sábado, 23 de julho de 2016

Oficial de noite


Num livro que já não abria há muitos anos - e se lhes dissesse o título, compreenderiam porquê - encontrei, há dias, uma fatura de uma dormida de casal e dois jantares: noventa escudos. A data era 4 de outubro de 1974. Foi na Pousada de Santiago do Cacém, já desaparecida.

Eu era então oficial miliciano. Uma semana antes, tinha tido lugar o "28 de setembro", com a demissão do presidente da República, António de Spínola, naquela que constituiu uma significativa guinada à esquerda da Revolução de abril, com o coronel Vasco Gonçalves a reassumir a chefia de um novo governo. O ambiente pelo país estava febril, ainda a digerir as consequências políticas dos acontecimentos.

Na receção da Pousada, apresentei o meu cartão militar. Recordo-me do olhar curioso da jovem que me atendia. Os militares eram então uma "raça" muito em evidência na sociedade portuguesa.

Meia hora depois, na sala de estar, sou procurado pelo diretor da Pousada. Vinha cumprimentar-me.

- O senhor oficial não sabe a segurança que a sua presença nos traz. O pessoal anda muito nervoso com o que por aí vai e é muito importante poder ter cá uma figura das Forças Armadas. É outra segurança!

Deu-me vontade de rir. O oficial de Ação Psicológica que eu então era, sem a menor qualificação operacional e sem uma arma (e ainda bem, porque era um "nabo" como atirador), era erigido a "produtor de segurança", como se diz no jargão técnico.

Verdade seja que, ao jantar, "com os cumprimentos da Pousada", chegou-nos uma garrafa de vinho. Nada mal para o oficial "de noite"...

10 comentários:

Isabel Seixas disse...

Ó Senhor Embaixador o senhor é tão crédulo que até chega a ser sensual, mas obviamente quem inspirou confiança foi o facto de ser um casal, sim claro, o facto de Sr. estar acompanhado pela sua esposa é que gerou uma zona de conforto, fosse o senhor só ou dubiamente acompanhado e quebraria a cadeia da sustentabilidade moral à época.
Ainda assim sendo o casal sereno e bem posto é sempre outra coisa, é uma aceitação tácita ainda intemporal e está bem...

Agora 90 escudos é o máximo não consegui lembrar-me de qualquer termo de comparação a ver se foi barato...

JHS disse...

Dr. Seixas da Costa,
Peço licença para corrigir: Vasco Gonçalves era primeiro-ministro desde Julho de 1974, na sequência da demissão do governo Palma Carlos.
Seu leitor atento, JHS

Correia da Silva disse...

Tempos da...tropa fandanga !


Fernando Nogueira disse...

Também era oficial miliciano nessa altura, e em 1975 estava a prestar serviço em Tancos na FAP, onde presenciei o 11 de Março na BA3 e o 25 de Novembro na EPCP Mas foi em 1975 e não 1974...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro JHS. Tem toda a razão. Já corrigi. Obrigado

Anónimo disse...

Mau mau. Então e a data da fatura ?

rui esteves disse...

Esses 90$ de 1974 correspondem agora a 15,45€.
O ministério das Finanças publica todos os anos uma tabela da desvalorização da moeda.
Ao ano de 1974 corresponde o coeficiente 34,41.
Assim, fazendo a conversão de 90$ para euros, dá 0,4489 €.
A estes 0,4489 aplica-se o tal factor de desvalorização da moeda, 34,41, e obtêm-se a correspondência para o tempo de hoje.
0,4489 x 34,41 = 15,446 €.
Muito barato estadia e 2 jantares por 15,45 €.

Isabel Seixas disse...

obrigada ao comentador Rui Esteves gostei imenso de saber, de qualquer forma para inferir que era barato ainda é necessário ponderar outras variáveis omissas ...Os 90 escudos eram mais inacessíveis que os 15 euros...

Anónimo disse...

Estarão as contas bem feitas, mesmo considerando desvalorização e... ? 15.45 €?
Ser oficial das FA, naqueles tempos, era obra e prestígio...!

Joaquim de Freitas disse...

Amiga Isabel Seixas : Gostei das suas palavras. O meu Pai, fabricava um par de sapatos por 20 escudos. Levava um dia a fabricà-los!Nunca perdoei ao Estado Novo essa escravatura. E nunca perdoarei àqueles que diziam que Portugal era um jardim à beira mar plantado. Porque esqueciam de dizer que era so para alguns...Como hoje!