quarta-feira, 2 de março de 2016

Os "leaks" e a diplomacia


"Embaixadora acusa "Daily Mail" de denegrir Suécia em propaganda antirrefugiados". Li este título no "Expresso online" e, pela natural curiosidade de um ex-profissional, fui ver o tipo de diplomacia pública que tinha sido utilizado para denunciar o tablóide.

Afinal, não era nada disso. O jornal, muito simplesmente, tinha obtido o teor de um relatório interno da embaixada sueca em Londres, enviado pela embaixadora ao seu governo. Por um qualquer "leak", aquilo que deveria ter permanecido como uma comunicação reservada ao circuito oficial sueco caiu no domínio público e, claro, foi logo especulado pelo próprio jornal.

No serviço diplomático, é cada vez maior o risco de as coisas que se escrevem poderem surgir a público. A prazo, é normal que essas comunicações acabem por ser conhecidas. Todos os serviços diplomáticos democráticos colocam hoje à consulta dos cidadãos ou dos investigadores, depois de umas décadas, os seus arquivos oficiais. Há, em regra, comissões especializadas que definem exceções a essa divulgação, limitando-a quando interesses estratégicos do Estado recomendem que certos documentos permaneçam sem possibilidade de consulta por mais tempo. Em Portugal, o MNE tem uma "comissão de desclassificação", composta por diplomatas experientes, que faz essa triagem.

Um embaixador, nos dias que correm, em tempos de Wikileaks e deste tipo de comportamento de algum colaborador desonesto, tem de pensar duas vezes antes de pôr no papel aquilo que realmente pensa. Às vezes, a falha ocorre na embaixada, outras vezes no destinatário. A terceira hipótese é ainda mais óbvia: uma interceção de comunicações, por parte do país onde a embaixada está instalada.

Devo dizer que, ao tempo em que fui diplomata, escrevi sempre com a preocupação do efeito potencial se acaso aquilo que eu afirmava pudesse chegar ao domínio público. Nunca devemos excluir que as apreciações que fazemos sobre figuras, políticas ou outras, dos países em que estamos acreditados venham a ser conhecidas pelos próprios. 

Num país cujo nome não vem aqui para o caso, dei-me um dia conta, numa conversa com uma figura política, que lhe chegara aos ouvidos (ou à vista) algo que eu escrevera num "telegrama" para Lisboa. O facto dele ter usado uma determinada frase, que eu raramente usava mas que tinha inserido nesse texto a propósito desse assunto, deu-me a certeza de que ele tinha tido acesso ao meu telegrama, ou a parte dele. Portugal, à época, estava muito "na berra" num determinado tema nesse país e, como é natural, o respetivo serviço de informações andava atento àquilo que a embaixada opinava. Outras vozes me tinham já alertado para isso. E eu desconfiava de onde o "leak" vinha, de quem "patrioticamente" os andava a informar. E a trair o país que (também?) lhe pagava o trabalho.

Foi então que decidi "jogar o jogo". Comecei a escrever para Lisboa comunicações que tinham precisamente como objetivo serem lidos pelas autoridades do país onde estava acreditado. Fiz comentários sobre determinadas pessoas e empresas que estavam muito distantes do que eu realmente pensava, atestei, com falsa segurança, coisas de que estava longe de estar seguro, mas que favoreciam os nossos interesses e importava que assim fossem "escutadas" pelos ouvidos locais. O teatro chegou mesmo ao ponto de eu ter pedido a uma determinada personalidade em Portugal para me fazer uma chamada telefónica para a residência e, para grande surpresa dela, tratei com (falsa) abertura na conversa um assunto bem delicado. A certo passo, disse-lhe: "Fale mais devagar, por favor". Ele percebeu: a conversa estava a ser escutada e provavelmente gravada e tivemos então o cuidado de a conduzir do modo que mais interessava aos interesses portugueses em jogo. Foi um exercício muito curioso. E, claro, chama-se a isso "desinformação".

(Na história diplomática portuguesa, conta-se que, durante a guerra, o embaixador português em Londres, Armindo Monteiro, um político anglófilo que se tinha afastado progressivamente da linha de Salazar, teimava em telefonar ao seu "número dois", o diplomata de carreira António de Faria, ao qual lia, para grande fúria deste, o texto dos telegramas que ia enviar para Lisboa. Fazia isso pausadamente, para que os serviços secretos britânicos soubessem as opiniões que dava ao seu governo.)

O espetro atual de interesses de Portugal na ordem externa raramente justifica este tipo de cuidados e procedimentos. Mas, às vezes, acontece. A regra é muito simples. Nos dias que correm, temos sempre de partir do princípio de que aquilo que escrevemos ou o que dizemos ou telefone pode estar a ser lido ou ouvido por outros, ou que alguém vai contar a terceiros... 

Dito isto, confesso que não tenho paciência para aquele tipo de pessoas que, por tudo e por nada, ao telefone, enveredam por uma conversa do género: "o tipo lá de cima, o do ovos moles, quer ver se se consegue ir ao país do petróleo que você visitou no ano passado". Respondo-lhe logo: "O Zé Manel, de Aveiro? Ai ele quer ir à Argélia, é?" Ficam furiosos...

5 comentários:

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 18.47 deve ter-se enganado. Aqui escrevi sobre "alhos", o anónimo escreveu sobre "bugalhos".

António Ferreira disse...

ó senhor embaixador: para quando um livro compilando todos estes episódios de bastidores tão interessantes? até lhe arranjo um título: "O embaixador sem medo". Cumprimentos.

Aldema disse...

Concordo com o comentário acima: impescindível um livro a partir do blog. Textos muito bons e interessantes. Sou leitora assídua!

Anónimo disse...

Já o marquês de Pombal fazia o mesmo tipo de desinformação:sabendo que os seus despachos para o embaixador em Londres eram lidos pelos serviços britânicos, procurava influenciar o governo inglês,aconselhando-o indirectamente a seguir certa via em assuntos candentes (procurando mostrar, por exemplo, que a Grã-Bretanha ganharia em conceder a independência aos Estados Unidos da América).

Gonçalo Pereira disse...

Permita-me que discorde da premissa de que os documentos diplomáticos chegarão um dia a conhecimento público.
Tudo depende da comissão de desclassificação. Por necessidades de investigação, tenho consultado abundante correspondência do arquivo do MNE, particularmente telegramas expedidos de e para embaixadas, respeitando o prazo de 30 anos desde a data de produção desses documentos.
É raro que uma pasta dessas (mesmo que de setentas ou sessentas) não tenha sido expurgada. Há alguns meses, num dossier sobre a Frente Polisário, cheguei ao mês relevante para a minha pesquisa e nada estava disponível.
Creio que é legítima a pergunta: em que momento um documento diplomático deixa o domínio delicado das relações internacionais e entra no domínio da história D dos historiadores? 40 anos? 50 anos? Nunca?