sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um debate oportuno



O presidente da República fez, há dois dias, uma proclamação de europeísmo em Estrasburgo. Fez bem. Portugal continua a ser um dos Estado da União onde se mantém acesa, na opinião pública, alguma chama europeia. Contudo, não serão necessárias sondagens de opinião para se constatar que a desilusão face à Europa já marca hoje muitos cidadãos portugueses, que se revelam desencantados com as virtualidades do processo de integração. Tenho a certeza de que esses cidadãos estão equivocados quanto ao sentido do saldo real destes 30 anos, mas, na vida de um país democrático, as convicções profundas de alguns não valem mais do que as perceções impressionistas de outros.

A Europa comunitária mudou imenso desde a nossa adesão. Tornou-se mais ambiciosa em matéria de políticas comuns e alargou-se geograficamente. A pretexto destas alterações, os seus tratados foram revistos e a relação interna de poder foi drasticamente afetada. Com a entrada de novos “sócios”, o clube também mudou de natureza, integrando novas sensibilidades, bem como as questões decorrentes das novas vizinhanças. A Europa está, assim, em tudo, diferente. Na crise do euro, a divisão Norte-Sul foi evidente. Na adesão diferenciada às políticas, o caso britânico é exemplar. Na questão dos refugiados, fica a sensação de que os países europeus vêm de civilizações diferentes, nos valores e dimensões humanistas. A tudo isso, soma-se um crescente desrespeito pela proteção das minorias, pela liberdade dos media, pela separação de poderes, tudo sob o olhar neutro de Bruxelas. Que Europa é esta?

Perante um projeto que se transmutou, o que fez Portugal? Refletiu a sua estratégia de integração, questionou caminhos, ponderou opções que eventualmente estivesse ao seu alcance fazer? Nada disso. Numa espécie de fé inabalável nas virtualidades intrínsecas do modelo integrador, Portugal, qual Maria, “foi com as outras”, seguindo um destino tido por inexorável. Manteve, desde o primeiro momento, com todas as colorações políticas, uma dependência indefectível a Berlim, que começa a afirmar-se como o sucessor natural do tropismo pró-britânico que nos marcou por séculos. E, no restante, limitou-se a escolhas pontuais que nunca colocassem em causa esse vínculo essencial.

É possível outro caminho? É desejável? Há mais vida para além da relação preferencial com a Alemanha? Não sei, mas é preciso discutir. Há que questionar o até agora “pensamento único” dominante em matéria de estratégia europeia. A ideia é muito simples: se a Europa mudou tanto, se hoje alguns a querem mais flexível, pondo em causa os seus equilíbrios, não seria tempo de, entre nós, pararmos um pouco para pensar a nossa posição nela à luz dos nossos interesses?

7 comentários:

Anónimo disse...

Fui um europeísta convicto e o balanço destes anos todos é, como diz, positivo. Mas, como também afirma, a Europa mudou e é hoje diferente: para pior, para muito pior. Não me reconheço nesta Europa, sem valores e sem objectivos, dirigista, onde uns mandam e os outros obedecem, com pouco ou nenhum escrutínio democrático (caso do BCE), vivendo como horizonte não mais do que o dia-a-dia para sobreviver enquanto realidade política. Houvesse um referendo sobre a UE - que não haverá - e tenho dúvidas sobre qual seria o meu sentido de voto.

josé ricardo disse...

Convicções profundas ou percepções impressionistas... Baralhou-me, caro embaixador, quando cheguei ao final do seu texto. As convicções profundas podem também estar do lado dos irrevogáveis decepcionados. Presumo que o senhor embaixador seja um irrevogável, segundo o alcance semântico de Paulo Portas um revogável,portanto), ou seja, quer uma outra Europa. Eu também. Com esta prefiro estar fora,ou melhor, não estar tão lá dentro. Como outros, aliás.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Respeito a sua «certeza» de que os cidadãos críticos da nossa participação na UE, tal como ela é hoje, estão equivocados. Desejo, mas não espero, que o equívoco não seja seu.

José Neto

Anónimo disse...

Tramado que quando se pediu esse debate há muitos anos, os contentinhos da UE lhes chamaram tudo. Agora já se pode debater, deixam?

Isabel Seixas disse...

