terça-feira, 10 de maio de 2016

Dr. José Aguilar



Esta imagem tem muito de rural ou, no mínimo, de periferia urbana. E, contudo, as aparências iludem. O caminho que aqui se vê não está, em linha reta, a mais de cem metros do centro da cidade de Vila Real. Era por ali que eu ia para a escola primária. Era assim Vila Real.

Descobri ontem esta fotografia (e copiei-a com o iPhone), numa exposição organizada pelo Museu do Som e da Imagem de Vila Real, que reúne trabalhos fotográficos antigos do dr. José Aguilar, um dos escassos nomes da advocacia local desse tempo, figura desaparecida já há 35 anos.

José Aguilar era uma personalidade bastante interessante, um profissional destacado do foro, com obra ficcional publicada, muito bom cultor da língua. Tinha um perfil físico caraterístico, que sempre me evoca a imagem que criei do brasileiro urbano que via na "Manchete" ou na "Cruzeiro": homem ligeiramente avantajado, escasso cabelo puxado para trás, bigodinho fino, elegantemente vestido, creio que fumador de boquilha (mas posso estar enganado). Usava chapéu e recordo bem a sua figura a passear na avenida onde ficava o seu escritório ou a passar, pausado, nos corredores do "Club" da terra. Tinha um tom de voz algo roufenho, que o filho homónimo herdou.

Há alguma razão particular para me lembrar desses pormenores de um advogado de Vila Real? Provavelmente, muitas pessoas da minha geração terão gravadas na sua memória impressões idênticas: sobre o dr. José Aguilar bem como sobre algumas escassas dezenas figuras dessa Vila Real de então. Não muitas mais. Porque a cidade - e era assim em Vila Real como o seria certamente em Viseu, Leiria ou Portalegre - "eram" essas figuras. 

Vila Real era um mundo muito pequeno, claramente identificado nos seus contrastes, em que alguns nomes sobressaíam e, com naturalidade, marcavam a paisagem urbana que o miúdo de então que eu era iria fixar para sempre. Havia uma meia dúzia de advogados na cidade, uma dúzia de médicos, um grupo maior de professores do liceu cujos nomes todos conhecíamos, ao lado de outros profissionais de destaque. Eles eram o "establishment", uns com mais poder e influência, outros relevados pelas importância local das suas ocupações. Eram algumas dezenas de personalidades conhecidas, do comércio à função pública, do exército aos "proprietários" ou "capitalistas". Alguns eram intelectuais nas horas vagas, gente que dava umas horas à escrita e às ideias, como era o caso do dr. José Aguilar.

Pergunto-me o efeito que projetará nas novas gerações vilarrealenses uma exposição como aquela que ontem visitei, para além da curiosidade da descoberta, nas imagens, de pedaços reconhecíveis da cidade muito diversa em que hoje vivem. É que a graça que achamos à reportagem fotográfica do nosso passado é sempre irreproduzível e não é transferível. Por mim, devo dizer que passear pela Vila Real da objetiva do dr. José Aguilar me "rejuvenesceu", deu-me bastante prazer e dá-me agora o ensejo de enviar à sua família, em especial ao Zé e ao Jói, um abraço de velha amizade.

5 comentários:

Anónimo disse...

Recordo também na minha meninice o Doutor Aguilar na Gomes muitas vezes. Recordo o carro dele um boca de sapo e os cães normalmente pastores alemães no seu quintal no Diogo Cão.

Reaça disse...

Não é que sejam saudades do "Portugal cinzento" a preto e branco, mas chega a dar vontade de voltar a traz e começar tudo de novo, com menos espalhafato.

Mas agora...já foste!

Anónimo disse...

E será um bom pretexto para revisitar a "bila" desse tempo, sem ter de percorrer o recurvado Marão, aceitando também uma sugestão gastronómica aqui apresentada há dias.
Um abraço
Guilherme S.

Monteiro disse...

Estive de Outubro de 1968 a Janeiro de 1969 no quartel RI 13 a fazer a recruta. Estava imbuído de um espírito que me levou a penetrar e a conviver com as pessoas e a sociedade de Vila Real, coisa que eu fazia por todos os lados por onde passei. Para abreviar certa vez assisti a um colóquio algo sobre a Bíblia. Participei no debate e para minha surpresa no outro dia o bondoso do padre Henrique dizia-me que o chefe da polícia me tinha querido prender e só não o fez devido à intervenção dele por eu ter falado e discordado do que se dizia e todos ficaram espantados julgando-me alguém muito perigoso. Mais do que a rudeza dos caminhos era a rudeza do pensamento dominante que recordo e que me leva a dizer que preferi muito mais a Guiné do que a vida militar vivida em Vila Real.

Adriano Binetti disse...

Comentador Monteiro: O seu comentário foi dos mais realistas do que tenho lido nos blogues. O que refere é uma grande verdade,não só em Vila Real,mas em todo interior do país de norte a sul. Por grande influência dos cristas da época.