quinta-feira, 30 de junho de 2016

Ramalho Eanes

                           

Comecemos pelo fim. António Ramalho Eanes é um democrata, um homem impoluto e uma pessoa de bem. O regime que saiu do 25 de abril ganha em ter, dentre as personalidades que o representaram num lugar cimeiro, uma figura como ele. Achei muito oportuno e justo que, no momento em que se comemoram os 40 anos da sua posse como presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa tenha decidido homenageá-lo.

Recordo-me bem de assistir, durante a famosa Assembleia "selvagem" do MFA, em 11 de março de 1975, a apelos insanos de alguns excitados participantes, apelando à prisão de Ramalho Eanes, que, ao tempo, era presidente da RTP. Foi Vasco Lourenço quem, com grande vigor, então o defendeu. Tempos depois, na minha memória política, guardo a sua figura ascética, de óculos estranhamente escuros, a receber Costa Gomes na Amadora, ao fim do dia 25 de novembro desse mesmo ano, depois de ter conduzido as operações militares, do lado que se opunha ao radicalismo de esquerda, nesse dia de trágico confronto castrense. 

Um ano depois, Eanes era candidato à presidência da República, com o apoio do PS e PPD (a ordem é inversa, porque Sá Carneiro, sabendo por um "leak" que os socialistas iam convidá-lo, resolveu tomar a dianteira). Eanes seria eleito com facilidade. Não votei nele nessa eleição, porque o seu perfil político e pessoal não me inspirava então a menor confiança. Mas acabei por votar nele cinco anos depois, na sua reeleição, mais "by default" do que por entusiasmo, porque do outro lado estava a figura preocupante de Soares Carneiro, um general de perfil autoritário e muito discutíveis credenciais democráticas, apoiado por toda a direita.

Enquanto presidente, Eanes conseguiu um raro pleno ao entrar em conflito simultâneo com os líderes do PS, PPD e CDS. Os tempos da vida político-partidária eram complexos e, reconheça-se, o seu papel não era fácil, até porque era a ele que competia "desenhar" o primeiro recorte de um chefe de Estado em democracia, num regime semi-presidencialista ainda em teste. Em 1980 e 1983, coube-me, por coincidência, a responsabilidade de organizar, logisticamente, duas visitas de Estado de Ramalho Eanes, respetivamente à Noruega e a S. Tomé e Príncipe. Fiquei então com respeito pelo seu elevado sentido de Estado, demonstrado em ambas as ocasiões, embora essa coincidência funcional não tivesse contribuído para criar uma empatia pessoal com a sua figura humana, demasiado rígida para o meu gosto.

Porém, muito ainda antes disso, o que em nada contribuiu para que melhorasse a imagem inicial que dele criara, havia sido o modo como deu livre curso à subida ao poder de uma geração de oficiais generais que se dedicaram, com lamentável zelo revanchista, a prejudicar alguns militares de abril que muito prezo. Faço uma avaliação francamente negativa do seu papel nesse período, mas, pelos vistos, estou quase "sozinho": já constatei que os seus críticos militares de então, aqueles que terá prejudicado, são, nos tempos que correm, seus grandes admiradores...

Porém, a minha maior crítica a António Ramalho Eanes, com quem me "cruzei" pontualmente no apoio (no caso dele, indireto) à candidatura presidencial de Salgado Zenha, em 1986, tem a ver com a iniciativa, que titulou, da criação do Partido Renovador Democrático (PRD), uma nefasta estrutura partidária, assente numa doutrina de "um partido anti-partidos", que se reivindicava de uma superioridade ética que o tempo revelou falsa e, na minha perspetiva, tinha germes que, noutros países e noutras circunstâncias, levaram a aventuras políticas que nem é bom lembrar. O PRD tinha a intenção de aniquilar o Partido Socialista. Para evitar isto, Mário Soares - que tinha em Eanes o seu inimigo de estimação, atitude que creio correspondida durante largos anos - acabou por tomar o gesto político de dissolver a Assembleia da República, abrindo caminho a uma década de cavaquismo governativo. Há coisas que se pagam...

