sexta-feira, 17 de junho de 2016

"Com a NATO não se brinca!"



A NATO anunciou que vai reforçar militarmente os contingentes de que dispõe no Leste europeu, junto às fronteiras da Rússia.

Não é popular, no discurso português de segurança e defesa, discutir, ainda que minimamente, as opções americanas que sobredeterminam de forma decisiva as políticas da Aliança. No nosso país, o obsessivo interesse em sermos "bem vistos" do outro lado do Atlântico tem-nos conduzido a um acrítico seguidismo, teorizado por uma escola que faz do ultra-atlanticismo o seu "fond de commerce". No limite, lembremos, foi o que nos levou à vergonha da « cimeira das Lajes ».

Penso, com a maior sinceridade, que a NATO – esse heterónimo dos EUA - continua a justificar-se e que o nosso país tem um interesse estratégico em dela continuar a fazer parte. A Aliança mudou de natureza com o fim da Guerra Fria, mas persistem cenários de risco que a continuam a justificar.

A Rússia, não sendo um inimigo, não é um poder qualificável de plenamente democrático, por não oferecer garantias de se subordinar a um quadro de respeito estrito pelo Direito Internacional, pelo necessita de conhecer, com clareza, as "linhas vermelhas" que não deve ultrapassar, na observância do equilíbrio de poderes posterior à Guerra Fria. E só a NATO as pode definir.

O que escrevi levar-me-ia a louvar a NATO e o seu trabalho, não fora o facto da organização ter sido visivelmente "raptada", nos últimos anos, por uma agenda de pendor radical, que soma algumas tentações de proselitismo político-militar dos EUA com a paranóia de alguns países que o alargamento da NATO colocou junto às fronteiras da Rússia - a tal "nova Europa" que Donald Rumsfelt se gabava de pôr em choque com o resto do continente. O que se passou na Ucrânia, a reboque de uma União Europeia que teve a insensatez de se deixar arrastar para políticas claramente provocatórias, que de modo irresponsável se permitiram abalar equilíbrios geopolíticos que haviam provado ser marcos da segurança coletiva, mostrou que "brincar" com a História pode ter um elevado preço.

Portugal é um país frágil, nomeadamente em matéria de segurança e defesa. Depende bastante da NATO, pelo não quer ser visto nesse contexto, ainda que minimamente, como um "trouble-maker". Além disso, um governo como o atual, que é olhado com elevada suspeição pelos meios atlanticistas, está talvez mais condicionado do que qualquer outro, pelo que será sensível ao senso comum, prevalecente nos corredores das Necessidades e do Restelo, de que "com a NATO não se brinca".

Até posso estar de acordo com isso. Mas espero que Lisboa, no âmbito de uma NATO que parece embalada por um perigoso tropismo jingoísta, que olha Moscovo como se tratasse da capital da URSS, saiba ter coragem para dizer, alto e bom som, que com a paz também não se brinca.

17 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

A hegemonia é um processo de leadership, de controlo, e de influência que implica ao mesmo tempo o constrangimento e o consentimento. Na realidade os chefes da Europa que tiveram a coragem de recusar esta hegemonia foram só um: De Gaulle.

Depois, veio o tempo dos lacaios, dos servidores obedientes, de todas as tendências políticas, incluindo a esquerda dita socialista, como Hollande e mesmo o governo actual de António Costa, se é verdade que vai enviar algumas centenas de milhares de euros aos fascistas da Ucrânia e continua a enviar militares para os teatros de operações da NATO.

Colectivamente, os nossos espíritos foram colonizados, fizeram-lhes crer numa falsa ordem das coisas. A humanidade é cada vez mais desumanizada, como o prova o aumento
do orçamento da NATO, que já é superior a 1 000 biliões de $ e incitar os Europeus a gastar ainda mais em armamento, enquanto que os povos europeus gritam contra a fome.

A NATO e os EUA são o maior perigo para a paz do mundo.

Cada vez penso mais nas palavras de Einstein :
« I do not know how the Third World War will be fought, but I can tell you what they will use in the Fourth Sticks and rocks ! » - « Je ne sais pas comment on fera la Troisième Guerre mondiale, mais je sais comment on fera la quatrième : avec des bâtons et des pierres. »

Anónimo disse...

Nem com a NATO, nem com a Caixa, que "que está de baixa".....

Luís Lavoura disse...

A Rússia não é um poder qualificável de plenamente democrático, por não oferecer garantias de se subordinar a um quadro de respeito estrito pelo Direito Internacional

Não tem nada a ver o ser-se democrático com o subordinar-se ao Direito Internacional. São coisas inteiramente distintas. Por exemplo, os EUA são um país democrático mas não se subrdinam ao Direito Internacional. A Rússia, pelo contrário, não é democrática mas, a menos que a provoquem, subordina-se ao Direito Internacional.

