domingo, 10 de julho de 2016

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Este blogue tem, pelo menos, um post por dia. Os temas são quase sempre "o que vier à rede", como sabe quem por aqui passa. Há pouco, quando pensei em escrever, percebi que seria muito estranho, num dia como o de hoje, em que a atenção do país vai estar concentrada no jogo da seleção, se acaso me desse para falar de algo diferente. Seria como que uma espécie de snobeira, de implícita promoção insensata de uma distração face a esse nosso desejo coletivo de vitória. E, contudo, era o que me apetecia fazer. Às tantas, para esconjurar alguma coisa. Por isso, e por ora, fico-me por aqui.

8 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

« Às tantas, para esconjurar alguma coisa, escreveu! Mas, Senhor Embaixador: - Evitar as superstições é uma outra superstição. Não?

Helena Sacadura Cabral disse...

Foi por isso que eu falei de gastronomia...

josé ricardo disse...

Propus-me cumprir, ao longo deste campeonato da Europa, a seguinte condição: não ver nem ouvir nada que tivesse a ver com a seleção portuguesa. Ver somente os jogos (interrogo-me: por que razão as estações de televisão teimam em acompanhar os jogos com os tagarelas dos especialistas do jogo?). Cumpri. E isso resultou no que esperava: querer a vitória da seleção. É que - defeito meu - o enxame de diretos, de comentadores, de presidentes da República, de primeiros-ministros, de anónimos afobados (ou não), fazem com que, de repente, me veja a torcer pela paupérrima seleção de Gales, por exemplo. Ontem, todavia, tremulei: ouvir o pivot do jornal da TVI (no seguimento da minha promessa, não vejo a primeira meia hora dos jornais televisivos), José Alberto Carvalho, afirmar, desafogado, que Cristiano Ronaldo é um senhor dentro e fora dos relvados foi coisa que me inquietos. Resisti, contudo. Não é que tenha algum preconceito em relação ao jogador. O que me incomoda cada vez mais é esta gente ser cada vez menos jornalistas e cada vez mais qualquer outra coisa.

Carlos Fonseca disse...

E por que não escrever sobre as medalhas de ouro conquistadas nos Europeus de Atletismo pelas atletas Sara Moreira e Patrícia Mamona, aproveitando ainda para referir a medalha de bronze de Dulce Félix.

Elas mereciam, e o Atletismo também.

Anónimo disse...

Boa, José Ricardo! Já somos dois. Todo este massacre mediático conseguiu o impossível: fez-me perder a emoção de ver jogar a Seleção.

Joaquim de Freitas disse...

O comentario do Senhor José Ricardo, incitou-me a trazer para aqui o que escrevi algures, esta tarde.Se o Senhor Embaixador permite!


"ANTES DO COMBATE FINAL , as lágrimas desta noite e as dores de cabeça de amanhã!