Eanes iniciou depois um percurso marcado por alguma discrição, dedicando--se a estudos universitários e, de quando em vez, brindando-nos com algumas dissertações em público, algo rebuscadas, mas onde revelou a maturação de um pensamento político crescentemente próximo de posições progressistas. Neste contexto, o seu apoio às candidaturas de Cavaco Silva tem difícil explicação, a qual terá sempre de ser lida na difícil articulação com o seu surgimento como o grande promotor de Sampaio da Nóvoa no recente sufrágio presidencial.

A vida ensinou-me a olhar de uma forma muito mais ponderada e equilibrada para as pessoas e para as coisas. E, sem qualquer esforço, sou hoje levado a concluir que António Ramalho Eanes é uma figura com grande dignidade, a quem o país deve admiração e merece considerar como umas das referências do nosso regime democrático.

15 comentários:

CORREIA DA SILVA disse...

Caro Embaixador Seixas da Costa: Muito bem. Ontem, aguardei com expectativa a publicação deste post.
Pode crer, não lhe perdoava a omissão do mesmo.

Cordiais e Patrióticos cumprimentos.



ignatz disse...

resumo do relatório do chefe da comissão valorização das medalhas: uma condecoração bem merecida por um ex-presidente sem brilho e político inábil cujo objectivo foi destruir o partido socialista que o elegeu.

Rosario Duarte da Costa disse...

Admiro-o Sr. Embaixador, pele sua linguagem franca, e pela maneira com que toma o que se chaùa "Recul", face às pessoas e aos actos.
Eu também tive em certa altura desconfiança pelo Presidente e, depois também segui de
perto a sua governança. Bem hajam pessoas como o Senhor.
Melhores cumprimentos sob trovoadas em Lyon!

Anónimo disse...

Concordo com a generalidade do seu texto, mas, Eanes, por incapacidade de tomar o PS por dentro, e bem se esforçou, tentou destruí-lo promovendo a aventura populista e caudilhista do PRD.

Desde então coloquei um grande X em Ramalho Eanes!

Nunca saberemos o que poderia ter acontecido se o PRD caudilhista tivesse vingado!

Eanes apoiou Cavaco, duas vezes, depois "para lavar a imagem (?)" apoiou Sampaio da Nóvoa.

Respeito os que vindo da esquerda, PROGRESSIVAMENTE e sem motivações económicas, foram passando para posições mais à direita, bem como os que vieram do fascismo e evoluíram para posições democráticas bem sólidas (Adriano Moreira, por exemplo).

Em democracia, cada um tem o direito a ter e expressar as suas próprias opiniões, e até há o direito a ziguezaguear.

Mas também há o direito de não "aceitar" os "ziguezagueantes".

Por isso, Eanes não obrigado!

Declaração de interesses: não estou vinculado a nenhum partido.


duarteO

Antonio Pinheiro Ribeiro disse...

Subscrevo esta análise à infeliz passagem pela política partidária. Ainda bem que não insistiu.

JS disse...

Agradecido por esta sua visão do personagem em causa, felizmente ainda "no activo".
Sim, porque ele foi um dos responsáveis, com mais peso, na evolução do processo político vigente. E não só por ter sido ele, um miliar, como tinha que ser, a reenviar os militares para os quarteis. Como bem diz, com vários tipos de custos para alguns.

Será consensual que à derrota do projecto partidário de Ramalho Eanes corresponde a vitória de todo o "Mário Soarismo" que ainda hoje perdura. Com cambiantes, é certo, mas sempre M.Soares.

Não tivemos a oportunidade de ver o "Ramalho Eanismo" a florescer, na realidade do dia a dia, pelo que temos que nos abster de o caracterizar. Apenas conjecturar.

Mas bem podemos analizar a linha vencedora, a de M.Soares. Mas entre outros aspectos, infelizmente, tenho fortes dúvidas em caracterizá-la como uma plena democracia.
M. Soares nunca colocou todo o seu peso político na reforma Constitucional, que ainda hoje julgo necessária: uma Lei Eleitoral que gere um poder Legislativo representativo. Porquê?.

E como teria sido um perene "Ramalho Eanismo" ?.
PS- Que o AO me desculpe, mas este corrector ortografico é, também, velhinho.

ignatz disse...

