quarta-feira, 13 de abril de 2016

Os governos e as crises

As crises fazem parte da sina de todos os governos. Por culpa própria ou da conjuntura. A primeira é integrada pelos erros dos governantes. A segunda traz essa coisa temível e inesperada que são os "factos", isto é, o inesperado, aquilo que tudo condiciona, sem ser previsível. A capacidade de um governo consiste saber em superar, rapidamente, cada crise emergente, colocando um ponto final nos novos problemas, não deixando que estes inquinem, até pela sua repetição, a imagem do executivo. Isto é sempre mais fácil no início dos governos, dado que, com o passar do tempo, a capacidade destes para superarem os problemas vai diminuindo, com o fim do (mais ou menos longo) "estado de graça" e com o inevitável desgaste.

O governo de António Costa foi, nesta matéria, um tanto atípico. A sua formação - e, para muitos, a sua legitimidade - foi polémica, pelo que, curiosamente, veio a ganhar um "estado de graça" progressivo, grandemente derivado da "habilidade" (que é, em linguagem comum, sinónimo de "capacidade política") do PM. O facto de ter conseguido superar alguns processos complexos (p.e., TAP e orçamento) e se ter mostrado expedito e afirmativo em outros (p.e.,Banif) conferiu-lhe uma imagem daquilo a que os anglossaxónicos chamam de "troubleshooter", isto é, de "resolvedor" de problemas. A noção de que muitos agravadores tradicionais de conflitos (partidos mais à esquerda, sindicatos) estão agora na maioria de apoio do governo criou a impressão pública de que essa capacidade resolutiva tinha condições para perdurar bastante no tempo. O desnorte da oposição (que é composta, por ordem decrescente de eficácia, pelos comentadores económicos televisivos de direita, PSD, "Observador" e CDS) ajudava ao resto. A tudo isto veio cumular-se um chefe de Estado manifestamente interessado em não ser visto como fator de instabilidade, o que, numa sociedade política, funciona como "neutralidade colaborante", para utilizar uma formulação clássica.

Porém, no horizonte governativo, começaram a surgir os "eventos". 

As medidas na Educação revelaram a dependência de uma agenda que o país não entendeu nem achou prioritária, e indiciaram um primeiro erro de "casting" de António Costa. A ligeireza (algo ruidosa) com que agora ocorre a demissão de um secretário de Estado de que nunca ninguém tinha ouvido falar também não é saudável.

O episódio João Soares era francamente evitável, mas Costa soube atalhá-lo com célere maestria.

O caso Lacerda Machado revela evidente descuido, até porque, muito injustamente, abriu caminho a que alguns colocassem em causa o bom nome de uma pessoa que há muito tenho por proba e altamente competente. Por muito que tendamos a defender - e eu faço-o, sem a menor reticência - a boa fé de todos os envolvidos no processo, coloco uma simples e honesta pergunta aos meus amigos de esquerda: o que é que, durante a vigência do governo anterior, teria acontecido se, de repente, se viesse a saber que o dr. Passos Coelho utilizava "o seu maior amigo" para ajudar o Estado a negociar acordos desta magnitude, sem um qualquer vínculo contratual? Não "caía o Carmo e a Trindade"? Respondam-me, por favor.

Finalmente, a "trapalhada" do Colégio Militar. 

(Um parêntesis para dizer que começo a ter escassa paciência para esta ideia de que a a "tropa" é uma espécie de "chasse gardée" em que sempre se deve tocar com pinças, por uma espécie de reverência eterna que é devida a uma instituição composta por gente que, em princípio, se dispõe a arriscar a vida pela pátria (embora paga para isso) e a quem, além do mais, devemos o 25 de abril. Os* militares parece pretenderem preservar neste país um estatuto à parte, como se, lá no fundo, recusassem uma completa subordinação ao poder político, tentando garantir que na sua "quinta" mandam eles. Detesto e rejeito este sentimento de casta, até porque faço parte de uma carreira que lhes pede meças em patriotismo e devoção ao interesse nacional. Acho, aliás, que já chegou a hora do país deixar de levar a sério algumas indignações castrenses, que indiciam um tropismo obsessivo de afirmação de uma espécie de aristocracia fardada, pouco consentânea com os valores de abril.)

Confesso que não tenho opinião formada sobre as razões neste caso, em especial sobre as culpas ou não do ministro, que tenho por uma pessoa muito respeitável. Nem isso é importante para o que aqui trago. A realidade é que o governo tem agora um problema para resolver neste setor, e deve fazê-lo com rapidez, tanto mais que o assunto começa a ser cavalgado pela direita (cuja "autoridade" nesta área é conhecida, como ficou patente nas relações entre Aguiar Branco e a corporação).

António Costa tem de conseguir evitar a repetição de casos polémicos. Nada pode fazer contra o surgimento de novos factos, mas, para não se desgastar rapidamente, tem de ter uma equipa coesa, disciplinada e com nervos de aço.

* onde escrevi "os militares" naturalmente que deveria estar "alguns militares". Quem me conhece, em especial muitos militares que tenho como amigos, sabe que é exatamente isso que penso. A rapidez da escrita informática leva a estes erros.

