quinta-feira, 28 de julho de 2016

Secretos

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, as telegramas qualificados de "secretos" têm, como é natural, uma distribuição muito limitada, que segue a regra britânica do "need to know".

Um pouco antes de deixar o posto em Paris, procurei saber se um determinado colega, em Lisboa, tinha lido um "secreto" que eu tinha enviado, dias antes. Cuidando em não falar pelo telefone da substância do texto - o que infringiria as chamadas "regras de cifra" - eu queria ter a certeza de que o telegrama lhe chegara, porque sabia que o assunto, por razões que não vêm ao caso, lhe interessava. Recordo que foi um pouco difícil contactá-lo, tendo a minha secretária apurado que só era possível encontrá-lo em casa. Estranhei, mas foi isso o que foi feito.

- Olha lá! Viste um "secreto" que há dois dias mandei para aí?

Resposta pronta:

- Ó homem! Então não sabes que eu já estou aposentado? Para mim, agora, secretos só de porco...

(Republicação de um texto aqui editado em 22.10.2011)

12 comentários:

o Merceeiro disse...

É pá ! finalmente não posso perder a oportunidade.
há que tempos que ando com curiosidade em saber com que idade um embaixador se pode aposentar. Isto pela simples razão de que há para aí muito bom embaixador que, ainda bastante “enxuto” já está aposentado (a quem lhe servir a carapuça, que a ponha).
Considerando eu que esta função é para gente de siso (como diz o povo), quanto mais a idade for avançada, mais a sapiência prevalecerá. Ou estarei enganado ?
e agora, como dizem os brasileiros: ô pá, vem bala !

ARPires disse...

Boa escolha!...
Eu também gosto de secretos e de preferência de porco preto, pois são de facto muito mais saborosos.
A bolota aqui faz mesmo toda a diferença.

Francisco Seixas da Costa disse...

Para o Merceeiro: um embaixador aposenta-se exatamente nas mesmas condições de qualquer funcionário público. Nem mais nem menos. No meu caso, fou com 42 anos de serviço público e 65 de idade. Todos os diplomatas e funcionários do MNE destacados no estrangeiro têm, contudo, uma condicionante - que nada tem a ver com a aposentação: a partir de uma certa idade (no meu caso era 65 anos mas essa idade tem vindo a acompanhar a da aposentação) não podem exercer funções no quadro externo. Mas, depois de aposentados, os antigos diplomatas podem continuar a trabalhar, desde que fora do Estado, claro! Como qualquer outro funcionário público. Satisfeita a curiosidade?

Zuricher disse...

Caro Embaixador, já agora permita-me uma pergunta que aparece devido à sua resposta ao Merceeiro.

Há na diplomacia Portuguesa, à semelhança da de alguns outros países, embaixadores «por mérito», chamemos-lhes? Ou seja, pessoas de fora da carreira diplomática, quantas vezes já com idades muito avançadas, que desenvolveram ao longo das suas vidas actividades nos mais diversos domínios e que, por um motivo ou outro, seja como reconhecimento por serviços prestados ao Estado que envia a embaixada, seja por conveniências diplomáticas desse mesmo Estado e que essa pessoa pode ajudar a resolver, enfim, vários e diversos casos que levam a que um Estado nomeie como embaixador num dado país alguém de fora da carreira diplomática, independentemente da idade? Existe esta figura na diplomacia Portuguesa?

Anónimo disse...

Embaixador, esqueceu de dizer, que a aposentação dos embaixadores, na maioria são a contra gosto. Lembro-me na época de sua aposentação que dizia que gostaria de continuar na ativa.

o Merceeiro disse...

Obrigado por me satisfazer a curiosidade, o que não quer dizer que esteja de acordo. mas isso já não é assunto para aqui. no entanto, aprendi mais qualquer coisa e como costumo dizer: só deixo de aprender quando me enfiarem no caixão !
uma vez mais, Obrigado.

Anónimo disse...

Há já uns anos, ainda as fotocópias eram, entre nós, uma coisa primitiva, e nem sempre os nossos serviços estavam apetrechados com máquinas de ponta, num determinado serviço (não esmiuço, por óbvias razões) foi-me enviada, exactamente pelo serviço de "Informações", uma informação classificada como "confidencial"; quando o funcionário disso encarregado me fez a entrega, depois de atravessar uma ou outra secretária e vários corredores, o texto era praticamente indecifrável, mesmo indecifrável em alguns trechos. Vi aquilo e revi, pondo à prova a minha capacidade de decifração treinada na paleografia, mas nada, não havia nada a fazer…Precisava de uma cópia mais legível. Vai daí, peguei num papel do meu serviço e escrevi: "Percebo que isto é confidencial … mas nem tanto; agradeço nova cópia, mas legível". E o documento lá voltou ao serviço emissor cujo chefe, colocado um degrau acima na hierarquia dos serviços não achou graça nenhuma à minha informalidade misturada com algum humor; e fez-me sentir isso quando a meio do dia nos encontrámos no bar. Mas já tinha enviado outra cópia. Decifrável.
JC

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Zuricher. Não há, atualmente, no serviço diplomático nenhum "embaixador" que não seja da carreira diplomática. Leia isto pf: http://duas-ou-tres.blogspot.pt/search?q=embaixadores+pol%C3%ADticos. Em Portugal. Os embaixadores, "políticos ou não, têm exatamente os mesmos limites de idade para prestação de serviço no exterior ou no quadro interno. É um mito isso das "idades muito avançadas"...

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 22.45. Se eu quisesse, ainda estava "no ativo" até 2018. Fui eu quem, voluntariamente, requeri a reforma, cinco anos antes de a isso ser obrigado. E ninguém nunca me ouviu dizer que gostasse de permanecer no estrangeiro um dia que fosse a mais, depois de fazer 65 anos. Dou-lhe "um doce" se descobrir o mentiroso que lhe possa ter dito isso.

Francisco Seixas da Costa disse...

O Merceeiro diz que não está "de acordo" com quê? Limitei-me a citar factos, incontroversos, e com os factos não se pode estar ou não estar de acordo. Repito: com que é que não está de acordo? Quero deixar isto bem esclarecido

Zuricher disse...

Obrigado pelo esclarecimento e pelo post detalhado e informativo que indicou. Interessante que na lista dos embaixadores políticos está um que, no exercício das suas funções, muitas dores de cabeça deu a alguém que me é próximo bem como à entidade da ONU para quem este trabalhava. Não sabia que era um dos de fora da carreira.

o Merceeiro disse...

CREDO, Sr. Embaixador, QUIA INDIGNATIO.

Mas eu esclareço o meu “não quer dizer que esteja de acordo”.

Devido à minha costela Idealista (que realmente são mais que uma), para mim, a função de Embaixador é muitíssimo mais que funcionalismo público.

Repito: para mim, a função de Embaixador é muitíssimo mais do que funcionalismo público.

Quer um MICRO exemplo ?
“Para quem já deu o fígado pela pátria, numa profissão que a isso (quase) obriga,”

Sr. Embaixador; ficou bem esclarecido ?

P.S. – se me é permitido – pela minha parte fiquei mais contente por, com a minha pergunta, ter gerado interesse de outras pessoas sobre o tema.