domingo, 3 de abril de 2016

Ir para fora cá dentro


Há umas semanas, dei comigo a ter vontade de ir comer uma "bacalhauzada" a um popular restaurante da Baixa lisboeta, especializado em pratos desse produto. Tinham-me advertido para o facto do local se ter tornado demasiado turístico e quase incaraterístico, com a qualidade culinária a ressentir-se disso. Mas decidi arriscar.

Sou teimoso no meu tradicionalismo. Gosto de revisitar, de quando em vez, e um pouco por todo o país, alguns velhos restaurantes que hajam tido renome, mesmo que, à partida, a hipótese de lá ainda se comer bem seja já muito remota. Tenho este vício há muitos anos, com a minha mulher a alimentar a tese de que acabamos por só reincidir num desses locais quando já nos esquecemos de como comemos mal da última vez que por lá fomos.

Mas, enfim, lá nos deslocámos ao tal restaurante, numa noite de sábado. Comecei por não gostar de tentarem "caçar-me" no meio da rua pedonal, por um "recrutador" de clientes, mas isso era o menos. Disse-lhe: "Eu sei onde quero jantar!". Não estava muita gente, eram quase todos estrangeiros. Foi-nos colocada à frente uma lista longa, em português e inglês, com as inevitáveis fotografias dos pratos - a lembrarem os menus de gelados espanhóis, e imagino que utilíssimas para surdos-mudos... 

A minha mulher quis pedir um esclarecimento sobre se o modo como uma determinado prato de polvo era confecionado. O empregado hesitou um pouco ao tentar responder à pergunta. Foi saber. A explicação que trouxe era muito confusa e perguntei-lhe a nacionalidade. Era nepalês. Para além de um vocabulário de meia dúzia de palavras em português, falava um inglês macarrónico, pouco adequado a discutir pormenores sobre o tratamento culinário do bicho. Consciente dessa limitação, chamou então um colega. Este, em lugar da meia dúzia de palavras portuguesas, sabia uma dúzia. Era do Sri Lanka. 

Ambos eram simpáticos, queriam ajudar, mas os bizarros clientes que nós éramos, a quem apetecia falar português em Lisboa, não se limitavam a apontar para a fotografia ou a soletrar o "grilled octopus with boiled potatoes". Queríamos saber algo mais. E eles, coitados, sorriam, impotentes. Comecei a "passar-me" e, devo dizer, senti-me um pouco Marine le Pen quando disse que queria falar com um empregado português. Nunca me tinha acontecido ter uma reação destas, embora nada xenófoba, apenas prática. (Faço parte dos portugueses que gostam que o seu país seja porto de acolhimento de estrangeiros, sentindo-me muito orgulhoso pelo modo como, em geral, os acolhemos). A minha atitude era, no entanto, a única possível, sendo que a alternativa seria sair porta fora. 

E lá veio um empregado português, também simpático, que era a cara "chapada" do Ricardo Araújo Pereira ("dizem que o meu irmão é mais...", esclareceu). O resto do jantar não teve história. Estava tudo "assim-assim", mais para o mau do que para o bom. Não vou lá voltar. Até me esquecer, claro. Até o clássico grão que fez nome à casa já não é o que era...   

6 comentários:

Anónimo disse...

Pois é, esse restaurante ... o João...também era o eleito para amigos meus brasileiros, que gostam de bacalhau, quando vem a Portugal. Era, já não é!

Anónimo disse...

Engraçado, se são assim tão bons e a colocar defeitos, com tantos anos de experi~encia em restaurantes e por ai vai, já seria hora de aprenderem a cozinhar em casa com todo esse requinte de que reclamam, certo?

Anónimo disse...

Onde já vai o João do Grão!

ignatz disse...

já não vou lá há uns tempos, mas não me lembro de alguma vez ter sido servido por nepalês ou taprobanês, era tudo portuguêses e um ou dois brasileiros, mas senão fosse assim não havia crítica astronómica.

Manuel Silva disse...

Caro Senhor Embaixador:
O grão português, produzido nos solos argilosos do Alentejo, posto de molho na véspera, tem um sabor ímpar e inconfundível.
Cá em casa ainda o uso o ano inteiro, uma vez por semana, comprado num dos poucos produtores que teimam em o produzir.
O que se come hoje é produzido nos sítios mais inesperados, vem enlatado e cheio de conservantes: normalmente é duro e uma sensaboria.
E mais um truque: se for posto de molho com água engarrafada de Monchique (altamente básica), redobra-lhe o sabor e coze muito melhor.
(O mesmo truque pode ser usado para cozer o feijão: mas hoje quase ninguém se dá ao trabalho de cozer em casa estas duas óptimas leguminosas, que fizeram parte da nossa alimentação tradicional durante décadas ou séculos).
Se quiser experimentar é só deixar aqui maneira de eu lhe fazer chegar 0,5 kg dele, só para provar e confirmar o que eu disse.
E nem precisa agradecer nem recear que a seguir lhe peça algo, pois não nos conhecemos pessoalmente nem é espectável que tal venha a acontecer.

carlos cardoso disse...

As fotografias dos pratos nas listas são decerto utilíssimas para analfabetos ou para quem não conheça nem o português nem o inglês, mas não vejo a utilidade que possam ter para surdos-mudos...