sexta-feira, 1 de abril de 2016

Ser estrangeiro



Há semanas, em Londres, no caminho para o aeroporto, num “mini-cab”, perguntei ao motorista o que é que ele pensava da possibilidade do Reino Unido vir a sair da União Europeia.

O homem, de tez escura e sotaque iniludível, tinha ideias firmes sobre o assunto: nas últimas eleições tinha votado pelo partido anti-europeu UKIP, por achar que havia toda a vantagem em que o país abandonasse “essa coisa de Bruxelas”. E logo acrescentou: “Não sei de que país o senhor é, mas nós já estamos cheios de estrangeiros, não queremos cá mais”.

“Onde é que nasceu?”, perguntei. O homem confirmou: “No Sri Lanka. Vim há 11 anos para cá. Tenho nacionalidade britânica”. Não me enganara e não resisti a comentar: “Você e a raínha...”

Um cidadão da Comunidade britânica, como era aquele motorista, entendia que, pelo facto de ter obtido a cidadania, se tornara “um deles”. Estrangeiro, para ele, era um português ou um grego que, graças a “essa coisa de Bruxelas”, andava a disputar-lhe os postos de trabalho.

Tenho-me lembrado bastante disto, depois dos atentados na Bélgica.

Desde há anos que, com amigos belgas, venho discutindo a questão do que é “ser belga”. Como é sabido, as tensões comunitárias são ali fortíssimas, entre valõese flamengos. Há mesmo quem diga que o conhecido empenhamento do país no projeto europeu reside na tentativa de, por essa via, tentar diluir as suas fortes clivagens internas.

Mas alguém já se interrogou sobre o que pensarão, sobre isto, os habitantes de Mollenbeek, as comunidades árabes que, desde há muito, povoam as ruas de Bruxelas e de outras cidades? O que se lhes oferecerá pensar sobre a clivagem valões-flamengos? O que será, para eles, ser belga? Dir-lhes-á alguma coisa ser súbditos do “rei dos belgas”, num país em que, por uma razão concreta, o soberano se não intitula “rei da Bélgica”? Provavelmente, a sua pertença à nação árabe, talvez mais do que à Argélia ou Marrocos de onde vieram os seus pais, releva sobre qualquer afetividade à terra que os viu nascer. Imagina-se, aliás, como essa juventude reagiria se, numa guerra, fossem chamados a defender as fronteiras do país de que são nacionais.

Olhando para a sociedade internacional, fácil é concluir que há poucas realidades tão complexas como as que derivam da nacionalidade e do sentimento comunitário de pertença, em especial quando eles se misturam com questões étnicas e religiosas, em caldos de cultura frequentemente explosivos.

Por estranha felicidade, deve haver poucos povos mais mal preparados do que nós para entender essas mesmas realidades: uma população com unidade étnica, sem conflitos de crenças, com fronteiras e nacionalidade fixadas há quase nove séculos.

(Artigo publicado no "Jornal de Notícias" de hoje)

20 comentários:

Anónimo disse...

Esta pergunta é uma pequena caixa de pandora...

"uma população com unidade étnica"

primeiro ponto

quantos cabo-verdianos nao sao portugueses e vice-versa? o seu texto, uma provocacao talvez, esquece mencionar para muitos paises da europa ocidental a importancia dos antigos imperios (ou la o que fosse) coloniais.

quantos argelinos, morreram pela frança? quantos bangladeshis, nepaleses e afins morreram pela coroa de sua magestade?
quantos angolanos, moçambicanos morreram por portugal?

segundo ponto

a meu ver a ideia de pertença a nacao arabe que menciona é um erro, que os proprios magrebinos cometem por vezes. por exemplo nao era comum em frança ver sirios e libaneses misturados com magrebinos, pelo menos até ha pouco. eram populacoes com culturas diversas. as gentes do golfo olham para os magrebinos como ciganos. a propria ideia de que os magrebinos se revem nos arabes é esquecer que um terço dos argelinos sao beberes, e uma parte nao menosprezavel, considera os arabes como invasores e opressores.

