quinta-feira, 21 de abril de 2016

Uma raínha em Vila Real


Em Vila Real, a terra onde eu nasci, havia uma sala de espetáculos que tinha por nome Teatro Circo. As novas gerações vilarrealenses não fazem a mais pequena ideia do que isso era, mas talvez possam entender um pouco essa realidade de lhes for dito que o espaço onde existia essa curiosa sala fica perto do Pioledo, numa geografia entre o Barracão e o café Brasília. Se, mesmo assim, não conseguirem lá chegar, então nada feito! De todo o modo, creio que poucos dessa geração lerão este texto.

Numa tarde de fins de 1953 ou, mais provavelmente, de inícios de 1954, andava eu pelos meus seis anos, recordo-me de mim mesmo num camarote do Teatro Circo, levado por uma tia-avó, a visionar o filme da coroação de Isabel II de Inglaterra. Nunca consegui esclarecer se o filme era um documentário, antecedendo o filme principal, ou se constituía o essencial da programação dessa tarde (só sei que era uma tarde, porque, nessa idade, eu só ia a "matinés"). A primeira hipótese, contudo, era a mais provável.

Por uma qualquer razão, esse filme permanece como um dos primeiros da minha vida de espetador cinematográfico. (Esclareço, sem falsa modéstia, que nunca fui um grande cinéfilo, como nunca fui um grande melómano, como nunca fui um grande leitor de ficção, como nunca fui um grande cultor de artes plásticas, como nunca me deu para mentir sobre as minhas "habilidades" culturais).

Isabel II de Inglaterra permaneceu sempre, para mim, nesse remoto registo cinematográfico, até que as voltas da vida me colocaram um dia, em 1990, pessoalmente perante ela, ao tempo em que era ministro-plenipotenciário em Londres.

Numa noite, no palácio de Buckingham, fui-lhe apresentado (eu e umas centenas de outros diplomatas, diga-se) e troquei com ela umas breves palavras de circunstância. Isso viria a repetir-se em anos seguintes, nas receções ou nos "garden parties", sem que o sentido dessa "conversa" (chamar-lhe "conversa" é obviamente um exagero para qualificar essas trocas de palavras) tivesse mais do que um simples sentido protocolar. Como sempre acontece com as figuras da História com que nos cruzamos, nós lembramo-nos de todos os pormenores e elas, claro!, não fazem a mais pequena ideia de quem nós somos ou lembram o que nos disseram ou de nós ouviram. É a lei destas coisas!  

Em 1993, o presidente Mário Soares fez uma visita de Estado ao Reino Unido. Coube-me a responsabilidade de coordenar a organização desse evento, pela parte portuguesa. Um dos pontos relevantes da visita era a receção à raínha na embaixada portuguesa em Londres. Por virtude da velha Aliança - hoje, talvez, a sua real virtualidade! -, a única embaixada estrangeira a que Isabel II se desloca em Londres é a missão diplomática portuguesa. 

Foi algo complexa a organização da cerimónia, mas o que nunca esquecerei foi a naturalidade formal da soberana, o seu profissionalismo simples, ao lado do seu marido, Philippe de Edimburgo, mas também dos filhos Charles, Andrew e Edward, da irmã Margareth, bem como de Diana, que - vale a pena confessar - concentrava as nossas atenções (pelo menos, as minhas). Recordo eu algo que Isabel II tenha dito? Nada! Nunca lhe ouvi dizer nada de especial, embora fale sempre, numa "langue de bois" muito competente, feita de redondas banalidades que tendemos a levar à conta de coisas "sérias", sendo que, ao tempo da última frase que nos dirige, o seu olhar já está colocado na próxima pessoa a cumprimentar, antes que possamos retorquir a algo que ela própria tenha suscitado - o que faz sempre por um gesto ritualista, sem nunca verdadeiramente ficar à espera de uma resposta. Ser rei ou raínha é muito isto!

Isabel II faz hoje 90 anos. Quem diria! Por isso, por muito que isso me "envelheça", não posso deixar de me ver ao lado da minha tia Tininha, no Teatro Circo, em Vila Real, a olhar no écran a sua cara (não excessivamente) laroca, recebendo a coroa real, em Westminster, das mãos do arcebispo de Canterbury. Parece que foi ontem! Mas, infelizmente, não foi...

