sábado, 25 de junho de 2016

Isto anda tudo ligado?


Não há nada que dê maior prazer às mentalidades pequeninas do que as teorias conspirativas. E, quando à mistura surgem figuras polémicas da política, então o gozo aumenta.

Hoje à noite, num documentário de televisão, vi-me envolvido numa dessas teias de especulação e insídia. Nada que já não esperasse, confesso. O absurdo das insinuações é tal que me deixa numa serenidade total. Mas não deixa de ser curioso verificar como a seriedade de toda uma vida pode ser posta em dúvida, em breves instantes, de forma gratuita, arguindo coincidências. É o mundo em que o "não é por acaso" se cola ao "não há fumo sem fogo", tudo isso adubado por um justicialismo serôdio, com voz grossa e ar grave, onde o requisito de provas é despiciendo e até considerado uma atitude arrogante e suspeita. Se não fosse triste, até tinha a sua graça.

Ao ver o programa, veio-me à memória, apenas pela similitude da lógica "circular" usada, um episódio que fez parte dos momentos menos nobres do "Verão quente" de 1975.

Um conhecido militar negro, altamente condecorado pelas Forças armadas portuguesas na guerra colonial, tido como ligado a meios de extrema-direita, foi raptado um dia por figuras, creio que também militares, ligadas a um grupo radical de esquerda, já não sei bem por que razão. O que ficou provado é que foi barbaramente torturado numa residência particular do Restelo.

Uns dias depois, quando se começaram a conhecer pormenores sobre o assunto, um "aparatchik" do PCP, que trabalhava no mesmo departamento onde eu fazia serviço militar obrigatório, comentava, num grupo, sobre o assunto. Vale a pena lembrar que, na narrativa que o PCP alimentava à época, entre a extrema-direita e a extrema-esquerda (isto é, todos os grupos situados à sua esquerda e que o combatiam) havia uma espécie de cumplicidade objetiva, pelo que ambas não eram senão faces diferentes da mesma moeda, quase de certeza todos pagos pelo "imperialismo".

Ao descrever às pessoas à sua volta os vários passos do que tinha acontecido, esse rapaz da "António Serpa" (como à época se dizia do pessoal do PCP, por ser essa então a rua da sua sede partidária), embalado na sua teoria conspirativa, explicava que aquilo estava "tudo ligado". Até a casa onde as torturas tinham tido lugar pertencia a uma conhecida figura ligada a um "jornal ultra-reacionário".

A certo passo, deu-me uma de racionalidade simples e perguntei: "Mas, espera aí! Estás a dizer que um tipo de extrema-direita foi torturado por gente da extrema-esquerda, tendo estes tido como cúmplice o dono de uma casa que, pelos vistos, é um refinado reacionário? Mas que lógica é que isto tem?"

O tipo olhou para mim com um ar sobranceiro e "arrasou-me": "Olha-me para este! A querer ver lógica nestas coisas..."

Para quem acha que "isto anda tudo ligado", a lógica é um luxo dispensável.

13 comentários:

CORREIA DA SILVA disse...

O militar negro, não sería o Marcelino da Mata ?


Antonio Cristovao disse...

Par quem não tem credos fica perplexo que sobre os diversos dilemas ou trilemas (BRexit, UE, CGD...), as várias etiquetas politicas tomam posições idênticas , contra ou a favor. No entanto têm a lata de acrescentar , mas a nossa é igual, mas por "boas" razões a deles é por extremismo reaccionário. Verdade ?

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador, se andasse tudo ligado, davam um segundo referendo aos ingleses como fizeram aos irlandeses até votarem em conformidade, que eles também são gente ?!

Majo Dutra disse...

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Excelente ironia, FSC.
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ignatz disse...

essa história está mal contada. o conhecido militar negro (marcelino da mata) detido por militares e interrogado no ralis denunciou o fuzileiro josé jaime coelho da silva de pertencer ao elp e a maltósia civil do mrpp sequestrou-o e deu-lhe um enxerto de porrada no restelo e em sintra, a primeira casa era dum gajo mrpp e a segunda não faço ideia. esse episódio tem lógica e faz todo o sentido para quem viveu esses tempos, o que não tem lógica alguma é comparar essa cena amanhada às suas conveniências.

Isabel Seixas disse...

dá que pensar
tanta cabecinha pensadora
passando a vida a navegar
em tanto tédio ou pachorra
vão afogar...

Francisco Seixas da Costa disse...

O ignatz defende então a tortura! Exemplar! Depois disso, tudo o resto que diz, tem de ser lido à luz desse caráter muito peculiar...

ignatz disse...

não defendo tortura nenhuma, escusa de andar com a casa à volta para desenroscar a lâmpada. a história está factualmente mal contada e foi metida a despropósito para criar ambiente de vitimização. no princípio era tudo mentiras e difamações, agora estamos na fase o-que-parece-não-é e das injustiças, o próximo capítulo deve ser é-tudo-verdade-mas-não-é-crime.

Anónimo disse...

Arrepio-me com estas histórias... Esse é o vergonhoso episódio Marcelino da Mata, militar da Guiné, pertencente ao exército português, com mais condecorações do que muitos oficiais operacionais portugueses, com folha de serviço do mesmo género e hoje, talvez para exorcizar os pesadelos, têm um registo de paleio, que os coloca na categoria de militares de esquerda... Mesmo nesses tempos do prec desvairado, quem, no MRPP, fez o que fez, com o Marcelino da Mata não tem qualquer desculpa.
Não vi nenhum desses «machos» ter coragem para agarrar um PIDE a sério e fazê-lo passar um mau bocado... Morreram todos na cama e alguns, quadros com grande responsabilidade, de muitos anos, foram a debates na televisão, com distintos jornalistas sentados à mesma mesa... e as pessoas acham normal

Anónimo disse...

Estou completamente à vontade, porque sempre fui contra a guerra colonial, fosse onde fosse e a da Guiné, pela categoria do «inimigo» da tropa portuguesa. Amílcar Cabral, só houve um. Nino Vieira, como combatente, idem.

Mas tive oportunidade de conhecer oficiais portugueses sérios e a verdade é:

Pequeno pormenor: o Marcelino da Mata, quando foi «raptado» e submetido a todas as sevícias era só O OFICIAL PORTUGUÊS MAIS CONDECORADO da Guerra Colonial. Várias Cruz de Guerra e, ainda mais rara, a Torre Espada!

Presumo que num país normal, mesmo em período de PREC, a seguir a uma «revolução», o assunto teria que ser julgado em verdadeiro Tribunal Militar, entre os seus pares.

Anónimo disse...

Vi o programa e considerei-o lamentável jornalismo.

af

ignatz disse...

o problema é as pessoas verem programas, lerem coisas e depois baralharem tudo. o marcelino mata é um maluco que ganhou a vida a praticar "actos heróicos" por conta do regime colonial e depois, quando este acabou, para os herdeiros do regime. foi assim que protagonizou umas cenas na moderna e na amostra pela módica quantia de 300 contos/mês para não fazer nada, segundo rezam os autos. mas o que importa é o herói ter denunciado um fuzo para salvar a pele e ter sido esse a tal vítima da injustiça a que o embaixador se pretende comparar.

ignatz disse...

deixo este link para uma entrevista do manecas santos que ajuda a perceber o herói torturado

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/exclusivo/item/43984-manecas-santos-amilcar-cabral-nao-era-sonhador-era-um-politico