sexta-feira, 6 de maio de 2016

Obama e o mundo


Notei o desapontamento em muitas caras quando, na tarde de hoje, no painel de encerramento da 2ª Conferência de Lisboa, afirmei que Obama nos vai deixar um mundo mais inseguro do que aquele que existia ao tempo em que assumiu funções. Apesar da liderança demonstrada na negociação nuclear com o Irão e da descompressão nas relações com Cuba (numa "esquina" da ilha, chamada Guantanamo, não cumpriu o que prometeu), o saldo da política externa de Obama é medíocre.

Claro que gostei do discurso do Cairo, como agora apreciei o de Hanover, mas a paz e a segurança não se fazem com palavras. A sua gestão das "primaveras árabes" foi péssima, com responsabilidades muito sérias, partilhadas com a França e com o Reino Unido, na exploração ilegal do mandato do CSNU quanto à Líbia, com as consequências à vista das costas europeias. Quanto a Israel, mostrou a tibieza habitual dos presidentes democráticos e não deu um único passo relevante na resolução do conflito - embora Telavive continue a ser mantido como o principal recetor da ajuda externa dos EUA. No Iraque, a diplomacia americana foi um completo desastre, o "phasing-out" do Afeganistão é pavoroso e nada conseguiu fazer no caso importantíssimo do Paquistão. Grande parte da tragédia da Síria deve-se ao desregramento de toda essa zona e, salvo o compromisso das "armas químicas" (com Lavrov a ajudar), os EUA revelaram uma falta total de estratégia para a região. Obama não é culpado pela emergência do Estado Islâmico, mas a América é a grande culpada do desmembramento regional que lhe facilitou o surgimento e expansão. Mas serão os EUA responsáveis por não resolver problemas dos outros?, perguntarão alguns. Eu respondo: são, porque, no essencial dos casos, foram eles que ajudaram fortemente à sua eclosão. O presidente de um país que se arroga o direito de intervir em todo o mundo, na defesa dos seus interesses, tem a responsabilidade de ter de responder pela sua ação global. 

Para o que à União Europeia importa, Obama deixou-se envolver pela agenda da "nova Europa" (e pela Alemanha) no conflito ucraniano, que já havia conseguido contaminar setores de Bruxelas, a começar pela Comissão. O resultado é o que se vê: Moscovo "empochou" a Crimeia, empatou o conflito e controla a crise, com Putin mais popular do que nunca. Do lado de cá, a NATO (que é um "heterónimo" dos EUA) foi obrigada a instalar no seu seio um certo pânico e a descrispação parece agora pouco provável.

Se não nos sair em rifa Trump, teremos Hillary Clinton a suceder a Obama. A senadora democrática que esteve ao lado de Bush na invasão sem mandato do Iraque, que teve um gestão "republicana" do State Department e que tem um postura internacional muito ao estilo da "guerra fria", promete uma presidência '"hawkish" e confrontacional com Moscovo, com tensões que não deixarão de provocar clivagens na NATO e na própria Europa. Essa é também uma das partes da herança (negativa) de Obama.

A eleição de Obama foi, para mim, uma imensa alegria. Como homem, é uma figura respeitável, vê-lo na Casa Branca foi um salto importante para o mundo e tomou algumas decisões internas muito corajosas. Porém, no plano diplomático, foi uma imensa desilusão.

13 comentários:

Manuel Silva disse...

Caro Senhor Embaixador:
É precisamente o que eu penso e tenho dito amiúde aos meus amigos.
A herança de Obama em politica externa, com especial destaque para o Médio Oriente e Norte de África, está ao nível do desastre iraquiano de Bush Filho.
Foi uma presidência simbolicamente muito positiva, por ter sido o 1.º negro no cargo: lembro-me da previsão desencantada de uma conhecida escritora americana, de que neste momento não recordo o nome, que previa o pior: que o assassinassem.
O que felizmente não aconteceu até agora, sendo pouco espectável que ocorra até ao final do mandato.
Contudo, na política interna foi bastante eficaz nestes tempos conturbados: Obamacare, crescimento da economia, etc.
O termo de comparação é a UE em matéria de crescimento (só visível no superavit alemão).

