quarta-feira, 8 de junho de 2016

Indecifrável


Aquele diplomata era um conhecido calaceiro. Entrara para o MNE bem antes do 25 de abril e, com algumas boas proteções, conseguiu ir sobrevivendo, fazendo sempre muito pouco na profissão. A democracia que a Revolução entretanto trouxera não se adaptava ao seu espírito ultra-conservador, "viúvo" que ficara da ditadura. Os governos provisórios desse tempo mereciam-lhe o maior desprezo e davam-lhe um alibi político íntimo para fazer uma espécie de resistência passiva. Assim, em tudo o que fazia seguia sempre a "lei do menor" esforço, furtando-se tanto quanto podia às tarefas trabalhosas.

Este seu caráter preguiçoso era conhecido na "casa" e, a partir de certa altura, conseguira uma espécie de estatuto que quase sempre o isentava de grandes responsabilidades. Ninguém lhe atribuía funções importantes e, com isso, acabava por levar uma rica vida. Claro que a progressão da sua carreira não deixou de sofrer com isso, mas, como era rico, pouco se ralava. Já com uma certa idade, e ainda como reflexo das boas ligações, familiares e sociais, que possuía, acabou por ser-lhe atribuída a chefia de uma embaixada. Era um posto periférico, sem grande movimento, dir-se-ia que bem adequado ao seu perfil. O que ele não queria era que o incomodassem...

Nesse tempo, as comunicações telegráficas ente o Ministério e os postos implicavam um sistema cifrado algo primário que, não raras vezes, falhava. Frequentemente, quando se pretendia ler o que, de Lisboa, chegava às embaixadas e consulados, os textos recebidos apresentavam páginas cheias de letras e algarismos sem sentido, prova de que algo falhara na transmissão. A solução natural era pedir a repetição de tais textos.

Num final de tarde, nessa sinecura onde passava indolentemente os meses, o secretário da embaixada irrompeu no gabinete do embaixador com um "telegrama" acabado de chegar de Lisboa. A embaixada era alertada para a iminente passagem pelo aeroporto dessa capital, em trânsito, de uma missão chefiada por um membro do governo português. A chegada seria na manhã do dia seguinte, quase de madrugada, pedindo o Ministério que o proprio chefe da missão se deslocasse ao aeroporto e desse "todo o possível apoio" à figura em causa, que ficaria umas horas na cidade.

O nosso homem ficou furibundo! A perspetiva de ter de se levantar a horas matutinas, somada à necessidade de ter de conviver, por algum tempo, com um membro desse governo "sinistro" que a soldadesca amotinada tinha colocado no poder, deixava-o fora de si. Que diabo de ideia tivera o secretário de passar pela "sala da cifra", nesse final de tarde! Se o não tivesse feito, não estava agora confrontado com a chatice de ter de ir ao aeroporto a horas impróprias, que ele sempre aproveitava para descansar do trabalho a que se furtava.

O embaixador refletiu. Releu o texto e, sem comentários, disse ao secretário que podia ir para casa. Ele ficaria um tempo mais na embaixada.

No dia seguinte, quando abriu a "sala da cifra", o secretário deparou-se com uma comunicação que o seu chefe enviara entretanto para Lisboa, ainda na tarde da véspera: "Informo Vexa que a comunicação recebida hoje, ao final do período de expediente, chegou indecifrável. Muito agradeceria o seu reenvio amanhã".

Era um belo truque! Lisboa só teria recebido essa comunicação tardíssimo, tudo agravado pela diferença horária, e repetição "legível" ali estava agora. Só que era tarde demais! O governante e a sua gente já deveriam estar prestes a partir do aeroporto.

O secretário entrou no gabinete do embaixador e entregou-lhe o "novo" telegrama. Sem comentários. O chefe da missão não se deu por achado, olhou o texto, como se o visse pela primeira vez, e disse: "Deixe ficar". O secretário deve ter pensado que o seu papel de inocente útil (e calado) naquela peça lhe poderia valer uma boa informação. E "fez de conta"...

Não era sem "mérito" que, em Lisboa, alguém dizia que aquele embaixador tinha feito, para si próprio, uma adaptação criativa e muito pessoal do lema do Infante Dom Henrique: "Talent de rien faire".

5 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Pertenço, como manga de alpaca, aos herois das comunicações da CIFRA enviadas pelo telex, as ostensivas e as cifradas pela máquina alemã com o password Myngon.
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Hoje os “rapazes” que entram para a diplomacia não fazem uma pequena ideia os trabalhos que aquela giringonça dava.
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Ora eu era o homem que guiava aquela velha e obseleta maquinaria na Embaixada em Bangkok. Mas além do meu heroismo havia outros/outras na CIFRA e pelo telex pedia-se a repetição dos telexes truncados.
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Não havia horas de entrada nem saída, mas o empenho de o trabalho ser feito. Por anos seguidos todos os sábados e domingos eu ia à embaixada ver o que tinha chegado e se houvesse algo importante, metido num envelope e fazia chegar ao chefe de missão à residência. Aguardava se seria necessária resposta.
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Na primeira presidência de Portugal da União Europeia eu o “manga de alpaca” e o embaixador Sebastião de Castello-Branco, primeiro semestre de 1992, lidei durante seis meses com o telex e cifra.
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Chegavam, metros e metros de fita perfurada que muitas vezes, apenas um furito na fita mal colocado tinha que ser pedida a repetição à CIFRA.
No entanto e com um ordenado de 500 dólares, mensais, tenho saudades desse tempo e gosto pelo aquilo que fazia.
Saudações de Bangkok
José Martins

Anónimo disse...

Bom dia!

Indecifravel e para mim a imagem. Nao e foto (tem publicado uma com cadeira de lona, jardim, relva e glicinia ou bunganvilia, nao sei de memoria) mas esta imagem no mesmo contexto de lazer-prazer,tardes alongadas... sera "linocut", "woodcut"? Podia ser inglesa (anos 30-40?) Atentando no jardim-relva, panama, garrafa, copo de vinho..."It's not cricket"! Podia perfeitamente ilustrar peca/filme de Pinter ou filme frances Renoir, Rommer, sei la!

Atenta e curiosa,

F. Crabtree

Anónimo disse...

Uma pergunta para o Freitas; quando em 2004 Jorge Sampaio dissolveu o Paralmento e mandou o Santana ás urtigas, aquilo foi o que? Golpe? é que o governo estava legetimido e ao que parece não havia ninguém acusado de corrupção, pedaladas fiscais e outras que tais. Ai Freitas és um riso.

Anónimo disse...

Ó Freitas, um grupo de cerca de 30 rapazinhos coloridos, agradiu um revisor da CP na zona da Damaia, então ó freitas isto para ti não é racismo? há já sei para ti racismo é só quando um policia branco dos estados unidos bate num ladrãozinho ou assassino, mas só se ele for colorido, se o dito assassino for branco e levar um balázio ai já ninguém reclama. ó freitas, outra para ti, os alemães publicaram um relatório a dizer que os teus amigos refugiados da ásia estão a cometer crimes em série. Tem cuidado quando andares ai armado em D.Quixote a arrnjar abrigo para esta malta.

Sérgio Serrano disse...

Anónimo das 21:15:

Para isso Freitas não tem resposta,coisa caracteristica dos utópicos...