"Em Fevereiro deste ano, Diogo Gaspar foi condecorado por Cavaco Silva o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago, numa cerimónia de Imposição de Insígnias."

http://rr.sapo.pt/noticia/57923/detido_director_do_museu_da_presidencia_por_suspeita_de_peculato_e_abuso_de_poder?utm_source=rss

Majo Dutra disse...

~~~
Gostei da análise.
O PRD não foi só um lapso,
nem MSoares um santinho...
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Anónimo disse...

Lembro-me de Eanes ter dito, quando era Presidente, qualquer coisa semelhante a isto: " Não me parece que não possamos dizer que Portugal não é um país não democrático". Com complicações como esta, é natural que Portugal esteja no estado em que está. Quem torto nasce...

JPGarcia

Septuagenário disse...

Soares Carneiro era um dos portugueses mais dignos para ser um brilhante Presidente da República.

Manuel Silva disse...

Sr. Septuagenário:
E com muita experiência, obtida no Campo de Concentração de S. Nicolau.

A Nossa Travessa disse...

Caríssimo Chicamigo

Ora muito bem. Como septuagenário não concordo de todo com o Septuagenário que escreveu o comentário acima.

Conheci Soares Carneiro em Angola quando ele era o "patrão" do presídio militar de S. Nicolau, um campo de concentração igualzinho ao do Tarrafal. Não foi, sem dúvida, um democrata. Nem pó. Durante a campanha eleitoral foi proposto pela direita para ser o inquilino do Palácio de Belém.

Na altura entrevistei-o para o Diário de Notícias tendo-lhe perguntado - entre muitas outras perguntas - se se lembrava de S. Nicolau onde dissera que dali ninguém fugiria porque se o fizesse iria para o deserto e morreria de sede.

Respondeu-me que eram coisas distintas - S. Nicolau e campanha eleitoral, o que queria dizer zero. Insisti na pergunta e teve o descaramento de me dizer que não se lembrava bem dos termos que usara quando discursava para os presos políticos, na sua maioria do MPLA. Passei ao camarada que também fazia perguntas, o Zé David Lopes, o acabar como quisesse da malfadada entrevista.

Era este homem que daria um bom PR? Claro que não falo da múmia chamada Cavaco Silva. Não a pena muito menos as enormidades que bolsou...

No que concerne ao teu texto sobre António Ramalho Eanes estou de acordo contigo caro Amigo. A Manuela Neto Portugal Ramalho Eanes foi minha colega na Faculdade de Direito e foi várias vezes com ele jantar na minha casa no Lapa; singular coincidência, Eanes conhecera a Raquel em Goa e namorava uma goesa (cujo nome não quero revelar aqui) a quem prometeu casamento. Veio para Lisboa e acabou casando-se com a citada Manuela Neto Portugal, cujo pai parece ter sido informador da PIDE.

De resto, sabendo perfeitamente que nós éramos PS, foi num desses jantares que tentou (tentaram) que fossemos inscrevermos no PRD. Dissemos-lhe que nem pensasse nisso... Daí em diante nunca mais voltaram a jantar connosco. Tão "triste" fiquei que nunca mais dormi descalço... Mas, confesso-o, votei sempre Ramalho Eanes.

A propósito de condecorações ontem (quinta feira) O Presidente da República atribuiu a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique a Salgueiro Maia, num gesto de "reconhecimento da pátria portuguesa", dizendo que nunca é tarde para a "reparação histórica". Cavaco não comentou nem tinha de comentar...

Abç do Leãozão

E com cinco empates já estamos nas meias finais...

Gonçalo Pereira disse...

Bom texto.
Não levará a mal que lhe diga que prefiro o seu registo nos textos escritos estritamente para o blogue em comparação com aqueles destinados para publicação em jornal, sempre mais cuidadosos e... liofilizados.
Sobretudo não deixe de escrever.Tornou-se um hábito passar aqui de manhã e ler os seus comentários.
Cumprimentos.

Anónimo disse...

Fiquei sem perceber o texto. Depois de tudo o que diz dele (que é o que sabemos), termina dizendo que é um homem de grande dignidade a quem o país deve muita admiração. Enfim, talvez seja a nossa atávica admiração por figuras paternalistas que são sérias porque nunca riem.

JP Secca disse...

É pena que o Sr. Embaixador escreva com a ortografia mutilada do aberrante AO90.