A Rússia necessita de conhecer, com clareza, as "linhas vermelhas" que não deve ultrapassar

Eu diria que os EUA e a NATO é que necessitam de conhecer essas linhas. E as linhas são claras: os EUA e a NATO não se devem imiscuir em países que fizeram parte da antiga URSS (com exceção dos bálticos, e mesmo assim), como sejam a Ucrânia e a Geórgia. Quem tem violado linhas vermelhas não é a Rússia, são os EUA e a NATO.

Anónimo disse...

Porra já me voltaram a ir ao bolso, segundo o correio da manhã os larápios que tem gerido a caixa roubaram-me 600 euros, isto para já. Quanto ao tema em si, desta vez concordo com o Freitas no seguinte ponto: quando ele afirma que efetivamente apenas De Gaulle os tinha no sitio para cnfrontar o poder hegemónico dos Estados Unidos no bloco ocidental. Quanto ao governo da Ucrania toda a gente que sabe pensar, sabe que se trata efetivamente de fascistas iguais aos que estão em Bruxelas. Porque não tenho qualquer duvida que a actual União Europeia é desde há várias décadas uma organização fascista e com politicos altamente execráveis, incluindo os portugueses. Quanto á deputada que foi morta na Inglaterra, claro que não gosto de violência, mas ficaria com mais pena se fosse um pobre trabalhador ao regressar a casa.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura confunde poder democrático com Estado democrático. Um poder democrático é aquele que respeita a ordem democrática internacional. Ponto.

Reaça disse...

A Europa já não conta há muitos anos.

O pouco respeito que lhe merecem russos e americanos e chineses, e árabes é mera cortesia.

Os europeus já nem se reproduzem.

Fonix!

Anónimo disse...

A NATO continua a ter um papel fundamental como garante da paz e segurança no mundo e em especial na Europa. Onde estariam hoje a Polónia, Estónia, Lituânia e Letónia face aos ímpetos de "reconquista" de Moscovo? Talvez vez já com uma parte do seu território debaixo das botas russas a exemplo do que sucedeu na Crimeia e em partes da Ucrânia.

Não creio que haja exagero nas medidas que agora vão ser tomadas pelos Aliados.

Não se devem esquecer os actos de guerra que Moscovo praticou contra os países bálticos quando atacou a sua infraestrutura informática, colocando em risco vidas humanas e impossibilitando o seu normal funcionamento.

Se a NATO não existisse e esses países não fossem membros, certamente que Putin já teria tentado repetir os gestos do seu antecessor Stalin e ocupar esses países. Só não o faz hoje porque tem os EUA e a NATO pela frente.

Quanto alargamentos da Aliança Atlântica, creio que devem parar, com a possível excepção da Finlândia, se esse país o desejar.

A NATO é uma organização de segurança credível e eficaz, ao contrário da UE, que lamentavelmente no domínio da segurança e defesa vale zero.

Antonio Cristovao disse...

Até que enfim vejo uma afirmação que defendo há anos; ainda por cima por quem sabe.

Jaime Santos disse...

A recente crise na Ucrânia e a anterior crise na Geórgia, que contaram com o beneplácito dos EUA, acabaram por cair como sopa em mel nas pretensões hegemónicas da Rússia, que ainda não engoliu a perda do seu estatuto de potência imperial. Como nem os EUA nem a UE estão dispostos a um conflito com a Rússia que envolva botas no terreno (como a crise síria também mostrou), eu diria antes de tudo que com a Rússia não se brinca (como já foi provado sobejamente, pelo menos desde Napoleão). Tal conflito arriscar-se-ia igualmente a degenerar numa III Guerra Mundial. A Rússia precisa de perceber que uma eventual violação da soberania dos Países bálticos implicará uma activação do artigo 5º. Quanto ao resto, os Russos têm conduzido uma estratégia inteligente na Síria, e vai ser preciso negociar com eles. Quanto à ocupação da Crimeia é um 'fait accomplis' e no que diz respeito às restantes províncias da Ucrânia, será preciso explicar aos ucranianos que não valem os ossos de um único granadeiro da Pomerânia, ou de qualquer outro País da NATO, por isso é preciso que se entendam com as populações separatistas... Quanto a eventuais alargamentos da NATO, nem pensar... Costa é um excelente negociador e poderá bem lembrar a Obama enquanto estiver na Casa Branca, ou a Hollande enquanto estiver no Eliseu, que as tentações provocatórias em relação à Rússia, ainda por cima 'half-hearted', deram muito maus resultados num passado muito recente...

Joaquim de Freitas disse...

« Poder democrático », “Estado democrático » ! Qual foi aquele que permitiu aos EUA de invadir o Iraque? E que permitiu recentemente de bombardear a Síria, sem o aval da ONU nem do governo Sírio? O Poder ou o Estado? Eu direi que não existe um nem outro nos EUA. O poder das Oligarquias sim, isso existe. Também votam em eleições livres. E que importa o resultado! Mas frequentemente, a democracia satisfaz-se de fazer votar o povo. Mas quem faz as leis? E para quem?