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador
será que esse tipo de politica externa "enriqueceu" ou "empobreceu" quem tem poder ? não encontro estudo sobre os resultados ?

Anónimo disse...

Obama cumpriu quase tudo o que prometeu. Começou por pedir desculpas pelos "pecados" da América. Colocou-se de joelhos perante o mundo e os inimigos da América.Jurou que o excepcionalismo americano não existia. Garantiu a Putin que a América iria ser complacente com a sua agenda após as eleições. Putin agradeceu. Garantiu aos mullahs iranianos o fim das sansões e a possibilidade de sucesso do seu plano nuclear. Garantiu no Cairo que a primavera árabe seria apoiada pelos Americanos e fomentou a subida ao poder da Irmandade Muçulmana. Forneceu armas aos rebeldes da Siria e da Libia. Muitas destas armas foram fortalecer o Estado Islamico. Depois garantiu que o Estado Islamico era um JVTeam, uns amadores, que não seriam ameça para ninguém. Hipotecou a confiança dos aliados da europa de leste na amizade americana. Hostilizou Israel durante estes 8 anos.Passou 8 anos a proselitar em favor do islão, chegando ao cumulo de mandar calar os cristãos que criticam o islão e a sua visão intolerante do mundo, recordando as cruzadas.Falou ao mundo 3 dias antes dos atentados de Paris garantindo que o terrorismo estava derrotado. Tornou a América mais socialista que nunca e com uma sociedade mais polarizada e radicalizada. Realmente o legado de Obama será uma coisa para recordar durante muitos anos. Hilary ou Trump dificilmente conseguirão fazer pior.

Anónimo disse...

Embaixador, concordo em quase tudo o que ai diz. Recordo que em 2008, quando estavam a decorreras primárias americanas, a media internacional e outros circos habituais já tinham colocado Obama no poder. Muito sinceramente não sou do tipo que me deixe encantar por um negro presidir a uma grande nação ou a uma mulher presidir um emergente. Se fossem as cores ou o género a determinar a categoria, mas não é. Resumindo Obama foi mais do mesmo e penso que de uma vez por todas "os romanticos" dos direitos civicos e de outras coisas esquesitas terão visto que é tudo farinha do mesmo saco.

Joaquim de Freitas disse...

Obama foi o que o verdadeiro poder na América, as oligarquias militaro financeiras , o autorizaram a ser . Nem mais nem menos.

E o mundo será também o que a América o deixará ser. Os únicos capazes de bater o pé aos Americanos são os que aceitam de se sacrificar até à morte. Exemplo: Os Vietnamitas, os Afegãos, e poucos mais.

Os donos do mundo estabeleceram uma linha vermelha inultrapassável.

Obama faz-me pensar no valor das eleições nos países ditos democráticos: uma fachada para que se pense que a liberdade existe. Mas na realidade, sabemos que não existe liberdade sem meios decentes de subsistência, sem educação, sem saúde, sem dignidade humana.

Obama fez sonhar o mundo inteiro porque era Negro, pertencia a uma minoria americana, descendente de escravos. Mas os seus irmãos de raça continuam a ser assassinados nas ruas das cidades americanas porque, são: Negros. No fundo, os brancos continuam a ser racistas.
São os mesmos que ontem expulsaram Charlie Chaplin da América, porque, diziam que era comunista. Mas ninguém fala hoje de Gary Cooper, que denunciou Chaplin, mas continua a falar-se de Chaplin, imortal no mundo do humanismo.

A América, o sonho Americano, que Hollywood vendeu ao mundo inteiro, defensor dos valores de civilização, não só semeou a morte e a destruição no mundo desde o fim da última guerra, mas foi Putine que fez tocar a Orquestra Sinfónica de São Petersburgo, ontem, nas ruínas de Balbeck reconquistada pelos Russos. Com os soldados iraquianos, sírios e russos, assim como os habitantes libertados de Daesch nas bancadas do teatro romano.