"releva sobre qualquer afetividade à terra que os viu nascer"

talvez o seu exemplo tenha sido a belgica e nao a frança, por razoes diplomaticas. mas estou de acordo. a meu ver parte deste jihadismo e de radicalismo muçulmano presente em alguns magrebinos (e nao poucos) de segunda terceira geraçao é uma consequencia da falta de identidade originada com o facto de desde ha muito nao serem identificados pela maior parte dos autoctones como iguais, nem de se identificarem eles com a maior parte dos autoctones. recordo de alguém me contar que em frança era sempre uma francesa de origine algérienne e aos primos americanos que tinha ninguém lhes punha nenhuns epitetos
ha demasiados cidadaos de segunda categoria em frança. (nao pelo tratamento que o estado lhe da, mas pelo tratamento que os outros lhes dao)

terceiro ponto

esta questao identitaria que hoje se poe, nao se refere so aos belgas, franceses ou afins, mas em relacao a europa em geral. o que é ser europeu? um italiano ou um grego sao mais proximos de um egipcio (que nao tenha umas bombas por baixo dos sovacos...), ou de um finlandes?

pode ser que seja um erro mas parece-me que a ideia civilizacional da europa no romantismo tem uma influencia muito forte da italia. italia é o pais onde todas as europas se cruzaram. balcas, alemanha, espanha todos estao ligados a italia (faltam os bifes mas bom..) a quantidade de gente que no sec XIX foi a "peregrinacao" a italia.

até que ponto as gentes sombrias que vivem para cima de 45°N nao precisam dos sol e das gentes do sul?... nao querem os gregos? têm os sirios...


cumprimentos

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Desculpe mas não é preciso ir à Bélgica para obter essa resposta de alguém que não nasceu no país e é ferozmente oposto aos “outros” emigrantes que chegam agora! Eu ouvi isso, exactamente, da boca de alguns portugueses que por terras de França mourejam há anos!

A solidariedade humana é a coisa mais mal repartida nos tempos de hoje, do salve-se quem puder!

Muitos, são mesmo capazes de reclamar a solidariedade para eles, esquecendo que esta é uma forma de troca mútua, onde cada um se torna solidário dos outros porque os outros se tornam solidários dele!

Mas é talvez porque é um cálculo económico e não uma “démarche” generosa!

Ontem fui assistir antigos colegas municipais numa reunião de acolhimento de alguns migrantes do Médio Oriente, na discussão onde se deveria alojá-los, porque existem várias possibilidades em locais desocupados.
Curiosamente, alguns cidadãos vieram à reunião, para se assegurar que os locais escolhidos se encontravam suficientemente longe das suas zonas de residência.

Exactamente como o deputado e “maire” do XVI arrondissement” de Paris, Goasguen , que protestou contra uma decisão do Maire de Paris, Anne Hidalgo, de alojar alguns migrantes num edifico existente no Bois de Boulogne!

A solidariedade é só para “inglês ver”! A direita e por vezes também à esquerda!

Anónimo disse...

bom esqueci-me que evidentemente da data...

Luís Lavoura disse...

deve haver poucos povos mais mal preparados do que nós para entender essas mesmas realidades

Muito pelo contrário: o povo português, com a sua emigração, tem uma vastíssima experiência e compreensão daquilo que é viver com pessoas de outra etnia. Mesmo os portugueses mais pobres nas aldeias mais recônditas já estiveram emigrados ou têm familiares chegados que o estão.

Joaquim de Freitas disse...

Sim, creio que Portugal continental é realmente uma entidade étnica unida. A fronteira continental, sim, desde há 900 anos, graças ao meu conterrâneo D. Afonso Henriques e os seus descendentes.

A fronteira com os “indígenas” é outra coisa. Mas os outros impérios coloniais não os tratavam melhor. Os Argelinos foram “indígenas” até ao fim da segunda guerra mundial, porque a Argélia foi uma conquista, e não um protectorado como o Marrocos, o Líbano, e a Síria, etc.
Mas os Argelinos foram bons soldados para morrer pela França. Depois foram “cidadãos”, quando a Argélia foi organizada administrativamente em departamentos. Mas não quer dizer que os Argelinos, os Tunisinos, e os Marroquinos foram subitamente cidadãos “à part entière” para o resto dos Franceses! E sobretudo para os “ Pieds Noirs”. Para estes, a nostalgia da OAS ainda predomina na maneira como os tratam na intimidade. O”bicot” tem a pele dura!

Mas, os Portugueses e os outros “estrangeiros”, mesmo quando são naturalizados, vêm sempre com o complemento de identidade: o “Português”, ou o “Polaco”, ou o “Italiano” ou o “Espanhol”. Se o nível social é elevado, pode-se esquecer a nacionalidade de origem. Carlos Ghosn , presidente de Renault- Nissan, agora, é raramente o Libanês, mesmo nascido no Brasil. Carlos Tavares, presidente de PSA, foi há dias notado como Português, porque aumentou o seu salário excessivamente!

