecados mortais , em que a gula do protagonismo sem a moral dos direitos/deveres , sem o respeito pelo outro patrocinam uma desumanização sem a apelação de 25 de abris...

Ele que se atreva a vir cá a Chaves açobo-lhe os flavienses eu incluida e ponho-o a fazer noite nos lares onde os corpos desistem por cansaço que é que ele precisa, só para aprender...E aproveito o seu esbanjar em investimentos para fazer regressar os nossos filhos à terra , se ainda quiserem...

Joaquim de Freitas disse...

Isabel Seixas tem razão. Mas também fica aqui a minha questão : Porque é que num país tão vasto, à frente das inovações em todos os sectores da tecnologia e da economia, dotado das melhores universidades do mundo, onde a liberdade impera, onde é possível fazer bem e fazer mal como se quer, repito, como é possível que este corpo imenso não seja capaz de “parir “gente doutra qualidade que os dois que competem actualmente para dirigir a maior potência mundial.

Nos últimos anos, o declínio global relativo dos Estados Unidos tornou-se tema de debate frequente. Os que defendem uma posição pós-americana apontam a crise financeira de 2008, o período prolongado de recessão que se seguiu e a ascensão progressiva da China.
E se houvesse outra razão, que a Isabel Seixas, trabalhando no sector da saúde pública, pode confirmar: os índices cada vez mais elevados de perturbações mentais graves nos EUA (que há já muito tempo se mantêm bastante elevados).
Vejamos Trump : caracterizado pela perda de controlo sobre as suas acções e pensamentos, um estado em que não pode ser considerado um agente dotado de livre-arbítrio.
A propagação de perturbações mentais graves atingiu as proporções de uma "epidemia" .. Mas, as repercussões que têm na política internacional as situações incapacitantes não podiam ser mais graves.
Delírios elaborados - imagens da realidade que confundem a informação gerada na mente com a informação fornecida pelo exterior.
Hoje é o muro do Rio Grande de Trump ! Ontem era Palin que via a Rússia da sua janela no Alaska ! E Hillary Clinton , com o seu “Vim, Vi e Venci”, plagiando César, sobre a destruição da Líbia ! A distinção entre os símbolos e os seus referentes perde-se e os doentes começam a ver as pessoas apenas como representações de uma força imaginária. Não se pode confiar no discernimento destas pessoas, para não dizer pior.

Os EUA são o país líder mundial de doenças que prejudicam o discernimento. Se a prevalência crescente de psicopatologias graves não for levada a sério e analisada de forma eficaz, é provável que se torne o único indicador da liderança norte-americana.

Jaime Santos disse...

Trump pode ter todos os defeitos do mundo, ser um populista a raiar o fascismo, inconstante e mentiroso (pergunto-me se os seus acessos de mau humor não são algo encenados a pensar na conquista de votantes que normalmente detestam os jornalistas e a elite liberal), mas há que lhe reconhecer a inteligência. Antes de avançar para as primárias, ele fez sondagens cuidadosas para se situar exatamente na cabeça do republicano médio. Julgo que existe bastante mais profissionalismo na sua campanha do que poderíamos pensar no início, e daí o seu sucesso. O que só o torna mais perigoso. Depois, Clinton é detestada por boas e por más razões (sobretudo por más razões), já que encarna a dita elite liberal e é mulher, ainda por cima, num país onde o machismo, racismo e chauvinismo estão vivos e recomendam-se...

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Jaime Santos : Hillary Clinton liberal ? Quando se faz fotografar com Madeleine Albright? Aquela que disse um dia que “ a morte de um meio milhão de crianças iraquianas, por causa das sanções americanas nos anos 90, valia a pena?

Na realidade, Hillary Clinton é uma pura representante do capitalismo e do imperialismo americana. Defendeu sempre com entusiasmo as politicas e as guerras que precipitaram centenas de milhões de mulheres, através do mundo, nas condições abjectas de miséria e pobreza.
Os seus “fornecedores de capitais”, reunindo magnatas, banqueiros e ricos lobyistas, demonstra a sua ligação com Wall Street e as firmas de investimento como Morgan Stanley, Goldman Sachs e a Deutsche Bank, entre 2013 e 2015.

