terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O papel de um jornal

Foi anunciado que o diário britânico "The Independent", que tinha uma edição dominical autónoma, "The Independent on Sunday", vai deixar de publicar ambas as edições em papel, ficando reduzido ao "on-line".

O "The Independent" nasceu em 1986 e constituiu uma saudável revolução no meio dos chamados "quality papers" britânicos, desde logo no caráter mais "arejado" do seu grafismo. Um pouco mais à esquerda do que os clássicos "The Daily Telegraph" e "The Times", e de diferente natureza do "The Financial Times", competia, de certo modo, com o espaço político do "The Guardian", embora se distanciasse mais do Partido Trabalhista do que este último, afirmando uma atitude bastante "business-friendly". Nos fins de semana, o "The Independent on Sunday" era também um apreciável jornal, embora, na minha perspetiva pessoal, fosse inferior ao "The Observer", a edição dominical do "The Guardian". E dava-me menos gozo do que o "The Sunday Times", onde alguma irreverência conservadora assegurava grandes textos (não sei como hoje anda).

Quando fui trabalhar para a nossa embaixada em Londres, em 1990, comecei por pedir como jornal diário o "The Independent", que estava então "na moda". Ao final de algumas semanas, dei-me conta de que uma boa parte da "inside information" sobre o governo conservador da senhora Thatcher me escapava, pelo que passei também a ler diariamente o "The Times". Com a as questões europeias a tornarem-se cada vez mais decisivas em Londres (como agora volta a acontecer), passei a mandar vir também o "The Financial Times". Mas, pouco tempo depois, continuando por preconceito a fugir aos tablóides matinais ('The Sun", "Daily Mirror", "Daily Mail", "Today", "News of the World"), converti-me à leitura diária do "The Evening Standard", um (bom) vício do qual nunca me libertei até ao meu último dia em Londres (ainda ontem o li com proveito, agora gratuito). Eram assim quatro os meus jornais diários, para além do americano "The International Herald Tribune" (hoje transformado em "International New York Times", depois de perder as contribuições do "The Washington Post" e do "The Los Angeles Times") e do francês "Le Monde", a que se somavam ainda os semanários "The Economist", "The New Statesman" e o "The Private Eye". Aos domingos, o "vício" era ainda bem maior: comprava o "The Telegraph on Sunday", o "The Independent on Sunday", o "The Observer" e, claro, o "The Sunday Times". Cerca das duas da manhã, saía de casa e ia a uma "loja de conveniência", aberta 24-sobre-24 horas, adquirir todos aqueles quilos de papelada (esses jornais dominicais pesam aí dois quilos cada um), regressando a casa, regalado, para lê-los pela madrugada dentro. Outros tempos, que eram também uma implícita homenagem à melhor imprensa do mundo, a britânica! Qualquer dia, o "on-line" muda tudo e reduz-nos ao iPad.

Quando "morre" um jornal em papel sinto alguma pena, confesso, embora compreenda que não podemos contrariar o destino. E ele vai inexoravelmente no sentido da eliminação do papel, em favor da imagem por via informática. É bom? É mau? Acho que não devemos ter grandes estados de alma. É a vida!

Daqui a pouco, aqui por Londres, vou comprar o "The Independent", quanto mais não seja para verificar se, muito saudavelmente, anuncia o jantar anual da Crabtree Foundation, que aqui me traz.

10 comentários:

José Ferreira da Silva disse...

O Sr Embaixador já foi Presidente da Crabtree Foundation, não é verdade ?

Anónimo disse...

Quem me dera participar nesse jantar. Só que, graças a um vila-realense, dito Passos Coelho, não posso permitir-me o luxo de uma vestimenta condigna. Sou culto, mas sem-abrigo, que perdeu na corrida ao Efisa. Mais pedalada que eu tiveram Relvas e quejandos. O que tinha, ficou-e pelo BES e pelo Banco financiador de clubes da Madeira. Agora, penso ir para o Chiado, para a porta da igreja, pedir, eu, para sobreviver, e Vera Jardim para pagar a conta da campanha de Maria de Belém.Enquanto nos mantemos ambos na função, Manuel Alegre, em tons de rouquidão, declamará dizendo que não demos razão à Belém.Para mal dos nossos pecados, mais uma vez, Águeda inundou.E Jorge Coelho, dadas as inundações, não poderá usar o comboio da Linha da Beira Alta para ir até Contenças e até à feira do queijo de Fornos de Algodres. Para consolo, poderá ir por terra e acomodar-se no Escorropicha, Ana, na Carrapichana, e ver os voos de parapente sobre Linhares da Beira. Com tantas derivas ainda viro gastrónomo, chef ou provador de vinhos (daqueles que falam muito de citrinos, amoras,... Quem me dera tal olfacto!!! A imaginação ao poder. Para me consolar, na Beira, comerei uma chanfana feita de cabra velha (quem manda a confraria de Vila Nova de Poiares apropriar-se da dita chanfana? A cultura gastronómica deles não passaria no exame da 2.ª classe mal feito. Assim se criam os mitos e os ritos! Não vamos longe, não.