Na realidade, só os Romanos é que conservavam a “qualidade” de origem, isto é “romana” quando nasciam no estrangeiro! Adriano e Trajano , mesmo nascidos em Itálica, na Espanha, não foram menos Césares que os outros! Mas não é César quem quer!

Na realidade, nada substitui a “nossa” Terra. «On n'emporte pas la patrie à la semelle de ses souliers ».

Anónimo disse...

Tema bem interessante. Bastante interessante o comentário do anónimo das 06:33.

Anónimo disse...

Caaaaalma...... as tensões chegarão. E se não existem, arranjam-se. Pega-se numa língua de pastores falada por poucos milhares de velhos e dá-se-lhe o estatuto de "nacional". Segue-se a preservação e expansão, para gáudio de quem gosta de bagunça.

Depois, põe-se os políticos a fazerem romarias às ilhas e a ouvirem calados (ou fazerem de eco), a coisas redondas como "reforço da autonomia" ou "autonomia em curso", sem que nunca se perceba porquê ou onde parará o percurso...

É só esperar.

Anónimo disse...

"Portugal continental é realmente uma entidade étnica unida" - o Freitas acha que os ilhéus não são portugueses ou o coração dele ainda anda no tempo da "Metrópole"?

Retornado disse...

As mentalidades dos ex-colonizadores e dos ex-colonizados asiáticos e africanos vão demorar séculos ou milénios a diluir-se.

A globalização verdadeira não vai ser aceite por imposição a qualquer preço.

Só há uma maneira de se poder conviver, e os italianos (romanos) diziam que "Em Roma sê Romano", é a única maneira civilizada de se conviver.

Os portugueses podem dar aulas na china, na américa em áfrica ou em Roma, com prática de 900 anos.

Anónimo disse...

O senhor Freitas, fala em solidariedade, mas ele pode falar pouco, onde está a sua solidariedade com o Sarkozy, que está para ser julgado? só tem tido solidariedade com o Sócrates, o Lula e a Dilma Vinagre. A propósito, para o senhor Freitas a Licenciatura do Relvas é péssima, mas a do Sócrates é 5 estrelas. O senhor Freitas tem dois pesos e duas medidas, consoante os seus bandidos de estimação. Apenas o considero um dogmático sem cura. Agora anda preocupado em arranjar lugar em França para mais uns candidatos a terroristas, enfim só disto.

Sérgio Serrano disse...

De que vale muitos desses que nós acolhemos terem nacionalidade Portuguesa se não se sentem como tal?
Bem,a culpa é nossa,como sempre!
São pessoas que apresentam muitas dificuldades parta se integrarem nas sociedades Europeias.

Anónimo disse...

Ó senhor Freitas, prepare ai uma defesa, prenderam o ex secretário geral do PT no Brasil(silvio pereira). Bandidos, prenderem um homem tão honrado, como so chefes Dila Vinagre e Lula barbado. ó sr Freitas apresse ai um discurso dogmático em defesa deste. Ou será que este não dá nas vistas para defender?

Joaquim de Freitas disse...

Para o anónimo de 1 de Abril de 2016 às 13:59 :
Creio que as ilhas nunca foram colónias, por conseguinte os ilhéus são Portugueses. Fazem parte da entidade de Portugal.

Joaquim de Freitas disse...

Sérgio Serrano disse...
De que vale muitos desses que nós acolhemos terem nacionalidade Portuguesa se não se sentem como tal?
Bem,a culpa é nossa,como sempre!
São pessoas que apresentam muitas dificuldades parta se integrarem nas sociedades Europeias.
1 de abril de 2016 às 16:49
Senhor Sérgio Serrano : Acha que quando os Portugueses acostaram em terras do Oriente, que seja na África ou na Ásia, alguma vez se preocuparam de perguntar aos autóctones se gostavam da nossa “visita”, e acha que nos preocupamos de saber se nos integrávamos ou não nos países em questão? Não. Porque quando chegamos a essas terras impusemos a nossa religião, os nossos modos de vida, a nossa língua, e dispusemos da força de trabalho existente para dela beneficiar ..gratuitamente.

