sexta-feira, 11 de março de 2016

CPLP - A hora da verdade



Posso ser sincero? A CPLP tem duas décadas de existência e, há que dizê-lo com frontalidade e transparência, estes vinte anos não foram os mais entusiasmantes.

Houve países que investiram a sua vontade política na CPLP. Outros fizeram os mínimos, outros nem isso. A profunda desigualdade entre os Estados integrantes, as diferentes prioridades em que cada um coloca a organização no quadro das suas opções externas – tudo isso contribuiu para desenhar uma manta de retalhos, aqui ou ali nem sempre muito bem servida pelas personalidades a quem competiu desempenhar o cargo de Secretário-Executivo. Presumo que não seja politicamente correto dizer isto “alto”, mas eu, que estou de fora, não me coíbo em afirmá-lo.

A CPLP tem urgentemente de se repensar. Neste tempo de refluxo global da liberdade de circulação, ou a organização se consegue relançar como um espaço de cidadania coletiva, visivelmente útil para todos os seus cidadãos e Estados, ou o seu destino continuará a ser o estiolar na rotina declaratória das cimeiras. Por essa razão, criar tensões artificiais, para tentar relançar jogos de poder, é um gesto gratuito e até irresponsável. Nesse caso, talvez fosse melhor assumir, com coragem, o desafeto lusófobo ao projeto, em lugar de estimular polémicas que podem ter efeitos detrimentais nas relações bilaterais. Ou então, se esse é objetivo, assumi-lo abertamente.

Sei que o tema não é cómodo para muitos, mas também não vale a pena esconder que a adesão da Guiné Equatorial – forçada pela generalidade dos restantes membros, contra a vontade portuguesa – não configurou a “finest hour” de uma organização que se havia assumido, no seu início, com uma vocação ético-política, e que acabou por vergar-se à realpolitik. Goste-se ou não, essa adesão deixou feridas, descredibilizou profundamente a organização e permanece como um ferrete de que a CPLP se não libertou. O facto dos diferentes países ainda hoje olharem para esta realidade de forma contrastada é, em si mesmo, prova da fragilidade dos princípios comuns da organização.

Tenho-o dito e escrito, desde há muito: enquanto a CPLP não for assumida pelo Brasil como um instrumento essencial da sua política externa, a organização tem escassas possibilidades de evoluir e de afirmar-se à escala global. E nunca, até hoje, o foi. Em 2016, o Brasil assume a presidência rotativa da CPLP. Fá-lo-á passando a ter como embaixador junto da organização um diplomata que conheço muito bem, com grande qualidade e prestígio. Esta é uma oportunidade soberana para Brasília dar mostras de liderança e capacidade para relançar um projeto que, para ter “pernas para andar”, necessita, apenas e só, de vontade política. Porque acho que a ideia da CPLP permanece cada vez mais válida, confesso que ando à procura de razões para alimentar o meu otimismo.

11 comentários:

Anónimo disse...

Absolutamente de acordo, palavra por palavra
João Vieira

Anónimo disse...

Embaixador, o Brasil está a preparar-se para uma guerra civil que não irá demorar muito. Os apelos patéticos feitos de forma indirecta para isso, já começaram e por parte de quem, adivinhe, do doutor honoris ignorante. Sim esse mesmo, que recebeu um doutoramento de Coimbra.

Anónimo disse...

Acho muito bem que escreva sobre o assunto neste preciso momento, é uma pequena ajuda e a utilização do soft power que o seu blog tem o poder de exercer.

Esperemos que algumas mentes africanas o leiam e que no Brasil façam o mesmo (com a confusão que para lá vai à volta da possível prisão de Lula da Silva creio que o Brasil está focado noutros assuntos e os políticos em manterem o regime).

Anónimo disse...

A guerra civil no Brasil talvez fosse boa para a CPLP. Mas só se o Brasil se fragmentasse em diversos países, porque o problema da língua portuguesa na América do Sul é que o Brasil é apenas um miúdo grande que acha que não precisa de ninguém... E ali está, orgulhoso mas... sozinho.

Sérgio Serrano disse...

Senhor Embaixador,para que precisamos da CPLP? Para quê perder tempo com isso?
Larguemos isso pois julgo que não precisamos e além disso,a esmagadora maioria dos Portugueses não quer saber de África para nada.

Anónimo disse...

