quinta-feira, 3 de março de 2016

Amigos & livros


Nada há de melhor do que ter amigos e ter livros. E, quando os livros são dos amigos, melhor ainda.

Luís Castro Mendes é um excelente poeta. E diplomata. Entrámos para o MNE no mesmo dia, mas ele vai sair de lá mais tarde, porque é um "rapaz" mais novo. Andámos em tempos diferentes por terras comuns (Angola, Brasil), cruzámo-nos por Paris, visitámo-nos pelo mundo, sempre trocando cumplicidades e bebendo copos à amizade e à comunhão de ideias. O Luís publicou agora mais um livro da sua poesia, apresentado, há dias, pelo Nuno Júdice e rodeado de uma legião de amigalhaços, como ele gosta. Quem nos abre a vontade de ir a Trebizonda bem o merece.

No dia seguinte, isto é, ontem, o João Paulo Guerra lançou um seu romance. Já o estou a ler e, como disse o Carlos Matos Gomes, que o apresentou, é um murro no estómago, porque insiste em tratar como deve ser a traumática dimensão humana da guerra colonial - que uma escola historiográfica delicodoce traveste de "guerra do ultramar" ou "guerra de África". A escrita do João, oriunda da melhor escola do jornalismo, está cada vez melhor. Mas faz-me falta, confesso, ouvir a sua inconfundível voz na rádio. Mas ele não faz parte - nunca fez! - das "playlists" da moda.


2 comentários:

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Sobre a dimensão humana da guerra colonial (e este será o nome históricamente correcto, embora, tendo-se passado em África, não viria mal nenhum ao mundo chamar-lhe guerra de África desde qua a narrativa não escamoteasse o que foi o regime colonial) não há quaisquer dúvidas. A questão que eu coloco é se se conhece alguma guerra que não tenha esta dimensão traumática. A resposta é claramente não. Todas as têm. E mais. Há umas mais desvastadoras que outras. Por exemplo, e desde logo, a guerra em Angola, que se seguiu à independência, entre o exército angolano (legítimo) e Jonas Savimbi (tribalista e ambicioso), foi icomparavelmente mais desvastadora e destrutiva do que a guerra colonial: em número de mortos, de estropiados, na destruição do tecido social e da economia (neste ponto a diferença é abissal), na número de refugiados (bem perto de dois milhões) do Sul que fugiram para Luanda, na destruição e arrasamento de cidades, como Nova Lisboa por exemplo. Não há qualquer comparação. Mas alto lá! Que fique claro: estes factos inegáveis não servem para minimizar o traumatismo e o horror, quer de um lado, quer de outro, que foram os 13 anos de guerra colonial -- a maior parte destes anos (e dos mortos), e esta é outra questão, desnecessários que só uma completa cegueira política do Caetano explica. Mas não façamos da guerra colonial a mais impiedosa, a mais desvastadora e mais traumática de todas as guerras.

Retornado disse...

A Guerra do Ultramar à portuguesa, fica a kilómetros da Argélia da França, do cinismo da Inglaterra com a independência da Nigéria ou do Quénia do Mau-Mau, (vamos antes que seja tarde), e do abandono em 24 horas dos Belgas do Congo do Ruanda e do Burundi.

No caso português, tanto Agostinho Neto, como Amílcar Cabral, deviam estar imensamente gratos a Salazar e a Marcelo, por estes não lhe terem entregue as colónias em 1960 ou 61.

Eram bons rapazes e mereciam viver mais alguns anos e não como aconteceu a Lumumba que sobreviveu 6 meses vivo como 1º ministro.

Aliás, no caso de Angola viriam a ser umas duas angolas à americana como as coreias e os vitnames do norte e do sul.

Falta muito para se poder escrever a história.

Mas deve ficar bem escrito que fomos os últimos a abandonar África, mas que a ONU não nos pode responsabilizar pelos africanos que permanentemente estão subindo o deserto até ao arame farpado de Ceuta e Melila.