Quando os autóctones não apreciavam, o canhão encarregava-se de os trazer à razão.

No caso dos migrantes actuais, não será possível eliminar todas as tradições de que são impregnados. Mas podemos impor a nossa língua e as nossas leis se os políticos tiverem a coragem necessária. Mas as dificuldades serão grandes, tem razão.

Também podemos recusar de os acolher, deixando-os afogar-se no Mediterrâneo, ou disparando contra eles, como fizeram os turcos estes dias na fronteira grega. O nosso problema é que fomos nós que criamos a situação actual, e quando digo nós digo as grandes potências, a começar pelos EUA.

Estamos perante um caso de consciência: Somos os defensores da democracia, dos valores superiores da sociedade humana, somos ricos, graças às riquezas que exploramos por vezes nos países deles, e das quais só uma minoria beneficia. Mas esta minoria são os nossos aliados e amigos, com quem fazemos negócios! E é aqui que estamos sem meios de acção coerentes!

Isabel Seixas disse...

As pessoas assumem a nacionalidade por uma questão operacional de obtenção imediata de direitos e dividendos.
o amor à pátria do ponto de vista conceptual e filosófico não é um dever como tributo ou como gratidão a pagar ou a oferecer por inerência de trocas de géneros, é um casamento civil ou religioso com atalhos mais ou menos sinuosos de liberdade de prevaricação e fuga para o verdadeiro sentimento que cresceu in útero familiar,foge às amarras das crenças dos costumes do sentimento de pertença a uma nova pátria que surgiu da necessidade de sobrevivência e renuncia é quase sempre um cair de braços por frustração...

Anónimo disse...

(peço desculpa por estado comentario ao meu post anterior) o que é estranho é no artigo

http://www.lemonde.fr/societe/article/2016/04/01/nacira-guenif-souilamas-non-l-islamisme-n-est-pas-le-probleme-des-musulmans_4893897_3224.html

conseguir-se falar em islamismo sem falar em qatar nem arabia saudita...

Ana Vasconcelos disse...

Ao ler o seu texto recordei-me de que a mãe de um amigo, que era austríaca, mas vivia há largas décadas em Londres, costumava queixar-se: 'London is full of bloody foreigners'. Um colega que tem feito investigação envolvendo diferentes comunidades étnicas no Reino Unido, comentava há semanas que as pessoas com quem trabalhava diziam muitas vezes que viviam e atravessavam muitas realidades paralelas no seu dia a dia. A identidade que têm como membros da sociedade inglesa, no trabalho, na escola, etc, coexiste com outras identidades muito diferentes, e envolvendo valores até contraditórios, no seio da família e da comunidade de bairro, ou étnica, ou religiosa. Erving Goffman escreveu há décadas sobre as várias máscaras que temos no nosso dia a dia. E de facto o sentimento de pertença e a experiência de raízes são muitos complexos. Os eventos recentes levantam a questão mal compreendida sobre o que se passa quando alguma ou algumas dessas identidades se rompem e deixamos de navegar entre elas.

Joaquim de Freitas disse...

Senhora Ana Vasconcelos : E eu conheço muitos ingleses, que residem na região do Sudoeste, em França, e que dizem: A França é um magnífico país! Que pena que hajam tantos franceses!:!!

Ana Vasconcelos disse...

Caro Sr Joaquim de Freitas, e imagino que o digam sem qualquer constrangimentos. E para ser franca, houve uma ocasião ou outra na minha vida profissional em que eu diria 'como os compreendo' ...

Joaquim de Freitas disse...

Compreendo. Pois é, esse é um problema do nosso tempo: a exclusão. Quando há relegação ou marginalização social de indivíduos caimos na exclusão social “tout court”!No sudoeste apreciam os ingleses!
Quando se trata de minorias as diferenças de costumes e tradições, em cima das diferenças de línguas, levam por vezes mais longe, porque os laços sociais distendem-se e separam os indivíduos.O antagonismo cria-se.
Vivo a alguns km da fronteira suíça, e conheço bem este país, por ser uma oportunidade de passeio dominical ou de fim-de-semana.
Os cantões germânicos são-me indiferentes e por vezes, confesso, nutro uma certa hostilidade, em relação a alguns. Problema de cultura e de empatia! E lamento que a Suíça “ também “ sejam eles!
Conheço algumas histórias de “chantagem” aquando da fuga de Judeus para este país e o comportamento de alguns cidadãos.