Acabei de fazer agora uma incursão no mundo do futebol televisivo e dos jornais desportivos. Dei a volta à Europa… Estou preparado para ver jogar os dois finalistas esta noite, sentado no meu sofá, e, como de costume, com o som cortado, desde que tenha acabado de ouvir os hinos nacionais.
Sim, porque hoje levantar-me-ei, como sempre, para ouvir o hino nacional francês, a Marseillaise, quando é a França que joga, ou a Portuguesa, quando é Portugal que joga, mas hoje levantar-me-ei duas vezes porque Portugal e França jogam ambos.
Como tive mais vagar que nos outros Euros, li e ouvi tudo e de tudo, nestes dias febris que marcaram o Euro 2016.
O que vou escrever nao vai agradar a todos ...
Gosto de futebol. Sempre gostei e até joguei, primeiro na minha rua, com a bola de trapos, e depois, de vez em quando, no Bemlhevai e na Amorosa, já maiorzinho, com outros rapazes e mesmo no clube dos Caixeiros de Guimarães.
Mais tarde, quando viajava no mundo, na América Latina e na Europa, cada vez que havia uma oportunidade, ia ao futebol. Assim, vi um Vasco da Gama-Fluminense, no Maracanà, um Barcelona-Real em Barcelona, um Milão AC-Juventus, em São Siro, e outros. E cada vez, o que me impressionou foi a febre, a exaltação, a violência verbal de alguns espectadores, mas também o espectáculo oferecido por grandes jogadores.
Que um país inteiro, cá como lá, para se sentir viver, gratificado ou admirado, tenha necessidade deste género de manifestações, das quais não sei se é o embrutecimento generalizado ou o mau gosto que são mais de recear, diz-nos muito sobre o estado de
declínio social, moral, cultural e mesmo, ouso dizê-lo, intelectual.
Porque sejamos honestos: alguns jovens atletas, alguns muito bons, é certo, remunerados com montanhas de euros, sem contar o que cai ao lado – publicidade (e outros prémios: para os Franceses, se ganharem serão 300 000 euros para cada um!) ,
para um Messi e um Ronaldo, ou dum Ibrahimovic, este charlatão mitómano inveterado, para dar pontapés numa bola, que enviam a maior parte das vezes ao lado da baliza, enquanto que três quartos do planeta tem dificuldade a alimentar a sua família, pagar a renda, honrar as suas dívidas, seriam hoje, aos olhos do mundo, das elites como do povo, mais importantes, mais portadores de valores e mais criadores de sonhos, que um simples mas verdadeiro artista, que um escritor de génio ou um médico sacrificando a sua existência para aliviar os seus semelhantes? Aparentemente sim, mesmo se isso parece escandaloso!
Gosto muito de futebol, mas nos tempos que passam apanho-me por vezes a sonhar! E a analisar as situações nacionais antes e depois dos jogos “primordiais”!
Sofri com os Ingleses e os Belgas esta semana. Dois reinos “desunidos”, dois grandes do futebol europeu.
( A seguir)

Joaquim de Freitas disse...

(suite)

A Inglaterra, inventor deste desporto, e a Bélgica, enviados pela porta fora, apesar dos seus grandes orçamentos, por dois pequenos países, com modestos meios financeiros, a Islândia, pobre e pequenina, cujos jogadores são, alguns, verdadeiros amadores, que ganham a sua vidinha no trabalho de todos os dias, e o País de Gales, vitima do BREXIT, que se debate para conservar a sua identidade no seio do Reino Unido, que nunca foi tão desunido!
A lição foi humilhante, sem circunstâncias atenuantes!
Assim, perante este folia colectiva que nos arrasta todos em frente do ecrã, esta folia quase mística e ateia, perigosa com o seu culto da personalidade e alguns efeitos de matilha de certos apoiantes, organizados em “Clubes”, agressivos, e por vezes racistas e nacionalistas, frente a esta fenómeno de massa, onde os deuses do estádio levantam as multidões, seria tempo de escrever algo sobre a sociologia do futebol.
Mas, sobretudo, quando sociedades inteiras têm como principal ponto de referência uma bola em forma de cabeça, e pés no lugar do cérebro, talvez seja preciso questionarmo-nos sobre o futuro da humanidade.

A Nossa Travessa disse...

Chicamigo

Não pretendo escrever algo tão longo e "complicado" como o meu antecessor. E escrevo "complicado", naturalmente entre aspas, porque é necessária muita atenção para o percorrer de fio a pavio. Mas, como sei que sabes, também gosto - e muito - do futebol, permito-me dizer que ele está muito bem elaborado e, sendo que não é sintético, depois de o começar a ler vai-se entendendo e percebendo a ideia mestra do Dr. Joaquim de Freitas.Pelo menos para mim...

Penso que já existe uma análise sociológica do futebol com o Prof Dr. José Manuel Meirim como figura principal. Apenas em aditamento recordo que o pai do Professor foi o treinador Joaquim Meirim o homem que mandava aos seus jogadores "arrancar pinheiros"...

Comentado o teu texto Chicamigo tenho de dizer - uma vez mais... - que gostei muito dele. Isto porque para mim é óbvio voltar a ter o futebol como desporto e não como o negócio chorudo que agora é. Porém, o autor da "Utopia", o Senhor Thomas Morus apesar do que escreveu não nos deixou nenhuma esperança de que isso viesse a acontecer..

E por aqui me fico

Abç do Leãozão