segunda-feira, 16 de maio de 2016

António Gomes da Costa


Acabo de saber que, por motivos pessoais, António Gomes da Costa deixou a presidência das várias instituições luso-brasileiras a que, por várias décadas, dedicou a sua vida e o seu empenhamento pessoal. Na história da comunidade luso-brasileira, poucas pessoas podem ombrear com António Gomes de Costa na sua devoção à tarefa de proteger, no Brasil, e com persistência, o bom nome dos portugueses, a dignidade da história lusa, a promoção da amizade entre os dois povos. Fê-lo através da sua intervenção cívica, da sua palavra na imprensa, da sua ação de acompanhamento, de direção e coordenação dessa notável rede de instituições, que em tempos foram geradas pelos portugueses no Brasil, fantásticos exemplos de realizações de que todos temos obrigação de nos orgulhar. Uma obra que é pena que não seja mais conhecida do que é, tanto por portugueses como por brasileiros.

Quando cheguei ao Brasil, em 2005, para assumir as funções de novo embaixador português, Gomes da Costa sabia que tinha à sua frente alguém de quem estava bastante distante no plano das ideias políticas. Por razões que não vêm aqui para o caso, e que o curso histórico ajuda a explicar, há setores da nossa comunidade no Brasil nos quais permanece uma afetividade ao tempo que precedeu a rutura política ocorrida em 1974. A circunstância dessa comunidade ter passado a integrar, após o 25 de abril, figuras do mundo político e económico que então buscaram refúgio no Brasil, face aos ventos revolucionários que, à época, sopravam em Lisboa, criou por ali um caldo de cultura conservadora que, como é natural, muito marcou a matriz política de algumas - ainda que não de todas - as instituições luso-brasileiras. Acresce, nesse contexto, que muitos portugueses que viviam até então na África tutelada pelo regime português, e que, em desespero, foram viver para o Brasil, reforçaram com naturalidade esse sentimento. Isso é simbolizado, até hoje, em alguma iconografia de figuras do Estado Novo que sobrevive nos salões de muitas dessas instituições, memória de um passado que alguns entendem dever continuar a reverenciar. Como é do seu pleno direito.

Um embaixador de Portugal é o embaixador de todos os portugueses que vivem no país onde está acreditado. Representa o chefe do Estado, a República e a democracia, mas tem de entender que pode haver, na comunidade desse país, quem tenha ideias que contrariam os valores que lhe cabe afirmar e promover. Isso não o deve impedir de tratar esses portugueses como quaisquer outros, porque a tal o obrigam as regras do Estado democrático que lhe cumpre defender e aplicar. Essa é, a meu ver, a superioridade moral das democracias.

É aqui que devo uma palavra de reconhecimento e muito respeito a António Gomes da Costa. Sabendo quem eu era, conhecendo as minhas ideias e as nossas diferenças, Gomes da Costa soube, com grande inteligência, desenhar um terreno de integração do novo embaixador em setores da comunidade onde figuravam muitas das idiossincrasias que referi, num entendimento subliminar onde prevaleceu sempre o muito que nos unia - o interesse de elevar o nome de Portugal e da dignidade da comunidade luso-brasileira. Recordo, como uma memória muito positiva, os muitos momentos gratificantes que passei nessa segunda "embaixada" portuguesa que é o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, em eventos de diversa natureza, ao lado de António Gomes da Costa, que aí foi por muitos anos a figura referencial. E quero dar público testemunho de que, em todas as ocasiões em que procurei o seu apoio para iniciativas em que o seu auxílio podia ser necessário, obtive sempre a sua imediata atenção desinteressada - ou melhor, sempre interessada em contribuir para tudo o que pudesse ser útil à promoção dos valores portugueses no Brasil. Devo-lhe um sem número de atenções e, no momento em que abandona a sua generosa entrega às causas da comunidade, quero afirmar-lhe a minha sincera gratidão e admiração, na qualidade de antigo embaixador de Portugal.

Termino com uma nota um pouco mais pessoal. Um dia, eu e António Gomes da Costa demo-nos conta de que, em tempos comuns mas com um oceano de permeio, ambos havíamos trabalhado para essa grande instituição estatal que é a Caixa Geral de Depósitos. É assim ao meu amigo, mas também ao ex-colega, António Gomes da Costa que aqui deixo um forte abraço.

6 comentários:

Casimiro Rodrigues disse...

Eu gostaria de aqui deixar minha particular opinião de simples cidadão português na diáspora: O Dr Francisco Seixas da Costa , foi o melhor, Embaixador que Portugal teve no Brasil, que mais respeitou e escutou os anseios dos Cidadãos, portugueses ou não. Pelo que sei, nunca deixou um telefonema, uma carta , um email sem resposta. Muito Obrigado Sr Embaixador, o Sr foi o Embaixador que serviu a Nação e o Cidadão. Obrigado!

Anónimo disse...

Antonio Gomes da Costa é um Amigo com A grande e um Português com P grande. Trabalhámos juntos durante mais de 20 anos e só relembro coisas boas. Além daquilo que o Francisco escreve, teve a inteligência de abrir o " nosso Real" a pessoas de outros sectores, nomeadamente da vida cultural luso-brasileira. Recordo o Pólo de Pesquisa, que sob a liderança determinada de Gilda Santos, Vice-Presidente da instituição, tem realizado um notável trabalho de valorização dos fundos da biblioteca, a maior sobre temas portugueses fora de Portugal. O Antonio merece agora uns longos dias de descanso e espero que os seus sucessores mantenham a chama viva e que Portugal e o Brasil apoiem o Real Gabinete como ele merece.

JPGarcia

Joaquim de Freitas disse...

"Um embaixador de Portugal é o embaixador de todos os portugueses que vivem no país onde está acreditado. Representa o chefe do Estado, a República e a democracia, .... porque a tal o obrigam as regras do Estado democrático que lhe cumpre defender e aplicar. Essa é, a meu ver, a superioridade moral das democracias.

Muito bem Senhor Embaixador. Esta sua qualidade é a que me incita, contra ventos e marés (!) a andar pelo seu blogue. Muito obrigado.

Anónimo disse...

Senhor embaixador, esse é um texto adequado para ser lido numa sessão solene numa associação portuguesa. Outra coisa nem se admitiria. Mas quem conhece a tradicional comunidade portuguesa no Brasil, os seus clubes e associações, entre as sessões literatas e as festas folclóricas, debaixo do retrato do Salazar, tudo conservado em formol, fica sem entender em que é que isso eleva o nome de Portugal e dignifica as comunidades luso brasileiras.

Anónimo disse...

Enquanto uns defendem com orgulho a História e cultura portuguesa pelo mundo, casos do citado Gomes da Costa e do próprio Embaixador Seixas da Costa, porque sendo o Embaixador de esquerda como eu sou, não entra na idiotice de muitos portugueses de criticarem a nossa História e a nossa cultura muitas vezes fora de portas para gaudio de uma data de ressabiados desses antigos povos colonizados.

Isabel Seixas disse...

faz muito bem em partilhar connosco, é tão agradável conhecer pessoas.