O Brasil, será sempre um País adiado. Primeiro foram os coronéis de botas, depois vieram os militares e agora quem manda são os antigos descamisados. Enquanto isso a esmagadora maioria desse povo vai continuando a assobiar para o lado, a endividar-se, a beber até cair de quatro, a abrirem em cada esquina igrejas evangélicas para os pastores lhes sacarem mais uns trocos, as marias da macumbá até já fazem publicidade em outdores e assim vai este País de riso. Na minha ótica se calhar uma guerra civil poderia ser boa, caso o País fosse depois governado por seres inteligentes e racionais e não por coronéis, militares ou descacamisados como até hoje tem sido. Lula devia ter ido para a cadeia em 2005 na sequ~encia do mensalão e não foi. Depois querem que a gente acredite em justiça, querem que a gente acredite que só porque dizem que são do Partido dos trabalhadores são honestos, ora ora, contem essa história para outros.

Portugalredecouvertes disse...


Penso que seria bom para todos se houvesse entendimento entre os países da CPLP, porque a união faz a força, e se o Brasil entendesse que não são só os países ricos que poderão ser os seus melhores amigos
e que não tivessem sempre a culpar a "colonização portuguesa", isso impede de ver o que se passa nos dias de hoje
isto é pela lógica !
porque o povo brasileiro é muito querido, merece felicidade e de viver em paz

Retornado disse...

É chato haver muitos brasileiros educados a dizer que são atrazados, pobres e corruptos, porque foram os portugas que não os educaram e os roubaram e lhe mataram os índios.

Mas nós aqui, não passamos bem sem essas terras tropicais.

Retornado disse...

Da nossa parte haverá sempre falta de sensibilidade da parte das instituições para ter sucesso num bom relacionamento com esses países.

Vejam-se os constantes atritos diplomáticos principalmente com Angola e a Guiné.

Como sempre , vai ser a título individual que haverá um relacionamento razoável.

É que a maioria dos actuais políticos são mais europeistas que africanistas.

São aquela gente que ignora que dos nossos 900 anos, 500 foram passados com aquela gente tropical.

Há 40 anos a maioria dos políticos que nos têm governado, diz-lhe muito pouco aquele "atrazo de vida" colonial.

Enquanto eu cheguei há 40 anos de ponte aérea, eles vieram de Expresso por Vilar Formoso.

A CPLP? para quê?






Anónimo disse...

"Saia uma chapa cinco para mim se faz favor"

Prata do Povo disse...

A adesão da Guiné-Equatorial (GE) não "descredibilizou profundamente a organização". Existe aqui um erro crasso de interpretação e dou razão aos restantes membros terem contraposto a falta de visão, característica até, da política externa portuguesa.
O problema da CPLP é Portugal não a futuristica de o Brasil algum dia fizer da CPLP uma cavalo de batalha.
Portugal tem a CPLP na gaveta.
De forma egoísta mantém a CPLP na gaveta como recurso de última hora para a derrocada da UE, que obviamente acontecerá, mas que pode durar ainda um, dois, três séculos, assim como apenas mais uns anitos.
É Portugal que não avança. e o avanço tem ser construído numa concepção de comunidade internacional sui generis, da mesma maneira que também a UE o é hoje. Mas vejamos a possibilidade da sua natureza. É a concepção de plano B que torna a CPLP num caso de atraso premeditado.
Que podemos esperar da CPLP?
Portugal está na UE integrado, podemos mesmo dizer amarrado, hoje até de forma colonial. A forma como a CE quer tratar o RU demonstra-nos bem que a UE é um império e não deixa escapar membros, já não é nenhuma associação livre de estados e os que se a ela têm juntado recentemente fazem-no obrigados.
A importância da UE é tal no mundo de hoje que os restantes PLP necessitam como pão para a boca que Portugal continue na sua situação colonial de subjugação à UE para que eles tenham um potencial acesso privilegiado ao comité que rege esta "m3rda" toda.
Vendo isto a CPLP têm de crescer e vingar numa natureza onde Portugal seja membro natural da UE.
Mesmo com Barroso na comissão não conseguimos forçar a UE a negociar bilateralmente com Cabo Verde ao este ter passado para país de desenvolvimento médio e como tal ter deixado de poder usufruir dos acordos de Lomé para os países mais pobres do mundo (ACP).
Mas nestes vinte anos a CPLP tem tido momentos de glória. Recusar vê-los pode ser muito parcialista...