A violência guerreira espalhou-se por todos os lados há uns tempos para cá. Existe um denominador comum em todos estes conflitos. Os media, controlados pela potência do capital, em todos os países, querem fazer-nos engolir pela força a “sua” verdade, isto é, que os Ocidentais, EUA mais a Europa , intervêm para a “Democracia” ! Muito bem. Mas toda a gente pode constatar que o resultado deste intervencionismo todos azimutes é o aumento do caos, da violência mais bárbara e do obscurantismo.

Os media querem assim justificar o aumento do orçamento militar da NATO, e proximamente a intensificação das hostilidades. O capitalismo está em crise, e propõe o quê? O social fascismo, a social-democracia e o obscurantismo religioso.

Não esquecer que as primeiras fagulhas deste “novo” islamismo radical que nos ataca foram acesas no Afeganistão pelos EUA, contra a União Soviética…

O último incêndio islamista de Daesh forneceu pretexto aos EUA para voltar ao Iraque.

E foi também o pretexto para intervir na Síria, onde a sua, (quero dizer “americana)” tentativa de “revolução” manipulada e assassina, “trabalhada com o apoio de Israel começava a fracassar completamente.

Na Ucrânia o golpe de “Euromaïdan” não teria resultado sem as suas tropas de choque néo nazis, e o governo de Kiev depende inteiramente destes fanáticos bárbaros para esmagar a República do Dombass.

E é nesta lama sanguinária que se arrastam os nossos Estados “democráticos” do Ocidente, que constituem a Europa.

Anónimo disse...

Joaquim Freitas

Por favor não se deixe levar pela propaganda russa quanto à extrema direita ucraniana.
A relevância desses grupos, que se consideram herdeiros de Bandera é extremamente limitada.

Vá a Kiev, Odessa, Dnipropetrovsk e veja a sua inexistência.

A revolução na Maidan resultou de uma maioria clara da população que se deixa iludir com a ilusão de poderem vir a fazer parte da União Europeia.

Quanto à região Este da Ucrânia, que está ocupada por gente a soldo de Moscovo, ela só se mantém assim devido ao apoio russo, pois de outra forma já estaria reintegrada na Ucrânia.

Joaquim de Freitas disse...

Ao anónimo das 21:41

Em 1920, o Nationalsozialistisch Deutsche Arbeiterpartei só tinha 60 aderentes, e Hitler , na sua primeira reunião não teve mais de 2 000 pessoas. Em 1945 tinha 8,5 milhões de aderentes.

E a Ucrânia, a Georgia e os antigos países de leste estão a soldo de quem? Qual é a Nova Europa da qual falava Rumsfeld?

Gostava de saber qual seria a reacção americana se a Rússia se interessasse ao México ou ao Costa Rica ... Como quando a URSS se interessou a Cuba ?

ignatz disse...

o stoltenberg é paranóico e suficientemente maluco para provocar uma guerra.

Joaquim de Freitas disse...


IGNATZ : Sim, Stoltenberg, o louco, que perante uma montagem "saloia" dum jornalista do "Washington Post" sobre um suposto ataque cibernético Russo contra os computadores de Donald Trump, para conhecer o seu programa, como se não fosse possível lê-lo no 'Publico" e no jornal mesmo, declarou no jornal alemão "Bild:" :


" A NATO poderia reagir a futuros ataques informáticos utilizando armas clássicas ! "
Um ciberataque pode ser considerado como um "caso" para a aliança. A NATO, então, pode e deve reagir. Como ? Depende da gravidade."

Esta "intox" deste louco da NATO, faz-me lembrar a outra "intox" , a do Golfo do Tonkin, que levou à guerra do Vietname.




Anónimo disse...

Ao Anónimo 17 de junho de 2016 às 21:41

Considera a relevancia dos grupos de extrema direita limitada.
Se tivesse passado por Odessa (como voçê mesmo sugeriu) no dia 2 de maio de 2014 teria tido oportunidade
de ver como (como voçê mesmo refere) a inexistencia dessa gente.

Deixo-lhe um artigo repleto de fotografias a provar as suas afirmações

http://www.globalresearch.ca/how-neo-nazi-thugs-supported-by-kiev-regime-killed-odessa-inhabitants-photographic-evidence/5380504

Joaquim de Freitas disse...

O anónimo das 21:41 não está interessado pelos factos e as provas. O anónimo "distribuiu" a sua propaganda e foi-se embora. Odessa "foram os outros", como o Reichstag, em Berlim , em 1933, também veio a proposito e também foi o" outro." O método é conhecido.

o Merceeiro disse...

nunca me tinha sido dada uma definição TÃO PERFEITA para heterónimo.