quinta-feira, 3 de março de 2016

Raposo, o Alentejo e os novos malteses


Detesto quase todas a ideias de Henrique Raposo. Leio-o semanalmente no "Expresso", como leio (quase) todo o reacionário que por aí se publica, dos caceteiros ao neoliberais saídos das universidade "business" da moda. Por muito Popper ou Arendt ou Churchill ou liberdade de costumes com que se ilustrem, eles são o que são.

Desde há muito que me desabituei de ler colunistas de esquerda, dos jornais aos blogues. Praticamente só consumo textos da gente de direita, quanto mais à direita melhor. São aqueles com quem sei que vou discordar de imediato, e isso dá-me um conforto imenso. Até Pacheco Pereira e Pedro Marques Lopes deixaram de ter a graça que tinham, ao passarem a ecoar um pensamento próximo de alguma esquerda.

São os reacionários, alguns mesmo a roçar o "facho", que me ajudam a arrumar, contra eles, as minhas ideias. Percebê-los, conhecer a génese do seu pensamento, é essencial para melhor os poder contraditar. Será um vício masoquista, mas já não passo sem esse "cais das colunas" direitolas, onde aportam vários cavalheiros e até uma menina de óculos que nos olha com um sorriso estranho. Só não refiro os nomes para não ajudar à sua promoção, confesso.

Henrique Raposo faz parte de uma espécie lusa de direita jovem, entre o miguelista e o trauliteiro, que se cultivou num ódio a tudo quanto cheire a público, com todos os tiques que ajudaram a adubar teoricamente a desastrada governação dos últimos anos. Alguns deles entraram, por dever de devoção, no patético "governo de uma semana e picos", que quase traz ressonâncias transalpinas do antanho. A chegada ao poder da esquerda roi-os por dentro. Tem imensa graça vê-los a fazer figas contra a boa execução orçamental. No caso particular de Raposo, ressoa da sua coluna uma espécie de vingança geracional, quase freudiana, embrulhada em arrogância, sobranceria e uma agressividade estudadamente insultuosa. A seu favor militam, contudo, uma agudeza de raciocínio (mal empregado, dirão alguns) e uma muito boa qualidade de escrita (o que me não é indiferente).

Li o livro que Henrique Raposo publicou sobre o Alentejo, e que está a fazer algum escândalo. Acho uma imensa estupidez por parte de uma certa esquerda diabolizar o estudo. Desde logo porque é um trabalho interessante, não obstante as teses que defende poderem ser discutíveis. Mas também porque, ao fazê-lo, está a contribuir para tornar Raposo num "mártir", o que deve dar a este um imenso gozo.

Gostava de deixar muito claro que Henrique Raposo, pessoa que não conheço, tem toda a minha solidariedade na sua defesa contra os "talibãs" que pretendem evitar a divulgação do livro. Era só o que faltava que, no Portugal de 2016, ainda se pudesse discutir se alguém tem o direito de exprimir o que lhe der na real gana! Henrique Raposo tem uma leitura negativa dos alentejanos e dos seus hábitos, da sua maneira de ser e de pensar? Pois muito bem: tem direito a tê-la e a divulgá-la, como muito bem entender. Se é preciso um abaixo-assinado para defender o direito de Henrique Raposo a divulgar o seu livro, eu serei o primeiro subscritor.

Gostava de saber como teriam reagido os protocensores da obra de Raposo se acaso os britânicos tivessem decidido proibir o livro em que o cientista português João Magueijo insultava o Reino Unido e os seus habitantes, em termos bem mais ofensivos dos que Henrique Raposo usa para os alentejanos. O caso de Raposo é diferente, só porque é de direita? Essa agora! O 25 de abril fez-se para dar voz a todos, da esquerda à direita. Essa é a sua superioridade!

Ah! E não sabem o que são os malteses do título? Leiam o livro e aprenderão.

24 comentários:

Anónimo disse...

Quais protocensores? O Henrique Raposo teve exatamente a mesma reposta cá, que teve o Magueijo lá: muita gente e insultá-lo nas redes sociais e criticas nos jornais, entremeadas com benevolência e elogios. Num e noutro caso, ninguém proibiu a publicação. Senhor Embaixador, o Henrique raposo já tem gente suficiente a transformá-lo em martir; não é preciso que o senhor Embaixador se junte à comissão.