"mas,
na vida de um país democrático, as convicções profundas de alguns não valem mais do que as perceções impressionistas de outros."In FSC

Além de que há incursões irreversíveis, os jovens que teórica e estatisticamente têm mais futuro, adotam por inerência legitima/justa o país que lhe dá oportunidades de subsistência com dignidade e não o país que sendo "seu" bem à maneira da teoria reducionista da obtusidade não lhes dá oportunidades de viver...

os filhos dos meus amigos a maioria já está a constituir familia com suiços, franceses, ingleses, e vai daí quê?...

Jaime Santos disse...

Sr. Embaixador, eu concordo com tudo o que disse, mas não gostei de o ver afirmar que 'as convicções profundas de alguns não valem mais do que as perceções impressionistas de outros'. Pode ser-se anti-europeu por convicção profunda e não apenas por reação à conjuntura presente. O único Partido que sempre se opôs ao modelo de Europa 'de cima para baixo' foi o PCP e temos que reconhecer que em vários aspetos, os comunistas tinham razão. Não sou anti-europeu (devo à Europa muita coisa, aliás), mas considero, por exemplo, que estaríamos melhor fora do Euro e creio que existe uma fação respeitável dentro do PS que é da mesma opinião e parece-me que existem boas razões para tal, há muito enunciadas por pessoas, sobretudo no mundo anglo-saxónico, sem simpatias esquerdistas... O pior que poderia acontecer seria atribuir 'a priori' às convicções de uns um valor menor do que as de outros. Deveremos primeiro olhar para a argumentação de cada um antes de fazer um juízo nessa matéria, como é da praxe em Democracia...

Joaquim de Freitas disse...

Os Pais Fundadores da UE, pensaram, antes de mais, na criação dum espaço de paz. A História a isso os incitava. Os dirigentes seguintes, sobretudo com o aprendiz ditador Sarkozy, transformaram a EU numa máquina de guerra, sob a bandeira da NATO, e dos EUA, o que é a mesma coisa.
As guerras americanas do Afeganistão e do Iraque, ao destabilizar todo o Médio Oriente, desencadearam o caos na Síria. Sarkozy e Obama, continuaram com a Líbia. E Hollande continua na África, em nome de interesses estratégicos.
Hoje pagamos a factura, invadidos por dezenas de milhares de desgraçados arruinados pelas guerras e a miséria.

A UE , espaço de paz transformou-se num bloco beligerante , que pretende intimidar a Rússia, cercando-a por todos os lados. A paz é periclitante; a guerra não é impossível.

A imagem da Democracia europeia, voou em estilhaços no dia em que Sarkozy, depois do voto irlandês, pariu o Tratado de Lisboa, ignorando o voto dos Franceses.

As instituições europeias, todas, são o exemplo perfeito da não-democracia, com dirigentes não eleitos pelos povos da Europa, que arruínam as nossas finanças, e são absolutamente incompetentes e ditatoriais. Que imagem risível a do “nosso” MNE !

O progresso e a felicidade dos povos europeus, que os Pais Fundadores tinham ambicionado, transformaram-se num projecto unicamente económico, de desenvolvimento dum Grande Mercado, onde os interesses do Grande Capital serão a meta a atingir, por todos os meios.

Actividades económicas antes importantes em certos países, vão assim desaparecer devorados pelos grandes grupos económicos. As Pescas em Portugal são um exemplo. A abertura das fronteiras será a chave da invasão dos Super Mercados, que farão desaparecer os pequenos comércios. A China e os países asiáticos vão tomar conta das indústrias que requerem mão-de-obra importante. Vamos comprar têxteis e calçado, quando éramos exportadores!

As oligarquias militaro -industriais, vão promover o rearmamento dos países da NATO, graças à presença nos governos agora dependentes de Bruxelas e Berlim, de artistas estrategas que comprarão mesmo submarinos. A Grécia e Portugal serão duas vítimas destes frenesis de rearmamento. Altos interesses financeiros particulares vão assim custar fortunas aos dois países.

A Europa, correia de transmissão do Império americano, perdeu a sua alma.

Quanto às finanças, o processo de cavalaria da dívida pública ao qual os governos recorrem desde a lei bancária de 1973, expõe mais que nunca os países à volatilidade dos mercados financeiros e ao “défaut” de pagamento.

Desde há 40 anos que são precisos novos empréstimos para reembolsar os antigos e os seus juros mas também novos défices.

O serviço da dívida é o segundo item das despesas dos orçamentos dos Estados!

Mas que vida é esta ? Para que serve a Europa?