Francisco Seixas da Costa disse...

Apenas uma nota de atualidade para o elaborado Anónimo das 17.04: o "Escorropicha Ana", na Carrapichana, entre Trancoso e Gouveia, já fechou há uns tempos. Há uns meses, recorri ao "Júlio", em Gouveia, onde me serviram o sempre recomendável "arroz de carqueija"

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Ferreira da Silva. De facto, no ano de 2012, tive a subida honra de presidir à organização e, nessa qualidade, orientar a liturgia do banquete que teve lugar, como é hábito, no Great Crabtree Hall, no University College de Londres, na Gower Street. Amanhã lá estarei, nesse glorioso jantar de gala, agora na modesta qualidade de "schollar", que sou desde 1992.

Anónimo disse...

Tambedm eu me sinto enlutada com a anunciada desaparicao do "The Independent" das bancas dos jornais. Quando cheguei a Londres lia "The Guardian" e quando apareceu "The Independent" comentava arrogantemente:com tal nome nao pode ser independente. Experimentei, gostei e passei a ler diariamente. Ha dois dias,enquanto trabalhava, alguem me disse: "A ler "The Independent"? Aproveite enquanto e tempo que em Marco so on line. Com esse telemovel nao chega la". Julguei que era gozo e lesta retorqui: "Pois, pois, no meu telemovel nao leio on line mas faco chamadas". Ontem de manha preocupada e com duvidas perguntei na loja de jornais: "E boato que "The Independent" vai so ficar on line?" "Don't worry dear there is not a definitive date yet but I will deliver another paper". La vou voltar ao "The Guardian", retorno as raizes!!!


Enjoy the Great Crabtree Hall tomorrow.

Abraco

F. Crabtree

Ana Vasconcelos disse...

O Independent continua o journal refrescante, que ao longo da sua história tem tomado posições editoriais corajosas contra o establishment (recorde-se a posição contra a invasão do Iraque, a campanha a favor da reforma eleitoral, entre outras). Hoje em dia, por motivos vários, tendo a ler jornais em linha, mas no passado a minha combinação preferida era o Independent durante a semana, o Telegraph ao sábado e o Sunday Times ao domingo (os dois últimos pelo estilo editorial, mais do que pela ideologia, mas sempre um prazer). Boas leituras e dias felizes em Londres.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quando vivi em Inglaterra o Independent ainda não existia mas, posteriormente, ainda tive oportunidade de o ler algumas vezes. Durante muito tempo fui leitor fiel do The Guardian. Progressivamente fui abandonando o hábito diário de ler jornais estrangeiros e, hoje em dia, só os leio on line. Como acontece em Portugal, aliás. Não creio, porém, que a culpa seja da Internet, mas sim da pouca qualidade e do enfeudamento do jornalismo actual a interesses económicos e empresariais.

Anónimo disse...

Senhor Anónimo das 17.04,
Temos especialista em chanfana? Na verdade, não tem muito que saber; não é exatamente cozinha francesa. Eu nem sequer sou de Poiares, sou ali do lado, de Miranda do Corvo, que também reinvidica a maternidade da coisa, mas, já agora, quer concretizar as falhas que aponta à chanfanada de Poiares? Ou quis só fazer figura com a sua prosa encaracolada?

A. Sousa

arber disse...

Francamente, Sr. Embaixador!
Para quê tanto esforço a procurar no mapa a Carrapichana e situá-la entre duas cidades tão distantes, Trancoso e Gouveia?
Porquê não indicar apenas "Carrapichana, perto de Linhares, em Celorico da Beira"?!

Francisco Seixas da Costa disse...

Fique o Arber a saber que eu vinha de Espanha na A25, saí dela creio que perto de Trancoso e, com surpresa, dei com o Escorropicha Ana fechado. Fui adiante almoçar a Gouveia. Eu não faço parapente, por isso não paro em Linhares, pelo menos antes de por lá abrir a muito anunciada Pousada.