A América é a falência universal duma nação que começou a sua existência com um genocídio e continua a alimentar a desgraça por toda a parte.

A América promete-nos Trump ou Hillary, isto é, a peste ou a cólera. Isto é, mais do mesmo, na linha de Bush.

Fui muitas vezes acusado de anti americanismo no seu blogue, Senhor Embaixador, por ter escrito mais ou menos aquilo que escreveu aqui hoje, mas em muito melhor Português.

Não ouso imaginar o que vai ser a Europa se o Tratado Transatlântico for assinado. Justificaria uma revolução à escala europeia para o derrubar.

Joaquim de Freitas disse...

Permita que acrescente, Senhor Embaixador, que se Obama foi a Cuba para deixar o seu nome na História, o embargo continua em grande parte e Guantanamo também. A política de fundo não mudou.

Anónimo disse...

ó Joaquim Freitas, eu tenho que você tem grandes conhecimentos e concordo amiude com muito do que pensa e escreve, mas tem coisas em si que me irritam. Diz ai que o Obama fez sonhas o mundo porque era Negro, está a dizer que os Negros são mais capazes que os outros? onde como, eplique lá isso. Por outro lado diz que os negros continuam a ser mortoas nas ruas dos Estados Unidos só por serem negros, acredita mesmo nisso? e então os brancos que lá morrem só por serem brancos, muitas vezes assassinados também por negros. Para si se um negro morrer é racismo, se um branco morrer não é. Tenha paciência. Atenção que não sou racista, agora não entro é nisto tipo de patetices.

Anónimo disse...

Barack Obama veio, sorridente, à Europa pedir a sua unidade. Mas veio, sobretudo, tentar que o acordo comercial entre europeus e americanos (o chamado TTIP) avançasse a todo o vapor. O certo é que este acordo está já ferido de morte. Se o comércio é bom para os povos, a forma como os norte-americanos o encaram seria um golpe mortal no sector agrícola europeu (tal como o conhecemos, desde a diversidade de sementes às formas de produção) e na própria democracia e no poder dos Estados. Os documentos que a Greenpeace divulgou são exemplares sobre aquilo que foi sendo negociado em segredo entre os EUA e os burocratas de Bruxelas, longe do olhar dos cidadãos. É demasiado grave para passar incólume entre duas piadas de Obama. Há, nesta tentativa de acordo, uma questão de princípios em jogo. E, depois, o TTIP é um ataque frontal à soberania democrática e às leis, regras e princípios dos Estados. A tentativa de criar um sistema judicial paralelo ao existente, exclusivamente para ser utilizado pelas empresas, seria um descalabro. Ele permitiria às empresas processar Governos perante um tribunal de advogados ligados a elas próprias. Poderiam desafiar as leis que não lhes agradam e conseguir indemnizações inimagináveis. Há nisto tudo um ambiente parecido à criação de um Frankenstein. Como acordo comercial livre deixa muito a desejar: nele uns são mais livres do que os outros, apesar de todos parecerem iguais. Este TTIP é uma espécie de "pós-democracia" (que, por exemplo, os burocratas de Bruxelas defendem na prática), onde as velhas estruturas como as eleições e Parlamentos permanecem, mas não têm poder político real. O poder moveu-se para outros sítios, pequenos círculos onde as elites políticas fazem acordos com os lóbis das multinacionais. Criar tribunais que fogem às regras da lei, é uma forma de pós-justiça. De acordo com as estatísticas oficiais, o TTIP levaria a perder-se mais um milhão de empregos na Europa (o que seria mais um passo rumo ao caos, face à pressão migratória existente). A forma como tudo foi negociado (num segredo enorme) demonstra mais uma vez o défice democrático existente na Europa, que é bem visível noutras áreas. A Europa, com a pobreza visível dos seus líderes, caminha para um território minado. Este caso do TTIP mostra isso mesmo.

alvaro silva disse...

Que comentadores mais racistas! Obama nem é alvo nem negro, nem preto nem branco: -É MULATO e isso refletiu-se na sua política, nem carne nem peixe antes pelo contrário, deixando um mundo bem pior por obra sua, pode ser que tenha saída como vendedor de roupa!