De toda a forma, com a maior sinceridade republicana do mundo, os meus parabéns, Ma'am! E que conte muitos!

13 comentários:

Anónimo disse...

Um reino ao serviço dos outros.C.Falcao

Anónimo disse...

Embaixador, penso que ela já bateu o record de reinado da rainha Vitória, correto?

Anónimo disse...

... e era bem bonita (naqueles tempos...). Eu, sendo mais velho que o Sr. Embaixador, bem recordo a sua visita a Portugal nos anos 50, bem como as anedotas que então se contavam a seu respeito e do Duque, seu marido.

Anónimo disse...

Por esta ilha o sol brilha para todos nos. Vi nas noticias varios momentos das celebracoes. Se a rainha faz 90 anos o Principe consorte tem 95. A rainha fez o seu "walkabout" em Windsor e, falando de cinema ocorreu-me 1 filme de Nicholas Roeg com o mesmo titulo. Mas neste caso a paisagem australiana era bem diferente...

No Parlamento, o leader da oposicao Jeremy Corbyn, republicano assumido, ao desejar feliz aniversario a rainha disse "The Queen is above politics".

Mesmo com sol vou evitar transportes publicos no centro de Londres para nao me ver nos apertos do Metro e paragens de autocarro. Fico-me por casa a ver "Montanha" em DVD que recebi ha 2 semanas e tem estado a espera vez. Desculpe Joao Salaviza mas vejo hoje, com aniversario real ou nao.

Saudades

F. Crabtree

Anónimo disse...

Caro Embaixador,

Este aniversário fez-me lembrar a visita solene que Sua Majestade efectuou ao nosso país em 1957. O meu pai beneficou de acesso a uma zona do Terreiro do Paço, de onde pudémos ver a cutra distância a passagem dos coches transportando a família real britânica. Tinha eu sete anos de idade e fiquei também muito impressionado com o trajo de aparato do general Craveiro Lopes, com um bicórnio na cabeça. Nessa época, as más línguas diziam que esta visita de Isabel IIa a Lisboa permitiu que se reconciliasse com o duque de Edimburgo, o qual levava uma vida algo aventurosa em matéria feminina.

Atenciosamente

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Era do precisávamos aqui de um Rei. O Professor Marcelo tenta mas falta-lhe alguma distância para ser bem sucedido

Majo disse...

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Também vi o filme e não o esqueci.
A história conta as aventuras de um pré-adolescente
que foge de uma instituição e parte só para Londres,
para assistir à coroação...
A rainha
é da idade da minha mãe, que partiu há vinte anos...
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Anónimo disse...

Bem isto por aqui tem uns comentadores que é só rir. O Freitas e Reys fazem da plebe corrupta "reis" em que ninguém pode tocar, justiça só para os outros, eles são acima da justiça. O Breyner quer por cá um rei, então ó senhor Breyner, já temos o rei dos leitões.

Anónimo disse...

"rainha" não leva acento

http://www.portoeditora.pt/espacolinguaportuguesa/duvidas-da-lingua-portuguesa/detalhe-duvidas-lp/ver/?id=5409

Anónimo disse...

ó embaixador, cheira-me que esse anónimo das 20:42, ou é o edmundo da boina, ou o outro letrado que por várias vezes faz este tipo de colocações. Faça como eu, deixe que eles pastem.

Anónimo disse...

O anónimo "21 de abril de 2016 às 21:14" pertencerá, concerteza, àquela casta de gente que se compraz na exibição da ignorância como uma espécie de medalhinha de sofisticada modernidade. Um triste tolo, portanto.

Bonito,Bonito disse...

Esta mulher viu guerras maiores do que a rainha Victória viu, mais o Túnel da Mancha e Sir Elton John, prestes a ser avô.

Ana Vasconcelos disse...

Outra frase de Jeremy Corbyn no seu discurso de parabéns à rainha foi: 'In her reign, Mister Speaker, she's seen off 12 Prime Ministers'. Pausa. Aceno de cabeça para David Cameron. Estava inspirado.