sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nervos de aço



Na essência do governo formado há uns meses por António Costa estava um compromisso delicado. Os socialistas obrigavam-se a respeitar o essencial das regras europeias, no quadro do equilíbrio macro-económico exigido pelos tratados, e, ao mesmo tempo, procuravam encontrar alguma margem de manobra, nesse muito estreito caminho, para acomodar exigências colocadas pelos partidos à sua esquerda, que lhe garantiam o suporte parlamentar. Essa pressão confortava a ala esquerda do PS, que assim pensava poder fidelizar algum eleitorado que, com o tempo, se fora deslocando para a “esquerda da esquerda”.

Nesta difícil equação, Mário Centeno partiu de uma constante que eram as políticas do BCE, cavalgou a conjuntural quebra dos custos energéticos e desenhou um orçamento impulsionado pela procura interna – com medidas que, em si mesmas, configuravam uma reversão da austeridade que afetara setores importantes da sociedade portuguesa. Na negociação desse orçamento, no “semestre europeu” com que a União disfarça o seu real “diktat” sobre as finanças nacionais, a Comissão rejeitou muitos desses estímulos, o que debilitou parte daquilo que era a estratégia de Lisboa para induzir crescimento através do consumo.

No plano europeu, as coisas nunca foram muito róseas para António Costa. Para a ideologia que comanda económica e politicamente Bruxelas, a fórmula de governo da Lisboa representa algo de provocatório. A última coisa que a máquina europeia deseja é o menor sucesso deste governo. Se acaso a “quadratura do círculo” por ele desenhada viesse a revelar-se exequível, estaria aberta a porta à heterodoxia, através de modelos diversos, noutros Estados com outros problemas na observância da regras dos tratados.

O episódio das sanções é bem sintomático do isolamento a que a fragilidade económica condena Portugal. Já se percebeu que a política de aliança “dos fracos” é um mito, com a Espanha a dizer “não somos Portugal”. Nesta guerra de nervos, é absolutamente essencial não perdê-los. O que quero dizer com isto?

Quero dizer, com clareza, que o governo português tem de evitar a tentação de cavalgar a onda de indignação que detetou na opinião pública nacional por virtude das sanções e não pode enveredar por uma denúncia exaltada, mas vã, das políticas europeias, do Tratado orçamental às práticas consagradas de apresentação dos orçamentos, numa atitude que alguns lerão como traduzindo radicalização ou desespero. Da mesma maneira que “Portugal não é a Grécia”, os socialistas não são os partidos à sua esquerda. No dia em que o “compromisso delicado” de que falei na primeira linha deste texto se romper, está o caldo entornado, como se diz na minha terra.

6 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Chicamigo

Embora concorde parcialmente contigo, há que ter em conta que quer para o BE quer para o PCP têm de pensar que este Governo é, talvez, a sua última oportunidade de "participar""Enforcada" a Grécia do Syrisa (todos sabem que o PS não lhe é igual) Bruxelas armou-se da artilharia pesada e até dos mísseis e voltou-se para Lisboa, sabendo de antemão que Portugal não tem força armada para se defender. É uma conclusão a que devem ter chegado muitos cidadãos (ex)europeístas - como é o meu caso - que sabem que se deixarem cair a esperança neste Governo não saberão para onde se devem voltar. E não têm alternativa senão mais austeridade imposta pela (des)União Europeia, ou seja pela Alemanha e seus sequazes.

O BE e o PCP também sabem disto, como o sabem a Frau Merkel e o Her Schäuble que dominam os restantes países seus criados de quarto que têm de defender os seus donos e defender-se a si próprios. E não devemos esquecer que M. Blaise Pascal afirmou que “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” E agora e aqui nem parece haver coração, muito menos razão

António Costa tem vindo espantosamente a lutar para tentar que a água se misture com o azeite o que não é possível; mas o avanço da ciência, e em especial da técnica e da tecnologia podem ultrapassar o impossível. São propósito e tarefa complicadíssimas. Mas, quem sabe se?..

Abç do Leãozão

Antonio Cristovao disse...

O discurso dos "pequeninos" é indigno dum estado e de governantes sérios. Não sabem, não querem ou não são capazes de cumprir as regras que assinam, para receber e gastarem o dinheiro que não conseguem produzir e a seguir fazem um discurso de bater o pé?
Na Espanha tomaram as medidas necessárias, sem paleio de malandros, porquê?

Anónimo disse...

Há Freitas os árabes continuam a dizimar a europa. Se ainda dizimassem os politicos, principalmente os que se passeiam por Bruxelas ainda vá que não vá, agora matarem cidadãos inocentes e muitos deles com problemas isso é que não.

Anónimo disse...

É uma questão de tempo até a UE se começar a desagregar. Aceitar a obediência aos Tratados que nos retiraram soberania, sobretudo o Orçamental, é lamentável. Uma das coisas que poderá levar a que outros membros da UE a saírem da União, entre outros já dos referidos na imprensa, poderá vir a ser o sucesso económico do RU, algum tempo após ter deixado de ser membro dessa malfadada "congregação de interesses neoliberais".

Jaime Santos disse...

A crítica a Bruxelas tem dois objetivos, penso eu. O primeiro é para consumo interno. O segundo visa não recolher o apoio da Espanha, onde afinal se mantém um Governo do PP e sim da França e da Itália, onde os eurocéticos também fazem escola. Costa caminha sobre um arame fino. Quanto a essa coisa do sucesso britânico, foi o RU que mais contribuiu para o avanço do neoliberalismo na Europa e quem ficou esperançado com o discurso de Theresa May, bem pode desenganar-se olhando para o seu novo Governo, muito mais à direita que o anterior. Quanto ao Labour, está ocupado a demonstrar a sua inutilidade. Se sobreviver, será uma sorte...

Nuno Sotto Mayor Ferrão disse...

Caríssimo, senhor embaixador, Francisco Seixas da Costa. O difícil equilíbrio de que nos fala do governo de António Costa é uma realidade, mas que se deve preservar para não termos como nos diz "o caldo entornado". A questão basilar, quanto a mim, é a legitimidade em aplicar sanções, na atual conjuntura do pós-Brexit, quando houve centenas de incumprimentos anteriores nunca penalizados. Porquê agora ? Porque o Deutsche Bank está nas ruas da amargura e se quer "tapar o sol com a peneira" ? Aliás, as declarações do Ministro das Finanças da Alemanha são bem sintomáticas de um "bode expiatório" que se procura arranjar, em vez de se estudarem e tratarem as causas estruturais dos problemas europeus. Basta ouvir o candidato português a Secretário-Geral das Nações Unidas para estarmos bem cientes da problemática real.
Cordialmente,
Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt