sexta-feira, 3 de junho de 2016

Notícias de Paris



Como europeu, e olhando a História, tenho a difusa perceção de que, no dia em que a França colapsar como país atuante no centro do processo integrador, este entrará rapidamente em desagregação.
Independentemente da sua singularidade dentro da União Europeia, da leitura egoísta que sempre fez do interesse comum, a França continua a ser o ponto referencial que liga a Alemanha ao sul do continente e do próprio Mediterrâneo. Além disso, Paris faz uma articulação particular com Londres, como únicos poderes militares relevantes dentro da União, ambos com um estatuto privilegiado no Conselho de Segurança da ONU.
Não sei se a França é a “chave” da Europa, mas a experiência faz-me cada vez mais pensar que sim.
Conheço poucas sociedades mais arreigadamente conservadoras do que a francesa. Por detrás da modernidade de muitas das suas ideias magníficas, há por ali um imobilismo institucional atávico que a torna extremamente refratária à mudança. Sendo o país da União com maior gasto público face ao PIB, a França alimenta um Estado pletórico, com que Esquerda e Direita vivem confortavelmente. Saber se isso é compatível com os seus níveis de prosperidade e de competitividade não parece ser uma uma preocupação coletiva relevante.  
Desde há uns anos que se pressente que a França vive sobre um vulcão. O modelo de integração étnico-social falhou, a ausência de um “terreno” de cidadania comum aos seus cidadãos de origens diversas é cada vez mais evidente, os medos e as tensões económico-sociais sobem exponencialmente. Basta passear por Marselha ou por algumas “banlieues” de grandes cidades para disso se ter uma ideia clara.
A direita democrática francesa não consegue construir uma narrativa de projeto totalmente despoluída dos fatores que facilitam o proselitismo da extrema-direita. Pelo contrário, o oportunismo fê-la recuar dos seus reflexos republicanos históricos.
Por seu turno, a esquerda democrática parece esquizofrénica, com um setor a dar ares de ter sido raptado por um súbito discurso neo-liberal, enquanto outro persiste nalguns clichés de um socialismo datado. O PS francês, por ausência de um projeto realista, corre hoje riscos sérios de fratura.
A forte clivagem social e os medos securitários, agravados pelo terrorismo e pelas migrações, tornam a opção pela extrema-direita - agora já sem o custo das diatribes inaceitáveis de Jean-Marie Le Pen - cada vez mais apelativa, limitada apenas pelo bizarro sistema de representação parlamentar (apenas 3 deputados do “Front National” num total de 577, com bem mais de 20% de votos).
Finalmente, a “esquerda da esquerda”, que tem mais rua que votos, recomenda aos sindicatos que sigam o slogan de há quase meio século: “sejam realistas, peçam o impossível!”
Aguardemos.

7 comentários:

Anónimo disse...

Excelente!! Parabéns!!

Este artigo devia ser publicado simultaneamente no "Monde" e no "Figaro".

Atenciosamente

Anónimo disse...

infelizmente parece cada vez mais caminhar para uma qq especie de guerra civil (na minha opiniao que espero muito errada)

aguardemos os atentados que ai vem, pelo menos o e.i. pediu, na semana passada ou assim, um mes do ramadao com ataques ao ocidente.. nao sei como vai reagir a sociedade francesa

a arrogancia de uma certa elite francesa e o estado calamitoso das banlieues, (a meu ver tenho muitas duvidas que uma parte da geracao de menos de 30 anos nascida nos banlieues se identifique como francesa) nao auguram nada de bom. é ai que entra marine que foi a unica, infelizmente, que tocou nalgumas das feridas profundas da frança. os outros fizeram de conta que estava tudo bem..

nao vejo, pelas diferentes pessoas que conheço, muitas hipoteses de conciliacao.

Ha a meu ver 6 franças

1-- banlieues muçulmana (nem toda a gente da banlieue é muçulmana, nem os que o sao sao necessariamente problematicos, como é evidente (pelos menos para mim...)), estou me a referir sobretudo, aos jovens e menos jovens radicais muculmanos, e aos que o nao sao mas estao ligados ao crime. ha por vezes uma fronteira muito tenue que os divide, (nao sao os mesmos conhecem-se) mas passam da criminalidade ao radicalismo.. sao todos anti-semitas primarios, tem sentimento de superioridade em relacao aos franceses, e no fundo no fundo, recalcam uma inferioridade com que muitas vezes foram tratados, desde o tempo que os franceses pensavam que a argelia era deles...

2-- casseurs-os parte tudo, os pseudo-anarco-revoltados , que ha partida poderiam ter alguma coisa digna de ser dita, mas como nao tem nada dentro da cabeca, so violencia...

3--esquerda e classes sociais baixas "menos afectadas pela religiao..."-classe media, (aqui poria a maior parte dos blacks)

4--classes populares francesas pobres, as vezes antigos votantes do pcf e afins, que nao se reconhecem na esquerda nem na sua politica dos coitadinhos dos jovens de origem assim ou assado e que so fazem.. mas nao sao presos, geralmente pessoal de certa idade 60 anos, desesperados de ver o estado do pais onde nasceram, muitos votam fn, mais por desespero que por conviccao... a estes ainda se podiam juntar o interior rural da frança

5--classe media "perdida" entre o ps, o lr e o fn, mas que nao se reconhece no seu pais

6--a media alta burguesia (todos ps ou lr ou de quem lhes convier), altos quadros do estado e das grandes empresas, que tem muito dinheiro


sem resolver o problema do islamismo radical, nao ha maneira de unir esta gente. convinha, ja agora..., destruir tb a sociedade de castas (classes) que é a sociedade francesa onde a ultima coisa que existe é igualdade e fraternidade.... (liberdade de expressao tb nao, veja-se o dieudonne (com o qual eu nada concordo)) é esta sociedade napoleonica de castas que é a criadora inderecta de quase todos os males


nao vai ser facil



Isabel Seixas disse...

bem pensado e muito bem dito, vale a pena ler tanto pela forma como pelo conteúdo.Gostei muito do post.

Joaquim de Freitas disse...

Permita, Senhor Embaixador, que veja o problema de maneira diferente.

A Europa, potência militar supletiva dos EUA, vive neste momento a sua apoteose ultra liberal. A " Lei Trabalho" , que parece inspirar o seu texto, e algumas reticências do mundo do trabalho e não só a aceitar o que se prepara no famoso Tratado transatlântico, é inspirada e desejada pelos EUA.


Se o terrível vírus social que é a "Lei Trabalho" nos cai em cima, não é para "reformar a França modernizando-a", como diz o social-liberal Manuel Valls. Claro que não.

Ou então é preciso explicar por qual milagre um governo de direita na Bélgica e um suposto de esquerda em França, promulgam ao mesmo tempo regras idênticas que estrangulam os trabalhadores?

Muito simples : A "ordem" ou a "ideia" vem da Comissão europeia, um 'truc' infestado pelos lobbies de toda a espécie .

Em Bruxelas, que o Senhor conhece bem, 40 000 pessoas são empregadas por estas oficinas "de influência" que submetem ao Parlamento europeu a versão dos factos que convém melhor à Wall Street.

Assim, libertados desta "tarefa" ingrata, antes de ir beber uma cerveja à "buvette", os deputados europeus não têm mais nada a fazer que dizer SIM a estes lobbies que se activam para a nossa felicidade.
Fecundada pelos EUA , a Europa são eles.

As elites do capitalismo francês (banqueiros e/ou deputados) e muitos dos seus compadres de estados vizinhos, têm a necessidade de apoiar a sua politica sobre um país que desempenha para eles o papel de modelo.

Juncker e outros papagaios da Goldman Sachs podem lançar tranquilamente a sua "fatwa" de ultra liberalismo sobre os trabalhadores : "não há alternativa" ! Eis porque uma "Lei Trabalho" nos cai em cima, reclamada pelos Fundos de Pensão Alemães e Estado-unidenses que são à justiça social o que Dracula é à transfusão sanguínea.

Tenho quase muita pena destes pobres industriais e banqueiros e os seus comparsas políticos de afrontarem tantas incertezas, sendo obrigados a volver, como os espectadores de ténis as suas cabeças entre Washington e Berlim !
Não esquecer a responsabilidade da derrota de 1940, em França : Os militares , os políticos, a imprensa, os homens de negócios e os homens de mão !

Jaime Santos disse...

Por este andar, o PSF vai a caminho da implosão. Até o social-liberal Valls é melhor como candidato que o titubeante Hollande. Espero no entanto que apareça ainda alguém que mesmo acabando derrotado, salve o Partido de uma derrota humilhante. Quanto à Esquerda Radical, sonha com os amanhãs que cantam não olhando ao facto de que a França está em crise profunda. Convém lembrar que foi a divisão eleitoral da Esquerda que levou Le Pen à segunda-volta em 2002, o que afastou a Esquerda do Poder durante 10 longos e penosos anos. Agora, arrisca-se a fazer uma travessia do deserto semelhante à que ocorreu depois do 'Golpe de Estado Permanente' de de Gaulle em 1958...

JS disse...

Boa (e corajosa) análise. Requer talento de diplomata singrar no fio da navalha, entre o politicamente correcto e a análise que vale a pena ler.

Quanto à França, sim, se fosse uma grande empresa até poderia fragmentar-se ou desaparecer em falência, irrecuperável. Mas não é. Os Países e as Nações não têm essa "facilidade" facilmente ao seu alcance. Tendem a perdurar "malgré tout".

Esta União Europeia (e a Zona Euro) é hoje vista como uma falhada operação "merger" entre Países. Países não são empresas. As adulterações posteriormente introduzida no desenho original foram fatais. Regressemos, corajosamente, ao estirador.

A chave da Europa enguiçou. Aguardemos, que remédio, mas convém ir dando corda aos nossos, próprios, sapatos.

Joaquim de Freitas disse...

"O PS francês, por ausência de um projeto realista, corre hoje riscos sérios de fratura."

O Senhor Embaixador podia continuar na mesma linha, para a direita democrática! Onde está o programa? O de Sarkozy? o de Fillon ? o de Lemaire? o de NKM? o de Juppé? etc, etc.

Quanto ao programa do FN é a explosão assegurada da Europa , embora os outros possam lá chegar por outras vias !