sábado, 5 de março de 2016

Uma censura de Ferro


No âmbito de um trabalho que estou a fazer a convite do "News Museum", que no próximo mês vai abrir em Sintra, consultei nos últimos dias alguma bibliografia sobre António Ferro, o principal artífice da propaganda do salazarismo. Ferro é uma figura controversa, que junta facetas muito contrastantes. Não deixa, no entanto, de ser uma personalidade muito curiosa e quase fascinante, merecedora de destaque e de atento estudo, pelo seu perfil cultural e pelo papel político que desempenhou.

Há meses, insurgi-me aqui sobre uma biografia de António Ferro, da autoria de Orlando Raimundo, que critiquei, porque entendi politicamente preconceituosa. No entanto, não deixei de ler o livro e de dele extrair alguns ensinamentos. Goste-se ou não do trabalho, é uma contribuição incontornável para o tratamento futuro da figura de Ferro.

Ontem, adquiri uma outra obra, muito recente (fevereiro de 2016), intitulada "António Ferro - 120 anos", que traz a atas de um colóquio organizado pela Fundação António Quadros (filho de Ferro e dessa figura também muito interessante que foi a escritora Fernanda de Castro). No final do volume, os organizadores (pelo nome, familiares de Ferro) inserem uma "bibliografia passiva", com 24 obras sobre António Ferro, que eu pensei quase exaustiva, à luz daquilo que eu conheço.

Tentei então descobrir nessa lista a obra que eu próprio tinha criticado. Mas o livro de Orlando Raimundo não figura na bibliografia. Porquê? Seguramente porque a deontologia científica da Fundação António Quadros não chega ao ponto de poder conviver com o contraditório e cede afetivamente à parcialidade. É pena. Ao assim proceder, a Fundação adota os métodos censórios do regime ditatorial de que António Ferro foi tão fiel servidor. Mas não serve a História, que poderia ajudar a consagrar o seu antepassado. É que a História ouve todos os lados, mesmo os que não são simpáticos.

7 comentários:

Reaça disse...

Havia o tempo em que Salazar se agarrava ao ferro para falar.

Aquilo é que foram tempos difíceis sem telemóveis sem ténis e sem Bloco de esquerda.

Inês B. disse...

Recomendo "António Ferro: A Vertigem da Palavra - Retórica, Política e Propaganda no Estado Novo", de Margarida Acciaiuoli (Lisboa: Bizâncio, 2013)

Daniel Fins Santana disse...

Francisco S. da Costa, acho que devia comunicar à Fundação AQ a falta desse livro. Não conheço os descendentes que gerem a FAQ, mas desconfio sempre de fundações geridas por familiares. Os descendentes que conheço, não creio pertençam à FAQ, mas não abonam

Reaça disse...

A maior ofensa que se fizeram todos estes anos ao meu ídolo de Santa Comba, foi chamarem salazarista a Cavaco.

Ora, qualquer semelhança era pura coincidência.

Mas foi o suficiente para Cavaco usufruir de 2 ou três maiorias absolutas à pala.?

Alguma vez se fazia aquele esbanjamento de conluios de bancos e empreiteiros em Expôs, em pontes, túneis e estradas em tempos record?

Universidades privadas à tôa para fazer doutores nas coxas?

Tem que haver respeito pela memória de quem foi um d9os maiores portugueses de todos os tempos.

MAFALDA disse...

Pela consideração que me merece e porque, de certa forma, o Senhor Embaixador tem razão decidi responder à questão por si levantada começando por informar sobre alguns aspectos da Fundação António Quadros (Fundação) e de “António Ferro. 120 Anos. Actas”:
1 – O levantamento e publicação da Bibliografia de António Ferro é de minha exclusiva responsabilidade, assim como os critérios adoptados e as actividades realizadas pela Fundação.
2 – “António Ferro. 120 Anos. Actas” não regista apenas as Actas de um Colóquio mas, sim, todas as acções realizadas em homenagem a António Ferro, no ano de 2015, 120 depois do seu nascimento, bem como um conjunto inédito de imagens e, claro, a Bibliografia que, advirto, não é exaustiva.
3 – Como consta na obra, todas as fotografias que ilustram a capa e o interior do livro do Dr. Raimundo são propriedade da Fundação – não obstante o desagrado e a estranheza que, desde o primeiro momento, senti perante o título e subtítulo da obra.
4 – As duas edições da obra do Dr. Raimundo estão, NATURALMENTE, disponíveis para consulta na Biblioteca da Fundação, na estante que guarda a bibliografia passiva de António Ferro.
5 – No Sítio da Fundação, a Bibliografia Passiva de Ferro refere essa obra.

Então, voltando ao ponto inicial: por que razão, como muito bem questiona, a obra não é referida em “António Ferro 120 anos”?
Passo a explicar, sabendo de antemão que a minha opinião não é, de certeza, consensual.
A publicação, realizada pela Fundação António Quadros, tem dois objectivos específicos: contribuir para o estudo não só da vida e da obra de António Ferro, como da época em que viveu, das diversas actividades que realizou e das personalidades com quem privou e trabalhou; e, prestar a Homenagem da Fundação e de uma neta (eu), a uma personalidade singular, a um avô que admiro, assinalando 120 anos do seu nascimento.
Este livro foi, de certa forma, um ‘presente que quis oferecer ao meu avô, a António Ferro’. Assim, nesta obra específica, não considerei mencionar quem o tratou com tanto rancor e falta de respeito. Se foi uma decisão afectiva? Claro que sim mas também, uma decisão justa e compreensível.
Penso que o facto de a Fundação disponibilizar o seu acervo documental e bibliográfico a todos os investigadores que a procuram, no âmbito da elaboração de teses, dissertações, publicações, documentários, exposições, colóquios e outras acções; aceitar e dar resposta a todos os pedidos de apoio; trabalhar com Instituições privadas e do Estado - associado aos 5 pontos acima expostos, rebate de forma inequívoca qualquer dúvida relacionada com a sua deontologia científica.
Lamento se não consegui ser mais convincente mas penso sinceramente que o trabalho da Fundação fala por si.
Cordialmente e agradecendo o seu interesse,
Mafalda Ferro, presidente da Fundação António Quadros e neta de António Ferro.

António Alves Barros Lopes disse...


Tudo Muito bem!
Mas o curioso é que o Dr. Raimundo, ele próprio, é um inventor!
Ver
http://lopesdareosa.blogspot.pt/2016/04/o-ouro-das-minhotas.html
lopesdareosa

António Alves Barros Lopes disse...

Ver também
http://lopesdareosa.blogspot.pt/2016/11/orlando-raimundo.html