Luís Lavoura disse...

Anda um maltês pelo mundo
Sem nunca a Coimbra chegar
É capaz de dar lição
Aos que lá vão estudar

Os "malteses" eram, creio eu, camponeses sem terra nem trabalho fixo, que percorriam o Alentejo, de um lado para o outro, à procura de quem lhes oferecesse trabalho sazonal.

Joaquim de Freitas disse...

Para mim, Caro Senhor Embaixador, um dos seus melhores "posts" na direita linha da defesa do direito de expressão. Bravo ! E considero-me e sou de esquerda! Curiosamente também prefiro atacar-me "aos da direita", porque "os da esquerda" por vezes soam tão mal, que tenho vergonha! Mas eu não sei escrever , ou antes já não sei, porque houve tempos em que escrevia melhor! Falta de uso! Mas o seu texto, é imenso Senhor Embaixador. Ah, aquela jornalista de óculos!

Anónimo disse...

Os atuais reacionários são da esquerda há muito tempo! A reação, qualquer que seja, da esquerda ou da direita, é, mais frequentemente, alimentada pelo medo. Mas neste caso trata-se de pura estultícia!
Boa publicidade ao livro!

ignatz disse...

"Ah! E, deve ter sido por isso não sabem o que são os malteses do título? Leiam o livro e aprenderão."

eheheh... bom esforço de propaganda ao raposo. vou já comprar, antes que esgoto.

Fernando Frazão disse...

O melhor para nós e mais duro para ele, era não lhe dar importância nenhuma.
Assim, temos sucesso editorial garantido.

Cumprimenos

Francisco Baptista disse...

Bom dia,

Uma atitude decente, outra coisa não seria de esperar. Concordo e subscreveria o seu abaixo assinado sem hesitar… mas continuo pessoalmente a entender que o Henrique Raposo está sobrevalorizado com uma coluna no Expresso. Mas que escreva, escreva sempre!

jj.amarante disse...

Para saber o que eram os malteses do Alentejo basta googlar (malteses Alentejo), não é preciso comprar o livro. Pelo que li eram mendigos itinerantes. Peço desculpa de diminuir o financiamento das suas leituras "preferidas" mas já tem certamente muito com que se entreter.

Sérgio de Almeida Correia disse...

Caro Francisco Seixas da Costa,

Não obstante o "acordês", permita que me associe ao essencial do seu magnífico texto. Fica tudo dito.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

De qualquer modo, ainda estou para descobrir onde é que Seixas da Costa poderia encontrar colunistas de esquerda para ler nos jornais e na televisão. Para cada dez Arrojas, PSD e CDS, talvez haja dois PS, um quarto de ex-BE e 0,00001 comunistas.

Depois não se "discorda com". Raposo que aguente a pancada. Tribuna não lhe falta, nem editoras, ao contrário do que se passa com os que o embaixador não lê.

Anónimo disse...

Quer, então, dizer que um "gato maltês" é um gato vagabundo...
E, malta, é um grupo de malteses...

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Excelente texto de defesa do direito à liberdade de expressão! É pena que nem toda a gente de esquerda (e de direita) tenha esta cultura. E neste campo de direitos e liberdades a esquerda tem mais obrigações.

Anónimo disse...

Aqui há tempos, esse tal Raposo escreveu um artigo de opinião sobre Marcelo, num tom crítico algo provinciano e até ridículo. Que o homem estando de férias no Brasil tinha tido o cuidado de não se queimar ao sol das parais brasileiras para que à chegada o povo, que o veio a eleger, não ficasse aborrecido e o considerasse um perigoso burguês. O problema deste Raposo não é tanto ser um provocador de Direita, mas ser patético. Se calhar prefere o Cavaco ao Marcelo. Ainda há uma Direita assim, com laivos Salazaristas. Não vou ler o livro, não tenho paciência para o aturar. Não me importo ler artigos de um autor de Direita, desde que tenha um certo grau de ponderação. Agora só ler os de Direita, como aqui o autor do Blogue, mesmo não se identificando com eles, é de masoquista. Mas cada um é o que gosta de ser!

Fernando Frazão disse...