Não se pode servir dois mestres ao mesmo tempo.

O financiamento que ela recebe dos capitalistas significa que deverá defender os seus interesses, e não os das mulheres e dos trabalhadores.

Jaime Santos disse...

Sr. Joaquim de Freitas, o seu espanto é incrível, o Liberalismo é e sempre foi pró-capitalista (a liberdade de iniciativa é vista como fundamental). Mesmo a Social-Democracia (os ditos liberais americanos são uma curiosa mescla das duas correntes) não defende a superação do capitalismo, só a sua reforma. Quanto ao imperialismo norte-americano, é um facto que existe, como existiu o imperialismo soviético e hoje existe uma forma fraca de imperialismo russo (as gentes de Alepo que o digam), mas tem menos a ver com o sistema económico vigente na potência dominante (como o caso da URSS bem demonstra) que com a posição hegemónica de um dado País em relação aos seus aliados ou clientes. Não veja o mundo a preto e branco e não se esqueça que a Democracia Liberal é só mesmo o pior de todos os regimes, com exceção de todos os outros... Olhe que o dogmatismo ideológico de que fala acima (e que associa à doença mental, algo de que eu discordo, note-se) não é exclusivo da Direita...

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Jaime Santos : Nao vejo as coisas da mesma maneira, e por isso julgo os actores de maneira diferente.

O liberalismo é antes de mais uma filosofia política nascida no século das luzes, que assegura a primazia do indivíduo e declara todos os indivíduos livres e iguais. Nem lhe pergunto se Hillary adere a esta filosofia! Mas é também uma filosofia económica que se pode declinar em dois aspectos uma apresentação do capitalismo e um discurso normativo sobre o capitalismo.

O sistema económico que é o capitalismo é fundado sobre uma declaração de princípio: a propriedade privada é um direito natural e a procura do interesse individual conduz ao interesse colectivo. A soma dos interesses individuais procurados por cada um dentre nós deve conduzir-nos espontaneamente ao interesse colectivo e assim, pode-se considerar que a sociedade no seio da filosofia liberal nasce da multiplicação dos contratos mercantis estabelecidos pelos indivíduos. Isto para a apresentação do capitalismo, na sua vertente económica,

Agora, o discurso normativo sobre o capitalismo pelo liberalismo: - Nada deve travar o mercado, nada deve travar o seu funcionamento e por consequência o Estado deve ser reduzido à sua mais simples expressão, isto é deve limitar-se a garantir que as regras do jogo são respeitadas por todos e sancionar eventualmente aqueles que não as respeitam.

O capitalismo não é uma filosofia politica e não é uma doutrina económica:- é um sistema, uma organização de sociedade que tem a sua legitimação no liberalismo, na sua versão filosofia política e doutrina económica.

Uns são proprietários dos meios de produção enquanto que os outros são obrigados a vender a sua força de trabalho, os primeiros assalariando os segundos e por conseguinte vivendo do trabalho dos assalariados.
Este sistema não pode desenvolver-se que generalizando o emprego da força de trabalho assalariado, retirando uma parte da riqueza produzida por estes.

O liberalismo, quando legitima os estragos causados pela liberalização acelerada que o capitalismo conheceu nestes últimos trinta anos, esta evolução que chamamos mundialização, mundialização liberal e mundialização financeira, levanta as forças sociais contra ele, porque é o factor da subida do desemprego e do enfraquecimento das posições dos trabalhadores no mundo inteiro

Enfim, o ultimo paragrafo do Sr.Jaime Santos : “Olhe que o dogmatismo ideológico de que fala acima (e que associa à doença mental, algo de que eu discordo, note-se) não é exclusivo da Direita... »
Claro, claro, mas como o tema do Embaixador era a direita americana…

Quanto a Alepo, não sei se as milícias de Daesch, que combatem nesta cidade, armadas e financiadas pela Arábia Saudita e os EUA têm algo a ver com o imperialismo russo. O que sei, de certeza, é que o regime alauita de Damasco não agrada aos Americanos, como o regime sunita de Saddam Hussein, não lhes agradava no Iraque, que substituíram pelo regime chiita, e o de Kadafi não lhes agradava na Líbia, com os resultados que conhecemos.