Joaquim de Freitas disse...

Vou abrir uma excepção, respondendo ao Senhor Anónimo das 15 :00 de ontem. Não gosto de responder a gente sem nome.

Mas quando escrevo que Obama fez sonhar o mundo, foi já pelo facto de ter sido eleito num país onde os direitos cívicos dos Negros foram e são ainda hoje negados por uma maioria de brancos. O facto ,duma certa maneira, de ter realizado o sonho de Martin Luther King. O mundo inteiro pensava que Obama iria realizar a união de todos os Americanos atrás da bandeira da democracia, que a eleição dum Negro parecia anunciar. Uma América melhor, esperava eu. Finalmente foi o que se viu. E mesmo se algumas medidas na política interior foram no bom sentido, no plano exterior foi, como muito bem explicou o Senhor Embaixador, lamentável. O mundo é mais perigoso hoje que ontem, antes da sua eleição. Mais nada.

Nunca escrevi que os Negros são mais inteligentes que os Brancos; e o contrário também não. Mas a maneira como apresenta a sua questão demonstra já, em si, um racismo real.

Conheço muito bem os EUA, onde fui todos os três meses, durante vinte anos. A América real, a América das fábricas e na convivência com muitas famílias americanas. Sei o que pensam dos Negros, como aliás dos Hispânicos. O racismo é patente por todos os lados.

Quanto aos homicídios, se está interessado, pode consultar o banco de dados realizado pelo “Wall Street Journal”, compilando as estatísticas da polícia. E verá assim, que no total de 165 068 assassinatos nos EUA, entre 2 000 e 2010, mais de 5 000 são cidadãos Negros, assassinados pelos Brancos, e a primeira “circunstância” indicada é a polícia. No caso dos mortos Brancos, a mesma circunstância, isto é a polícia, vem em terceiro lugar. A polícia tem o gatilho mais fácil com os Negros que com os Brancos. Isto é sobejamente conhecido de todos. E o que é grave é que a tendência é para o aumento em todos os Estados.

Manuel Silva disse...

Senhor Álvaro Silva:
Já o senhor é sempre carne ou sempre peixe, sabe sempre bem de que lado da barricada ideológica está.
Do lado da interpretação maniqueísta e fanática que vê o mundo a preto e branco, uns, os nossos, sempre bons, outros, os inimigos, sempre maus.
Independentemente do que uns e outros fizeram.
O Iraque e o desemprego nos EUA deixados pelo antecessor de Obama (de que certamente muito gostará), Iraque cuja situação interna piorou sempre desde a intervenção Bushiana e o desemprego que deixou, reflectido na popularidade dessa personagem no mais baixo nível de sempre quando abandonou a Casa Branca, são dois bons exemplos do mundo maravilhoso deixado por quem certamente muito considerará.
Quanto à política externa de Obama, parta do post e leia os comentários todos, a começar pelo primeiro, que por acaso é meu.
Quanto à política interna com reflexos na economia: nunca se esqueça de que houve a maior recessão mundial desde 1929 e de que se está perante a maior globalização no mundo de que há memória.
E compare a situação dos EUA com a da Europa, esta capitaneada por duas personalidades de que certamente muito gostará: Merkl e Schäuble.
Mas se calhar é demasiada areia para a sua camioneta, alimentada de fanatismo ideológico e oleada com maniqueísmo.

Anónimo disse...

Ó Joaquim Freitas, fala ai em negros mortos pela policia, em que situações terão ocorrido? por outro lado, engana-se quando diz que sou um racista real, apenas não entro em certos "joguetes". Quando ai diz que ficou desiludido com a gestão Obama, isso deve--se quanto a mim ao seu excesso de dogmatismo. Para mim não existiu nenhuma desilusão, porque simplesmente não lhe dei o cre´dito que muito "intelectualoide" dogmático lhe deu.

A.Teixeira disse...

Excelente análise. Aprende-se por aqui.