quarta-feira, 9 de março de 2016

A menina do telefone


Tem vinte e tal anos, quase trinta. Está por ali, à noite, encostada às paredes ou aos carros, ou sentada no passeio. Às vezes ao frio e à chuva, outras sob o calor. Associo-a à noite, mas, agora reparo, também a encontro, por vezes, ao fim da tarde. Isto passa-se há, pelo menos, dois anos.

Fala ao telefone, sempre e muito. Às vezes parece ser só ela a falar. Entre nós, ao vê-la, dizemos: "Olha! Lá está a miss Telecom!". Deve morar ali perto e, provavelmente, a busca da privacidade obriga-a a procurar a rua para a conversa. Nunca estive muito atento ao que diz, embora ela fale alto. O tom é sempre grave, de discussão, como se houvesse um eterno problema com o interlocutor. Às vezes, há uns fiapos de conversa que, inevitavelmente, não consigo deixar de ouvir: "Eu já te tinha dito que não posso admitir..." ou "as coisas têm de ficar resolvidas, de uma vez por todas..." e coisas do género.

Fico triste com aquilo que parece ser a tristeza persistente daquela jovem mulher, que nunca esboça um esgar sorridente, que dá ares de carregar com ela, nas olheiras, o peso dos problemas do mundo. Será namoro? Deve ser. Mas que diabo tenho eu a ver com a vida dela? Nada, claro. Mas se ela faz parte da paisagem da minha rua, ao seu modo, também faz parte do cenário da minha vida.

2 comentários:

álvaro silva disse...

É a hora de telefonar para o camarada Girómino ou quem o substitui no "cumité central" do partido da marreta e foicinha. Vai uma aposta sr embaixador!

Anónimo disse...

Provavelmente não fala para ninguém... Admitimos que seja um "escape" ou um "tique" como que "para inglês ver"... É que as chamadas do TM são caras! Este é um dos retratos do país em crise. Talvez?