Então ninguém, até agora, se lembrou, nem sequer o Sr. Embaixador, do fabuloso Malteses, Burgueses e às Vezes do ainda mais fabuloso Artur Semedo?

ignatz disse...

prontes, já entendi. a coisa é publicada pela fundação pensamento único e vendida no pingo doce. desta vez demorei a chegar lá.

Anónimo disse...

Não desdenhem, também há o bichon maltês, que é um cão muito fino ...

Quanto ao raposinho, a sua coluna no Expresso foi um dos motivos pelos quais deixei de comprar o jornal do qual fui leitor durante 35 anos. Não se aquenta tanta pesporrência, tanta dor de cotovelo, tanto mau perder. Também tenho direito a ter uma leitura negativa do raposinho e "dos seus hábitos, da sua maneira de ser e de pensar" - dele e dos restantes "muchachos" comentadores direitolas que pululam no Espesso. Para não me irritar ao fim de semana, deixei-me do "vício". Mas defendo - ora então não! - que o raposinho possa publicar aquilo que quiser acerca dos alentejanos! é que os alentejanos são pessoas de fino humor e inteligência e conseguem rir-se das alarvidades que alguns snobs bolçam acerca deles.
MPDAguiar

Antonio Cristovao disse...

Grande post. Quando o quiserem sanear a si, ter-me-á a seu lado a defende-lo, que bem merece.

Ana Vasconcelos disse...

Gostei deste texto no que revela de abertura, até porque comungo a opinião sobre as crónicas de Raposo que quase sempre me irritam. A não ser quando fala de raízes ou da ausência delas.
Um pouco ao lado, mas em resposta ao anónimo das 09.16, acho que Mageijo até foi tratado com muita decência no Reino Unido. Não me parece que tenha tido dissabores de maior por um livro que é uma sumula de estereótipos e insultos, escritos com espírito rasteiro. O próprio título do livro de Magueijo, 'Bifes mal passados', é desavergonhadamente um fotocópia mal tirada do excelente blog 'Um bife mal passado' do embaixador britânico Alexander Ellis, que tão elegantemente escreveu sobre nós e sobre o nosso pais.

ADan disse...

O HRaposo é tudo menos inocente.
Tem ambição.
De certeza que leu os métodos que Hitler usou para provocar os seus inimigos de esquerda e angariar apoiantes.
Ambiciona uma carreira política de extrema-direita.
Armar confusão, mentir descaradamente, provocar, fazer-se de vítima, culpar a esquerda.

Reaça disse...

Com tantos elogios, não vou perder esta leitura.
Espero que me encha as medidas, caso contrário...!

El Greco disse...

O Raposo tem todo o direito de escrever e publicar o que entender, assim como qualquer cidadão tem o direito de adquirir os exemplares que quiser da obra do Raposo para os queimar em público, desde que tal incêndio não prejudique nem coloque em perigo terceiros.

Anónimo disse...

É característico este "frufru" tão incomodado da "nossa esquerdalha" com o que o homem diz!
A "nossa direitalha" também tem os mesmos tiques. Depois há as variantes daqueles que têm os mesmos tiques mas são pressurosos a mostrar o esforço a refrear.
Afinal ele também estava bem incomodado com as suas próprias constatações vividas. Não foram suposições. Só que as diz!
Se a generalidade das ideias dele fossem para o lado esquerdo estou convencido que o livro seria um sucesso. O homem tinha descoberto a pólvora!
E o Sr. Embaixador lê-o porque lhe agrada de qualquer maneira. Ninguém consegue ler o incontestável ou que não provoca reflexão ou que não divirta. Pode-se ler uma vez. Mais não!

EGR disse...

Senhor Embaixador: também penso que o senhor Raposo tem todo o direito a publicar o tal livro pois assim o exige a mais elementar noção de liberdade; mas fazer tanto ruído a volta do assunto só serve para promover um sujeito mediocre que as vezes me faz lembrar aqueles meninos mal educados a cujos comportamentos uns tantos acham muita gracinha.
O senhor Raposo tem certammente alguma velinha acesa no altar do Dr. Balsemão.
Mas hoje em dia, em matéris de cronistas, já pouco me espanta.

José Agante disse...

Preocupante não é um "raposito" sô, preocupante é admitir que os "rapositos" um dia formam uma cáfila e atacam todos os galinheiros da aldeia. Como tanta vez aconteceu na minha.