terça-feira, 31 de maio de 2016

A vingança de um transmontano


Estávamos no belo e espaçoso jardim em volta daquela nossa embaixada, num país da África Oriental. Recordo-me de estar a beber um Pimm's, a bebida mais adequada para o cenário pós-britânico em que nos encontrávamos, nesse final de tarde, com uma temperatura deliciosa, descansando depois de muitas horas de "jeep" a atravessar um deserto, vindos de outro país, onde havíamos participado numa reunião internacional.

O embaixador português e a sua mulher, pessoas muito agradáveis e educadas, haviam insistido para que parte da delegação que acompanhava o membro do governo português ficasse instalada com ele na residência, fugindo ao ambiente inóspito do hotel.

A conversa ia boa e solta. Já não sei bem porquê, falou-se de música e, de repente, dei comigo a elaborar, de forma muito crítica, sobre as letras das canções de alguns dos mais conhecidos intérpretes da nossa praça, atacando o seu sentido "popularucho" e a sua frequente deriva para o facilitismo. O meu discurso aproximava-se, a passos largos, do inevitável "name-dropping" quando comecei a notar, na cara do meu colega António Monteiro, uns esgares um tanto estranhos, que não me pareciam derivados do sabor do Pimm's. Outro diplomata presente, o João Salgueiro, fazia-me sinais crípticos. O Manuel Lopes da Costa, sempre imperial na sua barba branca, arregalava-me os olhos. Só o membro do governo se mantinha, como o estatuto porventura exigia, numa serena e impenetrável impassibilidade. O embaixador, esse, sorria.

Foi então que a embaixatriz, delicada e inteligente, com um tato superior, atalhou: "Você tem toda a razão. Esses cantores e compositores, às vezes, vão por caminhos um tanto ridículos. Tenho avisado disso, para que procure evitar esses erros, o meu irmão, o José Cid. Acha que ele caiu nesse pecadilho?".

Escondi-me atrás da palhinha do Pimm's, porque, infelizmente, aquele imenso jardim não tinha um buraco para eu me meter...

(a propósito da atualidade, apeteceu-me repetir isto)

14 comentários:

Majo Dutra disse...

~~~
Divertido, FSC.

O Cid sempre me pareceu uma pessoa de trato rude,
ao contrário da irmã, como pude constatar aqui.

Kkk-kkk... Não resistiu a uma 'vingancinha'...

ignatz disse...

eu gostava era de conhecer a playlist anotada do embaixador. bater nos pimbas é preconceito social de quem não tem nada para dizer sobre musica. a diferença entre josé cid e francisco seixas da costa é que o primeiro marcou uma geração, não caiu no esquecimento e deixa obra, o outro não marcou nada, não chegou a esquecido porque ninguém se lembra e deixa relatórios que ninguém lê. apesar do embaixador aparecer mais vezes na comunicação social, aquela coisa que torna os cinzentos mais coloridos, é conferir a popularidade pelas entradas no google, cid 15.800.000 vs embaixador 375.000.

Anónimo disse...

Ui! São da terra onde só se come pão escuro? Ouviu a minha Mãe no algarve há muitos anos.
Também há muitos anos ouvi eu: É mais fácil ir a Moscovo jogar do que a Chaves!
Agora este!...
E a saga vai continuar! Mas como dizia um amigo: se as autoridades locais não estivessem de férias ele havia de ver…
Mas, como todos, a embaixatriz não escolhe familiares e gostará dele certamente!

Francisco Seixas da Costa disse...

Aconselho aos leitores deste blogue o comentário do ignatz. A sério! É um modelo do que a internet nos proporciona. Exemplar!

Anónimo disse...

O Sr. Embaixador sabe bem o que aqui (província de Trás-os-Montes e Alto Douro) se pensa e por vezes se diz sobre “análises” do género, que são típicas de onde vêm: Que tem a ver o cú com as calças? Não é?
Mas se quiser “disfarçar” a sua naturalidade pense na última frase do seu post anterior.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, onde foi arranjar o ignatz? (o prefixo ign será de ignorante?)
Trate bem dele, dá sempre um toque de humor a esta caixa de comentários.

Sofia

Anónimo disse...

Com a idade, as reminiscências dão sinal de vida.José Cid, não se livra das suas"reminiscências" e o elitismo.... aparece.

Um Alentejano.

Anónimo disse...


Quer com a recente polemica sobre o Alentejo ( por causa de um livro de memórias ) quer com esta do José Cid e os transmontanos, aprendi o seguinte. Aprendi mais sobre os alentejanos e os transmontanos com a intolerância dos seus ataques e a violência das suas respostas, do que com tudo o resto. Pobre país que tem gente tão indignada por tudo e por nada e que não se sabe rir de si mesma.

Anónimo disse...

Relativamente ao José Cid, eu como Transmontano coloquei-lhe a titulo particular uma acção civel em que peço indmenização por danos morais. Pode não dar em nada, mas ele vai ter que provar que eu sou desdentado ou medonho, seja no campo fisico ou cultural. O que lhe puder sacar vou sacar com todo o prazer. Acho que mais pessoas o deveriam fazer.

Anónimo disse...

Relativamente a rir com situações, penso que a ultima vez que me ri a sério comigo mesmo foi quando vi uma ocasião o Pai do anónimo das 18:04 a espreitar pela janela do quarto de casa e o vi a sair e praguejar fortemente com alguma coisa que lá viu. Foi a ultima vez que ri comigo mesmo.

josé ricardo disse...

Eu li o ignatz. E subscrevo o convite do embaixador.
Quanto ao José Cid, é assunto absolutamente irrelevante.
Um abraço,
José Ricardo

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Isabel Seixas disse...

Relevante é o desinvestimento que tem havido na saúde oral se houvesse medicina dentária acessível a todos e incluída no sistema nacional de saúde operando também nas instituições públicas, ,Já pessoas como o sr. em questão que aliás já me fez cantar muito com gosto confesso, talvez agora com um pequeno travo a lástima, não ficasse tão afetado pelas aparências e conseguisse ver mais dentro, as pessoas maravilhosas que existem por aqui e os sorrisos maravilhosos que há sem dentes, mas essas visões não são extensivas a Todos, só a quem é capaz, de ultrapassar o medonho Que existe dentro de Si próprio e que se traduz no mais puro preconceito e ausência de noção do ridiculo...

Isabel Seixas disse...

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Isabel Seixas Seixas
8 h ·
uma boa desculpa não indemniza o prejuízo
cheques dentista e clinica dentária móvel cá para Trás-os Montes

Vou levar-te ao dentista
Vou levar-te ao dentista
Vou levar-te ao dentista Trás-os-Montes
Vou levar-te ao dentista

Ficar desdentado
reduzido o PIB
além de pisado
leva tromba ó Cid

desculpa não serve
de prótese dental
pôr dentes se deve
pagos pelo imberbe
coima por falar mal

Vou levar-te ao dentista
Vou levar-te ao dentista
Vou levar-te ao dentista Trás-os-Montes
Vou levar-te ao dentista

Olá transmontano
Que o mar nunca viu
grande ser humano
Que ao tempo sorriu

Parece medonho
Cantar desgarrada
Mas também é sonho
um rosto risonho
de cara lavada

Vou levar-te ao dentista
Vou levar-te ao dentista
Vou levar-te ao dentista Trás-os-Montes
Vou levar-te ao dentista

Adaptado e ritmo do poema da canção
Vou Levar-Te Comigo
Duo Ouro Negro