12 comentários:

Anónimo disse...

Embaixador, gostei do post. Sobretudo gostei da sua sinceridade e honestidade intelectual, quando pergunta á esquerda o que aconteceria caso o governo dos sacristas(PSD/CDS) tivesse feito uma nomeação igual á que António Costa fez. Sendo eu de esquerda e muitos dos comentadores que aqui andam dizendo-se de esquerda, são na verdade uma vergonha para a própria esquerda. Eu tanto critico as posturas erradas de politicos de direita como da própria esquerda. Mas muitos otários que aqui comentam acham-se superiores e paladinos da verdade ao quererem muitas vezes defender o indefensável.Infelizmente começam a ser demasiados casos de falta de ética a nivel mundial de muitos politicos ditos de esquerda, mas que para mim apenas são politicos populistas e oportunistas, temos casos desses em Portugal, Brasil, agora apareceu também a ex da Argentina e por ai vai. Por isso senhores que continuam a querer ser dogmáticos acordem, façam um favor á esquerda, não defendam quem não merece defesa.

Anónimo disse...

Esta manhã não resisti a intervir no foro da TSF para dizer, primeiro, que o vice comandante do Colégio Militar até pôs as coisas com alguma sensibilidade ao explicar como procedem com alunos homossexuais. Mas na pratica resulta numa pressão para a saída desses alunos. Uma expulsão suave. Mas o que se faz se todos os colégios, ou mesmo só os internatos, correrem com os alunos homossexuais. Mas sobretudo para dizer que se não tivesse pedido explicações aos responsáveis o Ministro estaria agora a ser çrucificsdo pela comunicação social e o Governo acusado de discriminação homofobica. Ah! E esqueci-me de dizer que trouxe tudo isto para público foi um militar e não o Ministro. Tudo é aproveitado e enviusado para carregar nos governos, da direita ou da esquerda, e criar um ambiente deletério em que nos comprazemos.
Fernando Neves

Reaça disse...

O problema dos militares, é com o bloco de esquerda.

É uma das prioridades desse partido que falta satisfazer.

A agenda do BE é bastante curta.

jj.amarante disse...

Errata: em vez de "troubleshotter" deve ser "troubleshooter"

Anónimo disse...

Exmo Sr. Embaixador Seixas da Costa: há muito tempo que leio o que V.Exa. escreve neste seu "blog". Habituei-me a ler os seus escritos pela sua pertinência, conhecimento e elegância. Mas desta vez penso que, ao tratar um assunto pertinente terá sido profundamente injusto no tocante às Forças Armadas, instituição a que pertenço. Dizer que "os militares parece pretenderem preservar neste país um estatuto à parte, como se, lá no fundo, recusassem uma completa subordinação ao poder político, tentando garantir que na sua "quinta" mandam eles" é, salvo melhor opinião, injusto e pouco elegante. Se há neste país alguma instituição que, em todas as circunstâncias, se subordina completamente ao poder político, são precisamente as Forças Armadas. Lamento ter lido, escrito por V.Exa., aquela frase. É injusta, para dizer o mínimo. FERNANDO CRESPO

JIT disse...

Há 50 anos, aos casos de afectos entre adolescentes encerrados em colégios, chamava-se homosexualidade latente, que não tinha particular relevância e era ultrapassada sem crise, desde que tratada com bom senso. Agora, dão numa crise política!

Ana Vasconcelos disse...

Já antes tinha aqui comentado por duas vezes que, com o respeito devido pelo percurso da pessoa envolvida, não entendi a escolha feita na Educação. Um sólido, ou mesmo brilhante, percurso de investigação não substitui experiência de gestão de ensino ou de gestão académica. Isso reflectiu-se claramente na gestão da questão dos exames e provas de aferição.

Francisco Seixas da Costa disse...

Por lapso, excluí um comentário que concordava com o de Fernando Crespo. Agradecoa ao autor o favor de o repetir

CORREIA DA SILVA disse...



Subscrevo,na íntegra, o comentário do Senhor Fernando Crespo, 13 Abril 2016 às 16:56.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caros Correia da Silva e Fernando Crespo. É o profundo respeito que as Forças Armadas portuguesas historicamente me merecem que me levou a dizer o que disse. Desta questão particular, bem como de reações públicas oriundas do setor militar apelando, no fundo, a uma espécie de insubordinação, fica a sensação de que há ainda áreas intocáveis no serviço público. Fui militar, fui e sou defensor do serviço militar obrigatório, sou sócio da Associação 25 de abril, tenho muitos e bons amigos militares, com quem me reúno frequentemente, mas não posso admitir certos comportamentos. Concedo que onde escrevi, com irritação, "os militares" devesse ter escrito "alguns militares", mas a rapidez da escrita informática é inimiga da perfeição. Cordialmente.

Anónimo disse...

Ainda há quem não entenda que "homossexual" se escreve com dois "s"

carlos cardoso disse...

A rapidez da escrita informática é inimiga da perfeição: na quarta linha deveria ser:"consiste em saber superar" em vez de "consiste saber em superar"